{"id":16995,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/africa-deve-ser-prioridade-para-a-europa\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"africa-deve-ser-prioridade-para-a-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/africa-deve-ser-prioridade-para-a-europa\/","title":{"rendered":"\u00c1frica deve ser prioridade para a Europa"},"content":{"rendered":"<p>D. Alfredo Caires, Bispo da diocese de Mananjary, em Madag\u00e1scar, fala da sua experi\u00eancia de miss\u00e3o <!--more--> JORNAL da MADEIRA \u2014 Comunga do apelo do Papa Bento XVI em rela\u00e7\u00e3o a \u00c1frica?  D. Alfredo Caires \u2014 Sem d\u00favida. O apelo \u00e9 importante porque, neste momento, \u00c1frica est\u00e1 a ser deixada de lado mesmo pelas organiza\u00e7\u00f5es internacionais. D\u00e1-se o m\u00ednimo e responde-se com t\u00e3o pouco talvez porque aquele continente n\u00e3o oferece o petr\u00f3leo e as riquezas r\u00e1pidas. \u00c1frica, por outro lado, revela-se um bocado rebelde, com guerras fratricidas.  Neste cen\u00e1rio, \u00e9 leg\u00edtimo pergunta: quando \u00e9 que se fala de \u00c1frica na imprensa internacional? Que espa\u00e7o damos ao Congo que tem mais mortos do que o Iraque? Ou o Senegal e o Sud\u00e3o? N\u00e3o se fala, n\u00e3o h\u00e1 reportagens, os jornalistas t\u00eam medo de ir a \u00c1frica porque n\u00e3o h\u00e1 conven\u00e7\u00f5es a n\u00edvel da protec\u00e7\u00e3o como acontece na Europa, \u00e9 tudo uma aventura. Da\u00ed a necessidade de se apelar sempre para uma maior aten\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria a favor daquele continente.   JM \u2014 Em concreto, o que faz a  Igreja Cat\u00f3lica no terreno, por exemplo, na sua diocese?  AC \u2014 As nossas prioridades s\u00e3o no sentido de corresponder \u00e0s necessidades da popula\u00e7\u00e3o, em v\u00e1rios campos, na sa\u00fade, no ensino, na forma\u00e7\u00e3o. Para isso, contamos tamb\u00e9m com o trabalho de volunt\u00e1rios que partem da Europa por alguns per\u00edodos. E, neste aspecto, posso dizer que nunca houve tantos leigos nas ajudas de trabalho concreto na minha diocese. Os meus administradores, ali\u00e1s, s\u00e3o um jovem casal (casaram-se em Junho do ano passado e deram os primeiros dois anos da sua nova vida \u00e0s miss\u00f5es), t\u00e9cnicos de economia e de inform\u00e1tica. Mas, temos muitos outros no campo da sa\u00fade. Isto s\u00f3 prova que n\u00e3o basta dar, acho que \u00e9 tamb\u00e9m preciso ir a \u00c1frica, sem medo.  JM \u2014 Qual \u00e9 o seu grande projecto para Mananjary?  AC \u2014 \u00c9 a constru\u00e7\u00e3o de um hospital. Neste momento temos um hospital com apenas 20 camas para 900 mil habitantes. O bloco operat\u00f3rio \u00e9 deficit\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para se fazer uma cesariana, por exemplo. Devia ser o Estado a resolver estas situa\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode; e a Igreja tem o imperativo da caridade, o dever de ser express\u00e3o do amor de Deus, no dizer do Papa.  Por estas raz\u00f5es, vim agora \u00e0 Europa encontrar-me com m\u00e9dicos e arquitectos , volunt\u00e1rios amigos, para que se possa construir uma nova unidade hospitalar.  Outra tarefa urgente \u00e9 o ensino. Dentro de dias vamos inaugrar uma grande obra para crian\u00e7as da rua, carenciadas, cujas fam\u00edlias n\u00e3o t\u00eam possibilidades.   Balan\u00e7o dos \u00faltimos 25 anos JM \u2014 Encontrando-se em Madag\u00e1scar desde 1982, primeiro como mission\u00e1rio dehoniano, e desde 2001 como Bispo, que balan\u00e7o faz destes anos?  AC \u2014 Podemos dar gra\u00e7as a Deus pelo muito que nos ajudou a realizar. \u00c9 um trabalho imenso que s\u00f3 agora come\u00e7amos a ter a verdadeira no\u00e7\u00e3o do que foi feito, sobretudo no que se refere ao n\u00famero de comunidades crist\u00e3s. No distrito onde come\u00e7amos, no \u00ednicio, havia 13 comunidades e hoje s\u00e3o 140. Tamb\u00e9m nas miss\u00f5es em que os dehonianos assumiram responsabilidades regista-se o mesmo fen\u00f3meno.  Al\u00e9m disso, o nosso trabalho n\u00e3o aconteceu apenas nas nossas miss\u00f5es, mas alargou-se ao n\u00edvel de toda a diocese com a anima\u00e7\u00e3o dos movimentos de leigos. E neste aspecto evoluiu-se bastante. Por exemplo, ha 25 anos t\u00ednhamos nos encontros a participa\u00e7\u00e3o de 10 pessoas e hoje s\u00e3o mais de 200. Temos hoje capacidade para acolher milhares de pessoas, fruto da log\u00edstica, da organiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 material mas de recursos humanos bem preparados.  O campo da forma\u00e7\u00e3o de catequistas, por outro lado, foi um trabalho importante que os dehonianos fizeram em todos estes anos. O catequista em Madag\u00e1scar \u00e9 uma pessoa muito importante, pois, est\u00e1 em contacto directo com a popula\u00e7\u00e3o e tem a sua forma pr\u00f3pria de transmitir a viv\u00eancia crist\u00e3.  As comunidades aumentaram significativamente, s\u00e3o hoje mais de 700, e temos 35 padres para as celebra\u00e7\u00f5es dominicais. As pessoas pedem-nos mais assist\u00eancia pastoral, mas os lugares s\u00e3o distantes. Ainda assim, s\u00e3o 12 os sacerdotes diocesanos de origem malgaxe e temos 40 seminaristas que em breve ser\u00e3o ordenados.  Quanto \u00e0s Congrega\u00e7\u00f5es religiosas, temos mais de 60 Institutos, a maior parte de origem estrangeira, e com muitas voca\u00e7\u00f5es femininas. Integram-se bem, est\u00e3o h\u00e1 50 e 25 anos e at\u00e9 j\u00e1 enviam mission\u00e1rios para a Europa e a Am\u00e9rica latina.  Em resumo, a Igreja evoluiu bem e isto \u00e9 consolador como express\u00e3o de f\u00e9 de toda a comunidade.   JM \u2014 Entre as confiss\u00f5es religiosas, a Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 reconhecida?  AC \u2014 Entre as confiss\u00f5es religiosas a Igreja Cat\u00f3lica tem maior peso porque sempre se apresentou como a Igreja dos pobres. Enquanto a protestante est\u00e1 mais ligada \u00e0s classes favorecidas, desde o tempo da administra\u00e7\u00e3o colonial, a Cat\u00f3lica foi para todo o lado e esteve sempre presente, a trabalhar com toda a dedica\u00e7\u00e3o e sem fazer barulho. \u00c9 este o segredo que as seitas ainda n\u00e3o descobriram em Madag\u00e1sgar, ou seja, um trabalho silencioso e cont\u00ednuo, ao lado dos mais desfavorecidos.  Da parte das autoridades oficiais tamb\u00e9m somos bem acolhidos. Os governantes sentem que as Igrejas s\u00e3o factor fundamental no desenvolvimento integral do homem e, ao contr\u00e1rio do que se passa na sociedade europeia, os valores crist\u00e3os s\u00e3o assumidos de forma p\u00fablica, por exemplo, n\u00e3o h\u00e1 receio ou pol\u00e9mica em mostrar os crucifixos nas escolas. Como express\u00e3o de f\u00e9, tamb\u00e9m fazem parte da cultura.   A evan geliza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da r\u00e1dio  JM \u2014 Quais os desafios com que se defronta a mais a diocese de Mananjary, em termos de futuro?  AC \u2014 A diocese ainda est\u00e1 na fase da chamada primeira evangeliza\u00e7\u00e3o. E o ponto importante para o qual o Papa nos chamou a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o an\u00fancio permanente da mensagem de Jesus Cristo, sem medos, mesmo que isso custe, e n\u00e3o entrar numa esp\u00e9cie de relativismo.  O meu plano pastoral passa por aqui e pela forma\u00e7\u00e3o das comunidades, quer ao n\u00edvel dos leigos, catequistas e seminaristas. Neste momento, como j\u00e1 disse, temos o problema de n\u00e3o conseguir responder a todas as necessidades; ainda h\u00e1 muitos lugares que n\u00e3o viram um sacerdote ou uma religiosa; falta-nos capacidade de resposta porque, naquelas aldeias, n\u00e3o encontramos algu\u00e9m que saiba ler e n\u00e3o \u00e9 facil separar uma pessoa da sua fam\u00edlia, por uns meses, para adquirir a necess\u00e1ria forma\u00e7\u00e3o escolar, \u00e9 como ir para um outro pa\u00eds. Da\u00ed que apostamos tamb\u00e9m evangeliza\u00e7\u00e3o pela r\u00e1dio. Este projecto, felizmente, j\u00e1 est\u00e1 a funcionar, a r\u00e1dio chama-se &#8220;Viver&#8221; e a sua frequ\u00eancia \u00e9 92.2 FM. Para tal tiv\u00e9mos a ajuda da Confer\u00eancia Episcopal Italiana que nos ajudou na montagem e em parte do material de est\u00fadio, e da R\u00e1dio Cat\u00f3lica em Madag\u00e1scar, entre outros amigos e benfeitores.  A r\u00e1dio, neste caso, \u00e9 um ve\u00edculo muito importante como agente de evangeliza\u00e7\u00e3o e est\u00e1 a ter sucesso, mais do que se pensava. As pessoas ouvem com bastante interesse e fazem passar a mensagem.  O objectivo \u00e9 chegar cada vez mais longe, para encurtar a dist\u00e2ncia e estar com as pessoas. Ainda assim, existe um problema: n\u00e3o h\u00e1 electricidade nas aldeias, os aparelhos t\u00eam que ser a pilhas, e n\u00e3o h\u00e1 poder de compra. Distribuimos aparelhos a um pre\u00e7o baixo aos catequistas, mas nem toda a gente pode dispensar 4 mil francos malgaxes (5 euros) que \u00e9 quanto custa um aparelho de r\u00e1dio; ou at\u00e9 comprar uma B\u00edblia que custa mais ou menos 10 euros, na moeda europeia.  Sempre que vou em visita pastoral \u00e0s aldeias procuro incentivar para estes meios de evangeliza\u00e7\u00e3o, mas os desafios s\u00e3o grandes. A nossa esperan\u00e7a, no entanto, n\u00e3o esmorece perante as dificuldades; conhecemos bem o terreno e agradecemos a Deus a gra\u00e7a recebida para a miss\u00e3o.   <b>25 anos de presen\u00e7a dehoniana <\/b> A presen\u00e7a de mission\u00e1rios dehonianos ou Sacerdotes do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus em Madag\u00e1scar data de finais de 1974, atrav\u00e9s dos italianos.  Os primeiros religiosos madeirenses a chegarem ao territ\u00f3rio, em Janeiro de 1982, s\u00e3o os padres Jos\u00e9 Bairos Braga, Alfredo Caires e Manuel Jardim. Chamados por Mons. Xavier Tabao, ent\u00e3o bispo de Mananjary, iniciam em Dezembro de 1982 o seu trabalho mission\u00e1rio no distrito de Ifanadiana, a Sul de Madag\u00e1scar. Com a chegada sucessiva de novos mission\u00e1rios (italianos e portugueses) alarga-se o campo de trabalho. A norte, os italianos, em 1981, tomam conta do distrito de Andreba. A sul, os portugueses, em Fevereiro de 1985, responsabilizam-se pela miss\u00e3o no distrito de Antsenavolo; em Maio de 1987, est\u00e3o no distrito de Voilava; e em Junho de 1990 v\u00e3o para os distrito de Ambohimanga Sud.  \u201cConfio que este 25.\u00ba anivers\u00e1rio seja um desafio para outros mission\u00e1rios e volunt\u00e1rios, tamb\u00e9m madeirenses, pois, nunca s\u00e3o de mais\u201d, espera D. Alfredo Caires para a sua diocese.   <b>Madag\u00e1scar<\/b> A ilha de Madag\u00e1scar est\u00e1 situada ao largo da costa de Mo\u00e7ambique. Come\u00e7ou a ser colonizada por malaio-polin\u00e9sios h\u00e1 dois mil anos, recebendo depois imigrantes \u00e1rabes e africanos.  Os portugueses foram os primeiros europeus a chegar ao territ\u00f3rio, em 1500. Em 1896, tornou-se uma col\u00f3nia francesa. E a independ\u00eancia data de 1960.  A evangeliza\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica come\u00e7ou h\u00e1 46 anos, atrav\u00e9s dos jesu\u00edtas. Em1968, Mananjary tornou-se diocese. Trata-se de uma diocese com uma popula\u00e7\u00e3o de 900 mil habitantes, muito jovem, com 75 por cento abaixo dos trinta anos: \u201cuma grande esperan\u00e7a para a Igreja\u201d, segundo o actual bispo D. Alfredo Caires de N\u00f3brega.  \u201cA sa\u00fade \u00e9 grande problema, enquanto o ensino est\u00e1 a melhorar .  A diocese tem muitas escolas, v\u00e1rios col\u00e9gios e neste ano lectivo abriu o liceu, pensado e desejado h\u00e1 muito. Come\u00e7amos tamb\u00e9m este ano uma escola de inform\u00e1tica. Mas, outro problema, no distrito de Mananjary, \u00e9 a falta de emprego.  A maior ocupa\u00e7\u00e3o verifica-se precisamente no ensino, mas outros trabalham na agricultura ou procuram outros distritos; em geral, n\u00e3o h\u00e1 um mercado de trabalho em Madag\u00e1scar. E tamb\u00e9m no campo agr\u00edcola h\u00e1 dificuldades no escoamento de produtos, por muitos m\u00e9todos e meios que se providenciem, a teoria e a pr\u00e1tica n\u00e3o se coadunam\u201d, disse D. Alfredo ao Jornal da Madeira  Os cat\u00f3licos em Manajary s\u00e3o pouco mais de 15 por cento, mas os simpatizantes ultrapassam os 50 por cento. \u201cO cristianismo, como aprendemos e vivemos na Europa n\u00e3o corresponde sempre \u00e0 mentalidade, aos valores, aos conceitos de vida dos malgaxes.  Esfo\u00e7armo-nos por entender a vida das popula\u00e7\u00f5es locais, a sua f\u00e9, tradi\u00e7\u00e3o e a mentalidade cultural ; s\u00f3 depois partimos para o testemunho, de modo que tamb\u00e9m possamos ser compreendidos por eles; ao mesmo tempo que vamos ao encontro das suas necessidades materiais, num trabalho cont\u00ednuo e dedicado. Na diocese tenho um organismo com mais de 40 t\u00e9cnicos para o apoio ao desenvolvimento, seja na agricultura, no ensino ou nas cat\u00e1strofes naturais\u201d, sublinhou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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