{"id":17335,"date":"2006-04-06T16:35:39","date_gmt":"2006-04-06T16:35:39","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/06\/evangelho-de-judas-nao-implica-nenhuma-revolucao\/"},"modified":"2006-04-06T16:35:39","modified_gmt":"2006-04-06T16:35:39","slug":"evangelho-de-judas-nao-implica-nenhuma-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/evangelho-de-judas-nao-implica-nenhuma-revolucao\/","title":{"rendered":"Evangelho de Judas n\u00e3o implica nenhuma revolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O antigo manuscrito copta que cont\u00e9m a \u00fanica c\u00f3pia do evangelho de Judas \u00e9 hoje apresentado em Washington, EUA, prometendo \u201crevolucionar\u201d as convic\u00e7\u00f5es sobre Cristo e a Igreja. Para os especialistas cat\u00f3licos, estamos na presen\u00e7a de um documento importante para perceber a Igreja gn\u00f3stica dos s\u00e9culos II-IV e o seu contexto cultural, mas n\u00e3o para a hist\u00f3ria de Jesus. O Pe. Joaquim Carreira das Neves, exegeta portugu\u00eas, disse ontem na UCP que estamos na presen\u00e7a de um caso em que \u201ca montanha vai parir um rato\u201d. \u201cEstes textos estiveram escondidos nas areias do deserto ao longo de s\u00e9culos e s\u00e3o essenciais ara compreender uma Igreja (a gn\u00f3stica) que foi importante nos primeiros s\u00e9culos do Cristianismo\u201d, disse este especialista, explicando que documentos como o evangelho de Judas t\u00eam apenas uma \u201cimport\u00e2ncia cultural\u201d relativamente a uma comunidade com textos e regras pr\u00f3prias que se desenvolveu \u00e0 margem da grande Igreja, aquela que hoje conhecemos. Tamb\u00e9m o Pe. Claudio Bottini, decano da Faculdade de Arqueologia e Ci\u00eancias B\u00edblicas do Studium Biblicum Franciscanum (Sbf), refere que \u201ceste manuscrito n\u00e3o vai reabrir o debate sobre o Cristianismo e as suas origens\u201d. Em declara\u00e7\u00f5es \u00e0 ag\u00eancia italiana Sir, este especialista defende que \u00e9 preciso aguardar pelo texto para perceber \u201cque nova luz ir\u00e1 projectar sobre a figura de Judas que, de facto, deve ter colocado muitos problemas \u00e0 comunidade apost\u00f3lica\u201d. O evangelho ap\u00f3crifo de Judas \u00e9, por isso e acima de tudo, mais um caso de sucesso medi\u00e1tico. A publica\u00e7\u00e3o do papiro, com 26 p\u00e1ginas, data do s\u00e9c. IV ( credita-se que \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o de outro, do ano 187) j\u00e1 gerou uma esp\u00e9cie de \u201ccampanha de reabilita\u00e7\u00e3o\u201d do disc\u00edpulo que, segundo os Evangelhos Can\u00f3nicos, entregou Jesus aos judeus. A \u00abMaecenas Foundation for Ancient Art\u00bb de Basileia (Su\u00ed\u00e7a) e a revista \u00abNational Geografic\u00bb publicam o conte\u00fado de um manuscrito do s\u00e9culo I, com o evangelho ap\u00f3crifo de Judas. Deste escrito, tinha-se not\u00edcia, at\u00e9 agora, s\u00f3 por Santo Irineu, bispo do s\u00e9culo II que denunciava as heresias nele contidas. Segundo estas fontes, o evangelho ap\u00f3crifo de Judas devia ser um texto grego de origem gn\u00f3stica, escrito pela seita dos cainitas, em meados do s\u00e9culo II. Esta seita dava um valor positivo a todas as figuras negativas das escrituras judaicas e crist\u00e3s, como a serpente tentadora, Caim (da\u00ed o seu nome), Esa\u00fa e Judas.  <b>Messianismo e trai\u00e7\u00e3o<\/b> A quest\u00e3o de fundo tem a ver, neste caso, com o entendimento do Messinanismo de Jesus. Como explica o exegeta Pe. Joaquim Carreira das Neves, o tema central da sua prega\u00e7\u00e3o e ac\u00e7\u00e3o \u2013 Reino de Deus \u2013, apresentado nos Evangelhos Sin\u00f3pticos, evoca os anseios pol\u00edtico-religiosos dos judeus. Desde os velhos tempos de antes do ex\u00edlio da Babil\u00f3nia (s\u00e9c. VI a. C.) que os judeus n\u00e3o viviam em independ\u00eancia pol\u00edtica. Tinham estado sujeitos a babil\u00f3nios, persas, gregos e romanos. A prega\u00e7\u00e3o do novo Profeta de Nazar\u00e9, com o seu poder taumat\u00fargico e com a sua doutrina \u201crevolucion\u00e1ria\u201d sobre o S\u00e1bado, Templo, Jejum, perd\u00e3o dos pecados, julgamento final, traz uma primavera de vida a todos os doentes, marginalizados e pecadores. O velho messianismo dos tempos de David e dos profetas regressa. Nem admira que o povo O evoque com o t\u00edtulo de \u201cFilho de David\u201d. Esta prega\u00e7\u00e3o de Jesus sobre a realeza (reino, reinado, soberania) \u00e9 deveras amb\u00edgua. E Jesus nunca exp\u00f4s de maneira clara o que deseja significar com semelhante doutrina.  As suas par\u00e1bolas \u2013 originalidade de Jesus \u2013 referem continuamente o \u201cReino de Deus\u201d (Mc 4, 16. 30; Mt 13, 14. 31. 33. 44. 45. 47). E a primeira palavra que Jesus pronuncia versa precisamente o Reino: \u201cDepois de Jo\u00e3o ter sido preso, Jesus foi para a Galileia, e proclamava o Evangelho de Deus, dizendo: \u2018Completou-se o tempo e o Reino de Deus est\u00e1 pr\u00f3ximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho\u2019\u201d (Mc 1, 14-15 e par.).  O povo simples, os pol\u00edticos religiosos, os herodianos e os seus pr\u00f3prios disc\u00edpulos mais \u00edntimos, a come\u00e7ar pelos Doze, pensaram que, finalmente, o Reino teocr\u00e1tico de David e Salom\u00e3o iria ter lugar por obra e gra\u00e7a daquele Profeta e taumaturgo (Mc 8, 11 e par.; 8, 32-33 e par.; 9, 33-37; 10, 35-45). Neste contexto, Judas aprece como um amigo \u00edntimo e de toda a confian\u00e7a de Jesus \u2013 \u00e9 o ec\u00f3nomo da comunidade. Se Judas entrega Jesus ao Sin\u00e9drio n\u00e3o foi por causa do dinheiro, mas para testar Jesus na sua pol\u00edtica religiosa. Judas era um judeu de Iscariotes e n\u00e3o um galileu. Esperava o Reino de Deus e convenceu-se \u2013 como os demais \u2013 que Jesus, com todo o seu poder de palavra e ac\u00e7\u00e3o, traria, finalmente, o Reino t\u00e3o desejado a Israel. Mas aconteceu que Jesus, na segunda parte da sua prega\u00e7\u00e3o na Galileia, deixa de operar milagres, pregar em par\u00e1bolas, para se dirigir de uma maneira especial aos disc\u00edpulos por causa das falsas ideias do seu messianismo. Nesta viragem \u00e9 natural que o amigo Judas, desencantado com Jesus, o entregue ao Sin\u00e9drio para que Jesus se resolva uma vez por todas a desencadear o Reino de maneira apocal\u00edptica e apote\u00f3tica. E nada melhor do que aproveitar a estadia em Jerusal\u00e9m, nas v\u00e9speras da P\u00e1scoa, para que a sua manobra pol\u00edtica resulte. Mas n\u00e3o resultou. Jesus foi mesmo para a Cruz. Judas, desesperado, n\u00e3o aguentou a press\u00e3o e suicidou-se. Semelhante atitude foi aproveitada pelos evangelistas como exemplo para os crist\u00e3os a n\u00e3o se deixarem sucumbir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o, transformando, assim, Judas em \u201ctraidor\u201d e \u201cavarento\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O antigo manuscrito copta que cont\u00e9m a \u00fanica c\u00f3pia do evangelho de Judas \u00e9 hoje apresentado em Washington, EUA, prometendo \u201crevolucionar\u201d as convic\u00e7\u00f5es sobre Cristo e a Igreja. 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