{"id":172222,"date":"2020-04-24T07:00:30","date_gmt":"2020-04-24T06:00:30","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=172222"},"modified":"2020-04-24T14:17:28","modified_gmt":"2020-04-24T13:17:28","slug":"pandemia-vai-acabar-por-levar-psiquiatras-a-linha-da-frente-margarida-neto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/pandemia-vai-acabar-por-levar-psiquiatras-a-linha-da-frente-margarida-neto\/","title":{"rendered":"Pandemia vai acabar por levar psiquiatras \u00ab\u00e0 linha da frente\u00bb &#8211; Margarida Neto"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->Margarida Neto \u00e9 psiquiatra na Casa de Sa\u00fade do Telhal, da Ordem Hospitaleira de S\u00e3o Jo\u00e3o de Deus. Faz parte da Associa\u00e7\u00e3o de M\u00e9dicos Cat\u00f3licos e \u00e9 uma das respons\u00e1veis pelo Gabinete de Escuta do Patriarcado Lisboa. Em entrevista \u00e0 Renascen\u00e7a e \u00e0 Ag\u00eancia Ecclesia fala das mudan\u00e7as que a pandemia obrigou a fazer naquele que \u00e9 o maior hospital psiqui\u00e1trico do pa\u00eds, mas diz que os doentes t\u00eam sido \u201cverdadeiros her\u00f3is\u201d, e que cada novo dia sem casos de Covid \u00e9 \u201cuma batalha\u201d ganha. E prev\u00ea que quando a luta deixar de se fazer nos cuidados intensivos, a linha da frente ser\u00e1 mesmo para os psiquiatras.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Texto: \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a), fotos Manuel Costa (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><strong> <a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-172224 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-1.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-1-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-1-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-1-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-1-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>A sa\u00fade mental tem sido descurada no atual contexto de pandemia?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que n\u00e3o. H\u00e1 at\u00e9 regulamentos pr\u00f3prios para a sa\u00fade mental e para a necessidade de atender com cuidado e seguran\u00e7a os doentes da psiquiatria. No domingo passado, na confer\u00eancia di\u00e1ria da Dire\u00e7\u00e3o-geral da Sa\u00fade, o coordenador para a Sa\u00fade Mental falou bastante sobre esta \u00e1rea, e foi divulgado um microsite, dentro do site da DGS, com perguntas sobre a sa\u00fade mental e os servi\u00e7os que existem. Portanto n\u00e3o acho que a sa\u00fade mental esteja a ser descurada, desta vez.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mas os dados revelados h\u00e1 dias pela Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica indicam que o isolamento social, por causa da pandemia, j\u00e1 est\u00e1 a afetar a sa\u00fade mental de mais de 80% dos portugueses. Estes dados surpreenderam-na, ou nem por isso?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o surpreenderam, s\u00e3o de esperar. Estamos habituados a ver estas situa\u00e7\u00f5es, sobretudo durante as cat\u00e1strofes. Uma situa\u00e7\u00e3o como esta nunca tivemos, mas acho que no final desta situa\u00e7\u00e3o saberemos mais coisas. Avan\u00e7ar j\u00e1 com esse n\u00famero&#8230; a Escola de Sa\u00fade P\u00fablica ter\u00e1 estudado convenientemente a situa\u00e7\u00e3o, mas eu que estou no terreno, a trabalhar na Casa de Sa\u00fade do Telhal, onde mantemos as consultas por telefone, vemos que h\u00e1 um aumento da ansiedade, sintomas depressivos, humor deprimido, ins\u00f3nia, e sobretudo esta inc\u00f3gnita sobre para onde \u00e9 que estamos mesmo a caminhar, mas isso n\u00e3o equivale&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>S\u00e3o sentimentos de alguma forma naturais, face a esta situa\u00e7\u00e3o de isolamento e solid\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Naturais. N\u00f3s temos de reagir, e faz parte da rea\u00e7\u00e3o ter alguns aspetos relacionados com a ansiedade. N\u00e3o sentir nada seria muito perturbador.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Estamos a conversar num intervalo das suas consultas na Casa de Sa\u00fade do Telhal, que \u00e9 um dos centros de refer\u00eancia na \u00e1rea da sa\u00fade mental. A pandemia alterou muito as suas rotinas e as do hospital?<\/strong><\/p>\n<p>Imenso! A Casa de Sa\u00fade do Telhal \u00e9 o maior hospital psiqui\u00e1trico masculino do pa\u00eds, residem aqui 450 doentes mentais, em longa evolu\u00e7\u00e3o, e 250 funcion\u00e1rios, e tivemos de fazer um apurado e muito consistente plano de conting\u00eancia, desenhado h\u00e1 muitas semanas, muito antes do Estado de Emerg\u00eancia. Os doentes est\u00e3o confinados nas suas unidades h\u00e1 mais de um m\u00eas, e sem visitas. Essa \u00e9 uma enorme altera\u00e7\u00e3o da vida deles. S\u00e3o doentes mentais, alguns com muita dificuldade em perceber o que est\u00e1 a passar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 uma dificuldade acrescida em fazer adaptar as coisas num local destes?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. As patologias s\u00e3o diferentes e o grau de compreens\u00e3o \u00e9 diferente de doente para doente, e at\u00e9 das circunst\u00e2ncias e caracter\u00edsticas de cada unidade. Mas tivemos muito cuidado.<\/p>\n<p>Eles t\u00eam normalmente um p\u00e1tio, ou um jardim, em frente das unidades. As atividades mais comunit\u00e1rias encerraram, e os monitores que habitualmente trabalham nessas \u00e1reas de dia &#8211; monitores de tarefas de bricolage, etc &#8211; foram destacados para cada unidade e passam l\u00e1 o dia, fazem muitas atividades l\u00fadicas, desde jogar \u00e0s cartas a jogar \u00e0 malha, jogar xadrez ou fazer gin\u00e1stica, ou jogar futebol. Vamos arranjado solu\u00e7\u00f5es para que os doentes \u2013 em cada unidade s\u00e3o \u00e0 volta de 40, 50 &#8211; consigam estar, sem haver grandes tropelias. E isso tem acontecido de uma forma surpreendente,\u00a0os doentes t\u00eam sido absolutamente extraordin\u00e1rios! Esta \u00e9, para mim, a maior das surpresas.\u00a0Talvez porque nos veem preocupados, de m\u00e1scara, talvez porque os cuidados com eles s\u00e3o imensos, de aten\u00e7\u00e3o a cada um, os doentes est\u00e3o a revelar-se uns her\u00f3is. Os primeiros her\u00f3is da Casa de Sa\u00fade do Telhal s\u00e3o os nossos doentes, e isso \u00e9 comovente e extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Continuam a manter consultas presenciais, ou s\u00f3 \u00e0 dist\u00e2ncia?<\/strong><\/p>\n<p>Presenciais dentro das unidades, quando h\u00e1 alguma situa\u00e7\u00e3o, porque cada unidade tem o seu psiquiatra, enfermeiros e o m\u00e9dico de cl\u00ednica geral.<\/p>\n<p>As consultas externas da Casa, essas encerraram temporariamente, mas est\u00e3o a ser substitu\u00eddas por consultas pelo telefone, ou teleconsulta. \u00c9 o que normalmente os psiquiatras est\u00e3o a fazer no Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, nos consult\u00f3rios particulares e aqui, nas dezenas e dezenas de doentes que v\u00eam \u00e0 sua consulta externa, tamb\u00e9m na \u00e1rea de alcoologia, em que trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E como est\u00e1 a correr?<\/strong><\/p>\n<p>A \u00e1rea de alcoologia tem sido uma surpresa tamb\u00e9m, porque os doentes est\u00e3o a beber menos.\u00a0Provavelmente iremos assistir a um aumento de consumos, mas depois do confinamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Durante o confinamento n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o parece, ou porque est\u00e3o mais em casa, n\u00e3o v\u00e3o ao caf\u00e9, n\u00e3o v\u00e3o \u00e0s rodadas de grupo, ou est\u00e3o mais \u2018guardados\u2019 pela fam\u00edlia, isso tem dado aqui alguma serenidade, e eu encontro motiva\u00e7\u00e3o acrescentada nas centenas de doentes que acompanho na \u00e1rea de alcoologia. Tem havido aqui bastantes surpresas.<\/p>\n<p>A coisas psic\u00f3ticas, a sintomatologia psic\u00f3tica, tamb\u00e9m n\u00e3o me parece que esteja neste momento a aumentar, mas provavelmente iremos encontr\u00e1-las mais \u00e0 frente, como aconteceu com a crise que atravessou o pa\u00eds em 2010, 2011, com a pobreza e o desemprego a aumentar. Esse \u00e9 um outro lado, que ter\u00e1 consequ\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>Pode desencadear uma crise ao n\u00edvel dos v\u00edcios?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. A\u00ed ser\u00e1 outra hist\u00f3ria. Neste momento h\u00e1 evidentemente uma rea\u00e7\u00e3o ansiosa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es que se p\u00f5em, mas dentro do expect\u00e1vel. \u00c9 a minha experi\u00eancia.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-6.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-172223\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-6-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-6-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-6-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-6-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-6-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-6-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-6-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-6-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-6-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-6.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Pessoalmente, como m\u00e9dica, estes t\u00eam sido dias dif\u00edceis?<\/strong><\/p>\n<p>Muito dif\u00edceis. Como profissional de sa\u00fade com uma solidariedade muito grande com todos os meus colegas, sobretudo aqueles que est\u00e3o na linha da frente, mas cada um tem o seu papel, n\u00e3o \u00e9, e aqui (na Casa de Sa\u00fade) temos este dever de proteger os nossos doentes.<\/p>\n<p>Eu fa\u00e7o parte do Gabinete de Crise que foi montado para esta situa\u00e7\u00e3o, e todos os dias temos de afinar procedimentos. Mas\u00a0saber que passado este tempo &#8211; mais de um m\u00eas -, e com este mundo aqui dentro, n\u00e3o h\u00e1 nenhum caso, nem de doentes nem de funcion\u00e1rios, \u00e9 mais um dia em que ganh\u00e1mos esta batalha.\u00a0\u00c9 olhar cada dia como um dia novo, com a exig\u00eancia e os desafios com que se vai apresentar.<\/p>\n<p><strong>A f\u00e9 tamb\u00e9m a tem ajudado?<\/strong><\/p>\n<p>A f\u00e9&#8230; \u00e9 muito boa essa quest\u00e3o. Sabemos da dificuldade que o acompanhamento espiritual est\u00e1 a ter nos hospitais onde os doentes Covid est\u00e3o a ser tratados, nos cuidados intensivos, da dificuldade do trabalho dos capel\u00e3es. \u00c9 nossa miss\u00e3o, como m\u00e9dicos cat\u00f3licos, relembrar e fazer esta ponte com as capelanias, porque \u00e9 preciso tratar do corpo mas tamb\u00e9m ter bem presente a quest\u00e3o da compaix\u00e3o e a quest\u00e3o da espiritualidade, favorecendo, dentro do poss\u00edvel, esses cuidados onde eles possam ser prestados. E tamb\u00e9m n\u00e3o esquecer, cada um de n\u00f3s, que uma ora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m faz parte desta pr\u00e1tica da medicina nestes tempos.<\/p>\n<p>A Casa de Sa\u00fade do Telhal \u00e9 um hospital cat\u00f3lico, e espiritualidade n\u00e3o falta. Pass\u00e1mos a P\u00e1scoa com tudo o que foi poss\u00edvel viver, fizemos uma Via Sacra nas ruas que ligam as unidades e os doentes vieram \u00e0 porta. Aqui a espiritualidade \u00e9 vivida \u00e0 maneira de S\u00e3o Jo\u00e3o de Deus, e todos os dias dizemos que S\u00e3o Jo\u00e3o de Deus se lembra de n\u00f3s e tem sido um grande companheiro de viagem.<\/p>\n<p><strong>A sa\u00fade mental dos m\u00e9dicos, de quem est\u00e1 na linha da frente, tamb\u00e9m \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o nesta altura?<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9. Eu acho que os m\u00e9dicos est\u00e3o sujeitos a uma press\u00e3o imensa, desempenham a sua fun\u00e7\u00e3o com um enorme empenhamento, como temos visto, uma d\u00e1diva at\u00e9 superior.\u00a0N\u00e3o me lembro de em Portugal os profissionais de sa\u00fade terem trabalhado com tanto esp\u00edrito de miss\u00e3o, s\u00e3o verdadeiros defensores do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, verdadeiros soldados do pa\u00eds! Mas, isto tem um pre\u00e7o, e \u00e0s vezes &#8211; quase sempre &#8211; quando estamos na linha da frente, quando \u00e9 preciso agir, as pessoas agem ultrapassando os seus limites.\u00a0Porque \u00e9 muito dif\u00edcil, como vemos nas reportagens extraordin\u00e1rias que tem havido. H\u00e1 dificuldades com o equipamento, aquilo fisicamente \u00e9 muito forte, e temos que perceber que a maior parte destes profissionais de sa\u00fade da linha da frente est\u00e1 sozinho, porque saiu de casa, ou as fam\u00edlias est\u00e3o noutros s\u00edtios, para que n\u00e3o haja possibilidade de cont\u00e1gio, por isso a vulnerabilidade tamb\u00e9m \u00e9 muito grande.<\/p>\n<p><strong>Fala-se no risco de\u00a0<em>burnout<\/em>\u00a0para muitos deles.<\/strong><\/p>\n<p>Um risco que j\u00e1 existia antes.\u00a0J\u00e1 havia grandes dificuldades no nosso trabalho, sobretudo do SNS. Estamos aqui a fazer um trabalho de empenho, onde as energias v\u00eam de um s\u00edtio que nem sab\u00edamos que existia, e obviamente que isto mais \u00e0 frente ter\u00e1 o seu custo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mas neste momento j\u00e1 est\u00e1 a ser dada a devida aten\u00e7\u00e3o a estas situa\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Eu julgo que sim, da\u00ed tamb\u00e9m o cuidado da DGS ter emanado aquelas normas.\u00a0Sei que alguns hospitais t\u00eam os seus psiquiatras a fazer apoio aos profissionais de sa\u00fade. Mais \u00e0 frente, quando j\u00e1 n\u00e3o estivermos a falar de cuidados em cuidados intensivos, se calhar os psiquiatras v\u00e3o passar eles para a linha da frente. N\u00e3o tenho muitas d\u00favidas sobre isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A Associa\u00e7\u00e3o dos M\u00e9dicos Cat\u00f3licos publicou recentemente um documento com linhas orientadoras para os cuidados de sa\u00fade neste tempo de pandemia, a lembrar que a miss\u00e3o do m\u00e9dico \u00e9 cuidar da pessoa, n\u00e3o apenas da doen\u00e7a, e a alertar para os riscos do encarni\u00e7amento terap\u00eautico.<\/strong><\/p>\n<p>E para a forma como se poder\u00e1 eventualmente priorizar a quest\u00e3o dos ventiladores. Era uma quest\u00e3o de que t\u00ednhamos bastante receio e que est\u00e1vamos muito avisados pela quest\u00e3o de It\u00e1lia, de Fran\u00e7a e de Espanha. Quisemos relembrar, como relembr\u00e1mos na campanha da eutan\u00e1sia, que a boa pr\u00e1tica m\u00e9dica n\u00e3o contempla o encarni\u00e7amento terap\u00eautico, que os recursos t\u00eam de ser bem pensados, em equipa, e que a fazer-se uma escolha &#8211; oxal\u00e1 n\u00e3o cheguemos a essa situa\u00e7\u00e3o &#8211; tem de ser uma escolha ponderada com aquilo que \u00e9 a comorbilidade dos doentes e as possibilidades de vida e sobreviv\u00eancia. N\u00e3o s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es nada f\u00e1ceis. N\u00e3o estamos a viv\u00ea-las nesta altura, ainda que nos preocupe a situa\u00e7\u00e3o dos idosos nos lares, a salvaguarda e o bom tratamento destes doentes, que n\u00e3o sejam esquecidos. E tamb\u00e9m os doentes mentais. Que j\u00e1 agora n\u00e3o se chegue a uma situa\u00e7\u00e3o em que estas pessoas n\u00e3o tenham valor social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Foi um dos rostos vis\u00edveis na recente luta contra a eutan\u00e1sia, que centrou aten\u00e7\u00f5es no in\u00edcio deste ano. A pandemia tem mostrado a luta di\u00e1ria e dedicada dos profissionais de sa\u00fade para salvar vidas. Acha que isto far\u00e1 mudar alguma coisa relativamente aos conceitos de vida e de morte?<\/strong><\/p>\n<p>Espero que mude, para bem. Na verdade \u00e9 uma das coisas mais estranhas, se pensarmos que em fevereiro &#8211; parece que foi h\u00e1 imenso tempo, mas foi h\u00e1 exatamente dois meses &#8211; est\u00e1vamos a aprovar na Assembleia da Rep\u00fablica uma lei a favor da morte de pessoas. A vida \u00e9 mesmo estranha, n\u00e3o \u00e9? Agora, o que glorificamos \u00e9 o salvar vidas a todo o custo, e o empenho dos profissionais de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Sabemos bem que a miss\u00e3o de um m\u00e9dico e de um enfermeiro \u00e9 salvar vidas. E\u00a0estamos em confinamento para salvar vidas, para que n\u00e3o haja uma sobrecarga no SNS, para que os cuidados intensivos e os ventiladores cheguem para toda a gente. Este esfor\u00e7o, que \u00e9 um esfor\u00e7o da sociedade toda, em que estamos todos empenhados, que coer\u00eancia tem com a eutan\u00e1sia e com a cultura de morte que grassava h\u00e1 dois meses por a\u00ed?<\/p>\n<p>Espero que tenhamos aprendido, ou que estejamos a aprender, que agora n\u00e3o faz sentido algum terem uma lei na comiss\u00e3o (parlamentar), n\u00e3o estou a ver que v\u00e1 ser agora debatida sequer, e que volte outra vez para a Assembleia da Rep\u00fablica para o plen\u00e1rio!\u00a0Que coer\u00eancia tem voltar a falar de eutan\u00e1sia? Seria um sinal completamente incoerente em rela\u00e7\u00e3o ao que estamos a passar neste momento, e particularmente grave e feio, n\u00e3o tenho outro nome. Seria tamb\u00e9m repugnante, para usar uma palavra que o nosso primeiro-ministro utilizou em rela\u00e7\u00e3o ao ministro holand\u00eas.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-10.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-172225 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-10-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-10-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-10-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-10-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-10-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-10-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-10-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-10-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-10-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/margarida-neto-ecclesia-10.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>\u00c9 uma das respons\u00e1veis pelo Gabinete Escuta criado no Patriarcado Lisboa e que, n\u00e3o sendo um consult\u00f3rio nem um confession\u00e1rio, presta um acompanhamento de proximidade \u00e0s pessoas. Como \u00e9 que est\u00e1 a funcionar no atual contexto?<\/strong><\/p>\n<p>Estamos a funcionar sem atendimentos presenciais. Vamos retom\u00e1-los assim que possa ser. Estamos a fazer atendimento pelo telefone.<\/p>\n<p><strong>Com prioridade para as situa\u00e7\u00f5es mais graves?<\/strong><\/p>\n<p>Damos prioridade \u00e0s situa\u00e7\u00f5es que j\u00e1 estavam a ser seguidas, mas tamb\u00e9m n\u00e3o tem havido mais pedidos para atendimento. Daqui a nada vou atender um telefonema de uma senhora idosa, com queixas de solid\u00e3o, o que se percebe. Mas, de facto n\u00e3o tem havido novos pedidos, ao contr\u00e1rio do que poder\u00edamos pensar.<\/p>\n<p>Tal como nas consultas, ser\u00e1 mais \u00e0 frente que iremos ter mais atendimentos, presenciais ou por telefone. Se verificarmos que esta \u00e9 uma maneira de atender eficaz e que facilita a vida das pessoas, porque n\u00e3o? Realmente\u00a0estamos a aprender que as tecnologias nos podem ajudar. Fazer consulta de psiquiatria por telechamada, com imagem, era uma coisa que eu nunca na vida pensei fazer, mas tenho feito e as coisas n\u00e3o tem sido m\u00e1s. Parece que o valor da palavra, a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 palavra readquire aqui um valor important\u00edssimo.\u00a0\u00c9 engra\u00e7ado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A procura do Gabinete de Escuta, desde que foi criado, mostra que este servi\u00e7o fazia falta?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, os relat\u00f3rios que temos mostram isso. Somos volunt\u00e1rios neste atendimento, as pessoas que nos pedem para ser atendidas e a capacidade de resposta est\u00e1 bastante equilibrada. T\u00eam aparecido muitas situa\u00e7\u00f5es, sobretudo relacionais, as quest\u00f5es das perdas, da solid\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como o caso da idosa que vai atender daqui a pouco. No atual contexto \u00e9 preciso refor\u00e7ar a aten\u00e7\u00e3o a esta popula\u00e7\u00e3o em termos de sa\u00fade mental?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, porque\u00a0sabemos todos, pela forma como o v\u00edrus se propaga, que vai ser preciso confinar e proteger mais os idosos. Essa prote\u00e7\u00e3o tem de ser bem explicada, e tem de se arranjar maneiras de combater a solid\u00e3o e fazer um acompanhamento diferente. Gra\u00e7as a Deus as tecnologias ajudam-nos imenso, para que os idosos n\u00e3o morram da cura, digamos assim, t\u00e3o protegidos, t\u00e3o protegidos, que acabemos por os discriminar na sua solid\u00e3o,\u00a0e isso \u00e9 muito complicado.<\/p>\n<p>Tenho visto idosos na rua que n\u00e3o andam de m\u00e1scara, j\u00e1 disse a muitos \u2018v\u00e1 para casa, n\u00e3o deve estar aqui&#8217;, e respondem \u2018o que \u00e9 que eu tenho a perder?\u2019. Muitos n\u00e3o conseguem, ou n\u00e3o quererem compreender isto, ou ent\u00e3o o ir para a rua e ver pessoas \u00e9 superior \u00e0 sua vontade de se proteger. Falta o abra\u00e7o, falta o beijo, falta o tato, falta a conversa lado a lado. Vamos ter certamente depress\u00e3o nos idosos.<\/p>\n<p><strong>Que conselho deixa?<\/strong><\/p>\n<p>Que pe\u00e7am ajuda. Alguns idosos n\u00e3o t\u00eam estes telem\u00f3veis mais atuais, e aqui na Casa de Sa\u00fade colocamos os telem\u00f3veis com imagem ao servi\u00e7o dos doentes, para que consigam falar com as suas fam\u00edlias, dizer adeus, perguntar coisas. \u00c9 preciso ajudar os doentes, e sobretudo os idosos que est\u00e3o mais sozinhos, a que se agarrem \u00e0 vida. N\u00e3o podemos perder as coisas que nos agarram \u00e0 vida, porque perder o sentido da raz\u00e3o daquilo que estamos a fazer, e porque \u00e9 que estamos a fazer desta forma, \u00e9 perder a luz ao fundo do t\u00fanel e perder a esperan\u00e7a. E n\u00e3o podemos perder a esperan\u00e7a de que isto vai acabar e que a vida vai voltar a um normal, que ser\u00e1 um normal diferente, mas que h\u00e1 de haver aqui uma esperan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":172223,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[],"class_list":["post-172222","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/172222","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=172222"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/172222\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/172223"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=172222"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=172222"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=172222"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}