{"id":17244,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/joao-paulo-ii-um-legado-de-santidade\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"joao-paulo-ii-um-legado-de-santidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/joao-paulo-ii-um-legado-de-santidade\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Paulo II: um legado de santidade"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o se apagou da mem\u00f3ria a imagem do vento folheando as p\u00e1ginas de uma B\u00edblia aberta sobre um f\u00e9retro de madeira simples, diante da Bas\u00edlica de S. Pedro. Em volta parecia que o mundo todo se tinha reunido: cardeais, reis, presidentes, fi\u00e9is correntes, l\u00edderes religiosos e, sobretudo, jovens vindos de todos cantos da terra. A partir da sua casa outras muitas pessoas seguiam a cena. Jo\u00e3o Paulo II gastou a vida acorrendo ao encontro com a multid\u00e3o, e no funeral o mundo retribuiu o gesto: foi ao seu encontro. Com a \u00fanica for\u00e7a de uma vida inquestionavelmente santa, o Papa falecido atra\u00edra mesmo aqueles que n\u00e3o pensavam como ele. Como um \u00edman silencioso, converteu-se num ponto de converg\u00eancia da unidade, da caridade, do respeito m\u00fatuo e da boa vontade. Ainda \u00e9 cedo para fazer um balan\u00e7o de uma vida t\u00e3o cheia, mas ao recordar os acontecimentos do m\u00eas de Abril do ano passado \u00e9 inevit\u00e1vel perguntar: qual \u00e9 o legado permanente de Jo\u00e3o Paulo II? O historiador Christopher Dawson disse certa vez que \u201cpara mudar o mundo, ao crist\u00e3o basta-lhe ser\u201d, e n\u00e3o ser\u00e1 arriscado afirmar que, enquanto crist\u00e3o, Jo\u00e3o Paulo II foi. Embora fosse um Papa de muitas palavras (homilias, discursos, enc\u00edclicas, poemas, livros e mesmo obras de teatro), Jo\u00e3o Paulo II sabia melhor que ningu\u00e9m que o impacto mais profundo n\u00e3o ia ser o dos seus textos ou palavras, por muito valiosas que fossem. De facto, talvez o que melhor lembramos s\u00e3o os gestos simb\u00f3licos: a primeira visita \u00e0 Pol\u00f3nia; o encontro com Ali Agca na pris\u00e3o; a sintonia espont\u00e2nea com crian\u00e7as e doentes; o costume de beijar o ch\u00e3o do pa\u00eds ao descer do avi\u00e3o; o sil\u00eancio eloquente \u00e0 janela por causa do sofrimento&#8230; Eram sinais grandes de uma realidade mais profunda. Certa vez, ap\u00f3s uma hospitaliza\u00e7\u00e3o, falou sobre a necessidade de anunciar \u201co evangelho do sofrimento\u201d. E quando, em sil\u00eancio, os \u00faltimos dias chegaram \u2013 durante a Semana Santa, que comemora o mist\u00e9rio da morte e da esperan\u00e7a na vida eterna \u2013, foi o seu sofrimento e a sua morte que atraiu e prendeu a aten\u00e7\u00e3o do mundo inteiro. A personalidade, o amor e o sacrif\u00edcio t\u00eam a sua pr\u00f3pria linguagem, e foi nessa linguagem que milh\u00f5es de homens e mulheres que nunca h\u00e3o-de ler qualquer enc\u00edclica \u201couviram\u201d claramente a mensagem que naqueles dias transmitiu. Um dos santos que ele canonizou, Josemaria Escriv\u00e1, escreveu: \u201cestas crises mundiais s\u00e3o crises de santos\u201d. Todos conhecemos o impacto que a Hist\u00f3ria sentiu com as vidas de Agostinho, Bento, Francisco de Assis, Tom\u00e1s de Aquino e Joana d\u2018Arc. Mas quantos conseguiriam lembrar os nomes dos papas e imperadores que dominavam o mundo no tempo dessas pessoas? Ao longo dos s\u00e9culos, s\u00e3o os santos quem realmente enriquece a vida intelectual e espiritual da Igreja e do mundo, modelando a mente, o cora\u00e7\u00e3o e a vida de milh\u00f5es de pessoas. \u00c9 da maior import\u00e2ncia o facto de que Jo\u00e3o Paulo II tenha canonizado mais santos que todos os seus predecessores juntos. Com o olhar posto no novo mil\u00e9nio, escreveu: \u201cagrade\u00e7o ao Senhor por me ter concedido, nestes anos, beatificar e canonizar muitos crist\u00e3os, entre os quais numerosos leigos que se santificaram nas condi\u00e7\u00f5es ordin\u00e1rias da vida. \u00c9 hora de propor de novo a todos, com convic\u00e7\u00e3o, esta \u00abmedida alta\u00bb da vida crist\u00e3 ordin\u00e1ria: toda a vida da comunidade eclesial e das fam\u00edlias crist\u00e3s deve apontar nesta direc\u00e7\u00e3o.\u201d  Essas canoniza\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram um mero reconhecimento do servi\u00e7o her\u00f3ico e das virtudes dos santos, mas uma urgente recorda\u00e7\u00e3o da voca\u00e7\u00e3o a que todo o crist\u00e3o est\u00e1 chamado. Com efeito, os santos canonizados por Jo\u00e3o Paulo II \u2013 homens e mulheres que realmente foram crist\u00e3os e em consequ\u00eancia mudaram o mundo \u2013 s\u00e3o, simultaneamente, um dom e um desafio para um mundo que nunca deixar\u00e1 de ter dificuldades. S\u00e3o um impressionante legado de santidade, talvez o maior legado que Jo\u00e3o Paulo II nos deixa, pelo menos at\u00e9 ao momento em que o pr\u00f3prio Jo\u00e3o Paulo II possa ser contado entre os santos: nesse dia, o seu grande legado j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 o dos santos que canonizou, mas o santo que foi ele mesmo.  <i>+ Javier Echevarr\u00eda, prelado do Opus Dei<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o se apagou da mem\u00f3ria a imagem do vento folheando as p\u00e1ginas de uma B\u00edblia aberta sobre um f\u00e9retro de madeira simples, diante da Bas\u00edlica de S. Pedro. Em volta parecia que o mundo todo se tinha reunido: cardeais, reis, presidentes, fi\u00e9is correntes, l\u00edderes religiosos e, sobretudo, jovens vindos de todos cantos da terra. 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