{"id":17124,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/honra-pai-e-mae-a-familia-comunidade-de-amor-do-eros-a-caridade\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"honra-pai-e-mae-a-familia-comunidade-de-amor-do-eros-a-caridade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/honra-pai-e-mae-a-familia-comunidade-de-amor-do-eros-a-caridade\/","title":{"rendered":"<i>Honra Pai e M\u00e3e. A Fam\u00edlia, comunidade de amor. Do \u00aberos\u00bb \u00e0 Caridade<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Catequese do Cardeal-Patriarca no 4\u00ba Domingo da Quaresma <!--more--> 1. O mandamento do amor, amar a Deus sobre todas as coisas e ao pr\u00f3ximo como a si mesmo, interpela as pessoas a viverem amando, o que as projecta, necessariamente, para a express\u00e3o comunit\u00e1ria da vida. Quem ama n\u00e3o vive sozinho, n\u00e3o \u00e9 uma ilha isolada, faz comunidade e aprofunda a comunh\u00e3o. Na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica, ao longo dos s\u00e9culos, este mandamento exprimiu-se em v\u00e1rias experi\u00eancias comunit\u00e1rias, nascidas do amor e que se afirmam como caminho para crescer no amor. Antes de mais, o pr\u00f3prio Povo escolhido, Israel no Antigo Testamento, a Igreja do Novo Testamento. A Igreja \u00e9 incompreens\u00edvel sem a for\u00e7a do amor comunh\u00e3o, com Jesus Cristo, que a ama com amor esponsal, e com os irm\u00e3os. A Igreja \u00e9 a \u201ccasa da comunh\u00e3o\u201d, afirmou Jo\u00e3o Paulo II. Esta for\u00e7a da comunh\u00e3o de amor exprime-se, na Igreja, atrav\u00e9s de v\u00e1rios dinamismos comunit\u00e1rios: Dioceses, Par\u00f3quias, Ordens Religiosas, Movimentos. Todos eles se justificam como lugar do amor e dinamismo de comunh\u00e3o. A mais antiga e primordial destas estruturas de comunh\u00e3o, que acaba por inspirar simbolicamente todas as outras, \u00e9 a Fam\u00edlia. Institui\u00e7\u00e3o b\u00e1sica da fam\u00edlia humana, segundo a antropologia b\u00edblica, vai sendo confirmada e solidificada com o progresso da revela\u00e7\u00e3o, tornando-se express\u00e3o privilegiada do amor entre Cristo e a Igreja, e, no realismo da sua humanidade, sinal sacramental daquela comunh\u00e3o misteriosa. A Fam\u00edlia concebida como comunidade de amor aparece no C\u00f3digo da Alian\u00e7a, celebrada por Deus com o Seu Povo, no Sinai, s\u00edntese de tradi\u00e7\u00f5es que remontam \u00e0 origem da humanidade: \u201cHonra teu pai e tua m\u00e3e, para teres uma longa vida na terra que Yahw\u00e9, Teu Deus, te vai dar\u201d (Ex. 20,12). E S\u00e3o Paulo, o Ap\u00f3stolo que mais profundamente percebeu a nova grandeza da fam\u00edlia \u00e0 luz do amor entre Cristo e a Igreja, escreve aos Ef\u00e9sios: \u201cFilhos, obedecei a vossos pais, no Senhor, pois \u00e9 isso que \u00e9 justo. Honra teu pai e tua m\u00e3e, tal \u00e9 o primeiro mandamento, com uma promessa: para que sejas feliz e gozes de longa vida sobre a terra. E v\u00f3s, pais, n\u00e3o exaspereis os vossos filhos, mas criai-os com a educa\u00e7\u00e3o e correc\u00e7\u00e3o que vem do Senhor\u201d (Ef. 6,1-4).  2. Estes textos real\u00e7am dois aspectos da institui\u00e7\u00e3o familiar: os pais e os filhos. A heterossexualidade e a fecundidade s\u00e3o, assim, qualidades constitutivas da fam\u00edlia. Para a sua realiza\u00e7\u00e3o est\u00e1, ali\u00e1s, orientada a constitui\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica e psicol\u00f3gica do homem e da mulher. No dicion\u00e1rio da natureza, assimilado por todas as culturas e civiliza\u00e7\u00f5es, a palavra fam\u00edlia significa isso: a uni\u00e3o de um homem e de uma mulher, selada pelo contrato matrimonial, dispostos a completarem-se um ao outro, no amor, e a serem fecundos, pondo o seu amor ao servi\u00e7o da vida. Na fam\u00edlia, os seres humanos exprimem e experimentam uma qualidade essencial: o serem homem e mulher, iguais e diferentes, chamados a encontrarem-se na complementaridade do amor, para n\u00e3o comprometerem a harmonia da sua exist\u00eancia. Na sua recente Enc\u00edclica, o Santo Padre afirma, referindo-se \u00e0s diversas experi\u00eancias humanas de amor: \u201cEm toda esta gama de significados, por\u00e9m, o amor entre o homem e a mulher, no qual concorrem indivisivelmente corpo e alma, e se abre ao ser humano uma promessa de felicidade que parece irresist\u00edvel, sobressai como arqu\u00e9tipo de amor por excel\u00eancia, de tal modo que, comparados com ele, \u00e0 primeira vista todos os demais tipos de amor se ofuscam\u201d[1]. E acrescenta que este amor entre o homem e a mulher, n\u00e3o nasce da intelig\u00eancia e da vontade, mas de certa forma imp\u00f5e-se ao ser humano[2], o que significa que ele \u00e9 uma for\u00e7a pr\u00e9via ao exerc\u00edcio da intelig\u00eancia e da vontade, constitutivo da natureza essencial do ser humano.  3. Segundo a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica, comum a outras tradi\u00e7\u00f5es culturais, a c\u00e9lula b\u00e1sica da humanidade n\u00e3o \u00e9 o indiv\u00edduo humano, mas o par humano. \u201cDeus criou o homem \u00e0 Sua imagem, \u00e0 imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou. Deus aben\u00e7oou-os e disse-lhes: sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a\u201d (Gen. 1,27-28). Deus n\u00e3o criou indiv\u00edduos, criou a fam\u00edlia, no seio da qual os indiv\u00edduos encontrar\u00e3o a felicidade, na experi\u00eancia do conhecimento m\u00fatuo, do dom generoso e da fecundidade. Em toda a narra\u00e7\u00e3o b\u00edblica sobressai o mist\u00e9rio da mulher m\u00e3e, que resume na sua maternidade toda a fecundidade da Cria\u00e7\u00e3o e que aparece como o \u00faltimo retoque do artista na beleza da Cria\u00e7\u00e3o. A mulher \u00e9, aqui, a obra prima da cria\u00e7\u00e3o, aquela que evita ao homem a solid\u00e3o dos indiv\u00edduos isolados e o torna pessoa, aquele que est\u00e1 destinado a encontrar-se na descoberta e no dom ao outro, que \u00e9 igual e diferente. Nesta plenitude da Cria\u00e7\u00e3o adivinha-se, no pano de fundo que o futuro sempre desenha, Maria, a Nova Eva, a \u201cbendita entre todas as mulheres\u201d, aquela a quem todas as gera\u00e7\u00f5es proclamar\u00e3o bem-aventurada. Eva, obra prima da Cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 apenas o an\u00fancio de uma plenitude humana, que s\u00f3 ser\u00e1 atingida em Cristo, o novo Ad\u00e3o, e em Maria, a Nova Eva. At\u00e9 eles e a partir deles, cada par humano percorre o caminho \u00e1rduo do conhecimento m\u00fatuo, da integra\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as e do aperfei\u00e7oamento pelo dom rec\u00edproco. Toda a fam\u00edlia tem um ponto de partida s\u00f3lido, em ordem a um fim incerto, porque depende da aventura da liberdade e da generosidade da fidelidade. Hoje fala-se muito na crise da fam\u00edlia. Atrever-me-ia a afirmar que a fam\u00edlia \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o permanentemente em crise, a crise do crescimento e da fidelidade. Mas para al\u00e9m das dificuldades inerentes \u00e0 pr\u00f3pria verdade da comunidade familiar, a fam\u00edlia encontrou, ao longo dos s\u00e9culos, e hoje com uma acuidade particular, dificuldades que lhe v\u00eam da envolv\u00eancia cultural, do quadro institucional das sociedades e dos Estados, mesmo de agress\u00f5es directas de for\u00e7as que a querem relativizar ou destruir.   <i>As dificuldades provenientes de uma vis\u00e3o individualista do ser humano<\/i> 4. Esta \u00e9 uma dificuldade que prov\u00e9m do contexto cultural, e que n\u00e3o atinge apenas a fam\u00edlia, mas o todo da sociedade vista como fam\u00edlia humana. Sobretudo no Ocidente, desenvolveu-se, nos \u00faltimos dois s\u00e9culos, uma vis\u00e3o filos\u00f3fica do ser humano considerado apenas como indiv\u00edduo, n\u00e3o necessariamente comprometido e co-respons\u00e1vel pelos outros. A cultura foi-se afastando, progressivamente, do bel\u00edssimo conceito de \u201cpessoa\u201d, que define o ser humano como algu\u00e9m necessariamente em rela\u00e7\u00e3o com outrem, encontrando nessa rela\u00e7\u00e3o a sua verdade profunda e o caminho da sua felicidade. Tudo passou a ser definido a partir do indiv\u00edduo: a liberdade individual, absoluta, custe a quem custar; os interesses, o bem-estar, o prazer, a felicidade, passam a ser definidos no \u00e2mbito do indiv\u00edduo. O que parece um pormenor de pensamento, altera tudo nas rela\u00e7\u00f5es humanas. Os indiv\u00edduos reivindicam os seus direitos e defendem os seus interesses; as pessoas entregam-se generosamente, porque o seu bem est\u00e1 no bem do outro, a sua alegria s\u00f3 pode ser partilhada, n\u00e3o pode ser feliz se o outro com quem partilha a vida n\u00e3o o \u00e9. As sociedades tornaram-se um equil\u00edbrio prec\u00e1rio de direitos individuais conflituantes, quando muito definidos e limitados pela Lei. Foi-se perdendo o sentido de que todos s\u00e3o respons\u00e1veis por todos, e de que a felicidade n\u00e3o est\u00e1 na realiza\u00e7\u00e3o dos anseios individuais, mas no sentir que com a generosidade do dom da pr\u00f3pria vida, se ajudam os outros a viver. S\u00f3 quem aceita perder a vida por causa dos outros, a encontrar\u00e1, foi o ensinamento de Jesus. o conceito de \u201cclasse\u201d, introduzido na cultura moderna por via ideol\u00f3gica e pol\u00edtica, n\u00e3o fez mais do que mobilizar um conjunto de indiv\u00edduos para a defesa colectiva de direitos. Se esses indiv\u00edduos se assumirem como \u201cpessoas\u201d, o esp\u00edrito de \u201cclasse\u201d transformar-se-\u00e1 em dinamismo comunit\u00e1rio.  5. A fam\u00edlia n\u00e3o subsiste como equil\u00edbrio de interesses individuais dos seus membros. Se cada um pensa na sua felicidade, nos seus interesses, no seu bem-estar, porventura \u00e0 custa dos outros, o conflito \u00e9 quase inevit\u00e1vel. A fam\u00edlia sup\u00f5e o amor dos outros, a busca do bem dos outros e n\u00e3o apenas de si mesmo. \u00c9 dom generoso, \u00e9 obla\u00e7\u00e3o, \u00e9 entrega generosa, pois s\u00f3 assim se lan\u00e7a a semente da comunh\u00e3o de vida e de felicidade. S\u00f3 assim ela \u00e9 o contexto favor\u00e1vel ao desabrochar da vida, atrav\u00e9s da gera\u00e7\u00e3o e da educa\u00e7\u00e3o. A fam\u00edlia comunica aos filhos aquilo que \u00e9. S\u00f3 como comunidade de amor e de dom os ajuda a desabrochar para a comunidade e para a generosidade para com os outros.  <i>Dificuldades acrescidas pela vis\u00e3o hedonista da sexualidade<\/i> 6. A viv\u00eancia equilibrada da sexualidade \u00e9 um elemento decisivo na harmonia familiar. Tudo ou quase tudo \u00e9 influenciado por ela. A fam\u00edlia, no seu dinamismo original de rela\u00e7\u00e3o est\u00e1vel e compromisso duradouro de um homem e de uma mulher, afirma j\u00e1 uma verdade que a revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3 vir\u00e1 aprofundar e confirmar: s\u00f3 numa rela\u00e7\u00e3o de amor a sexualidade humana encontra pleno sentido. A esp\u00e9cie humana \u00e9 a \u00fanica em que a natural atrac\u00e7\u00e3o dos sexos \u00e9 influenciada e conduzida pela cultura, incluindo nesta, como sua componente importante, a dimens\u00e3o espiritual e religiosa. Em todas as culturas, mesmo na greco-romana, encontramos ind\u00edcios desta abertura ao divino atrav\u00e9s da viv\u00eancia da sexualidade[3]. A revela\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 valoriza esta dimens\u00e3o, purificando-a, quer quando faz do amor esponsal o s\u00edmbolo do amor-ternura de Deus pelo Seu Povo, quer quando eleva a uni\u00e3o conjugal ao n\u00edvel de sacramento, sinal sagrado, que realiza no amor dos esposos a qualidade do amor-caridade. A idolatria do indiv\u00edduo na cultura contempor\u00e2nea, a que nos referimos atr\u00e1s, aplicada \u00e0 viv\u00eancia da sexualidade, gerou o ambiente de facilidade que bem conhecemos. A sexualidade encontra sentido na busca do prazer individual e n\u00e3o como experi\u00eancia generosa de amor e comunh\u00e3o. Tudo \u00e9 natural, tudo \u00e9 permitido, tudo \u00e9 tolerado. A inspira\u00e7\u00e3o \u00e9tica da sexualidade passou para o campo da harmoniza\u00e7\u00e3o dos interesses e conflitos individuais, e assume mesmo formas de viol\u00eancia, silenciados na discri\u00e7\u00e3o da privacidade. Esta cultura individualista compromete a realiza\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia como comunidade de amor entre pessoas, muito tempo antes do pr\u00f3prio casamento. A prepara\u00e7\u00e3o para o matrim\u00f3nio deveria incluir uma profunda mudan\u00e7a de mentalidade e de perspectiva.  7. Esta situa\u00e7\u00e3o sublinha o valor da virtude crist\u00e3 da castidade, enquanto viv\u00eancia da sexualidade express\u00e3o de amor generoso e oblativo. Esta cultura, marcada pelo permissivismo individualista, acusa a Igreja de ter uma vis\u00e3o negativa da sexualidade e interpreta o desafio da castidade sobretudo como priva\u00e7\u00e3o e nega\u00e7\u00e3o. Como virtude, ela \u00e9 uma express\u00e3o do amor-caridade, ou seja, de uma atitude generosa do amor oblativo, onde a pessoa humana exprime o dom de si mesma na totalidade do seu ser, corpo e esp\u00edrito. Como toda a virtude crist\u00e3, a castidade \u00e9 exigente. Sup\u00f5e uma sexualidade integrada que desabrocha enquadrada na experi\u00eancia de ternura, de rela\u00e7\u00e3o generosa com os outros. N\u00e3o anula o instinto sexual (o \u201ceros\u201d), mas purifica-o elevando-o \u00e0 dignidade do amor oblativo. Na Carta Enc\u00edclica o Papa Bento XVI, referindo-se \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o, por parte do juda\u00edsmo e do cristianismo, da \u201cprostitui\u00e7\u00e3o sagrada\u201d em que alguns procuravam, na exalta\u00e7\u00e3o sexual, uma experi\u00eancia do divino, afirma: \u201cAo faz\u00ea-lo, por\u00e9m, n\u00e3o rejeitou de modo algum o eros enquanto tal, mas declarou guerra \u00e0 sua subvers\u00e3o devastadora, porque a falsa diviniza\u00e7\u00e3o do eros, como a\u00ed se verifica, priva-o da sua dignidade, desumaniza-o\u201d. E acrescenta: \u201cO eros inebriante e descontrolado n\u00e3o \u00e9 eleva\u00e7\u00e3o, \u00ab\u00eaxtase\u00bb at\u00e9 ao Divino, mas queda, degrada\u00e7\u00e3o do homem. Fica assim claro que o eros necessita de disciplina, de purifica\u00e7\u00e3o para dar ao ser humano, n\u00e3o o prazer de um instante, mas uma certa amostra do v\u00e9rtice da exist\u00eancia, daquela beatitude para a qual tende todo o nosso ser\u201d[4]. E o Santo Padre conclui: \u201cDois dados resultam claramente desta r\u00e1pida vis\u00e3o sobre a concep\u00e7\u00e3o do eros na hist\u00f3ria e na actualidade. O primeiro \u00e9 que entre o amor e o Divino existe alguma rela\u00e7\u00e3o: o amor promete infinito, eternidade \u2013 uma realidade maior e totalmente diferente do dia-a-dia da nossa exist\u00eancia. E o segundo \u00e9 que o caminho para tal meta n\u00e3o consiste em deixar-se simplesmente subjugar pelo instinto. S\u00e3o necess\u00e1rias purifica\u00e7\u00f5es e amadurecimentos, que passam tamb\u00e9m pela estrada da ren\u00fancia. Isto n\u00e3o \u00e9 rejei\u00e7\u00e3o do eros, n\u00e3o \u00e9 o seu \u00abenvenenamento\u00bb, mas a cura em ordem \u00e0 sua verdadeira grandeza\u201d[5]. Nada \u00e9 t\u00e3o gratificante em ordem \u00e0 harmonia da felicidade, como a viv\u00eancia generosa, que inclui a ren\u00fancia a express\u00f5es facilitantes, da pr\u00f3pria sexualidade. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a castidade que \u00e9 exigente. Todas as concretiza\u00e7\u00f5es da caridade passam pela coragem de seguir o Senhor, abra\u00e7ando a sua pr\u00f3pria cruz. Porque toda a caridade \u00e9 um dom de Deus, fruto da ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito em n\u00f3s, a castidade \u00e9 indissoci\u00e1vel da vida da gra\u00e7a e a castidade conjugal \u00e9 fruto da gra\u00e7a pr\u00f3pria do sacramento do matrim\u00f3nio. A pr\u00f3pria fecundidade do casal tem de ser express\u00e3o da generosidade do amor. Embora a paternidade-maternidade sejam express\u00e3o importante da realiza\u00e7\u00e3o pessoal dos esposos, elas encontram a sua verdade plena na busca, sem limites, do bem dos filhos. Um cora\u00e7\u00e3o de M\u00e3e \u00e9 um tesouro que pertence aos filhos e que constitui a sua primeira riqueza. O filho n\u00e3o pode ser apenas o objecto de uma auto-realiza\u00e7\u00e3o dos esposos. A prop\u00f3sito das hip\u00f3teses que a ci\u00eancia abriu no campo da reprodu\u00e7\u00e3o medicamente assistida, a Santa S\u00e9 j\u00e1 advertiu, para fazer reflectir sobre as exig\u00eancias \u00e9ticas das novas t\u00e9cnicas de reprodu\u00e7\u00e3o, que o direito de ter um filho n\u00e3o \u00e9 um direito absoluto.  <i>As vicissitudes institucionais da fam\u00edlia<\/i> 8. Para al\u00e9m das dificuldades que adv\u00eam \u00e0 fam\u00edlia a partir do contexto cultural envolvente, as muta\u00e7\u00f5es institucionais da fam\u00edlia, fruto da transforma\u00e7\u00e3o da sociedade, trazem-lhe dificuldades acrescidas. A mulher no trabalho, a diminui\u00e7\u00e3o da natalidade, a concentra\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es nas grandes cidades a qual provocou uma altera\u00e7\u00e3o profunda no urbanismo, s\u00e3o dados que condicionam a fam\u00edlia como comunidade de pessoas. A necessidade de apoio de outras institui\u00e7\u00f5es no crescimento e educa\u00e7\u00e3o dos filhos, para muitos logo a partir da primeira inf\u00e2ncia, exige da fam\u00edlia que seja uma comunidade em inter-ac\u00e7\u00e3o com outras comunidades, para poder continuar a ser a comunidade de refer\u00eancia para o equil\u00edbrio de todos os seus membros. Tamb\u00e9m as altera\u00e7\u00f5es ao enquadramento legal e institucional da fam\u00edlia t\u00eam sido causa de novas instabilidades e fragilidades. A falta de equidade das leis fiscais, a facilita\u00e7\u00e3o e vulgariza\u00e7\u00e3o do div\u00f3rcio civil, a consagra\u00e7\u00e3o das uni\u00f5es de facto, s\u00e3o dados que criam instabilidade \u00e0 fam\u00edlia, que precisa de clareza, estabilidade e solidez para vencer as inevit\u00e1veis dificuldades de um caminho a percorrer. E j\u00e1 come\u00e7a a perfilar-se na opini\u00e3o p\u00fablica a tentativa de legalizar casamentos entre pessoas do mesmo sexo, atribuindo-lhes os direitos jur\u00eddicos da fam\u00edlia. A posi\u00e7\u00e3o clara da Igreja a este respeito, n\u00e3o \u00e9 contra ningu\u00e9m; significa, isso sim, a defesa da base antropol\u00f3gica fundamental da comunidade familiar.  9. Salvar a fam\u00edlia \u00e9 hoje uma luta \u00e1rdua, combate que n\u00e3o podemos deixar de travar em nome da sociedade que desejamos. \u00c9 uma batalha a travar em m\u00faltiplas frentes, que v\u00e3o do social e cultural, ao pol\u00edtico. Mas ela sup\u00f5e dos homens e mulheres, e de modo particular, dos crist\u00e3os e das crist\u00e3s, a certeza de que \u00e9 poss\u00edvel vencer, certeza que lhes vem da for\u00e7a do amor, sempre apoiado e enriquecido com a for\u00e7a de Deus.  S\u00e9 Patriarcal, 26 de Mar\u00e7o de 2006 <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/i>  &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211; [1] Bento XVI, Carta Enc\u00edclica \u201cDeus \u00e9 amor\u201d, n.\u00ba 2 [2] Ibidem, n.\u00ba 3 [3] Cf. Ibidem, n.\u00ba 3 [4] Ibidem, n.\u00ba 4 [5] Ibidem, n.\u00ba 5<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Catequese do Cardeal-Patriarca no 4\u00ba Domingo da Quaresma<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,127,193,206,237,267,91,297],"class_list":["post-17124","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-catequese","tag-educacao","tag-familia","tag-joao-paulo-ii","tag-natal","tag-quaresma","tag-santa-se"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17124","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17124"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17124\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17124"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17124"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17124"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}