{"id":173377,"date":"2020-05-03T17:37:39","date_gmt":"2020-05-03T16:37:39","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=173377"},"modified":"2020-05-03T17:37:39","modified_gmt":"2020-05-03T16:37:39","slug":"frei-agostinho-da-cruz-um-poeta-que-incomoda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/frei-agostinho-da-cruz-um-poeta-que-incomoda\/","title":{"rendered":"Frei Agostinho da Cruz, um poeta que incomoda"},"content":{"rendered":"<p><em>Ruy Ventura, comiss\u00e1rio das Comemora\u00e7\u00f5es do IV Centen\u00e1rio da Morte de Frei Agostinho da Cruz<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/agostinho-da-cruz.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-126496 alignleft\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/agostinho-da-cruz-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/agostinho-da-cruz-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/agostinho-da-cruz-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/agostinho-da-cruz-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/agostinho-da-cruz-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/agostinho-da-cruz.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Frei Agostinho da Cruz incomoda-me. Se n\u00e3o me incomodasse, h\u00e1 muito teria deixado de ler a sua poesia. Creio, ali\u00e1s, que um poeta \u2013 seja qual for o meio expressivo que usou para comunicar \u2013 s\u00f3 sobrevive \u00e0s suas circunst\u00e2ncias se, de algum modo, continuar a retirar-nos do torpor e da indiferen\u00e7a que nos envilecem. Assim se torna intemporal, ao espica\u00e7ar-nos, fazendo-nos acordar. E s\u00f3 acordados \u2013 ou seja, com o cora\u00e7\u00e3o desperto e vigilante \u2013 conseguiremos distinguir a realidade dos seus mais enganadores e perigosos simulacros. Atentos, talvez vejamos \u2013 mesmo pelo meio do negrume \u2013 o caminho que \u00e9 preciso seguir, que meta procurar, evitando a queda nas mais sedutoras armadilhas. O frade franciscano, nascido a 3 de Maio de 1540, h\u00e1 480 anos, e falecido em 1619, n\u00e3o foi um escritor que, querendo fugir do mundo e dos seus al\u00e7ap\u00f5es, tenha adormecido para encontrar ou fabricar devaneios on\u00edricos. Poeta da experi\u00eancia com a natureza, com os homens e com a divindade, ao longo dos seus 79 anos de vida, sempre intranquilos, apresenta-se como um ser acordado e atento \u2013 e assim desvela aos leitores o seu exemplo vivido e pensado, ensinando-nos onde est\u00e3o as alpondras que nos permitir\u00e3o atravessar as mais perigosas torrentes de lama.<br \/>\nUma perigosa cinza vulc\u00e2nica amea\u00e7a o mundo em que vivemos. O confinamento a que nos temos visto relegados h\u00e1 alguns meses e a doen\u00e7a que paira sobre n\u00f3s s\u00e3o apenas duas das suas manifesta\u00e7\u00f5es (e talvez nem sejam das mais perigosas). Vivemos num per\u00edodo hist\u00f3rico em que se tornou bem mais sens\u00edvel a ac\u00e7\u00e3o do \u201cmist\u00e9rio da iniquidade\u201d. E parece n\u00e3o haver hero\u00edsmo ou ac\u00e7\u00e3o luminosa que consigam desmentir a hipocrisia da maior parte das promessas de liberdade, igualdade e fraternidade. H\u00e1 quem lhe chame, seguindo Holderlin, um \u201ctempo de indig\u00eancia\u201d. H\u00e1 quem se refugie nos mais estranhos e degradantes narc\u00f3ticos, procurando alienar-se e afogar as suas frustra\u00e7\u00f5es, lan\u00e7ando-se numa pris\u00e3o perp\u00e9tua. H\u00e1 quem procure, por aqui e por ali, novos mosteiros, eremit\u00e9rios e desertos onde ainda seja poss\u00edvel habitar e sobreviver, interiormente libertos. Se decidirmos levar a cabo essa demanda, decerto concordaremos com Frei Agostinho da Cruz: \u201cN\u00e3o h\u00e1 melhor manjar que liberdade\u201d. Toda a vida a procurou e construiu. Teremos n\u00f3s, todavia, ainda a coragem de procur\u00e1-la?<br \/>\n<a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Ruy-Ventura.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-173378 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Ruy-Ventura-391x260.jpg\" alt=\"\" width=\"391\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Ruy-Ventura-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Ruy-Ventura-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Ruy-Ventura-768x511.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Ruy-Ventura-1536x1022.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Ruy-Ventura-1080x719.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Ruy-Ventura-1280x852.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Ruy-Ventura-980x652.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Ruy-Ventura-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Ruy-Ventura.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 391px) 100vw, 391px\" \/><\/a>Se mantivermos um conv\u00edvio intenso com os poemas do frade arr\u00e1bido, reconheceremos que o seu pensamento n\u00e3o nasceu de \u201cuma alminha de Deus, nua como na hora do nascimento, a dar-se, sem querer e sem saber, em versos da mais ing\u00e9nua e viva emo\u00e7\u00e3o religiosa\u201d (Pascoaes). Vale a pena t\u00ea-lo sempre ao nosso lado como elevador de reflex\u00e3o ou, mesmo, como uma esp\u00e9cie de Virg\u00edlio, guiando-nos na nossa Commedia e num consequente processo de revis\u00e3o, de mudan\u00e7a de vida e de aproxima\u00e7\u00e3o ao \u201camor que move o sol e as mais estrelas\u201d. Se assim fizermos, perceberemos que n\u00e3o estamos a venerar uma m\u00famia embelezada pela devo\u00e7\u00e3o com sucessivas camadas de cera, mas temos junto de n\u00f3s um dos maiores da poesia, do pensamento e da espiritualidade europeias.<br \/>\nFrei Agostinho da Cruz viveu numa \u00e9poca de grande crise. Pertenceu a uma gera\u00e7\u00e3o cuja percep\u00e7\u00e3o da crise moldou atitudes, gestos, h\u00e1bitos, palavras, arte \u2013 tudo. Produziu uma obra perpassada pela humildade, mas sem dispensar a franqueza e a den\u00fancia. Usou, ainda assim, uma linguagem cautelosa, mentalmente reservada, num tempo dominado pela Inquisi\u00e7\u00e3o (que ele criticou, ali\u00e1s, de forma velada, em poemas ainda in\u00e9ditos). L\u00ea-lo \u00e9 senti-lo ao nosso lado. Ao recusar um \u201ccantar suave e brando\u201d, torna-se inc\u00f3modo, exigindo uma leitura comprometida, obrigando-nos a colocar quest\u00f5es intemporais e urgentes. Tenho a mais funda convic\u00e7\u00e3o de que seremos capazes de reconhecer a actualidade de uma larga parte das suas palavras. Ao espica\u00e7ar-nos com firmeza, n\u00e3o pode deixar-nos indiferentes:<\/p>\n<p>\u201c[\u2026]<br \/>\nTanto podem malinas creaturas,<br \/>\nQue por fazer escuras as estrelas,<br \/>\nDizem que falta nelas claridade!<br \/>\nPouco val a verdade dos pequenos!<br \/>\nTudo neles val menos; a cobi\u00e7a<br \/>\nEm lugar da Justi\u00e7a reina agora.<br \/>\nAh! quanto melhor f\u00f4ra padecer<br \/>\nMil mortes, que n\u00e3o ver nossos vizinhos<br \/>\nPor t\u00e3o tortos caminhos possuir,<br \/>\nRoubar, e destruir honras, e vidas!<br \/>\n[\u2026]\u201d<\/p>\n<p>Exprimindo uma sociedade em crise, semelhante \u00e0 nossa, os seus versos salientam um desassossego que nasceu da dura experi\u00eancia de quem se espantou com o porvir, temendo o passado, \u201cSem ter j\u00e1 que esperar, nem que perder\u201d. Frei Agostinho da Cruz teve consci\u00eancia do seu tempo e de quanto o rodeava. Soube assim que nem tudo vale a pena \u2013 e nesse desnudamento se fortalece a alma. Teve, sobretudo, a capacidade de escolher, de perceber que o melhor caminho est\u00e1 no empobrecimento vital, naquele que mant\u00e9m em n\u00f3s a sede e a fome, a fragilidade e a depend\u00eancia, o vazio ou nada que abre espa\u00e7o para uma realidade transcendente que s\u00f3 se aproxima de n\u00f3s quando nos tornamos menores ou m\u00ednimos, eternos aprendizes ou crian\u00e7as. A obra de Frei Agostinho da Cruz prop\u00f5e-nos uma liberta\u00e7\u00e3o. \u00c9 algo que n\u00e3o podemos menosprezar neste \u201ctempo de indig\u00eancia\u201d que \u00e9 o nosso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ruy Ventura, comiss\u00e1rio das Comemora\u00e7\u00f5es do IV Centen\u00e1rio da Morte de Frei Agostinho da Cruz<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":173378,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[181],"class_list":["post-173377","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-diocese-de-setubal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/173377","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=173377"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/173377\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/173378"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=173377"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=173377"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=173377"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}