{"id":17504,"date":"2006-04-16T13:01:37","date_gmt":"2006-04-16T13:01:37","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/16\/escuridao-do-pecado-e-luz-da-misericordia\/"},"modified":"2006-04-16T13:01:37","modified_gmt":"2006-04-16T13:01:37","slug":"escuridao-do-pecado-e-luz-da-misericordia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/escuridao-do-pecado-e-luz-da-misericordia\/","title":{"rendered":"Escurid\u00e3o do pecado e luz da Miseric\u00f3rdia"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal James Francis Stafford na Ter\u00e7a-Feira Santa <!--more--> Caros irm\u00e3os e irm\u00e3s em Cristo, hoje a Igreja exorta-nos a cumprir duas ac\u00e7\u00f5es antes da confiss\u00e3o.  <i>Primeira ac\u00e7\u00e3o<\/i> A Igreja pede-nos que rezemos pelo perd\u00e3o. O penitente invoca a miseric\u00f3rdia de Jesus que \u201cse humilhou a si mesmo, fazendo-se obediente at\u00e9 \u00e0 morte e morte de cruz\u201d (Fil 2, 8). \u00c9, contudo, indiscut\u00edvel que hoje h\u00e1 muitas pessoas que pensam que o perd\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil. H\u00e1 alguns anos, encontrei-me com alguns jovens americanos que n\u00e3o acreditavam na possibilidade do perd\u00e3o. Afirmavam: \u201c\u00c9 imposs\u00edvel perdoar aquilo que aconteceu. Como se podem anular os acontecimentos passados? Ningu\u00e9m pode competir com a for\u00e7a obstinada do passado\u201d. Por outro lado, insistiam sobre o facto de certas ac\u00e7\u00f5es humanas serem t\u00e3o malvadas, como por exemplo a viol\u00eancia contra crian\u00e7as ou os assassinatos em massa de inocentes, que n\u00e3o podem esquecer e que, se lembradas, n\u00e3o se podem perdoar. Esses jovens achavam que o perd\u00e3o era imposs\u00edvel. Defendiam, ainda, a exist\u00eancia de uma pergunta absolutamente sem resposta: \u201cQuem deve perdoar? As v\u00edtimas inumer\u00e1veis n\u00e3o, de certeza. Por causa da capacidade contagiosa do mal, as v\u00edtimas dum pecado s\u00e3o t\u00e3o numerosas que \u00e9 imposs\u00edvel individua-las todas. Do mesmo modo, parece imposs\u00edvel identificar uma for\u00e7a, seja divina ou humana, capaz de oferecer um perd\u00e3o completo\u201d.  A Semana Santa, por si s\u00f3, responde \u00e0s suas objec\u00e7\u00f5es, \u00e0 possibilidade de perdoar. Deus incarnado tornou-se a nossa v\u00edtimas soberana e eterno sacerdote. No Evangelho de hoje, Jesus afirmou: \u201cO Filho do homem&#8230; veio.. para dar a pr\u00f3prio vida em resgate por muitos\u201d (Mc 10, 45). No Filho crucificado pelo homem, o Pai celeste desvenda o mist\u00e9rio do seu amor. S\u00f3 Jesus foi enviado como v\u00edtima para tomar sobre si o ju\u00edzo destinado a todos os pecados humanos, passados, presentes e futuros.  Unidos aos 24 anci\u00e3os no santu\u00e1rio celeste, entoemos um novo canto ao Cordeito redentor: \u201cTu \u00e9s digno de receber o livro e de abrir os selos; porque foste morto e, com teu sangue, resgataste para Deus, homens de todas as tribos, l\u00ednguas, povos e na\u00e7\u00f5es\u201d (Ap 5, 9). A morte de Jesus faz reviver o passado. Jovens e idosos reconhecem na paix\u00e3o de Cristo todos os pecados da humanidade e o perd\u00e3o de Deus. O Ap\u00f3stolo Pedro lembra, de modo essencial, aquilo a que assistiu em l\u00e1grimas: \u201csubindo ao madeiro, Ele levou os nossos pecados no seu corpo\u201d (1 Pe 2, 24). O Esp\u00edrito Santo reuniu-nos em volta do martyrium de S\u00e3o Pedro em Roma. A tradi\u00e7\u00e3o segundo a qual a cidade \u00e9 a alma escrita em mai\u00fascula \u00e9 v\u00e1lida para a Roma antiga. Esta cidade, de facto, \u00e9 a alma crist\u00e3 escrita em mai\u00fasculas.  As virtudes intelectuais, morais e teol\u00f3gicas dos romanos s\u00e3o particularmente evidentes numa aproxima\u00e7\u00e3o ao martyrium  de S\u00e3o Pedro, para l\u00e1 da Ponte Sant\u2019Angelo. Oito anjos esculpidos encontram-se na antiga ponte e cada um traz um s\u00edmbolo da paix\u00e3o de Cristo. Os peregrinos que chegam a Roma contemplam os anjos que choram sobre estes s\u00edmbolos. Inspirando-se para a cena na primeira semana dos Exerc\u00edcios Espirituais de Santo In\u00e1cio de Loyola, Bernini imaginou que atravessando a ponte sobre o Tibre, os peregrinos poderiam ser conduzidos para a compun\u00e7\u00e3o, para o despertar da consci\u00eancia. S\u00f3 ent\u00e3o estariam prontos para empreender o passo sucessivo e crucial dos Exerc\u00edcios Espirituais, a Confiss\u00e3o Geral. O pedestal do quarto anjo tem uma inscri\u00e7\u00e3o surpreendente: \u201cRegnavit Deus  a legno\u201d. Tais palavras, \u201co Senhor reina\u201d, aparecem no Salmo 95, 10. O acrescento de \u201ca legno\u201d \u00e9 uma primeira glosa. O mist\u00e9rio de Deus que reina desde o madeiro como sacerdote e v\u00edtima \u00e9 recordado esta semana. Muitos penitentes s\u00e3o v\u00edtimas de ac\u00e7\u00f5es injustas por parte de outros, pelos quais nutrem um sentimento de raiva. Contudo, no final, as v\u00edtimas devem redescobrir que s\u00f3 Jesus \u00e9 \u201cv\u00edtima de expia\u00e7\u00e3o pelos nossos pecados\u201d (1 Jo 4, 10). Em nome de todas as v\u00edtimas, Jesus \u201ccom uma s\u00f3 obla\u00e7\u00e3o, tornou perfeitos para sempre os que s\u00e3o santificados\u201d (Heb 10, 14). O homem divino sem pecado \u201csubstitui-se\u201d aos pecadores, vencendo de tal modo a irreversibilidade do tempo. Todas as pessoas s\u00e3o, portanto, livres, resgatadas e purificadas, libertadas da culpa e do pecado. E Deus \u00e9 fiel \u00e0 sua promessa: \u201ce n\u00e3o mais me recordarei dos seus pecados nem das suas iniquidades\u201d (Heb 10, 17).  <i>Segunda ac\u00e7\u00e3o<\/i> Ao exortar a um exame de consci\u00eancia, a Igreja sugere como aux\u00edlio o Serm\u00e3o da Montanha. As palavras de Jesus s\u00e3o um texto representativo da nova lei. A cruz \u00e9 a imagem que reflecte o Serm\u00e3o, como um espelho. A escurid\u00e3o do pecado n\u00e3o poder\u00e1 nunca suprimir a luz da miseric\u00f3rdia divina. Os penitentes deixam a escurid\u00e3o do pecado para tr\u00e1s gra\u00e7as a uma confiss\u00e3o sincera dos pecados. Para que aprofundeis a vossa compun\u00e7\u00e3o, proponho-vos o seguinte exame:   Abandonei o orgulho, a inveja e a ambi\u00e7\u00e3o, seguindo o caminho de humildade de Jesus? A escolha entre o orgulho e a humildade tornou-se concreta na minha atitude perante as Escrituras? Sou d\u00f3cil e aberto \u00e0 Palavra de Deus? Estou pronto a deixar-me julgar por ela em vez de julg\u00e1-la? Passo uma quantidade de tempo desproporcionada a ler jornais e quotidianos, vendo televis\u00e3o e utilizando a Internet em compara\u00e7\u00e3o com o tempo que invisto na medita\u00e7\u00e3o e na leitura das Sagradas Escrituras?  Fui pobre de esp\u00edrito e, portanto, incapaz de santificar o nome de Deus entre os homens. Pus a minha felicidade na posse de bens exteriores? Encorajei os que estavam na d\u00favida ou no erro a seguir aquilo que \u00e9 verdadeiro e bom?  N\u00e3o tive a humildade de invocar a vinda do Reino de Deus e n\u00e3o resistir-lhe?  Faltaram-me as l\u00e1grimas para condoer-me perante a consci\u00eancia de que a vontade de Deus sobre a terra deve ser realizada no meio do conflito entre corpo e esp\u00edrito, entre c\u00e9u e terra, porque sou constrangido a dizer: \u201cvejo uma outra lei nos meus membros, preocupo-me com aquela que est\u00e1 na minha mente?\u201d  N\u00e3o tive fome e sede de justi\u00e7a de modo que, eu pr\u00f3prio e outros, em particular os mais pobres, n\u00e3o recebemos o sustento do p\u00e3o quotidiano?  N\u00e3o fui misericordioso ao ponto de perdoar as ofensas dos outros?  N\u00e3o fui puro de cora\u00e7\u00e3o e cai, portanto, na tenta\u00e7\u00e3o que cria uma duplicidade no cora\u00e7\u00e3o? Procurei satisfa\u00e7\u00e3o afectiva com actos ou pensamentos in\u00edquos comigo mesmo ou com outros, perdendo assim a simplicidade dum cora\u00e7\u00e3o centrado s\u00f3 em Deus?  N\u00e3o tive vontade de levar a paz com a qual os outros me chamaram filho de Deus?  Recebi as coisas boas da munific\u00eancia de Deus com profundo sentimento de gratid\u00e3o e aceitei com paci\u00eancia os males que me chegaram?  N\u00e3o pratiquei a justi\u00e7a que regula as minhas rela\u00e7\u00f5es com os outros e tem como finalidade a instaura\u00e7\u00e3o da paz?  No meu trabalho e no cumprimento das minhas responsabilidades civis e pol\u00edticas, reconheci que a perfei\u00e7\u00e3o de todas as bem-aventuran\u00e7as reside na aceita\u00e7\u00e3o da persegui\u00e7\u00e3o por causa do bem do Reino de Deus?  Segui os preceitos da nova justi\u00e7a de Jesus, mencionadas ap\u00f3s as bem-aventuran\u00e7as, ou seja o preceito do jejum, da ora\u00e7\u00e3o e do perd\u00e3o?  Reunidos em volta do t\u00famulo do Ap\u00f3stolo Pedro, recordamos o motivo pelo qual Pedro arrependido e em l\u00e1grimas decidiu obedecer ao mandamento de Jesus: foi o seu amor por ele. Tamb\u00e9m os penitentes devem esfor\u00e7ar-se por observar os mandamentos s\u00f3 por amor. A revela\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o trespassado de Jesus \u00e9 suficiente. Para S\u00e3o Paulo, n\u00e3o foi necess\u00e1rio nada mais. Escreve: \u201cA vida que agora tenho na carne, vivo-a na f\u00e9 do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim\u201d (Gal 2, 20). Nada \u00e9 necess\u00e1rio a n\u00e3o ser o amor de Jesus. Tudo o resto \u00e9 consequente. O Esp\u00edrito Santo est\u00e1 sobre a C\u00e1tedra de Pedro. Repetimos hoje, aqui, o que aconteceu \u00e0 Igreja reunida no Cen\u00e1culo, na primeira P\u00e1scoa. Os penitentes s\u00e3o chamados por esse mesmo Esp\u00edrito a observar os mandamentos por amor, com o cora\u00e7\u00e3o disposto ao perd\u00e3o, para que possam tamb\u00e9m ser libertados \u201cda escravid\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o, para alcan\u00e7ar a liberdade na gl\u00f3ria dos filhos de Deus\u201d (Rm 8, 21).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal James Francis Stafford na Ter\u00e7a-Feira Santa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[154,275,308],"class_list":["post-17504","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-crianca","tag-pascoa","tag-semana-santa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17504","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17504"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17504\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17504"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17504"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17504"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}