{"id":17082,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/judas-jesus-e-o-fascinio-dos-apocrifos\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"judas-jesus-e-o-fascinio-dos-apocrifos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/judas-jesus-e-o-fascinio-dos-apocrifos\/","title":{"rendered":"Judas, Jesus e o fasc\u00ednio dos ap\u00f3crifos"},"content":{"rendered":"<p>O evangelho ap\u00f3crifo de Judas \u00e9 mais um caso de sucesso medi\u00e1tico. A publica\u00e7\u00e3o do papiro, com 26 p\u00e1ginas, data do s\u00e9c. IV ( acredita-se que \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o de outro, de 187 ap\u00f3s a morte de Cristo) j\u00e1 gerou uma esp\u00e9cie de \u201ccampanha de reabilita\u00e7\u00e3o\u201d do disc\u00edpulo que, segundo os Evangelhos Can\u00f3nicos, entregou Jesus aos judeus. A \u00abMaecenas Foundation for Ancient Art\u00bb de Basileia (Su\u00ed\u00e7a) e a revista \u00abNational Geografic\u00bb v\u00e3o publicar na P\u00e1scoa &#8211; em franc\u00eas, ingl\u00eas e alem\u00e3o -, o conte\u00fado de um manuscrito do s\u00e9culo I, com o evangelho ap\u00f3crifo de Judas. Deste escrito, tinha-se not\u00edcia, at\u00e9 agora, s\u00f3 por Santo Irineu, bispo do s\u00e9culo II que denunciava as heresias nele contidas. Segundo estas fontes, o evangelho ap\u00f3crifo de Judas devia ser um texto grego de origem gn\u00f3stica, escrito pela seita dos cainitas, em meados do s\u00e9culo II. Esta seita dava um valor positivo a todas as figuras negativas das escrituras judaicas e crist\u00e3s, como a serpente tentadora, Caim (da\u00ed o seu nome), Esa\u00fa e Judas. O presidente do Comit\u00e9 de Ci\u00eancias Hist\u00f3ricas do Vaticano, D. Walter Brandmuller, j\u00e1 afirmou que a tradu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 \u201cum testemunho precioso para conhecer melhor o Cristianismo primitivo\u201d. Fora de quest\u00e3o est\u00e1 uma revaloriza\u00e7\u00e3o de Judas, que teria, segundo os \u201ccrentes\u201d do Evangelho de Judas, colaborado no desenho de salva\u00e7\u00e3o de Deus para a humanidade. <i>Messianismo e trai\u00e7\u00e3o<\/i> A quest\u00e3o de fundo tem a ver, neste caso, com o entendimento do Messinanismo de Jesus. Como explica o exegeta Pe. Joaquim Carreira das Neves, o tema central da sua prega\u00e7\u00e3o e ac\u00e7\u00e3o \u2013 Reino de Deus \u2013, apresentado nos Evangelhos Sin\u00f3pticos, evoca os anseios pol\u00edtico-religiosos dos judeus. Desde os velhos tempos de antes do ex\u00edlio da Babil\u00f3nia (s\u00e9c. VI a. C.) que os judeus n\u00e3o viviam em independ\u00eancia pol\u00edtica. Tinham estado sujeitos a babil\u00f3nios, persas, gregos e romanos. A prega\u00e7\u00e3o do novo Profeta de Nazar\u00e9, com o seu poder taumat\u00fargico e com a sua doutrina \u201crevolucion\u00e1ria\u201d sobre o S\u00e1bado, Templo, Jejum, perd\u00e3o dos pecados, julgamento final, traz uma primavera de vida a todos os doentes, marginalizados e pecadores. O velho messianismo dos tempos de David e dos profetas regressa. Nem admira que o povo O evoque com o t\u00edtulo de \u201cFilho de David\u201d. Esta prega\u00e7\u00e3o de Jesus sobre a realeza (reino, reinado, soberania) \u00e9 deveras amb\u00edgua. E Jesus nunca exp\u00f4s de maneira clara o que deseja significar com semelhante doutrina.  As suas par\u00e1bolas \u2013 originalidade de Jesus \u2013 referem continuamente o \u201cReino de Deus\u201d (Mc 4, 16. 30; Mt 13, 14. 31. 33. 44. 45. 47). E a primeira palavra que Jesus pronuncia versa precisamente o Reino: \u201cDepois de Jo\u00e3o ter sido preso, Jesus foi para a Galileia, e proclamava o Evangelho de Deus, dizendo: \u2018Completou-se o tempo e o Reino de Deus est\u00e1 pr\u00f3ximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho\u2019\u201d (Mc 1, 14-15 e par.).  O povo simples, os pol\u00edticos religiosos, os herodianos e os seus pr\u00f3prios disc\u00edpulos mais \u00edntimos, a come\u00e7ar pelos Doze, pensaram que, finalmente, o Reino teocr\u00e1tico de David e Salom\u00e3o iria ter lugar por obra e gra\u00e7a daquele Profeta e taumaturgo (Mc 8, 11 e par.; 8, 32-33 e par.; 9, 33-37; 10, 35-45). Neste contexto, Judas aprece como um amigo \u00edntimo e de toda a confian\u00e7a de Jesus \u2013 \u00e9 o ec\u00f3nomo da comunidade. Se Judas entrega Jesus ao Sin\u00e9drio n\u00e3o foi por causa do dinheiro, mas para testar Jesus na sua pol\u00edtica religiosa. Judas era um judeu de Iscariotes e n\u00e3o um galileu. Esperava o Reino de Deus e convenceu-se \u2013 como os demais \u2013 que Jesus, com todo o seu poder de palavra e ac\u00e7\u00e3o, traria, finalmente, o Reino t\u00e3o desejado a Israel. Mas aconteceu que Jesus, na segunda parte da sua prega\u00e7\u00e3o na Galileia, deixa de operar milagres, pregar em par\u00e1bolas, para se dirigir de uma maneira especial aos disc\u00edpulos por causa das falsas ideias do seu messianismo. Nesta viragem \u00e9 natural que o amigo Judas, desencantado com Jesus, o entregue ao Sin\u00e9drio para que Jesus se resolva uma vez por todas a desencadear o Reino de maneira apocal\u00edptica e apote\u00f3tica. E nada melhor do que aproveitar a estadia em Jerusal\u00e9m, nas v\u00e9speras da P\u00e1scoa, para que a sua manobra pol\u00edtica resulte. Mas n\u00e3o resultou. Jesus foi mesmo para a Cruz. Judas, desesperado, n\u00e3o aguentou a press\u00e3o e suicidou-se. Semelhante atitude foi aproveitada pelos evangelistas como exemplo para os crist\u00e3os a n\u00e3o se deixarem sucumbir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o, transformando, assim, Judas em \u201ctraidor\u201d e \u201cavarento\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O evangelho ap\u00f3crifo de Judas \u00e9 mais um caso de sucesso medi\u00e1tico. A publica\u00e7\u00e3o do papiro, com 26 p\u00e1ginas, data do s\u00e9c. 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