{"id":171883,"date":"2020-04-21T13:03:47","date_gmt":"2020-04-21T12:03:47","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=171883"},"modified":"2020-04-21T13:03:47","modified_gmt":"2020-04-21T12:03:47","slug":"lusofonias-reconstruir-escombros-ou-renascer-das-cinzas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/lusofonias-reconstruir-escombros-ou-renascer-das-cinzas\/","title":{"rendered":"LUSOFONIAS &#8211; Reconstruir escombros ou renascer das cinzas"},"content":{"rendered":"<p><em>Tony Neves, em Roma<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/huambo-menor-94.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-171886 \" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/huambo-menor-94-922x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"383\" height=\"425\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/huambo-menor-94-922x1024.jpg 922w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/huambo-menor-94-234x260.jpg 234w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/huambo-menor-94-768x853.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/huambo-menor-94-980x1089.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/huambo-menor-94-480x533.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/huambo-menor-94.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 383px) 100vw, 383px\" \/><\/a>H\u00e1 sempre quem goste de comer \u00e0 custa da desgra\u00e7a alheia. Os abutres deste mundo est\u00e3o sempre \u00e0 espreita da morte para atacar e lucrar. Veio isto a prop\u00f3sito da not\u00edcia veiculada pelos media segundo a qual a Europol desmantelou uma rede que traficava m\u00e1scaras, provocando uma fraude milion\u00e1ria! N\u00f3s achamos sempre que os dramas nos purificam e melhoram. Mas, para algumas pessoas, as trag\u00e9dias refinam-lhes a maldade e o oportunismo. Tamb\u00e9m h\u00e1 30 anos no Huambo, ap\u00f3s tanta guerra e tanto cerco, o sal acabou e tornou-se produto com estatuto ao n\u00edvel de diamante! Todos os dias, algu\u00e9m me aparecia no Semin\u00e1rio com pacotinhos de sal que n\u00e3o enchiam a palma da m\u00e3o\u2026a pre\u00e7os absolutamente proibitivos! E n\u00e3o era s\u00f3 o sal que custava milh\u00f5es\u2026era quase tudo, tal a fome e a mis\u00e9ria que tomaram conta do planalto naqueles terr\u00edveis anos de 1993 e 1994! Tenho citado tantas vezes o poeta radical franc\u00eas, Jacques Pr\u00e9vert, que gritava que a guerra \u00e9 muito est\u00fapida! \u00c9 mesmo, estes dois anos referidos foram, no planalto, de uma barb\u00e1rie indescrit\u00edvel. Vou regressar \u2013 pela \u00faltima vez &#8211; aos escritos desses tempos para partilhar a paz que se tentou semear num contexto de muita repress\u00e3o e fome.<\/p>\n<p>Contei o que vi no Huambo quando dei a primeira grande volta \u00e0 cidade ap\u00f3s o fim da batalha dos 55 dias: \u2018\u00c9 de arrepiar. Havia ainda mortos a apodrecer, as casas est\u00e3o no ch\u00e3o, as \u00e1rvores\u2026essas morreram de p\u00e9! Veem-se tanques e carros queimados em muitas ruas e, na parte Alta da Cidade, ningu\u00e9m l\u00e1 pensar\u00e1 viver nos pr\u00f3ximos tempos!\u2019 (\u2018Miss\u00e3o em Angola\u2019, p.167). Escrevi mais tarde: \u2018depois dos combates, a Igreja empenhou-se em diversas frentes, no esfor\u00e7o necess\u00e1rio da reconstru\u00e7\u00e3o e reorganiza\u00e7\u00e3o\u2019 (p.182). Mas \u2013 confessava \u2013 \u2018o pior bocado e o osso mais duro de roer, remoemo-lo, como Igreja e como povo, em agosto (1993) com os bombardeamentos a\u00e9reos massivos, um pouco por todo o lado. A Igreja Cat\u00f3lica, em particular e com as outras Igrejas, ergueu a sua voz pedindo o cessar fogo, a reatamento das negocia\u00e7\u00f5es e a vinda da ajuda humanit\u00e1ria\u2019 (p.183).<\/p>\n<p>Estes tempos obrigaram-nos a darmo-nos as m\u00e3os. Foram tantas as reuni\u00f5es com l\u00edderes de outras Igrejas e com pol\u00edticos e militares no terreno! Sempre com o objectivo de defender o povo e livra-lo da situa\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica em que vivia. Houve ajuda humanit\u00e1ria que chegou nos avi\u00f5es, sobretudo da Caritas. Houve apelos e mais apelos para que as negocia\u00e7\u00f5es de paz avan\u00e7assem. Houve trav\u00f5es colocados a ajustes de contas e limpezas, esses fen\u00f3menos que marcam todas as guerras. Houve coragem de dizer o que pol\u00edticos e militares n\u00e3o queriam ouvir. Correram-se riscos enormes, pois um contexto de guerra gera desconfian\u00e7as e abusos de poder. Multiplicaram-se ora\u00e7\u00f5es e celebra\u00e7\u00f5es. A solidariedade ganhou asas e fez milagres como, por exemplo, quando cat\u00f3licos e protestantes se juntaram para limpar os escombros do Hospital central e ali colocaram feridos de guerra de ambos os lados. E fomos todos \u00e0 procura de comida, medicamentos e roupa para os socorrer e a muitos salvar.<\/p>\n<p>O que me fez sair do Huambo, um ano e meio depois da batalha dos 55 dias, foi a elei\u00e7\u00e3o para participar no Cap\u00edtulo Provincial dos Espiritanos portugueses, a realizar em julho de 1994, em Lisboa. Fui convidado a escrever um texto, a partir do Huambo, como documento preparat\u00f3rio desse Cap\u00edtulo. Quando o escrevi estava convencido de que n\u00e3o conseguiria sair. \u00c9 um texto grande (publicado em \u2018Miss\u00e3o em Angola\u2019, pp.192-198), de que quero apenas salientar alguns dos desafios que ali gravei: \u2018o do alto risco que todos aceitamos correr ao permanecer na cidade e nas miss\u00f5es onde os bombardeamentos e os assaltos n\u00e3o poupam nada nem ningu\u00e9m\u2019; \u2018do risco da sobreviv\u00eancia amea\u00e7ada: n\u00e3o h\u00e1 comida, sal, \u00f3leo, sab\u00e3o, material escolar\u2026n\u00e3o h\u00e1 luz el\u00e9ctrica, nem petr\u00f3leo, nem g\u00e1s, nem velas, nem pilhas\u2019; \u2018da solidariedade profunda com o povo que sofre na pele os efeitos desta guerra cruel, e a ang\u00fastia de um futuro ainda mais tr\u00e1gico\u2019 (p.197). Mas o que mais gosto de ler hoje \u00e9 a nota final deste texto mandado da borrasca do Huambo, a que dei o t\u00edtulo de \u2018esclarecimento\u2019: \u2018quando acabaram os combates e recebi as primeiras cartas, diversas pessoas sabendo que o Huambo se iria transformar num braseiro, insistiram comigo para me ir embora. Em consci\u00eancia, mesmo que a sa\u00fade n\u00e3o andasse boa (como n\u00e3o andava), eu nunca poderia aceitar tal sugest\u00e3o. Sabia que era perigoso ficar e que, cada dia que passa, a vida corre perigo. Mas, afinal de contas, sou Espiritano. E mais: estou com outros Espiritanos, com os seminaristas e com este povo m\u00e1rtir. Com que direito poderia abandona-los, aproveitando-me simplesmente do meu estatuto de estrangeiro?\u2019. E conclu\u00eda: \u2018Compreendam que n\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o de heroicidade, mas de uma quest\u00e3o de coer\u00eancia e de miss\u00e3o. Posso morrer aqui, mas morrerei de p\u00e9 e com a consci\u00eancia de quem \u2013apesar de todos os limites \u2013 fez o que p\u00f4de para bem desta Igreja e deste povo\u2019 (p.198).<\/p>\n<p>Pois \u00e9\u202630 anos depois, este Covid tamb\u00e9m nos p\u00f5e em sentido, nos obriga a tomar decis\u00f5es radicais e a maior delas (para a maioria dos cidad\u00e3os) \u00e9 \u2018ficar em casa!\u2019. Oportunismos por m\u00e3o cheia de sal ou por m\u00e1scaras? Nem pensar! Ontem como hoje, com guerras ou v\u00edrus, o tempo abre novas e ousadas oportunidades e derrota oportunismos caducos e malvados\u2026<\/p>\n<p>Preparemos, ent\u00e3o, o dia seguinte \u00e0 abertura das portas para sair \u00e0 rua. Ser\u00e1 que vamos repetir todos os erros do passado ou abriremos novas portas a um futuro mais justo e solid\u00e1rio?<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-171883-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/lusofonias-reconstruirescombros-21-04-20.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/lusofonias-reconstruirescombros-21-04-20.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/lusofonias-reconstruirescombros-21-04-20.mp3<\/a><\/audio>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tony Neves, em 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