{"id":173170,"date":"2020-05-01T11:38:11","date_gmt":"2020-05-01T10:38:11","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=173170"},"modified":"2020-05-01T11:38:11","modified_gmt":"2020-05-01T10:38:11","slug":"homilia-do-bispo-do-funchal-na-solenidade-de-sao-tiago-menor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-funchal-na-solenidade-de-sao-tiago-menor\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo do Funchal na solenidade de S\u00e3o Tiago menor"},"content":{"rendered":"<p><strong>Comunh\u00e3o, na justi\u00e7a e na sabedoria<\/strong><!--more--><\/p>\n<p>S\u00e3o conhecidas as circunst\u00e2ncias em que, em 11 de Junho de 1521 (h\u00e1 499 anos) \u2013 para o ano temos de pensar em celebra\u00e7\u00f5es mais vistosas \u2013 a cidade do Funchal se colocou nas m\u00e3os do Ap\u00f3stolo S. Tiago Menor, e como surgiu a incumb\u00eancia, \u201cpara sempre em cada um dos anos do mundo\u201d de, no dia 1 de Maio, o mesmo voto ser renovado pelos representantes da cidade.<\/p>\n<p>E assim sucedeu tamb\u00e9m em 1538, quando o Guarda-Mor da Sa\u00fade, vendo in\u00fateis os seus esfor\u00e7os no meio de uma epidemia que grassava no Funchal, disse no meio da Ermida de S. Tiago, dirigindo-se ao Padroeiro em alta voz: \u201cSenhor, at\u00e9 aqui guardei esta cidade como pude; n\u00e3o posso mais, aqui tendes a vossa vara, sede v\u00f3s o Guarda da Sa\u00fade\u201d. E entregou-lhe a vara, s\u00edmbolo da sua responsabilidade municipal.<\/p>\n<p>O facto \u00e9 que os relatos da \u00e9poca s\u00e3o un\u00e2nimes em afirmar que, a partir desse momento, todos os feridos melhoraram e a peste desapareceu da cidade<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. E s\u00e3o, de igual modo, un\u00e2nimes em dizer que, desde esse dia, \u201cse n\u00e3o voltaram a registar no Funchal casos graves de peste\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Hoje, as circunst\u00e2ncias da emerg\u00eancia sanit\u00e1ria que vivemos impossibilitam-nos de realizar a habitual prociss\u00e3o em honra do nosso padroeiro. Mas, nem por isso, queremos deixar de cumprir a entrega da defesa da nossa cidade nas m\u00e3os daquele que, h\u00e1 quase 500 anos, sempre nos tem protegido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>O Ap\u00f3stolo S. Tiago Menor aparece-nos nas narra\u00e7\u00f5es que sobre ele nos chegaram \u2014 e encontramos v\u00e1rias refer\u00eancias \u00e0 sua pessoa nos escritos do Novo Testamento e noutros escritos extra-b\u00edblicos, de autoria bem pr\u00f3xima do ano da sua morte \u2014 aparece-nos, dizia, mostrando-nos uma personalidade fascinante.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Referido nos evangelhos e naqueles relatos n\u00e3o b\u00edblicos como \u201cIrm\u00e3o do Senhor\u201d (express\u00e3o que, conhecendo a cultura judaica do tempo, sabemos significar referir algu\u00e9m \u201cda fam\u00edlia pr\u00f3xima\u201d \u2014 neste caso, de Jesus), ou ent\u00e3o como \u201cTiago, filho de Alfeu\u201d (como escut\u00e1vamos no evangelho)<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, ou ainda \u201cTiago o Menor\u201d, filho de uma Maria que estava junto \u00e0 cruz de Jesus<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>, tudo indica que S. Tiago fosse, como o Senhor, galileu, natural de Nazar\u00e9.<\/p>\n<p>Como os demais Ap\u00f3stolos, S. Tiago \u00e9 referido integrando as listas dos Doze, quer dizer, como fazendo parte daquele grupo mais pr\u00f3ximo, a quem Jesus chamou \u201cpara ficar com Ele e envi\u00e1-los a pregar\u201d (Mc 3,14). Esteve, portanto, presente na \u00daltima Ceia, passou pelo drama da cruz, pelo abandono desorientado do Mestre, pela alegria do encontro com o Ressuscitado, e por aquele momento \u00fanico do Pentecostes.<\/p>\n<p>Depois da P\u00e1scoa, encontramo-lo em Jerusal\u00e9m, \u00e0 frente da comunidade dos disc\u00edpulos, desempenhando um papel essencial na controv\u00e9rsia acerca da circuncis\u00e3o. Na Carta aos G\u00e1latas, S. Paulo nota a esse prop\u00f3sito: \u201cTiago, Pedro e Jo\u00e3o, os not\u00e1veis tidos como colunas, estenderam-nos as m\u00e3os, a mim e a Barnab\u00e9, em sinal de comunh\u00e3o\u201d (Gal 2,9).<\/p>\n<p>Com esta refer\u00eancia ao homem fazedor de comunh\u00e3o, coincide a descri\u00e7\u00e3o de Heg\u00e9sipo (historiador crist\u00e3o do in\u00edcio do s\u00e9c. II), que nos diz: \u201cEntrava sozinho no Templo [de Jerusal\u00e9m] e ficava de joelhos a suplicar o perd\u00e3o para o povo [\u2026]. Pela sua extrema justi\u00e7a foi chamado \u2018o Justo\u2019 e \u2018Oblias\u2019, o que traduzido significa fortaleza do povo e justi\u00e7a\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Foi a este homem, que liderava a Igreja de Jerusal\u00e9m ap\u00f3s a partida de Pedro, que os chefes judaicos quiseram persuadir a subir ao Pin\u00e1culo do Templo para, perante todo o povo, renegar a Jesus. Como Tiago reafirmasse a f\u00e9 no Senhor, lan\u00e7aram-no dali abaixo e lapidaram-no. Ainda de joelhos,\u00a0 enquanto sofria os golpes das pedras, Tiago rezava: \u201cPe\u00e7o-te Senhor, Deus Pai, perdoa-lhes porque n\u00e3o sabem o que fazem\u201d. E foi ent\u00e3o que um dos presentes, \u201cpegou num bast\u00e3o com o qual batia as roupas, e atingiu o Justo na cabe\u00e7a, que deste modo sofreu o mart\u00edrio. Foi sepultado num lugar pr\u00f3ximo do Templo, onde ainda hoje \u2014 diz Heg\u00e9sipo \u2014 \u00e9 poss\u00edvel ver a sua l\u00e1pide\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos no VII ano do Imperador romano Nero, ou seja, entre os anos 61 e 62 da nossa era, sensivelmente 30 anos depois da P\u00e1scoa do Senhor.<\/p>\n<p>E Eus\u00e9bio de Cesareia acrescenta, como que resumindo: \u201cTiago era um homem que todos admiravam e conheciam pela sua justi\u00e7a, de tal modo que os mais sensatos entre os judeus tomaram a sua morte como causa do cerco de Jerusal\u00e9m, que teve lugar logo ap\u00f3s o seu mart\u00edrio\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A II\u00aa leitura de hoje foi retirada precisamente da Carta de S. Tiago \u2014 escrito que integra a B\u00edblia, palavra de Deus, e que, logo no in\u00edcio, se reclama da autoria humana do Ap\u00f3stolo.<\/p>\n<p>Em todo o texto, mas de um modo particular no extracto que escut\u00e1mos, S. Tiago mostra a necessidade de, na f\u00e9, os crist\u00e3os ultrapassarem uma mera atitude intelectual (aquilo a que o Ap\u00f3stolo chama a f\u00e9 \u201cmorta\u201d: \u201cA f\u00e9 sem as obras est\u00e1 completamente morta\u201d), em favor de uma \u201cf\u00e9 viva\u201d \u2014 aquela que se mostra nas obras do quotidiano: \u201cMostra-me a tua f\u00e9 sem obras, que eu, pelas obras, te mostrarei a minha f\u00e9\u201d (Tg 2,18).<\/p>\n<p>Homem justo, cheio de sabedoria, fazedor de comunh\u00e3o; homem de ora\u00e7\u00e3o e de f\u00e9 viva: eis, em tra\u00e7os gerais, a personalidade do Santo nosso padroeiro.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que hoje nos voltamos a confiar \u00e0 sua intercess\u00e3o,\u00a0\u00a0 fazendo nosso o tradicional gesto de entrega do Funchal e seus habitantes nas m\u00e3os de S. Tiago, confiando-lhe a prote\u00e7\u00e3o de quantos habitam a nossa e sua cidade, pe\u00e7amos-lhe que nos ajude a progredir no caminho da f\u00e9 \u2014 da f\u00e9 viva, quer dizer: da f\u00e9 que se expressa na vida, nas obras do quotidiano.<\/p>\n<p>E pe\u00e7amos-lhe ainda a gra\u00e7a de, no meio de tantas disc\u00f3rdias pr\u00f3prias da \u201ccidade dos homens\u201d, construirmos comunh\u00e3o entre todos, na justi\u00e7a e na sabedoria.<\/p>\n<p>S\u00e9 do Funchal, 1 de maio de 2020<\/p>\n<p><em>D. Nuno Br\u00e1s<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>NOTAS<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> M. GAMA, <em>Dicion\u00e1rio das festas\u2026<\/em>, 398.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> R. CARITA, <em>Hist\u00f3ria do Funchal<\/em>, 62<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Mt 10.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Mc 15,40.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Eus\u00e9bio, <em>Hist. Eccl.<\/em> II,23.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> <em>Ib.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> <em>Ib.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comunh\u00e3o, na justi\u00e7a e na sabedoria<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":173172,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[186],"class_list":["post-173170","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-funchal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/173170","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=173170"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/173170\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/173172"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=173170"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=173170"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=173170"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}