{"id":17491,"date":"2006-04-15T10:28:12","date_gmt":"2006-04-15T10:28:12","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/15\/virar-se-para-o-amor-contra-as-sombras-da-familia\/"},"modified":"2006-04-15T10:28:12","modified_gmt":"2006-04-15T10:28:12","slug":"virar-se-para-o-amor-contra-as-sombras-da-familia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/virar-se-para-o-amor-contra-as-sombras-da-familia\/","title":{"rendered":"\u201cVirar-se\u201d para o amor, contra as sombras da fam\u00edlia"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do Arcebispo de Braga na Celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor <!--more--> Durante o tempo quaresmal quisemos caminhar com o Santo Padre \u201cprolongando\u201d a compaix\u00e3o de Cristo pelas \u201cmultid\u00f5es\u201d. \u201cJesus ao ver as multid\u00f5es, encheu-se de compaix\u00e3o por elas\u201d (Mt. 9, 36). Se compaix\u00e3o significa \u201cpadecer com\u201d, este momento conduz-nos mais al\u00e9m e leva-nos a consciencializar-nos que Ele padeceu (a morte) por n\u00f3s. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia de simultaneidade. Agora \u00e9 de verdadeira substitui\u00e7\u00e3o. Assume os nossos pecados e imola-se em amor de gratuita obla\u00e7\u00e3o. O realismo deste momento explicita-nos que o amor de Cristo n\u00e3o ficou nas palavras, pronunciando as sete palavras, mas ultrapassa os conceitos e as ideias. No alto do calv\u00e1rio \u00e9 Cristo que d\u00e1 a Sua carne e o Seu sangue num \u201cincr\u00edvel realismo\u201d que, mesmo sem palavras, torna-se a aut\u00eantica explica\u00e7\u00e3o do Seu pr\u00f3prio ser e agir. Ele n\u00e3o se afirmou amor. A morte oferecida \u00e9 a mais profunda certeza do amor. \u00c9 aqui que compreendemos o verdadeiro conte\u00fado do \u201cDeus \u00e9 amor\u201d. \u00c9 no lado trespassado de Cristo, numa cabe\u00e7a inclinada ao entregar-se, que a grande verdade do cristianismo deve ser contemplada. Por outro lado, o Santo Padre diz-nos que \u00e9 aqui que \u201ccome\u00e7a\u201d o novo modo de interpretar a vida como crist\u00e3. \u201cA partir daquele olhar (do lado trespassado), o crist\u00e3o encontra o caminho do seu viver e amar\u201d. (Como fonte do nosso ser e agir devemos regressar permanentemente a esta realidade). \u201cNa sua morte de cruz, cumpre-se aquele virar-se de Deus contra si pr\u00f3prio, com o qual Ele se entrega para levantar o homem e salv\u00e1-lo\u201d (n. 12).   Duas palavras questionam o nosso quotidiano: 1 &#8211; Como Cristo \u201cvirar-se\u201d contra si n\u00e3o por masoquismo ou vontade de sofrer mas como condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para uma liberdade interior capaz de renunciar as coisas e pretextos que impedem um seguimento radical de Cristo. O apego \u00e0s nossas concep\u00e7\u00f5es da humanidade ou ao projecto de mundo e de Igreja podem impedir a alegria duma ditosa aventura. \u201cVirar-se\u201d contra si n\u00e3o destr\u00f3i a personalidade nem a vontade de realiza\u00e7\u00f5es pessoais. D\u00e1-lhe plenitude e profundidade. &#8211; Este \u201cvirar-se\u201d n\u00e3o \u00e9 gesto in\u00fatil ou ideia descabida de conte\u00fado. Virar-se n\u00e3o \u00e9 esvaziar a vida mas acreditar que com o meu amor \u00e9 poss\u00edvel \u201clevantar\u201d a humanidade. 2 &#8211; \u201cEsta ac\u00e7\u00e3o de Deus ganha agora a sua forma dram\u00e1tica devido ao facto de que, em Jesus Cristo, o pr\u00f3prio Deus vai atr\u00e1s da \u201covelha perdida\u201d, a humanidade sofredora e transviada\u201d. O primeiro, passa ao lado. Agora a Igreja n\u00e3o pode estar \u00e0 espera que algu\u00e9m lhe bata \u00e0 porta. Deve ir atr\u00e1s e compreender os sofrimentos e as atitudes transviadas. O sofrimento ter\u00e1 capacidade de proporcionar o amor diversificado como for\u00e7a libertadora e coragem para recome\u00e7ar. Os \u201cabandonos\u201d de Cristo est\u00e3o espalhados pelos nossos caminhos. S\u00f3 que importa reconhecer neles o Cristo sofredor, dar-lhe o nome e abra\u00e7ar para libertar, aproximar-se para curar.  Quantos sofrimentos encontrar\u00edamos nas nossas fam\u00edlias. As portas das casas encerram muitos dramas e as palavras nem sempre dizem tudo. S\u00f3 muita escuta e coragem para se identificar com as causas negativas, apontar\u00e1 a capacidade de compreender e sugerir\u00e1 a melhor solu\u00e7\u00e3o. Ir atr\u00e1s dos sofrimentos \u00e9 o grito que o calv\u00e1rio nos lan\u00e7a. Se \u00e9 dif\u00edcil compreender quais s\u00e3o os verdadeiros sofrimentos, pode ser quase imposs\u00edvel verificar quantos andam transviados. Os caminhos propostos s\u00e3o imensos e muitos deixam-se transviar. O mundo da fam\u00edlia \u00e9 o are\u00f3pago mais sedutor onde a verdade se mistura com muita confus\u00e3o. Corremos o risco de apegar-nos \u00e0 doutrina que sempre pregamos sem a contextualizar, mergulhando nos novos contornos que, pela sua articula\u00e7\u00e3o mais ou menos cient\u00edfica, podem enganar. A verdade n\u00e3o pode ser atenuada e o modo como a comunicamos deveria tornar-se convincente para ser atractiva e motivadora. N\u00e3o \u00e9 com condena\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias que a verdade \u00e9 acolhida. Como nunca a Igreja \u00e9 desafiada a enunciar o amor de Deus com conte\u00fados cient\u00edficos e capazes de trazer \u00e0 verdade, quem se deixa arrastar por conceitos e propostas amb\u00edguas. 3 &#8211; Ao sublinhar estas duas atitudes de \u201cvirar-se contra si\u201d para levantar do erro e do sofrimento, o Santo Padre recorda Cristo. \u201cQuando Jesus fala, nas suas par\u00e1bolas, do pastor que vai atr\u00e1s da ovelha perdida, da mulher que procura a dracma, do pai que sai ao encontro do filho pr\u00f3digo e o abra\u00e7a, n\u00e3o se trata apenas de palavras, mas constituem a explica\u00e7\u00e3o do Seu pr\u00f3prio ser e agir\u201d. H\u00e1 aqui um itiner\u00e1rio que n\u00e3o \u00e9 meramente simb\u00f3lico. \u00c9 pragm\u00e1tico. Jesus morre pelos seres \u201cfora\u201d da cidade. Para experimentar a ressurrei\u00e7\u00e3o teremos de deixar as muralhas que parecem proteger-nos do mundo adverso mas est\u00e3o agravando a separa\u00e7\u00e3o. Precisamos de sair para ir ao encontro e ser capazes de manifestar mais solicitude. Coloco aqui as fam\u00edlias da Arquidiocese e do pa\u00eds. Vejo as \u201csombras\u201d e as \u201cnuvens\u201d que pretendem deturp\u00e1-las. Como agir? As trevas e as sombras da Sexta-Feira Santa parecem falar-nos dum abandono de Deus perante a mentalidade laicista e laxista que se vai impondo, particularmente, na pouca aceita\u00e7\u00e3o da doutrina familiar. Todos abandonaram Cristo no alto do calv\u00e1rio. S\u00f3 Maria e Jo\u00e3o tiveram a coragem de \u201cestar\u201d pela capacidade de amar que invadia os seus cora\u00e7\u00f5es. N\u00e3o devem ter feito grandes declara\u00e7\u00f5es. Permitiram que Deus agisse no Seu sofrimento, n\u00e3o fugindo \u00e0 situa\u00e7\u00e3o que nunca teriam imaginado. Deixaram-se invadir pelas trevas e tudo se transformou em alegria no reencontro dum Cristo j\u00e1 ressuscitado que sentiram e ouviram mas que n\u00e3o podiam tocar nem reter para si. Era algo a dar. Eles compreenderam-no profundamente no abandono. Perderam tudo. Readquiriram a serenidade e alegria de O testemunharem. Teremos de acolher as \u201cdores\u201d, ou \u201cmortes\u201d da fam\u00edlia para numa alquimia de coragem atrav\u00e9s da fidelidade \u00e0 doutrina da Igreja realizar a P\u00e1scoa com e para todas as fam\u00edlias da Arquidiocese. Para a Igreja parece chegada a hora de estar junto da cruz. A\u00ed se compreende o amor e se vai delineando o caminho como vida e pastoral a concretizar. Saibamos ser dignos dos momentos de morte. Com eles entraremos na ressurrei\u00e7\u00e3o.   <i>+ Jorge Ferreira da Costa Ortiga, Arcebispo Primaz<\/i> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do Arcebispo de Braga na Celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[172,206,275,91],"class_list":["post-17491","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-de-braga","tag-familia","tag-pascoa","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17491","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17491"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17491\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17491"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17491"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17491"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}