{"id":169548,"date":"2020-04-08T15:29:46","date_gmt":"2020-04-08T14:29:46","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=169548"},"modified":"2020-04-08T15:29:46","modified_gmt":"2020-04-08T14:29:46","slug":"lusofonias-ecos-no-planalto-de-angola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/lusofonias-ecos-no-planalto-de-angola\/","title":{"rendered":"LUSOFONIAS &#8211; Ecos no planalto de Angola"},"content":{"rendered":"<p><em>Tony Neves, em Roma<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/tony13-kuito.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-169551  alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/tony13-kuito.jpg\" alt=\"\" width=\"408\" height=\"544\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/tony13-kuito.jpg 750w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/tony13-kuito-195x260.jpg 195w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/tony13-kuito-480x640.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 408px) 100vw, 408px\" \/><\/a>A guerra de Angola (h\u00e1 30 anos) e a batalha contra este Covid t\u00eam algo em comum, mas as diferen\u00e7as s\u00e3o enormes. \u00a0Vou tentar explicar o porqu\u00ea.<\/p>\n<p>Contei o que se passou comigo no Kuito-Bi\u00e9. L\u00e1 s\u00f3 estive um ano, o tempo previsto para \u2018incultura\u00e7\u00e3o\u2019. Ou seja, ningu\u00e9m deve cair de para-quedas num contexto novo. \u00c9 importante conhecer as gentes, a terra, habituar-se ao clima, aprender a l\u00edngua, enrolar-se na cultura local\u2026e isso nos permite entrar um pouco na alma do povo, fazer-se povo. Depois, fui para o Huambo, numa viagem de avioneta que me deu umas tonturas que acho ainda n\u00e3o ter ultrapassado. O piloto disse-me que era por voar a muita altitude para escapar \u00e0s bombas anti-a\u00e9reas, mas eu acho que foi mais medo da minha parte\u2026 Adiante!<\/p>\n<p>Cheguei ao Huambo, uma grande cidade. Era setembro de 1990. A fome era muita e a liberdade quase nenhuma. Tanta gente pululava nas ruas, para tr\u00e1s e para a frente, a mendigar ou a fazer qualquer biscato que permitisse p\u00e3o para a boca. E tanta inseguran\u00e7a, sobretudo de noite, com assaltos e mais assaltos. S\u00e3o assim os tempos da guerra, sem empregos, sem abastecimentos, com as liga\u00e7\u00f5es cortadas para o interior da prov\u00edncia de onde deveriam vir os alimentos\u2026 Enfim, trag\u00e9dias que s\u00f3 as guerras conseguem provocar para desgra\u00e7a do povo, sobretudo dos mais pobres. Salvam-se e enchem a barriga os senhores da guerra, os que com ela lucram aos milh\u00f5es, banqueteando-se \u00e0 custa da mis\u00e9ria de quase todos. A guerra \u00e9 a viola\u00e7\u00e3o mais frontal dos direitos humanos, mas \u00e9 de armas na m\u00e3o que se quer sempre resolver os problemas! Venha l\u00e1 algu\u00e9m que me consiga explicar a intelig\u00eancia destes senhores que decidem mandar os filhos dos outros para as frentes dos combates!<\/p>\n<p>Escrevi do Huambo 52 cr\u00f3nicas (cf. \u2018Miss\u00e3o em Angola. 1989-1994\u2019, pp.53-221), em tempo de aus\u00eancia absoluta de liberdade de express\u00e3o. Por isso, n\u00e3o disse muito do que me ia na alma, n\u00e3o tanto por mim, mas para n\u00e3o p\u00f4r em risco outras pessoas. Muito do que l\u00e1 vivi e n\u00e3o escrevi consta no meu \u2018di\u00e1rio secreto\u2019 que ser\u00e1 publicado quando eu morrer. Para deixar claro que eu tento ser optimista, pe\u00e7o que olhem para o t\u00edtulo da \u00faltima das cr\u00f3nicas, publicada em janeiro de 1995: \u2018A Paz vai chegar!\u2019 (p.222)\u2026e ela s\u00f3 chegou em 2002!<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 desgra\u00e7a desta guerra civil. O primeiro texto resulta de uma visita que fiz a um campo de deslocados com milhares de pessoas na nossa Miss\u00e3o do Kuando, a uns 15kms do Huambo. Fiquei arrasado quando l\u00e1 cheguei e vi tantos milhares em cabanas de capim junto \u00e0 Igreja, apoiados e protegidos pelos mission\u00e1rios que ali viviam. Ainda guardo nos olhos aquelas crian\u00e7as esfarrapadas e famintas que fotografei e mostrei ao mundo (pp.53-56). Depois, entrevistei a Irm\u00e3 Generosa que tamb\u00e9m acolheu na sua Miss\u00e3o do Cubal muitos refugiados da guerra que se juntou \u00e0 seca naquelas paragens (pp.57-59). Mas tamb\u00e9m dei lugar \u00e0 esperan\u00e7a quando contei como foi a Missa de Natal na Chipipa (pp.60-62) ou expliquei como a Irm\u00e3 Elisabeth se tornou m\u00e3e de 40 crian\u00e7as no Huambo (pp.68-70). Multipliquei interven\u00e7\u00f5es e entrevistas que geraram em Portugal ondas de solidariedade de que o povo mais pobre do Huambo viria a beneficiar, sempre que um avi\u00e3o da Caritas aterrava no planalto (p.71-72).<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 que os pol\u00edticos e militares ganharam algum ju\u00edzo e, com o apoio de Portugal, os l\u00edderes da guerra assinaram um protocolo de Paz no Estoril e, a 31 de maio de 1991, todas as armas se calaram? Foram tempos t\u00e3o lindos, com tanto canto e dan\u00e7a, com tanta gente a rezar. As estradas abriram-se, as fam\u00edlias reencontraram-se, o p\u00e3o, a roupa e os medicamentos chegaram, as pessoas come\u00e7aram a fazer \u2018vida normal\u2019 (pp.80-86) e o Papa Jo\u00e3o Paulo II visitou-nos em junho de 1992, tr\u00eas meses antes de elei\u00e7\u00f5es que prometiam democracia, paz e futuro ao povo. Escrevi tantas cr\u00f3nicas de vida, com alegria a sair de cada letra que batia. Acompanhei o Papa em toda a sua visita, quer a Angola quer a S. Tom\u00e9, comentando-a para a R\u00e1dio Nacional de Angola. No Huambo, ainda ecoam os gritos do Papa: \u2018Nunca mais a guerra, Paz a Angola para sempre!\u2019 (pp.119-130). Pois era isso que o povo queria, mas os senhores da guerra preferiram o regresso desta m\u00e1quina de matar gente. Vieram as elei\u00e7\u00f5es, os resultados n\u00e3o foram aceites, n\u00e3o se fez segunda volta das presidenciais e houve um terr\u00edvel e mort\u00edfero regresso ao passado (pp.145-154). A guerra de 1992 a 2002 provocou muito mais v\u00edtimas e destrui\u00e7\u00e3o do que os 30 anteriores anos de guerra, incluindo toda a guerra colonial. Claro que a grande diferen\u00e7a esteve no facto dos combates terem chegado tamb\u00e9m ao cora\u00e7\u00e3o das cidades, sendo o Kuito e o Huambo as mais destru\u00eddas. Como estive dentro da cidade do Huambo durante todos os combates e mais um ano e meio, falarei dessa trag\u00e9dia na pr\u00f3xima cr\u00f3nica.<\/p>\n<p>Voltando ao nosso v\u00edrus. Ele tamb\u00e9m faz v\u00edtimas, tamb\u00e9m \u00e9 covarde nos seus ataques, tamb\u00e9m vitima mais os mais fr\u00e1geis, tamb\u00e9m derruba os incautos e desprevenidos. Mas n\u00e3o \u00e9 fruto de c\u00e1lculos humanos, n\u00e3o depende de decis\u00f5es politico-militares, actua pela calada das infec\u00e7\u00f5es, ataca em muitos locais ao mesmo tempo, tem um enorme efeito multiplicador de actores de destrui\u00e7\u00e3o\u2026.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o chamemos guerra a isto que agora estamos a viver. \u00c9 outra coisa, com outras causas, outros cuidados a ter e outras consequ\u00eancias. A grande batalha do Huambo (9 janeiro a 6 de mar\u00e7o de 1993) trouxe-me li\u00e7\u00f5es de vida que me t\u00eam sido \u00fateis nas \u00faltimas d\u00e9cadas. E acende algumas luzes para o momento em que vivemos. Veremos\u2026<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-169548-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/lusofonias-ecosplanaltoAngola.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/lusofonias-ecosplanaltoAngola.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/lusofonias-ecosplanaltoAngola.mp3<\/a><\/audio>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tony Neves, em Roma<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":114253,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-169548","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/169548","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=169548"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/169548\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/114253"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=169548"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=169548"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=169548"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}