{"id":175767,"date":"2020-05-22T07:01:53","date_gmt":"2020-05-22T06:01:53","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=175767"},"modified":"2020-05-21T14:56:22","modified_gmt":"2020-05-21T13:56:22","slug":"temos-de-aprender-a-habitar-a-terra-de-outra-maneira-viriato-soromenho-marques","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/temos-de-aprender-a-habitar-a-terra-de-outra-maneira-viriato-soromenho-marques\/","title":{"rendered":"\u00abTemos de aprender a habitar a terra de outra maneira\u00bb &#8211; Viriato Soromenho Marques"},"content":{"rendered":"<p><em>Em pleno processo de desconfinamento, a Igreja e a sociedade revisitam os ensinamentos, propostas e alertas que o Papa Francisco nos ofereceu na Enc\u00edclica \u2018Laudato si\u2019.<\/em><!--more--><\/p>\n<p>H\u00e1 cinco anos, o fil\u00f3sofo e ambientalista Viriato Soromenho Marques, dizia que &#8220;era o documento que faltava para a Igreja ocupar o seu espa\u00e7o-tempo na contemporaneidade de forma mais interveniente e efetiva&#8221;. Esta semana<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ag\u00eancia Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/viriato_soromenho_marques1575b411_base.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-175690\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/viriato_soromenho_marques1575b411_base-400x224.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"224\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/viriato_soromenho_marques1575b411_base-400x224.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/viriato_soromenho_marques1575b411_base-768x431.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/viriato_soromenho_marques1575b411_base-480x269.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/viriato_soromenho_marques1575b411_base.jpg 840w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><em>Come\u00e7o por lhe perguntar se, do seu ponto de vista, j\u00e1 se notam alguns efeitos dos ensinamentos da Enc\u00edclica do Papa Francisco?<\/em><\/p>\n<p>As ideias demoram um tempo que \u00e9 muito dif\u00edcil de avaliar em termos dos seus impactos, mas se considerarmos os documentos que nos aparecem \u2013 seja na literatura cient\u00edfica, seja na literatura jornal\u00edstica -, penso que a enc\u00edclica \u2018Laudato Si\u2019 se carateriza por um impacto crescente que se deve, n\u00e3o apenas \u00e0 solidez das teses que foram apresentadas, mas tamb\u00e9m ao facto de que existe uma linha de coer\u00eancia ao longo destes cinco anos.<\/p>\n<p>Muitas vezes, em documentos semelhantes, n\u00e3o apenas da Igreja Cat\u00f3lica, verificamos que existe um pico de interesse por um tema e depois existe um abandono, um esquecimento do tema. Neste caso, n\u00e3o, em todo o pontificado, na a\u00e7\u00e3o do Papa, onde quer que ele v\u00e1, a mensagem da \u2018Laudato Si\u2019 surge como central.<\/p>\n<p>O Papa n\u00e3o diz que foi ele que descobriu o tema\u2026 Fala em Jo\u00e3o XXIII, Paulo VI, Jo\u00e3o Paulo II, Bento XVI, que tamb\u00e9m escreveram, mas nada de compar\u00e1vel \u00e0 \u2018Laudato Si\u2019. Eles n\u00e3o foram insens\u00edveis ao que estava a acontecer, mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a fundamental: o Papa para construir a enc\u00edclica, consultou muitas pessoas, cientistas de muitos ramos, e levou para o texto o percurso de uma vida riqu\u00edssima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esta vis\u00e3o ficou consagrada na \u2018Laudato Si\u2019, publicada antes da Cimeira de Paris. O mundo n\u00e3o parou por causa das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, mas parou por causa da crise sanit\u00e1ria e pand\u00e9mica, que teve o efeito positivo de fazer baixar significativamente os n\u00edveis de polui\u00e7\u00e3o. Podemos acreditar que se poder\u00e1 manter no p\u00f3s-confinamento ou vamos perder tudo assim que as pessoas possam voltar a fazer a sua vida de sempre?<\/em><\/p>\n<p>Estamos num momento em que essa pergunta faz todo o sentido e em que qualquer resposta deve ser capaz de fazer um exerc\u00edcio de separa\u00e7\u00e3o entre o desej\u00e1vel e o que ser\u00e1 poss\u00edvel, realisticamente. Como deve calcular, est\u00e1 a falar com algu\u00e9m que gostaria de responder que n\u00f3s, como indiv\u00edduos, como coletivos, da fam\u00edlia aos governos do mundo, seremos capazes de retirar uma li\u00e7\u00e3o de humildade e, ao mesmo tempo de for\u00e7a, do que est\u00e1 a acontecer.<\/p>\n<p>Humildade, porque estamos a falar de um v\u00edrus, que nem \u00e9 um organismo vivo \u2013 tem impacto sobre a vida org\u00e2nica, mas n\u00e3o \u00e9 um organismo vivo \u2013 ou seja, \u00e9 uma criatura de uma humildade extrema e que foi capaz de parar, de facto, o motor econ\u00f3mico do mundo e obrigar-nos a ficar confinados, onde fosse poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Temos de reconhecer, tamb\u00e9m, ao contr\u00e1rio do que muitas pessoas t\u00eam dito, n\u00e3o foi uma esp\u00e9cie de surpresa. Os epidemiologistas h\u00e1 muitas anos que chamavam a aten\u00e7\u00e3o para que, nos \u00faltimos 30, 40 anos, 75% das novas doen\u00e7as serem resultantes do mesmo processo que nos levou a esta, zoonose, um processo de transmiss\u00e3o de um v\u00edrus que vive num organismo animal para o nosso ecossistema biol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que se faz esta transmiss\u00e3o? N\u00e3o \u00e9 por acaso. \u00c9 devido \u00e0 forma intrusiva como a nossa esp\u00e9cie est\u00e1 a atuar sobre a biodiversidade. N\u00f3s estamos a destruir os habitats, as florestas, as zonas onde vivem esp\u00e9cies cada vez mais perseguidas, em perigo.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Desse ponto de vista, a \u2018Laudato si\u2019 pode ser um interessante roteiro para ajudar no processo de desconfinamento?<\/em><\/p>\n<p>Eu julgo que sim. \u00c9 uma li\u00e7\u00e3o de sabedoria, as ideias que encontramos vertidas nesta enc\u00edclica ajudam-nos a uma coisa muito importante: construir uma interpreta\u00e7\u00e3o do que nos est\u00e1 a acontecer.<\/p>\n<p>Sabemos que a pior trag\u00e9dia \u00e9 estarmos mergulhados numa situa\u00e7\u00e3o para a qual n\u00e3o temos uma compreens\u00e3o ou para a qual temos um errado entendimento.<\/p>\n<p>Esta pandemia resulta do facto de n\u00e3o termos respeitado o espa\u00e7o existencial de outras esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A minha pergunta \u00e9: o que est\u00e1 a faltar para tirar as li\u00e7\u00f5es devidas, deste aviso, at\u00e9 em termos de sustentabilidade e de mudan\u00e7a de estilo de vida?<\/em><\/p>\n<p>Eu penso que, como seres humanos, como indiv\u00edduos e at\u00e9 como cidad\u00e3os, somos sens\u00edveis \u2013 a partir do momento em que tenhamos a informa\u00e7\u00e3o. Uma maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem conhecimento t\u00e3o detalhado destas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>Precisamos de ter um conhecimento aberto, hol\u00edstico, perceber a rela\u00e7\u00e3o que isto tem com a crise do ambiente. No fundo, o que est\u00e1 mal aqui \u00e9 a forma como n\u00f3s estamos a habitar a terra. N\u00f3s estamos a habitar a terra como se ela nos pertencesse. Mais, n\u00f3s habitamos a terra como n\u00e3o habitamos as nossas casas: que eu saiba, nas nossas casas, n\u00e3o partimos as portas, destru\u00edmos a mob\u00edlia, deixamos os res\u00edduos ficar nos s\u00edtios onde dormimos ou onde comemos. E n\u00f3s estamos a fazer isso, na terra, exatamente.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 o da organiza\u00e7\u00e3o coletiva, da governa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um dos temas centrais da \u2018Laudato Si\u2019. Como \u00e9 que n\u00f3s vamos governar esta casa comum.<\/p>\n<p>O nosso confinamento \u00e9 uma forma de a\u00e7\u00e3o. Muitas vezes a forma mais inteligente de agir \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o interior, que aparentemente \u00e9 passiva. N\u00f3s baixamos a press\u00e3o sobre o mundo, sobre a terra, sobre os ecossistemas e a resposta foi a diminui\u00e7\u00e3o da emiss\u00e3o de gases de efeito estufa, uma primavera mais vis\u00edvel para todos n\u00f3s, com a manifesta\u00e7\u00e3o da vida natural com uma exuber\u00e2ncia que n\u00e3o est\u00e1vamos habituados a ter.<\/p>\n<p>H\u00e1 outro aspeto de que nos esquecemos: contabilizamos as baixas da Covid-19, mas n\u00e3o contabilizamos as vidas que se pouparam: as pessoas que n\u00e3o morreram de doen\u00e7as pulmonares, em acidentes automobil\u00edsticos, outro tipo de situa\u00e7\u00f5es, que foram travadas nesta fase.<\/p>\n<p>Evidentemente, n\u00e3o podemos estar confinados toda a vida. Temos de aprender a habitar a terra de uma outra maneira, o que significa que temos de fazer um esfor\u00e7o, j\u00e1 indicado na \u2018Laudato Si\u2019, de termos uma economia completamente diferente.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um tema que se prende com o que est\u00e1 dito na enc\u00edclica e com toda a a\u00e7\u00e3o do Papa Francisco, uma a\u00e7\u00e3o que, pela sua coragem, pela sua lealdade com a humanidade, n\u00e3o apenas com os cat\u00f3licos, acaba por gerar muitos anticorpos dentro da pr\u00f3pria Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>Dizer que esta economia mata n\u00e3o \u00e9 um insulto, \u00e9 uma simples fotografia de uma economia que transforma complexidade em simplifica\u00e7\u00e3o; que transforma uma atmosfera saud\u00e1vel numa atmosfera que est\u00e1 a alterar o clima; que substitui a plenitude da diversidade biol\u00f3gica por paisagens completamente uniformes; que destr\u00f3i a diversidade das florestas por monoculturas de produ\u00e7\u00e3o, que depois provocam inc\u00eandios. E que, depois, no fundo, leva tantos milh\u00f5es de seres humanos a viver na pobreza e no lixo.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/375850.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-175692 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/375850-346x260.jpg\" alt=\"\" width=\"346\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/375850-346x260.jpg 346w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/375850-510x382.jpg 510w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/375850-480x361.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/375850.jpg 760w\" sizes=\"(max-width: 346px) 100vw, 346px\" \/><\/a>Tive a experi\u00eancia, em pa\u00edses africanos, de passar pelos arredores das grandes capitais, ver as pessoas conviver com os res\u00edduos, o lixo, as crian\u00e7as a brincar no meio dos detritos. A mortalidade infantil \u00e9 incr\u00edvel, por isso. Dizer que esta economia mata \u00e9 um dado objetivo, porque se n\u00e3o mudarmos a forma como organizamos a nossa economia &#8211; se continuarmos a ter uma economia que se baseia no transporte de carbono que est\u00e1 na litosfera e que, depois, atrav\u00e9s do consumo do carv\u00e3o, do petr\u00f3leo, do g\u00e1s natural, vai para a atmosfera, alterando os mecanismos clim\u00e1ticos, complexos e subtis -, estaremos a passar de uma pandemia, que \u00e9 grave, para umas situa\u00e7\u00e3o de calamidade e cat\u00e1strofe clim\u00e1tica, que ser\u00e1 muito pior. Estamos a falar de mudan\u00e7as que v\u00e3o determinar os pr\u00f3ximos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A necessidade de boas pr\u00e1ticas sanit\u00e1rias pode levar a alguns exageros, nomeadamente o regresso \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o em massa de descart\u00e1veis e de pl\u00e1sticos? <\/em><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um aspeto extremamente importante. Ningu\u00e9m sabe como \u00e9 que o futuro vai evoluir\u2026 Penso que h\u00e1 aqui uma hiperrea\u00e7\u00e3o a esse n\u00edvel que tamb\u00e9m pode ser corrigida pela capacidade comunicacional.<\/p>\n<p>No nosso pa\u00eds verificamos a capacidade de as pessoas, em geral, escutarem as mensagens e agirem em conformidade. A partir do momento em que exista uma atmosfera de comunica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 racional, pedag\u00f3gica, as pessoas agem em conformidade, porque o que est\u00e1 aqui em causa \u00e9 o interesse de todos e de cada um. Tamb\u00e9m ser\u00e1 do interesse de todos e de cada uma que a sa\u00edda da pandemia seja uma sa\u00edda que incentive a resposta \u00e0 crise ambiental e clim\u00e1tica, com a qual j\u00e1 est\u00e1vamos comprometidos. Falamos no acordo de Paris, em 2015, um compromisso ainda muito fr\u00e1gil, mas para o qual a pr\u00f3pria \u2018Laudato Si\u2019 teve um papel crucial. Agora temos de aumentar esses compromissos e torn\u00e1-los mais concretos.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em causa \u00e9, no fundo, a pr\u00f3pria imagem de n\u00f3s mesmos como seres humanos. Ou seja, ser\u00e1 que n\u00f3s estamos condenados a ter de optar entre sobreviver, no dia a dia, \u00e0 custa da injusti\u00e7a sobre o futuro e sobre as gera\u00e7\u00f5es futuras? Ou ser\u00e1 que nos temos a capacidade de reinventar a forma como fazemos a nossa economia, como habitamos o nosso planeta?<\/p>\n<p>Olhando para o mundo, para a quantidade de pessoas em todo o mundo que amam os seus filhos, que amam os seus netos, que percebem o que est\u00e1 a acontecer desde h\u00e1 d\u00e9cadas, com uma economia global a entrar numa situa\u00e7\u00e3o de \u2018U\u2019 invertido, ou seja, tivemos gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es que foram educadas no mito do progresso, na ideia de que cada gera\u00e7\u00e3o viveria melhor, mas depois daquele planalto, as gera\u00e7\u00f5es dos anos 90, se compararmos o rendimento, as oportunidades de trabalho, a seguran\u00e7a no emprego, nos pa\u00edses desenvolvidos\u2026 N\u00e3o t\u00eam compara\u00e7\u00e3o, s\u00e3o muito inferiores aos da minha gera\u00e7\u00e3o, que sou um homem do final dos anos 50. Os meus colegas de universidade, mais novos, t\u00eam uma imensa dificuldade em conseguirem contratos de trabalho mais defendidos, contratos com mais direitos. E aqueles jovens que t\u00eam a idade de Greta Thunberg, que j\u00e1 \u00e9 uma menina do terceiro mil\u00e9nio, a situa\u00e7\u00e3o tender\u00e1 a ser ainda mais grave.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que n\u00f3s n\u00e3o temos a capacidade de olhar com coragem para este desafio e dizer: ent\u00e3o, uma civiliza\u00e7\u00e3o que tem tanto conhecimento, tanta gente capacitada, uma economia com empresas capazes de responder a est\u00edmulos \u2013 veja-se em Portugal, como \u00e9 que perante os desafios da pandemia, as empresas, algumas delas sem iniciativa ou apoio do governo, avan\u00e7aram, fazendo m\u00e1scaras, construindo ventiladores -, ser\u00e1 que n\u00f3s n\u00e3o compreendemos que esta \u00e9 uma guerra pelo futuro? \u00c9 uma guerra pelos nossos filhos e os nossos netos. Ser\u00e1 que \u00e9 mais importante alimentarmos uma elite de super ricos, que tem uma vida numa riqueza absolutamente \u2013 n\u00e3o encontro outra palavra \u2013 pornogr\u00e1fica, obscena?<\/p>\n<p>As pessoas que t\u00eam avi\u00f5es particulares, que se deslocam como se fossem uma esp\u00e9cie de semideuses, tomam o pequeno-almo\u00e7o num pa\u00eds e seguem para outro, ainda por cima atrevendo-se, muitas vezes, a aparecer como representantes de causas nobres e justas. Ser\u00e1 que n\u00e3o temos capacidade moral dentro de n\u00f3s, capacidade \u00e9tica para dizer basta?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A \u2018Laudato Si\u2019 \u00e9 uma enc\u00edclica social, na tradi\u00e7\u00e3o da Doutrina Social, e profundamente teol\u00f3gico, sublinhando a dimens\u00e3o da sobriedade, da mudan\u00e7a de estilo de vida. H\u00e1 pessoas a quem \u00e9 imposta uma condi\u00e7\u00e3o, da qual dificilmente conseguem sair, mas h\u00e1 outras que t\u00eam a op\u00e7\u00e3o de assumir estilos de vida diferentes. O que \u00e9 que falta para dar esse passo, para que seja interiorizada a ideia de que \u00e9 poss\u00edvel um futuro diferente?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. N\u00f3s estamos numa transi\u00e7\u00e3o, claramente. A pandemia criou um quadro de transi\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 que isto significa? Que estruturas, regras, normas, sistemas de Governo que eram muito s\u00f3lidos ontem, est\u00e3o muito periclitantes, neste momento. Veja-se o nosso caso: n\u00e3o sabemos para onde \u00e9 que vai a Uni\u00e3o Europeia. E, como sabemos, o futuro de Portugal, como o dos alem\u00e3es ou dos holandeses, est\u00e1 muito\u2026 totalmente dependente da forma como nos vamos governar. Temos sinais contradit\u00f3rios: sinais que apontam no sentido da fragmenta\u00e7\u00e3o, outros sinais que apontam no sentido da solidariedade.<\/p>\n<p>Neste momento, cada indiv\u00edduo tem uma responsabilidade especial. Penso que, no balan\u00e7o geral, aquilo que produz mudan\u00e7as que s\u00e3o estruturais, com resultados permanentes, s\u00e3o as mudan\u00e7as que passam pelas institui\u00e7\u00f5es, pelas leis e pelas normas. Aten\u00e7\u00e3o: quem as faz s\u00e3o as pessoas. Agora que est\u00e1 tudo preso por arames, em que estamos entre o ser e n\u00e3o ser, \u00e9 que \u00e9 necess\u00e1rio que cada um de n\u00f3s n\u00e3o saia do campo do combate que \u00e9 preciso travar. Cada um de n\u00f3s, com as poucas for\u00e7as que tenha, deve ser capaz de ajudar, a criar os consensos e o di\u00e1logo de que precisamos, as decis\u00f5es operativas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para terminarmos: o Vaticano inicia no pr\u00f3ximo domingo um ano especial dedicado \u00e0 enc\u00edclica &#8220;Laudato si&#8221;, para propor compromissos com vista a uma sustentabilidade total em sete anos. \u00c9 uma proposta arrojada? Ser\u00e1 alcan\u00e7\u00e1vel?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel almejar o imposs\u00edvel. Diria que a crise ambiental \u2013 na medida em que, durante tantos anos, os alertas n\u00e3o foram escutados \u2013 acabou, quem tinha poder para isso, por colocar a agenda pol\u00edtica ou da sua grande empresa \u00e0 frente do interesse mundial e do interesse humano, do futuro.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma diferen\u00e7a fundamental &#8211; e essa \u00e9, certamente, a inten\u00e7\u00e3o do Vaticano e a inten\u00e7\u00e3o do Papa \u2013 entre adaptarmo-nos a danos que s\u00e3o, neste momento, j\u00e1 imposs\u00edveis de evitar, mas faz\u00ea-lo ativamente, para evitar danos maiores, esses sim irrevers\u00edveis e inger\u00edveis. Nesse aspeto, podemos fazer uma analogia entre a pandemia e a crise ambiental e clim\u00e1tica: temos de reconhecer, na Europa, que todos chegamos tarde, mas temos pa\u00edses que foram capazes de antecipar, para evitar remediar. Porque o custo da remedia\u00e7\u00e3o \u00e9 um custo muit\u00edssimo elevado, como estamos a ver nos EUA, no Brasil, em que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o n\u00famero de v\u00edtimas, \u00e9 a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o do Estado funcional, um Estado que respeita os seus cidad\u00e3os, que os defende, que est\u00e1 em causa. Quando os hospitais fecham, como est\u00e1 a acontecer no Brasil porque j\u00e1 n\u00e3o conseguem dar resposta, \u00e9 a cren\u00e7a numa sociedade civilizada que est\u00e1 em causa. Vamos aprender com esta situa\u00e7\u00e3o e vamos mobilizar as nossas energias para fazer \u2013 a\u00ed \u00e9 que podemos fazer a guerra \u2013 uma longa guerra pela vida, uma longa guerra pelo melhor de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Na verdade, o que \u00e9 mais dif\u00edcil \u2013 e isto \u00e9 um desafio moral -, porque exige uma grande autoconsci\u00eancia, n\u00e3o s\u00e3o as guerras contra os outros, s\u00e3o as guerras que travamos dentro de n\u00f3s pr\u00f3prios: entre o melhor de n\u00f3s, que muitas vezes vive esmagado, a melhor voz de n\u00f3s e a pior voz de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Neste momento, coletivamente, temos a pior voz de n\u00f3s, que est\u00e1 a bloquear o futuro. Temos de deixar que a nossa melhor voz seja poderosa, tenha m\u00fasculo suficiente para travar esta guerra que vai demorar muitos anos e da qual s\u00f3 podemos sair vitoriosos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em pleno processo de desconfinamento, a Igreja e a sociedade revisitam os ensinamentos, propostas e alertas que o Papa Francisco nos ofereceu na Enc\u00edclica \u2018Laudato si\u2019.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":175692,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[414,191,195],"class_list":["post-175767","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-ecologia","tag-economia","tag-enciclica-laudato-si"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/175767","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=175767"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/175767\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/175692"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=175767"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=175767"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=175767"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}