{"id":169702,"date":"2020-04-09T17:00:36","date_gmt":"2020-04-09T16:00:36","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=169702"},"modified":"2020-04-09T12:29:38","modified_gmt":"2020-04-09T11:29:38","slug":"homilia-do-bispo-do-funchal-na-missa-da-ceia-do-senhor-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-funchal-na-missa-da-ceia-do-senhor-2\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo do Funchal na Missa da Ceia do Senhor"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->\u201cTendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os at\u00e9 ao fim\u201d (Jo 13,1) \u2014 deste modo iniciava o evangelista S. Jo\u00e3o o relato da \u00daltima Ceia que acab\u00e1mos de escutar.<\/p>\n<ol>\n<li>A quest\u00e3o \u00e9 de amor. Mas n\u00e3o daquilo a que n\u00f3s erradamente chamamos \u201camor\u201d, cheio de ego\u00edsmo. Para S. Jo\u00e3o, o amor como que resume toda a vida de Jesus. N\u00e3o espanta portanto que o mesmo evangelista, tempos depois, tenha resumido com essa mesma realidade o pr\u00f3prio ser de Deus: \u201cDeus \u00e9 amor: aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele\u201d (1Jo 4,16). Amor \u00e9 a vida de Deus. Ou seja: depois de estar, de viver com Jesus e, sobretudo, depois de viver o momento da cruz, S. Jo\u00e3o n\u00e3o hesita em retirar essa conclus\u00e3o que podemos considerar como \u201crevolucion\u00e1ria\u201d, e que marcar\u00e1, para sempre, a compreens\u00e3o que n\u00f3s, seres humanos, temos de Deus.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Que Deus tivesse amor ao seu povo, j\u00e1 Israel o tinha compreendido. Que Deus criasse tudo quanto existe como realidade boa, j\u00e1 era afirmado desde as primeiras p\u00e1ginas da Escritura. Mas que Deus fosse amor; que o seu ser fosse amor; que Ele n\u00e3o pudesse ser outra coisa sen\u00e3o amor, isso apenas foi percept\u00edvel a partir da cruz de Jesus Cristo. Essa \u00e9 a marca distintiva do cristianismo.<\/p>\n<p>E, assim, aqueles que vivem com Deus s\u00e3o os \u201camados\u201d (<a href=\"https:\/\/biblehub.com\/greek\/27.htm\">\u1f08\u03b3\u03b1\u03c0\u03b7\u03c4\u03bf\u03af<\/a>), aqueles que participam do ser de Deus que \u00e9 amor: \u201cAmados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Aquele que n\u00e3o ama n\u00e3o conheceu a Deus, porque Deus \u00e9 amor\u201d, diz ainda S. Jo\u00e3o (1Jo 4,7-8). \u201cAmados\u201d: esse \u00e9, nos escritos de S. Jo\u00e3o, o novo nome dos disc\u00edpulos. \u00c9, verdadeiramente, uma nova identidade que o ser humano passa a ter e que nos caracteriza: amados por Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>Mas S. Jo\u00e3o afirma que este amor que ele pr\u00f3prio experimentou \u00e9 um \u201camor at\u00e9 ao fim\u201d. Que nos quer dizer S. Jo\u00e3o com este \u201cat\u00e9 ao fim\u201d (<a href=\"https:\/\/biblehub.com\/greek\/1519.htm\">\u03b5\u1f30\u03c2<\/a> <a href=\"https:\/\/biblehub.com\/greek\/5056.htm\">\u03c4\u03ad\u03bb\u03bf\u03c2<\/a>)?<\/li>\n<\/ol>\n<p>Podemos dizer que se trata de uma atitude de Jesus que marcou a sua vida do in\u00edcio at\u00e9 ao momento em que, na cruz, exclamou: \u201ctudo est\u00e1 consumado!\u201d (Jo 19,30). Jesus amou os disc\u00edpulos desde que nasceu at\u00e9 \u00e0 sua morte. Toda a sua vida foi um acto de amor. Foi por amor que o Verbo se fez carne. Foi por amor que escolheu os disc\u00edpulos. Foi por amor que mudou a \u00e1gua em vinho; que curou o cego; que ressuscitou L\u00e1zaro; que celebrou com os seus a \u00daltima Ceia e lhes lavou os p\u00e9s; e, por fim, foi por amor que morreu na cruz e ressuscitou.<\/p>\n<p>Mas podemos \u2014 e devemos \u2014 ir mais longe. \u201cAt\u00e9 ao fim\u201d quer tamb\u00e9m dizer: \u201ccompletamente\u201d, sem falha alguma, entregando toda a sua vida \u00e0queles que ama, sem nada reservar para si, sem qualquer ponta de ego\u00edsmo. Amou-os at\u00e9 ao m\u00e1ximo em que \u00e9 poss\u00edvel amar, e do modo em que apenas Deus pode amar: de uma forma perfeita, completa. Ele pr\u00f3prio o disse: \u201cNingu\u00e9m tem maior amor que aquele que d\u00e1 a vida pelos amigos\u201d (Jo 15,13).<\/p>\n<p>E o gesto do \u201clava-p\u00e9s\u201d \u00e9 sinal disso mesmo: \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o e antecipa\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de um gesto simb\u00f3lico realizado durante a \u00daltima Ceia, do que haveria de suceder no dia seguinte, na cruz. \u201cSe n\u00e3o te lavar os p\u00e9s, n\u00e3o ter\u00e1s parte comigo\u201d, diz o Senhor a Pedro. O mesmo \u00e9 dizer: se n\u00e3o deixares que te salve na cruz, n\u00e3o ter\u00e1s parte comigo. E ao ladr\u00e3o arrependido: \u201choje estar\u00e1s comigo no para\u00edso\u201d (Lc 23,43).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li>Mas S. Jo\u00e3o afirma tamb\u00e9m que Jesus \u201camou os seus\u201d. Quem s\u00e3o estes que Jesus amou? S\u00e3o aqueles disc\u00edpulos que Ele chamou no in\u00edcio da sua vida p\u00fablica; a quem convidou para partilhar o seu quotidiano como embri\u00e3o de Igreja (Jo 1,35-44); que presenciaram os sinais por Ele realizados \u2014 Judas inclu\u00eddo; que, no momento da Paix\u00e3o, n\u00e3o foram capazes da fidelidade; aqueles que Jesus voltou a encontrar depois de ressuscitado e a quem enviou como o pr\u00f3prio Pai O tinha enviado (Jo 20,21). S\u00e3o aqueles que lhe pertencem.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Mas, tamb\u00e9m aqui, podemos e devemos ir mais longe. Os \u201cseus\u201d s\u00e3o muitos mais que aqueles reunidos na \u00daltima Ceia. Os \u201cseus\u201d, aqueles que pertencem a Jesus, s\u00e3o todos os seus disc\u00edpulos: \u201cManifestei o teu nome aos homens que, do mundo, me deste. Eram teus e Tu mos deste, e eles guardaram a tua palavra [\u2026]. N\u00e3o pe\u00e7o apenas por estes, mas tamb\u00e9m por aqueles que acreditam em mim, por meio da sua palavra\u201d (Jo 17,6.20).<\/p>\n<p>Os \u201cseus\u201d somos n\u00f3s que hoje lhe pertencemos, e todos quantos, at\u00e9 ao fim da hist\u00f3ria acreditam, quer dizer: quantos se deixam moldar pela sua palavra.<\/p>\n<p>Somos aqueles que o Senhor ama \u201cat\u00e9 ao fim\u201d. Somos os \u201camados\u201d por Ele. E como se mostra esse amor at\u00e9 ao fim que Jesus tem por cada um de n\u00f3s, com a mesma intensidade e plenitude que \u00e0queles Doze? Mostra-se, certamente, na cruz, quando Ele assume a nossa morte \u201cat\u00e9 ao fim\u201d, a ponto de dizer: \u201cTudo est\u00e1 consumado\u201d. Mas mostra-se igualmente, e com n\u00e3o menos intensidade, naquele sacramento que, em cada tempo e lugar, torna presente a cruz de Jesus: a Eucaristia. Sim: o Senhor ama-nos de tal forma que permanece connosco. Tornou-se alimento, p\u00e3o da vida, presen\u00e7a verdadeira e real para que nunca nos possamos separar dele.<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li>Mas os \u201cseus\u201d, aqueles que o Senhor ama \u201cat\u00e9 ao fim\u201d, est\u00e3o no mundo. Sabemos que, em S. Jo\u00e3o, a palavra \u201cmundo\u201d (<a href=\"https:\/\/biblehub.com\/greek\/1722.htm\">\u1f10\u03bd<\/a> <a href=\"https:\/\/biblehub.com\/greek\/3588.htm\">\u03c4\u1ff7<\/a> <a href=\"https:\/\/biblehub.com\/greek\/2889.htm\">\u03ba\u03cc\u03c3\u03bc\u1ff3<\/a>) adquire dois sentidos: o mundo que se op\u00f5e a Deus e o mundo que Deus ama e quer salvar: \u201cDeus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho unig\u00e9nito\u201d (Jo 3,16).<\/li>\n<\/ol>\n<p>Os disc\u00edpulos do Senhor est\u00e3o no mundo. Estamos n\u00f3s no meio do mundo. Vivemos nele. \u00c9 neste \u201cmundo dos homens\u201d que trabalhamos; \u00e9 nele e com ele que nos tornamos \u201chumanos\u201d. \u00c9 esse mundo que h\u00e1-de receber o amor que brota da Eucaristia. \u00c9 ele que h\u00e1-de ser transformado pelos crist\u00e3os, a partir deste amor recebido e vivido \u00e0 volta da mesa que Jesus disp\u00f4s para nosso alimento.<\/p>\n<p>A Eucaristia \u2014 quando, ao celebrarmos, tamb\u00e9m n\u00f3s nos sentamos \u00e0 mesa do Senhor e comemos o seu Corpo e bebemos o seu Sangue \u2014 a Eucaristia afirma-nos a presen\u00e7a do Senhor connosco, ao nosso lado, em n\u00f3s.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que n\u00e3o a podemos nunca dispensar. A Eucaristia \u00e9 o nosso alimento, alimento de vida. E, por isso, n\u00e3o vemos a hora em que, de novo, a possamos celebrar todos, j\u00e1 sem os media como intermedi\u00e1rios, mas presencialmente, uns com os outros. \u00c9 tamb\u00e9m quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia!<\/p>\n<p>Enquanto isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel e nos vemos obrigados a este \u201cjejum eucar\u00edstico\u201d, celebremos a P\u00e1scoa do Senhor na certeza de que Ele est\u00e1 connosco e nos quer com Ele. \u201cTendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os at\u00e9 ao fim\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e9 do Funchal, 9 de abril de 2020<\/p>\n<p><em>D. Nuno Br\u00e1s, bispo do Funchal<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":140015,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[186],"class_list":["post-169702","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-funchal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/169702","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=169702"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/169702\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/140015"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=169702"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=169702"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=169702"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}