{"id":16992,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-fantasia-da-caridade-evangelizacao-e-predileccao-pelos-pobres\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-fantasia-da-caridade-evangelizacao-e-predileccao-pelos-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-fantasia-da-caridade-evangelizacao-e-predileccao-pelos-pobres\/","title":{"rendered":"<i>A fantasia da caridade: evangeliza\u00e7\u00e3o e predilec\u00e7\u00e3o pelos pobres<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Catequese do Cardeal-Patriarca de Lisboa no 3\u00ba Domingo da Quaresma <!--more--> 1. A clareza com que o Novo Testamento afirma que toda a Lei se resume a um \u00fanico mandamento, o amor a Deus e o amor ao pr\u00f3ximo, n\u00e3o s\u00f3 apresenta a caridade como plenitude da Lei, mas afirma-a como prioridade absoluta na vida de cada crist\u00e3o e da Igreja como Povo do Senhor. A caridade \u00e9 prioridade existencial e pastoral. Como diz o Santo Padre na sua recente Enc\u00edclica, \u201ctoda a actividade da Igreja \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o dum amor que procura o bem integral do homem. Procura a sua evangeliza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da Palavra e dos sacramentos (\u2026); procura a sua promo\u00e7\u00e3o nos v\u00e1rios \u00e2mbitos da vida e da actividade humana\u201d[1].  A caridade preside a toda a vida dos crist\u00e3os, exprimindo-se em todas as suas concretiza\u00e7\u00f5es; ela \u00e9 a garantia e o fundamento da fidelidade crist\u00e3.  Esta prioridade da caridade est\u00e1 expressa em todos os outros mandamentos: a adora\u00e7\u00e3o de Deus, dando-Lhe em tudo a gl\u00f3ria devida ao Seu Santo Nome; a fam\u00edlia concebida como comunh\u00e3o de amor; a viv\u00eancia da sexualidade humana enquanto dinamismo de amor e dom, e o seu crescimento, atrav\u00e9s da virtude da castidade, at\u00e9 ser fonte de amor gratuito e generoso (\u00e1gape); o uso dos bens materiais, guiado pelas exig\u00eancias do amor fraterno; os direitos absolutos da verdade e a exclus\u00e3o da mentira nas rela\u00e7\u00f5es humanas e na abordagem da realidade. Apenas alguns destes aspectos ser\u00e3o tema das catequeses dos domingos seguintes. Esta prioridade absoluta da caridade na vida pessoal do crist\u00e3o, \u00e9 j\u00e1 claramente afirmada nas cartas do Ap\u00f3stolo Paulo. Perante as exig\u00eancias da caridade, n\u00e3o apenas se relativizam as diferen\u00e7as humanas, mas ela gera todas as atitudes que identificam o modo crist\u00e3o de viver. \u201cCom efeito, em Cristo Jesus, n\u00e3o contam nem a circuncis\u00e3o, nem a incircunscis\u00e3o, mas apenas a f\u00e9, operante na caridade\u201d (Gal. 5,6). E acrescenta a seguir: \u201cO fruto do Esp\u00edrito \u00e9 a caridade, a alegria, a paz, a paci\u00eancia, a bondade, a benevol\u00eancia, a f\u00e9, a mansid\u00e3o e o dom\u00ednio de si. Contra estas coisas n\u00e3o existe lei\u201d (Gal. 5,22).  Mas a caridade preside a toda a ac\u00e7\u00e3o pastoral da Igreja como Povo do Senhor e Corpo de Cristo. Jo\u00e3o Paulo II afirmara que Jesus Cristo \u00e9 o programa pastoral da Igreja[2]. E Bento XVI, na sua recente Enc\u00edclica, afirma: \u201cA natureza \u00edntima da Igreja exprime-se num tr\u00edplice dever: an\u00fancio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebra\u00e7\u00e3o dos Sacramentos (leiturgia), servi\u00e7o da caridade (diakonia). S\u00e3o deveres que se reclamam mutuamente, n\u00e3o podendo um ser separado dos outros. Para a Igreja, a caridade n\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de actividade de assist\u00eancia social que se poderia mesmo deixar a outros, mas pertence \u00e0 natureza, \u00e9 express\u00e3o irrenunci\u00e1vel, da sua pr\u00f3pria ess\u00eancia\u201d[3].  Daqui podemos concluir que a caridade \u00e9 o programa pastoral da Igreja.   A natureza sobrenatural da caridade  2. A caridade n\u00e3o se confunde nem se reduz \u00e0 filantropia. \u00c9 um grau de amor em que o crist\u00e3o participa do pr\u00f3prio amor de Jesus Cristo, fruto da uni\u00e3o com Ele, realizada no baptismo e actuada pelo Esp\u00edrito Santo, dom pascal por excel\u00eancia aos que acreditaram na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus e, pelo baptismo, mergulharam no mist\u00e9rio da Sua morte.  O Santo Padre afirma na Enc\u00edclica: \u201cO Esp\u00edrito \u00e9 a for\u00e7a interior que harmoniza os seus cora\u00e7\u00f5es com o cora\u00e7\u00e3o de Cristo e os leva a amar os irm\u00e3os como Ele os amou, quando se inclinou para lavar os p\u00e9s dos disc\u00edpulos (cf. Jo. 13,1; 15,13) e, sobretudo, quando deu a Sua vida por todos (cf. Jo. 13,1; 15,13). O Esp\u00edrito \u00e9 tamb\u00e9m for\u00e7a que transforma o cora\u00e7\u00e3o da comunidade eclesial, para ser, no mundo, testemunha do amor do Pai, que quer fazer da humanidade uma \u00fanica fam\u00edlia, no Seu Filho\u201d[4]. Fruto por excel\u00eancia da P\u00e1scoa de Cristo, a caridade como amor dos irm\u00e3os e entre irm\u00e3os, brota, como dom e exig\u00eancia, da celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia. A\u00ed a Igreja ama a Deus, participando do amor do Filho para com o Pai, aprofunda a comunh\u00e3o de amor entre os seus membros e envolve numa solicitude particular os pobres e os doentes. Segundo a mais antiga tradi\u00e7\u00e3o, para a Eucaristia se levavam as ofertas para os pobres e a partir dela eram distribu\u00eddas, levando aos mais necessitados, n\u00e3o apenas os dons materiais, mas o calor da comunh\u00e3o fraterna. A caridade, concretizada a partir da Eucaristia, brota da uni\u00e3o da Igreja ao mist\u00e9rio da Sant\u00edssima Trindade, por Jesus Cristo. Como dizia Santo Agostinho, \u201cse v\u00eas a caridade, v\u00eas a Trindade\u201d[5].  A caridade \u00e9, assim, consequ\u00eancia e express\u00e3o da f\u00e9, na esperan\u00e7a da sua plenitude. Enquanto somos peregrinos neste mundo, s\u00f3 na f\u00e9 e na esperan\u00e7a o nosso cora\u00e7\u00e3o se abre \u00e0 caridade, que consiste em amar como Deus ama, mas s\u00f3 a caridade \u00e9 an\u00fancio e antecipa\u00e7\u00e3o da vida eterna. Quando amamos como Deus ama, tocamos a eternidade. \u00c9 a conclus\u00e3o do Ap\u00f3stolo Paulo no conhecido hino \u00e0 caridade: \u201ca f\u00e9, a esperan\u00e7a e a caridade permanecem as tr\u00eas, mas a maior entre elas \u00e9 a caridade\u201d (1Co. 13,13).  Porque se trata de um dom do Esp\u00edrito Santo, o sujeito da caridade \u00e9 tanto a Igreja como cada crist\u00e3o. Ou\u00e7amos, mais uma vez, o Santo Padre: \u201co amor do pr\u00f3ximo, radicado no amor de Deus, \u00e9 um dever, antes de mais, para cada um dos fi\u00e9is, mas \u00e9-o tamb\u00e9m para a comunidade eclesial inteira, e isto a todos os n\u00edveis: da comunidade local, passando pela Igreja particular, at\u00e9 \u00e0 Igreja universal na sua globalidade. A Igreja, enquanto comunidade, tamb\u00e9m deve praticar o amor\u201d[6].   A predilec\u00e7\u00e3o pelos pobres  3. Sem esquecer a pobreza como atitude espiritual, que Jesus apresenta como uma das caracter\u00edsticas do Reino \u2013 \u201cbem-aventurados os que t\u00eam um cora\u00e7\u00e3o de pobre\u201d (Mt. 5,3), Jesus n\u00e3o esquece os pobres reais, incluindo nessa categoria os mais d\u00e9beis da sociedade, os que mais precisam da solicitude dos irm\u00e3os. \u00c9 uma concretiza\u00e7\u00e3o da par\u00e1bola da ovelha perdida e ferida, que o pastor bom leva ao colo. Esta solicitude pelos mais d\u00e9beis \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o maior da caridade e ser\u00e1 o crit\u00e9rio do \u00faltimo julgamento dos disc\u00edpulos de Cristo: \u201cVinde benditos de Meu Pai, recebei a heran\u00e7a do Reino que est\u00e1 preparada para v\u00f3s desde o in\u00edcio do mundo. Porque eu tive fome e deste-me de comer, tive sede e deste-me de beber, era um estrangeiro e acolheste-me, nu e vestiste-me, doente e visitaste-me, estava preso e vieste ver-me\u201d (Mt. 25,34-36). \u201cNa verdade, o que fizestes aos mais pequeninos dos meus irm\u00e3os, foi a Mim que o fizestes\u201d (v. 40).  A caridade \u00e9 participa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio amor de Jesus Cristo por n\u00f3s, \u201cEle, que sendo rico, fez-Se pobre por v\u00f3s, para vos enriquecer com a Sua pobreza\u201d (2Co. 8,9). H\u00e1 uma unidade insepar\u00e1vel entre o nosso amor a Deus e o amor dos pobres: \u201cSe algu\u00e9m v\u00ea o seu irm\u00e3o em necessidade e lhe fecha o cora\u00e7\u00e3o, como pode estar nele o amor de Deus?\u201d (1Jo. 3,17).  A caridade praticada e n\u00e3o apenas afirmada, faz parte da verdade hist\u00f3rica da Igreja e \u00e9 uma sua caracter\u00edstica essencial. O Papa Bento XVI afirma: \u201cCom o passar dos anos e a progressiva difus\u00e3o da Igreja, a pr\u00e1tica da caridade confirmou-se como uma das suas fun\u00e7\u00f5es essenciais, juntamente com a celebra\u00e7\u00e3o dos Sacramentos e o an\u00fancio da Palavra: praticar o amor para com as vi\u00favas e os \u00f3rf\u00e3os, os presos, os doentes e necessitados de qualquer g\u00e9nero, pertence tanto \u00e0 sua ess\u00eancia como o servi\u00e7o dos Sacramentos e o an\u00fancio do Evangelho. A Igreja n\u00e3o pode descurar o servi\u00e7o da caridade, tal como n\u00e3o pode negligenciar os Sacramentos nem a Palavra\u201d[7]. Portanto, n\u00e3o pode haver programa\u00e7\u00e3o pastoral que n\u00e3o coloque no centro, como foco irradiador, a pr\u00e1tica da caridade, respondendo \u00e0s exig\u00eancias concretas do tempo que passa.   4. Porque \u00e9 express\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o no amor salv\u00edfico de Jesus Cristo por todos os homens, a caridade crist\u00e3 n\u00e3o conhece limites, nem fronteiras. Para o crist\u00e3o todo o homem que precisa \u00e9 seu irm\u00e3o. Somos, felizmente,  contempor\u00e2neos de grandes testemunhas desta universalidade da caridade, como a Irm\u00e3 Teresa de Calcut\u00e1.      Esse \u00e9, tamb\u00e9m, o solene ensinamento do actual Papa: \u201cA Igreja \u00e9 a fam\u00edlia de Deus no mundo. Nesta fam\u00edlia n\u00e3o deve haver ningu\u00e9m que sofra por falta do necess\u00e1rio. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, a caritas-\u00e1gape estende-se para al\u00e9m das fronteiras da Igreja; a par\u00e1bola do bom Samaritano permanece como crit\u00e9rio de medida, impondo a universalidade do amor que se inclina para o necessitado encontrado \u00abpor acaso\u00bb (cf. Lc. 10,31), seja ele quem for. Mas, ressalvada esta universalidade do mandamento do amor, existe tamb\u00e9m uma exig\u00eancia especificamente eclesial \u2013 precisamente a exig\u00eancia de que, na pr\u00f3pria Igreja enquanto fam\u00edlia, nenhum membro sofra por passar necessidade. Neste sentido se pronuncia a Carta aos G\u00e1latas: \u00abPortanto, enquanto temos tempo, pratiquemos o bem para com todos, mas principalmente para com os irm\u00e3os na f\u00e9\u00bb (6,10)\u201d[8].   A caridade como prioridade pastoral  5. Por tudo quanto acabamos de dizer, a caridade deve ser a exig\u00eancia a inspirar todas as op\u00e7\u00f5es pastorais da Igreja, em todos os \u00e2mbitos do seu minist\u00e9rio. Acolher o Amor e amar como Deus ama, \u00e9 a ess\u00eancia do ser da Igreja.  N\u00e3o vamos, agora, referir todas as concretiza\u00e7\u00f5es da exig\u00eancia da caridade na variada amplitude da ac\u00e7\u00e3o da Igreja, restringindo-nos \u00e0 caridade enquanto amor dos mais pobres e dos mais d\u00e9beis. A Igreja encarna na sua ac\u00e7\u00e3o pastoral a predilec\u00e7\u00e3o de Jesus pelos pobres e pelos pequeninos, os que ter\u00e3o prioridade no Reino de Deus. N\u00e3o podemos, no entanto, esquecer que a caridade \u00e9 um dom de Deus, ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo na Igreja e no cora\u00e7\u00e3o de cada crist\u00e3o e que ela sup\u00f5e, para brotar como fruto espont\u00e2neo, a vida sobrenatural em todas as suas express\u00f5es. Sem essa conviv\u00eancia \u00edntima com Deus, o nosso amor de crist\u00e3os n\u00e3o ir\u00e1 al\u00e9m da bondade e generosidade naturais, da filantropia que se traduz em express\u00f5es de solidariedade. A caridade \u00e9 t\u00e3o sobrenatural como a adora\u00e7\u00e3o e a Eucaristia. \u00c9 da intimidade com Cristo que a Igreja recebe o dom da caridade.  Dimens\u00e3o pessoal e comunit\u00e1ria da caridade  6. Para tomarmos consci\u00eancia das concretiza\u00e7\u00f5es desta prioridade da caridade na vida crist\u00e3, conv\u00e9m ter em conta que a caridade \u00e9 exig\u00eancia para as pessoas e para a comunidade eclesial.  Como express\u00e3o pessoal, a caridade \u00e9 o sinal, por excel\u00eancia, da fidelidade do crist\u00e3o. \u00c9 um fen\u00f3meno de conviv\u00eancia e uma dimens\u00e3o de vizinhan\u00e7a, \u00e9 uma maneira de estar com os outros. Nenhuma institui\u00e7\u00e3o ou estrutura da caridade organizada, cobre todas as exig\u00eancias do amor fraterno. Este surpreende-nos sempre no rosto sofrido do irm\u00e3o em necessidade. \u00c9 nesse rosto que n\u00f3s descobrimos o rosto do pr\u00f3prio Cristo.  Mas a Igreja, como comunidade e Povo do Senhor, deve praticar a caridade. \u00c9 nesse \u00e2mbito que surge a necessidade da caridade organizada, sem esquecer que nenhuma organiza\u00e7\u00e3o poder\u00e1 substituir o calor do cora\u00e7\u00e3o. Como dizia Santa Teresa de Lisieux, \u201co amor \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o da Igreja\u201d.  Como o Santo Padre nos recorda na Carta Enc\u00edclica, desde a era apost\u00f3lica as comunidades crist\u00e3s organizaram-se para a pr\u00e1tica do amor fraterno[9]. Desde os sete di\u00e1conos escolhidos para o servi\u00e7o das mesas (Act. 6,5-6) ou a pr\u00e1tica de os crist\u00e3os porem tudo em comum na Igreja de Jerusal\u00e9m (Act. 2,44-45), muitas foram, ao longo dos s\u00e9culos, as formas organizadas da caridade: diaconias, ordens religiosas, irmandades, miseric\u00f3rdias. Todas tinham em comum serem um servi\u00e7o que permitia \u00e0 Igreja, enquanto comunidade, alargar os horizontes do amor fraterno. A organiza\u00e7\u00e3o da caridade fez, desde o in\u00edcio, parte do rosto vis\u00edvel da Igreja como comunidade organizada. Na nossa Igreja diocesana s\u00e3o hoje numerosas as institui\u00e7\u00f5es que corporizam esta organiza\u00e7\u00e3o da caridade, em nome da Igreja: a Caritas, as Miseric\u00f3rdias, os Centros Sociais Paroquiais, Confrarias e novas organiza\u00e7\u00f5es que procuram responder a problemas novos da sociedade contempor\u00e2nea, como por exemplo, a \u201cComunidade Vida e Paz\u201d para apoio aos \u201csem-abrigo\u201d. Estas estruturas comportam um risco e encerram um desafio. O risco de se aterem a aspectos t\u00e9cnicos da assist\u00eancia social; o desafio de todos os que nelas servem, terem uma vida crist\u00e3 que lhes permita serem testemunhas do amor-caridade. Em todas estas estruturas deve ser claro que o amor \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o da Igreja.   A caridade como express\u00e3o da presen\u00e7a da Igreja na cidade  7. Os problemas da pobreza e da ajuda aos mais d\u00e9beis \u00e9, hoje, responsabilidade da sociedade como um todo e, particularmente, dos Estados. Trata-se da promo\u00e7\u00e3o de modelos de sociedade que implementem a justi\u00e7a e que percebam que o amor \u00e9 a principal for\u00e7a da constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade justa. A Igreja n\u00e3o pode, nem quer, assumir sozinha essa luta pela justi\u00e7a, mas colabora, atrav\u00e9s dos crist\u00e3os e das institui\u00e7\u00f5es de caridade organizada, nessa busca de uma sociedade mais justa e fraterna. Conv\u00e9m relembrar, a este prop\u00f3sito, um l\u00facido texto da Enc\u00edclica \u201cDeus \u00e9 amor\u201d: \u201cA Igreja n\u00e3o pode nem deve tomar, nas suas pr\u00f3prias m\u00e3os, a batalha pol\u00edtica para construir a sociedade mais justa poss\u00edvel. N\u00e3o pode nem deve colocar-se no lugar do Estado. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode nem deve ficar \u00e0 margem na luta pela justi\u00e7a. Deve inserir-se nela pela via da argumenta\u00e7\u00e3o racional, e despertar as for\u00e7as espirituais, sem as quais a justi\u00e7a, que sempre requer ren\u00fancias, n\u00e3o poder\u00e1 afirmar-se nem prosperar. A sociedade justa n\u00e3o pode ser obra da Igreja; deve ser realizada pela pol\u00edtica. Mas toca \u00e0 Igreja, e profundamente, empenhar-se a favor da justi\u00e7a, trabalhando para a abertura da intelig\u00eancia e da vontade \u00e0s exig\u00eancias do bem\u201d[10].  Gra\u00e7as a Deus, a nossa sociedade e o Estado Portugu\u00eas, t\u00eam aceite esta coopera\u00e7\u00e3o com as Institui\u00e7\u00f5es da Igreja, na ajuda aos mais pobres e necessitados. As pessoas e as Institui\u00e7\u00f5es que promovem o amor fraterno, s\u00e3o uma forte express\u00e3o da presen\u00e7a da Igreja na Cidade.  Nenhum est\u00e1dio avan\u00e7ado de justi\u00e7a social dispensa a caridade. Ou\u00e7amos mais um texto de Bento XVI: \u201cO amor \u2013 Caritas \u2013 ser\u00e1 sempre necess\u00e1rio, mesmo na sociedade mais justa. N\u00e3o h\u00e1 qualquer ordenamento estatal justo que possa tornar sup\u00e9rfluo o servi\u00e7o do amor. Quem prescinde do amor, prepara-se para se desfazer do ser humano enquanto ser humano. Sempre haver\u00e1 sofrimento a precisar de consola\u00e7\u00e3o e ajuda. Sempre haver\u00e1 solid\u00e3o. Existir\u00e3o sempre situa\u00e7\u00f5es de necessidade material, para as quais \u00e9 indispens\u00e1vel uma ajuda na linha de um amor concreto ao pr\u00f3ximo. Um Estado, que queira prover a tudo e tudo a\u00e7ambarcar, torna-se, no fim de contas, uma inst\u00e2ncia burocr\u00e1tica que n\u00e3o pode assegurar o essencial de que o ser humano sofredor \u2013 todo o ser humano \u2013 tem necessidade: a amorosa dedica\u00e7\u00e3o pessoal. N\u00e3o precisamos de um Estado que regule e domine tudo, mas de um Estado que generosamente reconhe\u00e7a e apoie, segundo o princ\u00edpio de subsidiariedade, as iniciativas que nascem das diversas for\u00e7as sociais e conjugam espontaneidade e proximidade \u00e0s pessoas carecidas de ajuda. A Igreja \u00e9 uma destas for\u00e7as vivas: nela pulsa a din\u00e2mica do amor suscitado pelo Esp\u00edrito de Cristo. Este amor n\u00e3o oferece aos seres humanos apenas uma ajuda material, mas tamb\u00e9m refrig\u00e9rio e cuidado para a alma \u2013 ajuda esta, muitas vezes, mais necess\u00e1ria que o apoio material. A afirma\u00e7\u00e3o de que as estruturas justas tornariam sup\u00e9rfluas as obras de caridade esconde, de facto, uma concep\u00e7\u00e3o materialista do ser humano: o preconceito segundo o qual o ser humano viveria \u00abs\u00f3 de p\u00e3o\u00bb (Mt. 4,4; cf. Dt. 8,3) \u2013 convic\u00e7\u00e3o que humilha a pessoa e ignora precisamente aquilo que \u00e9 mais especificamente humano\u201d[11].  Se o amor-caridade \u00e9 uma for\u00e7a para a erradica\u00e7\u00e3o da pobreza e das desigualdades injustas, ele permanece, como express\u00e3o perene, em qualquer est\u00e1dio de constru\u00e7\u00e3o da sociedade, porque s\u00f3 a caridade faz a ponte entre o presente hist\u00f3rico e a eternidade.    S\u00e9 Patriarcal, 19 de Mar\u00e7o de 2006  <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/i>  [1] Bento XVI, Carta Enc\u00edclica \u201cDeus \u00e9 amor\u201d, n.\u00ba 19 [2] Cf. Novo Millennio Ineunte, n.\u00ba 29 [3] Bento XVI, Ibidem, n.\u00ba 25   [4] Ibidem, n.\u00ba 19 [5] Ibidem, n.\u00ba 19 [6] Ibidem, n.\u00ba 20 [7] Ibidem, n.\u00ba 22 [8] Ibidem, n.\u00ba 25 [9] Ibidem, ns. 20-24 [10] Ibidem, n.\u00ba 28 [11] Ibidem, n.\u00ba 28<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Catequese do Cardeal-Patriarca de Lisboa no 3\u00ba Domingo da Quaresma<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,127,206,223,237,275,91,294,314],"class_list":["post-16992","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-catequese","tag-familia","tag-igreja-na-cidade","tag-joao-paulo-ii","tag-pascoa","tag-quaresma","tag-sacramentos","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16992","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16992"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16992\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16992"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16992"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16992"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}