{"id":17372,"date":"2006-04-09T15:46:46","date_gmt":"2006-04-09T15:46:46","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/09\/a-festa-e-o-drama\/"},"modified":"2006-04-09T15:46:46","modified_gmt":"2006-04-09T15:46:46","slug":"a-festa-e-o-drama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-festa-e-o-drama\/","title":{"rendered":"<i>A Festa e o drama<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal-Patriarca no Domingo de Ramos <!--more--> 1. Com esta Liturgia iniciamos a celebra\u00e7\u00e3o pascal. A P\u00e1scoa \u00e9 uma festa, a maior festa crist\u00e3, a fonte das alegrias verdadeiras e profundas. Todos pudemos j\u00e1 experimentar essa alegria, quando comungamos o corpo eucar\u00edstico de Cristo Vivo e fonte da vida, quando o Seu amor sentido reacende a nossa esperan\u00e7a e a nossa capacidade de viver; quando, movidos por esse amor, amamos os nossos irm\u00e3os como Ele os ama, gerando a experi\u00eancia da comunh\u00e3o, a \u00fanica que solidifica, na nossa vida, a alegria e a festa. Cristo Vivo, porque ressuscitado e vencedor da morte, encerra, para n\u00f3s, o segredo da vida. \tMas a alegria da P\u00e1scoa encerra o drama da Paix\u00e3o; e a Eucaristia, principal express\u00e3o da festa crist\u00e3, \u00e9 o sacramento da morte e da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. N\u00f3s os crist\u00e3os, aprendemos com Jesus Cristo que n\u00e3o h\u00e1 festa sem drama, que a alegria \u00e9 a flor que brota do sofrimento, que o Senhor compara a uma semente fecunda lan\u00e7ada \u00e0 terra, que a verdadeira felicidade se constr\u00f3i na coragem, na dor, no dom da pr\u00f3pria vida. \tA Liturgia deste Domingo de Ramos evoca, toda ela, a complementaridade entre a festa e o drama. A exalta\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica nas ruas de Jerusal\u00e9m, se seguisse a l\u00f3gica da alegria f\u00e1cil e da festa superficial, teria de conduzir \u00e0 solene entroniza\u00e7\u00e3o de Jesus como Messias Rei, vencendo o inimigo ocupante e distribuindo lugares de honra aos seus amigos, como lhe tinham pedido Tiago e Jo\u00e3o: \u201cConcede-nos que na Tua gl\u00f3ria, nos sentemos, um \u00e0 Tua direita e outro \u00e0 Tua esquerda\u201d (Mc. 10,35). Nem perceberam que Jesus lhes anunciara, imediatamente antes, a verdadeira profundidade da Sua gl\u00f3ria: os representantes do povo iam mat\u00e1-l\u2019O, mas Ele ressuscitaria ao terceiro dia (cf. Mc. 10,32-34). \tJesus ia a caminho de Jerusal\u00e9m por causa da festa. Naqueles dias era a grande festa, a da P\u00e1scoa e dos \u00c1zimos (cf. Mc. 14,1). Jerusal\u00e9m regurgitava em ambiente festivo, com forasteiros, vindos de toda a parte, por causa da festa. E foi nesse ambiente que os Sumos Sacerdotes resolveram matar Jesus. No in\u00edcio, os disc\u00edpulos de Jesus n\u00e3o perceberam a dimens\u00e3o dram\u00e1tica daquela festa. Certamente entusiasmados com a recep\u00e7\u00e3o em Jerusal\u00e9m, perguntam simplesmente a Jesus: \u201cOnde queres que vamos fazer os preparativos para comeres a P\u00e1scoa?\u201d (Mc. 14,12). E prepararam tudo como estava previsto na tradi\u00e7\u00e3o religiosa de Israel. Mas aquela festa pascal teve a densidade da oferta que Cristo faz da Sua vida. Aquele p\u00e3o torna-se o Corpo de Cristo oferecido para o sacrif\u00edcio da Cruz, e a ta\u00e7a da fraternidade \u00e9 agora o c\u00e1lice do Seu Sangue derramado. Tiago e Jo\u00e3o ter\u00e3o, talvez, compreendido a pergunta que Jesus lhes tinha feito: \u201cPodereis beber o c\u00e1lice que Eu bebo e ser baptizados com o baptismo com que Eu sou baptizado?\u201d (Mc. 10,38). N\u00e3o haver\u00e1 festa pascal, alegria da vida em plenitude, sem aceitar beber daquele c\u00e1lice, sacrif\u00edcio misterioso do sofrimento oferecido. Naquela noite, a festa e o drama ficaram unidos at\u00e9 \u00e0 eternidade. Ao Seu pr\u00f3prio Filho, de condi\u00e7\u00e3o divina, Deus s\u00f3 O exaltou com a plenitude da Gl\u00f3ria que lhe pertencia enquanto Verbo eterno, depois de, na Sua humanidade, ter sido humilhado, tomado a condi\u00e7\u00e3o de servo e ser morto na Cruz, com a mansid\u00e3o de quem obedece (cf. Fil. 2,6-11).  \t2. Uma das fragilidades da nossa cultura contempor\u00e2nea \u00e9 o conceito de felicidade f\u00e1cil que gerou, contentando-se com alegrias moment\u00e2neas e ef\u00e9meras, que nem sequer s\u00e3o, tantas vezes, a semente da verdadeira e definitiva felicidade. Esquecemo-nos que a felicidade \u00e9 um caminho longo, que sup\u00f5e a purifica\u00e7\u00e3o, a coragem de abra\u00e7ar as exig\u00eancias e o sofrimento. A quantos desejam rapidamente e sem sofrimento fazer a festa da vida, o Evangelho deixa a mesma pergunta: \u201cpodeis beber o c\u00e1lice que Eu vou beber?\u201d. Quem recusar o sofrimento e a exig\u00eancia da fidelidade, a que o Evangelho chama obedi\u00eancia, nunca experimentar\u00e1 a festa da P\u00e1scoa. \tA alegria crist\u00e3 est\u00e1 ligada \u00e0 fidelidade generosa e corajosa. Ser fiel \u00e9 tocar, num momento, a beleza da vida e nunca mais desistir dela, custe o que custar, dure o que durar. \u00c9 assim no amor, \u00e9 assim na voca\u00e7\u00e3o que escolhemos, \u00e9 assim na determina\u00e7\u00e3o de encontrar a alegria da vida no dom generoso dessa mesma vida, para que os outros possam festej\u00e1-la connosco.  Mas a que assistimos n\u00f3s? Nas rela\u00e7\u00f5es de amor, na fidelidade \u00e0 voca\u00e7\u00e3o escolhida, na prossecu\u00e7\u00e3o de um ideal, desiste-se perante as dificuldades encontradas e come\u00e7a-se de novo, \u00e0 procura de outra festa. Passa por a\u00ed a fragilidade da fam\u00edlia, a fraqueza das voca\u00e7\u00f5es consagradas, a desilus\u00e3o dos ideais. Os crist\u00e3os t\u00eam uma \u00fanica festa, a da P\u00e1scoa de Jesus, e entram nela, os que aceitarem o Seu chamamento de abra\u00e7ar a pr\u00f3pria Cruz e O seguir. Um autor recente chamou \u00e0 alegria dos crist\u00e3os a \u201cfesta dos loucos\u201d. Tamb\u00e9m S\u00e3o Paulo ensinou que a Cruz de Cristo era esc\u00e2ndalo para os judeus e loucura para os gentios, mas para aqueles que foram chamados a seguir o Senhor, ela \u00e9 for\u00e7a e sabedoria de Deus (cf. 1Co. 1,23). \tNa humildade da sua f\u00e9, na coragem da sua perseveran\u00e7a, talvez no sil\u00eancio da sua discri\u00e7\u00e3o, h\u00e1, na Igreja de hoje, muitos crist\u00e3os que podem celebrar a festa da P\u00e1scoa. Penso nos casais, que vencendo as dificuldades e resistindo a tenta\u00e7\u00f5es, se mant\u00eam fi\u00e9is, aprofundando sempre o seu amor; penso nos jovens que, remando contra a corrente, querem seguir generosamente Jesus Cristo; penso nos doentes que oferecem, com confian\u00e7a, o seu sofrimento. Aquando do Congresso, os doentes aprenderam a ser mission\u00e1rios apenas atrav\u00e9s do sofrimento oferecido. Quero abra\u00e7\u00e1-los a todos, nesta festa da P\u00e1scoa, festa que n\u00e3o exclui o drama e que encontra na alegria a verdadeira grandeza do cora\u00e7\u00e3o humano. Todos podem vir \u00e0 festa se se converterem, ou seja, se responderem ao desafio de Jesus: \u201cPodeis beber o c\u00e1lice que Eu vou beber?\u201d.  \t3. A convers\u00e3o \u00e9 a experi\u00eancia crist\u00e3, onde a festa e o drama se encontram mais profundamente. A par\u00e1bola do Filho Pr\u00f3digo (cf. Lc. 15,11-32) mostra-o bem. O filho pr\u00f3digo come\u00e7a na festa da vida, vivendo-a ao sabor dos apetites, passa pelo drama da degrada\u00e7\u00e3o e pela luta interior, que lhe dar\u00e1 coragem de regressar, e acaba na festa da reconcilia\u00e7\u00e3o com o Pai. Converter-se pode ter a densidade de um drama. H\u00e1 op\u00e7\u00f5es a tomar, d\u00favidas a esclarecer, obst\u00e1culos a vencer, bens ef\u00e9meros a deixar cair. \u00c9 como \u201cnascer de novo\u201d, o que tem a ousadia da esperan\u00e7a e a exig\u00eancia da confian\u00e7a. Converter-se pode significar rasgar o cora\u00e7\u00e3o, para que nas\u00e7a um cora\u00e7\u00e3o novo. Mas a alegria que brota dessa mudan\u00e7a, dessa coragem de \u201cnascer de novo\u201d \u00e9 das mais jubilosas e libertadoras que pode sentir o cora\u00e7\u00e3o humano. Em cada convers\u00e3o revive-se a P\u00e1scoa de Cristo, no drama da Paix\u00e3o e na alegria da Ressurrei\u00e7\u00e3o. A alegria crist\u00e3 \u00e9 profunda, e purificada na dor. Acreditar em Jesus Cristo e segui-l\u2019O, significa sempre aceitar que Ele nos mude a vida. Nesta P\u00e1scoa, n\u00e3o voltemos a cara \u00e0 exig\u00eancia da convers\u00e3o, para partilharmos a alegria da Festa da Vida.  S\u00e9 Patriarcal, 9 de Abril de 2006  <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal-Patriarca no Domingo de Ramos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[206,246,275],"class_list":["post-17372","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-familia","tag-liturgia","tag-pascoa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17372","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17372"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17372\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17372"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17372"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17372"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}