{"id":168622,"date":"2020-04-04T09:04:53","date_gmt":"2020-04-04T08:04:53","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=168622"},"modified":"2025-03-17T12:33:33","modified_gmt":"2025-03-17T12:33:33","slug":"a-quaresma-e-os-cinco-sentidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-quaresma-e-os-cinco-sentidos\/","title":{"rendered":"A Quaresma e os cinco sentidos"},"content":{"rendered":"<p>O programa Ecclesia, emitido diariamente na Antena 1, iniciou na primeira semana da Quaresma um caminho atrav\u00e9s dos cinco sentidos humanos. A cada noite, atrav\u00e9s da viv\u00eancia e reflex\u00e3o de um convidado, quisemos propor a profundidade que cada sentido nos oferece, a capacidade de ler as rela\u00e7\u00f5es e o mundo a partir dele, convocando-o para viver o tempo de Quaresma, que agora termina. Para revisitar esses momentos ou fazer, agora, esse caminho, fica o essencial.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/emiel-molenaar-cheiro.jpg\" \/><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/antonio_pedro1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/antonio_pedro1-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" \/><\/a><br \/>\nAnt\u00f3nio Pedro Monteiro, sacerdote dehoniano e capel\u00e3o hospitalar<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1>O Cheiro<\/h1>\n<h2>O bom e o mau cheiro<\/h2>\n<p>\u201cAo falar de Quaresma falamos de um per\u00edodo de restabelecimento de sa\u00fade: \u00e9 um per\u00edodo para arejar a casa, permitirmos um fluxo de ar, deixarmos os cheiros do Inverno, somos convidados a respirar melhor\u201d, come\u00e7a por traduzir o padre dehoniano.<\/p>\n<p>O convite, continua, \u00e9 perceber que da destrui\u00e7\u00e3o m\u00e1xima, simbolizada na cinza de quarta-feira de cinzas, se caminha para os \u201ccheiros da Primavera\u201d, onde acontece a P\u00e1scoa.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cSimbolicamente n\u00e3o h\u00e1 nada na tua vida que n\u00e3o se possa erguer ou ressuscitar, \u00e9 isso que este per\u00edodo indica. Assim \u00e9 recordado a crentes, mas as esta\u00e7\u00f5es do ano tamb\u00e9m o recordam a n\u00e3o crentes\u201d, reconhece o padre dehoniano.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 nesta mudan\u00e7a de esta\u00e7\u00e3o e in\u00edcio da Primavera que o cheiro a terra tem \u201chonras de palco\u201d, recorda o capel\u00e3o hospitalar, porque \u00e9 da terra que v\u00e3o surgir as flores, e o odor a terra molhada convida \u201c\u00e0 promessa e \u00e0 humildade\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO cheiro a terra molhada mexe com mem\u00f3rias\u201d e as recorda\u00e7\u00f5es de odores podem ser caminhos trilhados: na terra suja, de onde nascem as flores, \u201c\u00e9 lugar de vida, onde a vida nasce e renasce, onde a vida n\u00e3o \u00e9 devorada\u201d.<\/p>\n<p>Lembra o padre dehoniano que, a respira\u00e7\u00e3o \u00e9 um fluxo: \u201cA sua etimologia \u2013 \u00abedo\u00bb, do grego \u2018comer\u2019 e do \u00abodo\u00bb, deixar cheiro\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cFala-se de uma apropria\u00e7\u00e3o porque s\u00f3 h\u00e1 odores que apenas quando os comemos e degustamos os podemos sentir; trata-se de uma d\u00e1diva, tamb\u00e9m, quando deixamos um odor. Para que o cheiro aconte\u00e7a e seja percet\u00edvel falamos de um fluxo de ar, de ar que me \u00e9 dado, de um cheiro que \u00e9 deixado: trata-se de um ciclo vital, tal como o s\u00e3o as nossas rela\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Na Quaresma, sublinha o padre Ant\u00f3nio Pedro Monteiro, \u201ch\u00e1 um claro convite, em especial a quem segue a vida de Jesus, a uma reconcilia\u00e7\u00e3o com aqueles que nos s\u00e3o dados\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA Quaresma \u00e9 um \u00f3timo exerc\u00edcio para nos lembrar a car\u00eancia que temos uns dos outros, tal como a respira\u00e7\u00e3o\u201d, indica.<\/p><\/blockquote>\n<p>Se h\u00e1 sentidos que \u201cparecem ser de sobreviv\u00eancia\u201d, h\u00e1 outros, indica, que se associam ao luxo e ao prazer, ganhando outro valor ou prioridade.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cTempos houve em que o cheiro era um fator de diferencia\u00e7\u00e3o, o cheiro do corpo, o mau cheiro, o cheiro do perfume, o bom cheiro, associado \u00e0 riqueza e \u00e0 pobreza, a estratos sociais, associados ao poder ou n\u00e3o poder. E tudo o que isso implica nas nossas rela\u00e7\u00f5es: se o cheiro repugnante, \u00e9 a pessoa que passa a ser repugnante. Passa a influenciar a nossa capacidade de aproxima\u00e7\u00e3o\u201d, indica.<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas Jesus vem desconstruir essa l\u00f3gica: \u201cJesus diz que os cheiros n\u00e3o nos explicam\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201dNo epis\u00f3dio da morte de L\u00e1zaro, quando Jesus pede para abrirem o t\u00famulo contra todas as expetativas, uma irm\u00e3 de L\u00e1zaro diz que ele j\u00e1 cheira muito mal, passaram quatro dias desde a sua morte. Vemos aqui associado o mau cheiro \u00e0 morte, a morte implica deixar mau cheiro e isso tamb\u00e9m agrava o conotar o mau cheiro ao pobre, que carrega o peso que \u00e9 o cheiro a morte. Jesus, ainda assim, perante o cheiro nauseabundo de um corpo morto h\u00e1 quatro dias n\u00e3o desiste\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Com este relato, Jesus \u201cultrapassa a barreira da diferencia\u00e7\u00e3o, da pobreza, da rejei\u00e7\u00e3o, do repugnante\u201d e h\u00e1 uma promessa.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cJesus junta os mal cheirosos e bem cheirosos, faz diluir fronteiras. H\u00e1-de ser um convite aos que se inspiram na sua vida, quaisquer que sejam os graus de perten\u00e7a, ser\u00e3o esses que se empenham em diluir fronteiras, em ultrapassar barreiras de cheiro, barreiras que s\u00e3o cheiro de pobreza e de morte. \u00c9 quase um programa para todos os que seguem Jesus. A capacidade de penetrar cheiros, juntar cheiros, diluir odores, fazer o que n\u00f3s preferimos no dia-a-dia, uma neutralidade de odores, ou t\u00e3o leve e suave que seja agrad\u00e1vel a todos. \u00c9 isto que a Igreja \u00e9 chamada a fazer\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<h2><\/h2>\n<h2>O cheiro a ovelhas<\/h2>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Cheiro_Ovelhas.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Cheiro_Ovelhas-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" \/><\/a>Quer nos aproximemos para cheirar as ovelhas quer transportemos esse cheiro connosco, ambas as atitude implicam proximidade, conhecer o cheiro de algu\u00e9m, implica sentar-se com algu\u00e9m, demorar-se com algu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u201cNos exerc\u00edcios pastorais de acolher l\u00e1grimas, vidas inteiras, cicatrizes e feridas, \u00e9 muito prov\u00e1vel ficarmos com o cheiro dos que acompanhamos\u201d, reconhece.<\/p>\n<p>Cinco anos como capel\u00e3o no Centro Hospitalar de Lisboa Norte e h\u00e1 tr\u00eas anos no Hospital de Santa Marta e na Maternidade Alfredo da Costa, \u00e9 nestes locais que o Papa Francisco pede ao padre Ant\u00f3nio Pedro Monteiro que cheire a ovelhas.<\/p>\n<p>\u201cOs hospitais t\u00eam cheiros caracter\u00edsticos. Diria, que n\u00e3o s\u00e3o da nossa cole\u00e7\u00e3o de bons odores, pelo contr\u00e1rio: alguns s\u00e3o repugnantes, outros porque nos trazem mem\u00f3rias, trazem experi\u00eancias \u00e0s mem\u00f3rias e s\u00e3o descart\u00e1veis, n\u00e3o desej\u00e1veis. O ideal \u00e9 que seja um lugar isento de odores, \u00e9 poss\u00edvel que haja cheiros caracter\u00edsticos\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cPara quem est\u00e1 no hospital, o melhor perfume \u00e9 o da companhia, \u00e9 a visita, a presen\u00e7a, a rela\u00e7\u00e3o.\u00a0 O que faz contrastar o cheiro da doen\u00e7a, ao cheiro da morte, o bom cheiro associado \u00e0 vida fresca e limpa, \u00e9 o perfume da rela\u00e7\u00e3o, da proximidade, deixar que o outro se narre, deixar que o outro se liberte do mau cheiro, \u00e9 uma esp\u00e9cie de liberta\u00e7\u00e3o na proximidade, na presen\u00e7a e acompanhamento hospitalar, seja por quem trabalha, ou por quem vai cuidar, mesmo que de forma informal\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>O seu trabalho, assume, \u201c\u00e9 dar espa\u00e7o para que saiam perguntas, que podem ser caminhos sem sa\u00edda mas que t\u00eam de ser percorridos pelo pr\u00f3prio\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cN\u00e3o faz sentido dar respostas antes de haver perguntas, calar uma necessidade de dizer. O trabalho que me \u00e9 pedido, \u00e9 cuidar a rela\u00e7\u00e3o e seguimos. Fazer com que isso aconte\u00e7a na apresenta\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3prio, na narra\u00e7\u00e3o de si pr\u00f3prio, na apresenta\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria inteira, com feridas, com cicatrizes, perdas e ganhos\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>E, indica, h\u00e1 uma enorme dificuldade desta narra\u00e7\u00e3o acontecer sem proximidade, sem tempo gasto, sem aten\u00e7\u00f5es paradas e focadas: \u201c\u00c9 uma tarefa que n\u00e3o se faz de outra forma que n\u00e3o pela proximidade e nesta troca de odores, num respirar juntos\u201d.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 cheiros inexplic\u00e1veis, \u00e9 tamb\u00e9m misterioso o que \u201cDeus quer fazer com cada um\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cNo inexplic\u00e1vel Jesus vai chamando sempre. O registo escolhido por Jesus \u00e9 o da rela\u00e7\u00e3o, dos la\u00e7os, ele que se esfor\u00e7a a vida inteira por oferecer condi\u00e7\u00f5es de rela\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>E os autores dos Evangelhos mostram \u201cum Jesus\u201d capaz de fazer o que outra pessoa pode fazer: \u201cn\u00e3o s\u00f3 olhando a vida como oportunidade, pensa l\u00e1 tu que tens sa\u00fade e te sentes curado, pensa na tua oportunidade, e ao mesmo tempo sente-te tamb\u00e9m capaz de curar\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA imagem definitiva de Jesus, o Jesus vivente, o Jesus ressuscitado e que literalmente \u00e9 o Jesus reerguido, apresenta-se com feridas, em certa medida para nos dizer que \u00e9 igual a ti, n\u00e3o precisas de capacita\u00e7\u00f5es para fazer determinada coisa, ou para te pores no mesmo caminho que ele, n\u00e3o precisas de super poderes para experimentar dares a tua vida. Em certa medida, essa semelhan\u00e7a de se apresentar ferido como tu, como eu, \u00e9 j\u00e1 uma possibilidade de te dar protagonismo: tu podes fazer o que eu falo, tu nas tuas feridas, \u00e9s o melhor curador, quem melhor para compreender as feridas do outro do que aquele que se sabe ferido, que n\u00e3o disfar\u00e7a as cicatrizes, que sabe que a hist\u00f3ria \u00e9 feita disto\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>O jardim perfumado<\/h2>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Jardim_Crian\u00e7as.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Jardim_Crian\u00e7as-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201cO jardim \u00e9 o espa\u00e7o preferido dos evangelistas para colocarem esta presen\u00e7a de Jesus que nos convida a um recome\u00e7o. O Jesus erguido, como diz os textos, \u00e9 confundido com um jardineiro e \u00e9 buscado num jardim\u201d, destaca o padre dehoniano.<\/p>\n<p>O jardim \u00e9 a promessa de que nada do que esteja morto n\u00e3o possa reerguer-se: \u201cno Inverno \u00e9 lugar de morte e cinzento, que depois se torna lugar das cores\u201d.<\/p>\n<p>O padre Ant\u00f3nio Pedro Monteiro afirma que tamb\u00e9m n\u00f3s podemos ser jardineiros que cuidam de flores, que gastam o seu tempo e o seu cuidado.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA flor, que n\u00e3o \u00e9 precisa, n\u00e3o salva o mundo, que n\u00e3o acaba com a fome nem a guerra, que \u00e9 do dom\u00ednio do in\u00fatil, leva-nos, por outro lado, a refazer a frase porque n\u00e3o imaginamos o mundo sem arte ou flores. N\u00e3o imaginamos o mundo sem o que classificamos de in\u00fatil. A beleza \u00e9 sem porqu\u00ea. O olhar de Jesus sobre aqueles com quem se cruza, os disc\u00edpulos sentimo-nos cruzados pelo seu olhar, \u00e9 tamb\u00e9m um olhar que nos despista porque \u00e9 sem porqu\u00eas\u2026Deus n\u00e3o quer o discurso das justifica\u00e7\u00f5es, o olhar de Deus para n\u00f3s \u00e9 tamb\u00e9m sem porqu\u00ea. O amor \u00e9 assim, n\u00e3o se justifica, n\u00e3o se mede, n\u00e3o se empresta. \u00c9 uma promessa e uma confian\u00e7a\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>E torna-se incontorn\u00e1vel, assume, recordar o livro \u00abC\u00e2ntico dos C\u00e2nticos\u00bb.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 um amado e uma amada, dois enamorados que se buscam no livro, curiosos, que ouvem o rumor dos passos, sentem a voz, sentem o perfume um do outro, tal \u00e9 a proximidade\u2026 Mas no livro, verdadeiramente nunca se encontram. O sonho, a imagina\u00e7\u00e3o, o desejo \u00e9 o lugar do encontro. Fisicamente nunca se encontram e desejam-se sentindo o pr\u00f3prio odor um do outro\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEsta \u00e9 a experi\u00eancia dos crentes: sentirmos presen\u00e7a, a voz, sentirmos um rumor de passos, de perfume nas nossas rela\u00e7\u00f5es, sentimos um Deus que nos atravessa de uma forma entre brisa e perfume, passos e rumores, e n\u00f3s verdadeiramente nunca o vemos face a face. A imagem mais parecida com Deus \u00e9 o nosso mais pr\u00f3ximo, aquele feito de n\u00f3s, para quem somos feitos\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wp-playlist wp-audio-playlist wp-playlist-light\">\n\t\t\t<div class=\"wp-playlist-current-item\"><\/div>\n\t\t<audio controls=\"controls\" preload=\"none\" width=\"640\"\n\t\t\t><\/audio>\n\t<div class=\"wp-playlist-next\"><\/div>\n\t<div class=\"wp-playlist-prev\"><\/div>\n\t<noscript>\n\t<ol>\n\t\t<li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_02mar2020.mp3'>ecclesia_02mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_03mar2020.mp3'>ecclesia_03mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_04mar2020.mp3'>ecclesia_04mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_05mar2020.mp3'>ecclesia_05mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_06mar2020.mp3'>ecclesia_06mar2020<\/a><\/li>\t<\/ol>\n\t<\/noscript>\n\t<script type=\"application\/json\" class=\"wp-playlist-script\">{\"type\":\"audio\",\"tracklist\":true,\"tracknumbers\":true,\"images\":false,\"artists\":false,\"tracks\":[{\"src\":\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_02mar2020.mp3\",\"type\":\"audio\/mpeg\",\"title\":\"ecclesia_02mar2020\",\"caption\":\"\",\"description\":\"\\\"ecclesia_02mar2020\\\". 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A professora Helena Valentim socorrer-se deste exemplo para nos sugerir a singularidade de uma rela\u00e7\u00e3o criada a partir da vis\u00e3o.<\/p>\n<p>Na nossa cultura, a vis\u00e3o adquire um significado de compreens\u00e3o, de cuidado, de entendimento.<\/p>\n<p>\u201cUsamos frequentemente express\u00f5es como \u00abest\u00e1s a ver\u00bb, para aferir se est\u00e1s a perceber, se est\u00e1s a compreender. Mas h\u00e1 outra express\u00e3o: \u00abo olhar por\u00bb, que revela cuidado. Emerge o sentido de uma rela\u00e7\u00e3o de qualidade\u201d, reconhece.<\/p>\n<p>Contemplar, reparar, s\u00e3o atitudes que partem de um primeiro olhar que se tem e a vis\u00e3o \u00e9 a \u201cporta para conhecer e para a rela\u00e7\u00e3o\u201d, indica.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o dos olhos, colocados no rosto, indicam uma \u201cfrontalidade\u201d, um \u201colhar de frente\u201d: \u201cpor si s\u00f3, um convite \u00e0 rela\u00e7\u00e3o: eu convoco o outro porque o olho. Ao mesmo tempo digo-me dispon\u00edvel porque o olho. H\u00e1 uma circula\u00e7\u00e3o que o olhar permite operar na rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, reconhece a professora de Lingu\u00edstica, se o olhar convoca a uma rela\u00e7\u00e3o, h\u00e1 tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o \u201cmenos luminosa\u201d, de que somos \u201cprotagonistas\u201d e \u201cherdeiros\u201d: \u201co olho de Deus, a omnisci\u00eancia de Deus; intu\u00edmos que n\u00e3o \u00e9 tanto o olho que d\u00e1 o ser, mas \u00e9 o olho que vigia\u201d, reflete.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cContinuemos herdeiros desta representa\u00e7\u00e3o do olho de Deus, mais ligados ao Antigo Testamento do que ao Novo. Um olhar que pune\u201d, assume.<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas na B\u00edblia multiplicam-se exemplos da forma como somos olhados por Deus:<\/p>\n<p>O Livro do G\u00e9nesis, no relato da cria\u00e7\u00e3o, diz \u00abE Deus viu que tudo era bom\u00bb; o salmo 139 diz \u00abSenhor, tu me v\u00eas e me conheces\u00bb.<\/p>\n<p>Helena Valentim sublinha um \u201colhar de Deus que \u00e9 criador\u201d, \u201cconfirma e \u201cd\u00e1 futuro, porque o que \u00e9 bom \u00e9 para permanecer, continuar e perdurar\u201d, provocando a \u00abespantosa realidade das coisas\u00bb, de que fala Alberto Caeiro.<\/p>\n<p>\u00abEu vi o sofrimento do meu povo\u00bb, um excerto do livro do \u00caxodo, sugere que somos vistos por Deus e que o nosso encontro \u00e9 com um \u201colhar de Deus que liberta\u201d, tratando-se de um \u201ceco do olhar criativo de Deus, porque este olhar criativo, cria e gera mas gera libertando, ajudando e permitindo que seja\u201d.<\/p>\n<p>Helena Valentim lamenta que o olhar humano n\u00e3o reflita, \u201cnecessariamente\u201d, a \u201cdimens\u00e3o libertadora e criativa de Deus\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o Livro do G\u00e9nesis indica um olhar de dom\u00ednio: \u00absede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra, submetei-a, fa\u00e7a-se o homem para que domine sobre\u2026\u00bb<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um olhar que projetamos e que n\u00e3o \u00e9 certamente o olhar criador e libertador de Deus. Fomo-lo interpretando de uma forma predadora\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s do olhar de Jesus somos convidados a mudar este paradigma &#8211; \u00abOlhar por\u00bb.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cH\u00e1 quem fale na convers\u00e3o de Jesus aos outros por aquilo que ele tem de capacidade, de ver para l\u00e1 da superf\u00edcie, do que era consider\u00e1vel estigmatiz\u00e1vel, pecado. Jesus olha para cima, para Deus, certamente, e v\u00ea-lo muitas vezes recolhido, mas olha tamb\u00e9m para o lado\u201d, sublinha.<\/p><\/blockquote>\n<p>Recordemos a hist\u00f3ria de Jesus e Zaqueu, que lemos no Evangelho de Lucas: \u201c Zaqueu sobe ao sic\u00f3moro para olhar e n\u00e3o para ser visto. E Jesus surpreende-o, e convida-o a descer, a nivelar o seu olhar, a sintonizar com o seu olhar, com as suas palavras, com o seu desejo\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o encontro com a samaritana, no Evangelho de Jo\u00e3o: Jesus sentou-se junto ao po\u00e7o e \u00e9 a partir da\u00ed que o di\u00e1logo come\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cColocar-se ao n\u00edvel da samaritana \u00e9 f\u00edsico mas \u00e9 tamb\u00e9m uma busca da sua mundivid\u00eancia. Olh\u00e1-la ao mesmo n\u00edvel \u00e9 o interesse que ele manifesta sobre a sua vida. H\u00e1 aqui pedagogia de Jesus para dialogar, que passa por um olhar que se dirige, nivela, que se det\u00e9m sobre estas pessoas\u201d, indica.<\/p>\n<blockquote><p>O olhar de Jesus pode ser \u201ca chave para o nosso olhar de cuidado e acolhimento que transforma: a n\u00f3s, porque somos surpreendidos pela inteireza e dignidade dos outros quando olhamos; tamb\u00e9m o nosso olhar, quando se demora nos outros, pode transformar a rela\u00e7\u00e3o e os outros, acreditemos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO olhar de Deus continua a acontecer nos nossos olhos quando os projetamos\u201d, indica.<\/p><\/blockquote>\n<p>Helena Valentim afirma a falta de prepara\u00e7\u00e3o para lidarmos, tantas vezes, com o que olhamos.<\/p>\n<p>\u201cA vida nova que \u00e9 constantemente prenunciada em tantas vis\u00f5es, no tecido dos nossos dias, n\u00e3o temos sempre capacidade de a apreender e de a antecipar\u201d.<\/p>\n<p>A cruz, indica a professora, \u201c\u00e9 necess\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cQuando se fala em ver a cruz, penso na passagem do centuri\u00e3o que se encontrava frente da cruz e que, ao suspiro de Jesus, clama \u00abverdadeiramente este homem era o filho de Deus\u00bb. H\u00e1 uma vis\u00e3o da cruz, quando se v\u00ea, desarma. A vis\u00e3o do sofrimento, \u00e9 um enigma, algo ins\u00f3lito, profundamente perturbador, assim como vemos este homem desarmado diante da morte, tamb\u00e9m n\u00f3s experimentamos este espanto diante de todas as mortes e sofrimento. \u00c9 um mist\u00e9rio\u201d, reconhece.<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas h\u00e1 um itiner\u00e1rio para chegar \u00e0 cruz, proposto pela via-sacra: \u201cNestes quadros sucedem-se os olhares que recaiam sobre Jesus e o seu sofrimento; eram olhares an\u00f3nimos que, podemos interrogar\u2026 como cada um olhava? Como espetador daquele sofrimento, daquela hist\u00f3ria, que s\u00ednteses se faziam?\u201d<\/p>\n<p>\u201cE esta \u00e9 a interroga\u00e7\u00e3o que podemos continuar a fazer: perante o sofrimento que hoje desfila diante dos nossos olhos e, verdadeiramente desfila nos nossos ecr\u00e3s, como vemos esse mist\u00e9rio do sofrimento?\u201d<\/p>\n<p>Sugere Helena Valentim que a paix\u00e3o e a morte de Jesus \u201cdesinstala da banalidade do sofrimento\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA banalidade do sofrimento tende a ser percecionada por n\u00f3s convocando a emo\u00e7\u00e3o, o sentimentalismo, o pathos. Colocamos nas redes sociais o emoji da l\u00e1grima. Perante o sofrimento de Jesus n\u00e3o nos fixamos no emoji da l\u00e1grima, h\u00e1 qualquer coisa que nos move. Precisamente porque tem um horizonte de vida nova, s\u00f3 pode ser traduzida em a\u00e7\u00e3o, porque nos convoca \u00e0 transcend\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 uma compaix\u00e3o que paralisa e tem um horizonte de transcend\u00eancia\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Susan Sontag tem um livro \u00abOlhar o sofrimento dos outros\u00bb, em que reflete sobre a compaix\u00e3o que a abund\u00e2ncia de imagens suscita, ao mesmo tempo cria uma emo\u00e7\u00e3o inst\u00e1vel, esta express\u00e3o \u00e9 dela. N\u00e3o se traduz em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cMas o sofrimento de Jesus n\u00e3o foi para ser rememorado, foi caminho que n\u00f3s: n\u00e3o entendemos, mas intu\u00edmos e continuamos a buscar e a aprofundar nas nossas vidas. Somos mobilizados para uma vontade: a morte e o sofrimento dos nossos irm\u00e3os n\u00e3o t\u00eam a \u00faltima palavra\u201d, sublinha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>O elogio do olhar noturno<\/h2>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Olhar_Noite.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Olhar_Noite-1024x668.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"668\" \/><\/a><\/p>\n<p>Helena Valentim sugere que o olhar diurno \u201ctende para a velocidade\u201d e ao inv\u00e9s, o olhar da noite \u201c\u00e9 lento, que se tem de esfor\u00e7ar, tem outros ritmos e que nos convida a ver de outra maneira\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO olhar diurno \u00e9 um olhar apressado mas que configura o olhar t\u00e9cnico, cient\u00edfico. A t\u00e9cnica faz-nos, hoje, crer, que podemos ver tudo, h\u00e1 um mito de transpar\u00eancia, como se o nosso olho pudesse processar, mesmo do ponto de vista neurol\u00f3gico, como um computador o processa. O computador torna-se um padr\u00e3o e o olho \u00e9 um recetor. Todos experimentamos a acumula\u00e7\u00e3o das visualiza\u00e7\u00f5es, de informa\u00e7\u00e3o que retemos, como se fosse o crit\u00e9rio para o que se v\u00ea e se conhece. \u00c9 o elogio da velocidade, \u00e9 um olhar r\u00e1pido que s\u00f3 pode ser superficial \u00e9 o olhar do ver por ver, que podemos questionar at\u00e9 que ponto vemos, at\u00e9 que ponto n\u00e3o reparamos: vemos mas n\u00e3o reparamos porque n\u00e3o paramos para ver\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>A noite, ao contr\u00e1rio, \u00e9 \u201cpropiciadora de um olhar mais demorado, mais lento\u201d, \u201cantev\u00ea o trope\u00e7o dos passos pelo receio de n\u00e3o vermos onde colocamos o p\u00e9\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;A experi\u00eancia do olhar \u00e0 noite convoca outros sentidos&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cNum tempo da visibilidade absoluta, das luzes leed que iluminam ostensivamente as nossas noites, imp\u00f5e-se retomarmos este olhar na noite, um olhar que encare a escurid\u00e3o e perceba o obscuro e a fragilidade inerente a qualquer ver\u201d, sugere.<\/p>\n<p>\u201cO filme, \u00abO Esplendor\u00bb, aborda a delicadeza dos sentidos: h\u00e1 um fot\u00f3grafo que est\u00e1 a perder a vis\u00e3o e h\u00e1 uma jovem que vai ensinando como olhar o mundo, invis\u00edvel aos olhos, vai aprender a contempla\u00e7\u00e3o\u201d, recorda.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cQuando deixa de ver, aprende a contempla\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cO pr\u00f3prio Deus \u00e9 este oculto e \u00e9 na medida em que \u00e9 oculto que nos relacionamos com, \u00e9 importante manter esta rela\u00e7\u00e3o de mist\u00e9rio que alimenta o nosso desejo. Porque Deus n\u00e3o tem rosto, emerge na hist\u00f3ria com um rosto de um homem, num gesto e numa proximidade. \u00c9 desta necessidade da rela\u00e7\u00e3o com Deus que decorre a gera\u00e7\u00e3o de Jesus na hist\u00f3ria\u201d, indica.<\/p>\n<p>Perceber que Deus n\u00e3o tem rosto \u201c\u00e9 um convite \u00e0 humildade\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cQuando nos olhamos, a partir da perspetiva da miseric\u00f3rdia, acontece uma comunica\u00e7\u00e3o diferente: colocamo-nos mais inteiros perante o enigma da exist\u00eancia de cada um e o di\u00e1logo ganha outra qualidade\u201d, sugere.<\/p><\/blockquote>\n<p>Helena Valentim recorda o pensador Martin Buber ao afirmar que o \u00f3dio se op\u00f5e ao olhar misericordioso porque n\u00e3o toma a pessoa na sua totalidade, mas parcial &#8211; o \u00f3dio incide sob um aspeto da pessoa. O amor op\u00f5e-se a esta l\u00f3gica.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;A grande experi\u00eancia da f\u00e9 \u00e9 a certeza do olhar incomensur\u00e1vel de Deus. Somos vistos por Deus deste jeito&#8221;, finaliza.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wp-playlist wp-audio-playlist wp-playlist-light\">\n\t\t\t<div class=\"wp-playlist-current-item\"><\/div>\n\t\t<audio controls=\"controls\" preload=\"none\" width=\"640\"\n\t\t\t><\/audio>\n\t<div class=\"wp-playlist-next\"><\/div>\n\t<div class=\"wp-playlist-prev\"><\/div>\n\t<noscript>\n\t<ol>\n\t\t<li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_09mar2020.mp3'>ecclesia_09mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_10mar2020.mp3'>ecclesia_10mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_11mar2020.mp3'>ecclesia_11mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_12mar2020.mp3'>ecclesia_12mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_13mar2020.mp3'>ecclesia_13mar2020<\/a><\/li>\t<\/ol>\n\t<\/noscript>\n\t<script type=\"application\/json\" class=\"wp-playlist-script\">{\"type\":\"audio\",\"tracklist\":true,\"tracknumbers\":true,\"images\":false,\"artists\":false,\"tracks\":[{\"src\":\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_09mar2020.mp3\",\"type\":\"audio\/mpeg\",\"title\":\"ecclesia_09mar2020\",\"caption\":\"\",\"description\":\"\\\"ecclesia_09mar2020\\\". 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O gosto tem um sentido importante mas este s\u00f3 ganha o seu expoente m\u00e1ximo quando \u00e9 complementada com outras pessoas\u201d, indica.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO mais importante da mesa \u00e9 a capacidade de estarmos \u00e0 mesa, de silenciarmos e olharmos nos olhos uns dos outros, de crescermos e nos conhecermos \u00e0 volta da mesa. O que bebemos e comemos potencia tudo isto. Reduzir ao ato de comer, reduz e entristece algo t\u00e3o bonita, importante e hist\u00f3rica que \u00e9 a mesa\u201d, sublinha.<\/p><\/blockquote>\n<p>O \u201cgostar\u201d ou \u201cn\u00e3o gostar\u201d de algo, relaciona-se com \u201ca velocidade\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTemos de comer com calma. Nos dias atuais estamos a comer e a conversar e estamos de tal forma distra\u00eddos que de repente parecemos glut\u00f5es a ingerir alimentos sem saborear. A comida merece aten\u00e7\u00e3o, e s\u00f3 saboreamos se, entre as garfadas, formos conversando com calma e aten\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O sentido do paladar leva uma pessoa a convocar outros sentidos: os olhos e os ouvidos tamb\u00e9m comem.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO que \u00e9 saborear uma torrada sem ouvir o crocante? Ou saborear uma laranja sem sentir o seu aroma? Tapamos o nariz e experimentamos dar uma trinca numa laranja\u2026O nosso gosto precisa obrigatoriamente de outros sentidos\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Numa casa com oito irm\u00e3os mais velhos, Francisco Martins tinha de aprender a ajudar, ser \u00fatil e \u201cdesenrascar\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNa cozinha eu sentia-me \u00fatil, podia ajudar e era o local onde eu obtinha pontos juntos dos meus irm\u00e3os para conseguir outras coisas. Era uma bolsa de favores e obriga\u00e7\u00f5es que me dava jeito\u201d, recorda. Nesse tempo radica a calma que o espa\u00e7o da cozinha lhe traz.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEu sei que a muita gente a az\u00e1fama da cozinha cria ansiedade, mas a mim n\u00e3o. \u00c9 um lugar que me d\u00e1 paz. A cozinha d\u00e1-me calma. O toque e manusear os alimentos d\u00e1-me calma: agarrar numa cenoura, alho, cebola, umas bochechas de porco, vinho tinto, tomilho, sal e pimenta e estufar e ver que daqui a 2h30 aquela bochecha pode dar alegria a outra pessoa. A cozinha d\u00e1 isto de forma imediata\u201d, indica.<\/p><\/blockquote>\n<p>O chef Kiko diz que cozinhar \u00e9 respeitar o tempo.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA cozinha necessita de amor. Parece piroso mas \u00e9 muito verdade. A cozinha precisa de aten\u00e7\u00e3o. Quando estamos a cozinhar precisamos de estar presentes. \u00c9 preciso azeite, marcar as bochechas, sel\u00e1-las por fora\u2026. Depois fazer um bom puxado com os legumes, ganhar cor, juntar o vinho e fazer um processo de \u00abgla\u00e7aje\u00bb, tirar a parte escura e juntar as bochechas, o sal e a pimenta\u2026 O carinho, o amor, \u00e9 o acompanhar, o estar presente. Olhar para as coisas com aten\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>O tempo para cozinhar \u00e9 o mesmo tempo que deve respeitar os alimentos, sabendo que \u201co tomate n\u00e3o sabe sempre ao mesmo\u201d ou a \u201ccenoura que, \u00e0s vezes, \u00e9 est\u00e1 mais amarga\u201d.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso sensibilidade, precisa por isso de presen\u00e7a. \u00c9 como um amigo ou como uma mulher\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Crescer com a comida e com as rela\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p>Foi pelos 18 anos, quando Francisco Martins come\u00e7ou a ser volunt\u00e1rio com a institui\u00e7\u00e3o Comunidade Vida e Paz (CVP), uma institui\u00e7\u00e3o particular de solidariedade social, ligada ao patriarcado de Lisboa, que presta auxilio \u00e0s pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo, que descobriu o poder que os alimentos poderiam ter.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cQuando nos apercebemos do prazer, quase ego\u00edsta, de fazer o bem e podermos chegar \u00e0s outras pessoas atrav\u00e9s da comida \u00e9 algo que nos enche a alma\u201d, recorda.<\/p><\/blockquote>\n<p>Na CVP, o chef Kiko percebeu que a comida \u00e9 um ve\u00edculo para aproximar as pessoas.<\/p>\n<p>\u201cSe a comida fosse um fim em si mesmo, n\u00f3s tom\u00e1vamos um comprimindo e n\u00e3o perder\u00edamos tempo. Mas a comida tem o lado mais importante que o seu lado nutricional. Com a CVP aprendi isso, e foi um motor de mudan\u00e7a na minha vida\u201d.<\/p>\n<p>Foi nessa altura que recordou todas as vezes que ia para a cozinha de sua casa fazer bifes, porque a m\u00e3e os \u201cpassava demais\u201d, das vezes que fazia bolos para ganhar uns trocos entre os vizinhos, e de sempre se sentir confort\u00e1vel na cozinha.<\/p>\n<p>\u201cA comida \u00e9 um ve\u00edculo para construirmos rela\u00e7\u00f5es, olhar nos olhos das pessoas, oportunidade para nos rir de n\u00f3s pr\u00f3prios. Uma mesa precisa de tempo: os alimentos precisam de tempo para ser cozinhados, mas tamb\u00e9m para ser degustados e vividos. Durante uma semana h\u00e1 14 momentos de conv\u00edvio social, por alguma raz\u00e3o \u00e9 assim\u201d, reconhece.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia com a CVP ajudou o chef Kiko a perceber o quanto os alimentos podem ter uma responsabilidade social e humana.<\/p>\n<p>\u201cVi uma frase num livro de um casal que vive nos Estados Unidos da Am\u00e9rica, \u00abHungry Planet\u00bb, e tinha fotos de fam\u00edlias pelo mundo com fotos de alimentos que comiam durante uma semana: fam\u00edlias chinesas, do Mal\u00e1ui, da S\u00edria, e \u00e0 frente os alimentos que comiam. Na contra capa do livro dizia que n\u00e3o havia nada mais importante para a humanidade do que a alimenta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>O sentar \u00e0 mesa \u00e9 tamb\u00e9m uma oportunidade para \u201ctransmitir valores, costumes. Se perdemos o momento da mesa perdemos as tradi\u00e7\u00f5es, perdemos os valores. \u00c9 \u00e0 mesa que nos educamos, aprendemos\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>O chef Kiko fala igualmente em \u201calimentos especiais para alturas especiais\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNo tempo frio gosto de comer uns grelos salteados, um ovo estrelado e uma alheira, com arroz de forno, que fica crocante em cima &#8211; n\u00e3o me imagino a comer isto com 40 graus no ver\u00e3o, tal como n\u00e3o me imagino a comer am\u00eaijoas no inverno com uma sangria. Saber que em determinada altura vou comer isto e n\u00e3o aquilo, cria o sentido de promessa\u201d, reconhece.<\/p>\n<p>Quando em 2008 Francisco Martins rumou com a sua mulher Maria, para durante um ano serem Leigos para o Desenvolvimento em Mo\u00e7ambique, a possibilidade da cozinha j\u00e1 se desenhava na sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Em terras africanas viu crescer alimentos.<\/p>\n<p>\u201cDas coisas que tenho pena na minha vida foi n\u00e3o ter crescido no campo; sou uma pessoa urbana e citadina, nunca tive contacto com o campo, nunca vivi ao p\u00e9 de cenouras, batatas, da agricultura. Em Mo\u00e7ambique foi uma descoberta, de poder viver ao lado da terra\u201d, recorda.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO bonito que foi ver tudo de raiz\u2026 Quando fa\u00e7o aqui um caril, normalmente em casa eu salteio um pouco de gengibre, alho e cebola, junto um p\u00f3 amarelo que j\u00e1 est\u00e1 feito, algu\u00e9m misturou os cominhos, a\u00e7afr\u00e3o, e j\u00e1 me deu este p\u00f3 amarelo. Misturo os camar\u00f5es ou frango, misturo o leite de coco, coentros, um pouco de lima e est\u00e1 feito. Ali era de raiz\u2026. Vou fazer uma matapa, que \u00e9 um prato feito com, folhas da mandioca, folhas essas que em muitos s\u00edtios v\u00e3o para o lixo, essas folhas ai s\u00e3o utilizadas. \u00c9 feito com amendoim, o amendoim \u00e9 colhido e eu vi como era, \u00e9 feito um leite de amendoim, com o coco que se rala na hora, junta-se \u00e1gua quente\u2026 \u00e9 tudo feito de raiz\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Valorizar o pouco que se tem, aprender a respeitar os alimentos e as suas diferentes utiliza\u00e7\u00f5es, \u201cser agradecido pelo que temos\u201d e a certeza de que se adquire \u201csatisfa\u00e7\u00e3o com menos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA simplicidade \u00e9 algo que esvoa\u00e7a nas nossas mentalidades hoje\u201d, reconhece.<\/p>\n<p>Depois de um ano em Mo\u00e7ambique, o chef Kiko sentiu-se confrontado com o excesso que encontrou em Lisboa.<\/p>\n<p>\u201cMas esta \u00e9 a minha realidade que eu n\u00e3o posso negar. Posso aprender a ser mais simples, mas n\u00e3o a posso negar, caso contr\u00e1rio, entro em distor\u00e7\u00e3o mental. N\u00f3s somos n\u00f3s e as nossas circunst\u00e2ncias e isso vai-se apoderando de n\u00f3s. Por muitas vezes que queiramos lutar. Saber que n\u00e3o temos de comer o mundo e que h\u00e1 o suficiente\u201d, recorda.<\/p>\n<p>Um ano depois de chegarem a Portugal, Francisco e a mulher partiram numa viagem que chamaram \u00abComer o Mundo\u00bb, um projeto, que nasceu no contexto de calma em Mo\u00e7ambique, que pretendia lev\u00e1-los a 26 pa\u00edses para se sentarem a comer com 26 fam\u00edlias.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO ser humano \u00e9 mais parecido entre ele do que realmente achamos, mas em boa verdade, no que toca a alimenta\u00e7\u00e3o e h\u00e1bitos e sobre a forma de nos comportarmos \u00e0 volta dos alimentos, \u00e0s vezes na mesa ou no ch\u00e3o, \u00e0s vezes com, talher outras vezes com as m\u00e3os, essa forma \u00e9 igual. E todos adoramos este prazer\u201d, explica.<\/p><\/blockquote>\n<p>Comer o mundo representou uma \u201cpolifonia de alimentos, cores, sabores, novas t\u00e9cnicas e formas de trabalhar, descobrir a verdadeira identidade das coisas\u201d e tamb\u00e9m ganhar \u201cbarriga\u201d para, j\u00e1 em Lisboa, oferecer aos portugueses outros sabores.<\/p>\n<p>\u201cComer \u00e0 mesa ou no ch\u00e3o, com o garfo ou com a m\u00e3o, ajuda a perceber a forma como nos relacionamos com a comida e as pessoas. O chin\u00eas acaba de comer e levanta rapidamente, um italiano est\u00e1 a acabar o almo\u00e7o e a falar sobre o que vai jantar. Como nos comportamos \u00e0 mesa \u00e9 a forma como espelhamos os nossos comportamentos na vida\u201d, indica.<\/p>\n<p>Desse ano ficaram muitas hist\u00f3rias e muitas pessoas.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cNo norte no Nepal uma fam\u00edlia convidou-nos para almo\u00e7armos em sua casa Tinham um prato enorme inox com divis\u00f5es, cheio de comida, todos a comermos com as m\u00e3os. E a troca de mundo que possibilita: toc\u00e1mos uma m\u00fasica portuguesa, eles tocaram m\u00fasicas nepalesas e passamos a tarde com eles. Em Fukuoka, no sul do Jap\u00e3o, eu gostava de cozinhar coisas portuguesas a estas fam\u00edlias e em alguns momentos isso foi poss\u00edvel. Ali eu decidi fazer um almo\u00e7o para essa fam\u00edlia. Preparei uma a\u00e7orda, para eles \u00e9 algo inimagin\u00e1vel. Com um p\u00e3o grande, tirei o miolo, fiz uma a\u00e7orda e servi a a\u00e7orda dentro desse p\u00e3o e pus no centro da mesa. Fiz um caldo com algas e sabores familiares. Eles adoraram\u201d, recorda.<\/p><\/blockquote>\n<p>O bom de poder viajar \u00e9 conhecer sabores diferentes, sendo que \u00e9 na mistura que a riqueza acontece.<\/p>\n<p>\u201cO interessante \u00e9 o cruzamento de diferentes cozinhas\u201d, sublinha.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cManifestamente o fant\u00e1stico da alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 que \u00e9 t\u00e3o diferente e n\u00f3s podemos comer coisas t\u00e3o simples e t\u00e3o boas, como podemos comer coisas complexas, long\u00ednquas e saborosas. Desde um peixe grelhado, com salada de tomate, poejo e cebola, ent\u00e3o se for da nossa costa, \u00e9 muito bom. Depois, comemos uma boa piza bem feita, com um bom molho de tomate com bom queijo, uma boa feijoada, em Fran\u00e7a um bom folhado. A gastronomia \u00e9 t\u00e3o rica e a sua polifonia \u00e9 uma gra\u00e7a\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>O jejum aprende-se \u00e0 mesa<\/h2>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/hannah-busing-rYWEj9Cyx7E-unsplash.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/hannah-busing-rYWEj9Cyx7E-unsplash-1024x683.jpg\" alt=\"Mesa\" width=\"1024\" height=\"683\" \/><\/a><\/p>\n<p>Tendo crescido num ambiente cat\u00f3lico, Francisco Martins d\u00e1 conta da import\u00e2ncia de a cada refei\u00e7\u00e3o procurar reunir os seus quatro filhos e, \u00e0 mesa, dar gra\u00e7as.<\/p>\n<p>\u201cHoje de forma mais barulhenta e an\u00e1rquica, mas o motivo est\u00e1 l\u00e1\u201d, explica.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00e0 mesa que a sintonia com Deus tamb\u00e9m acontece.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA ren\u00fancia, a partilha, atrav\u00e9s da subtileza das m\u00e3es que dizem que gostam mais do pesco\u00e7o do frango para d\u00e3o o melhor aos filhos. A m\u00e3e sempre gosta do pesco\u00e7o, nunca da perna ou da coxa, e o pesco\u00e7o n\u00e3o tem que comer, \u00e9 um ato de generosidade das m\u00e3es, que \u00e9 t\u00e3o bonito. A mesa ajuda-nos a procurar caminhos de sintonia maior com Deus e connosco\u201d, afirma.<\/p><\/blockquote>\n<p>Quando a cada domingo o Papa Francisco, ap\u00f3s o \u00c2ngelus, se despede com \u00abrezem por mim, bom almo\u00e7o e bom domingo\u00bb, \u201cconfere humanidade e indica a import\u00e2ncia da fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p>\u201cTodo o nosso crescimento, se olharmos bem, os grandes acontecimentos foram \u00e0 mesa ou ali celebrados: os casamentos celebram-se \u00e0 mesa. A mesa sempre teve este papel de celebra\u00e7\u00e3o e de uni\u00e3o. O domingo \u00e9 um convite \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia. N\u00e3o h\u00e1 nada mais importante para a fam\u00edlia do que a mesa\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wp-playlist wp-audio-playlist wp-playlist-light\">\n\t\t\t<div class=\"wp-playlist-current-item\"><\/div>\n\t\t<audio controls=\"controls\" preload=\"none\" width=\"640\"\n\t\t\t><\/audio>\n\t<div class=\"wp-playlist-next\"><\/div>\n\t<div class=\"wp-playlist-prev\"><\/div>\n\t<noscript>\n\t<ol>\n\t\t<li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_16mar2020.mp3'>ecclesia_16mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_17mar2020.mp3'>ecclesia_17mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_18mar2020.mp3'>ecclesia_18mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_19mar2020.mp3'>ecclesia_19mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_20mar2020.mp3'>ecclesia_20mar2020<\/a><\/li>\t<\/ol>\n\t<\/noscript>\n\t<script type=\"application\/json\" class=\"wp-playlist-script\">{\"type\":\"audio\",\"tracklist\":true,\"tracknumbers\":true,\"images\":false,\"artists\":false,\"tracks\":[{\"src\":\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_16mar2020.mp3\",\"type\":\"audio\/mpeg\",\"title\":\"ecclesia_16mar2020\",\"caption\":\"\",\"description\":\"\\\"ecclesia_16mar2020\\\". 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Tamb\u00e9m o meu av\u00f4, na reta final da sua vida, quando n\u00e3o havia palavras, porque ele n\u00e3o falava e n\u00e3o sab\u00edamos se ele via ou ouvia, a minha comunica\u00e7\u00e3o com ele nunca foi t\u00e3o profunda como nesses dias em que a forma de comunicar era apertar a m\u00e3o ou o bra\u00e7o\u201d, recorda.<\/p><\/blockquote>\n<p>O toque e a pele podem ser um meio de comunica\u00e7\u00e3o, \u201c\u00e0s vezes o \u00faltimo e o mais arriscado\u201d e que \u201csintetiza melhor o que temos para comunicar ao outro\u201d.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1, regista C\u00e1tia Tuna, uma necessidade de partilha do mesmo c\u00f3digo, caso contr\u00e1rio, \u201cestamos desencontrados na forma de comunicar\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEu posso valorizar muito a palavra mas como o outro n\u00e3o me diz nada apesar de me comunicar atrav\u00e9s do toque ou do tempo, eu n\u00e3o consigo interpretar o que ele me diz porque n\u00e3o tenho a gram\u00e1tica pr\u00e9via que me permite valorizar isso\u201d.<\/p>\n<p>A investigadora remonta ao s\u00e9culo III para recordar o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos de Or\u00edgenes, para sublinhar a import\u00e2ncia dos cinco sentidos sensoriais como experi\u00eancia de conhecimento.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA nossa no\u00e7\u00e3o de conhecimento \u00e9 muito diferente, est\u00e1 muito racionalizada. Ele valoriza muito o tato como inst\u00e2ncia que atrav\u00e9s do toque, os esposos do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos mas metaforicamente o crente e Deus, se podem conhecer e promover a uni\u00e3o m\u00edstica. Ele faz uma reflex\u00e3o entre os sentidos corporais e os sentidos espirituais\u201d, explica.<\/p><\/blockquote>\n<p>A hist\u00f3ria de uma vida pode ser constru\u00edda ou destru\u00edda pelos toques, pelos que se deram ou se recusaram.<\/p>\n<p>\u201cPelo gesto e pelo toque temos o poder de construir ou destruir o outro. \u00c9 nossa op\u00e7\u00e3o que os nossos toques transfigurem ou desfiguram. Acredito muito no poder das pequeninas coisas e nas pequenas transfigura\u00e7\u00f5es que ocorrem \u00e0 nossa volta\u201d, valoriza.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO sorriso, por exemplo, pode ser visto como uma pequena transfigura\u00e7\u00e3o. Aprender a acariciar \u00e9 mais dif\u00edcil do que aprender a bater. \u00c9 um grande desafio, reaprendermos as pequenas coreografias da do\u00e7ura\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Explica a investigadora que o corpo espiritual se comp\u00f5e com as marcas dos gestos corporais.<\/p>\n<p>\u201cTalvez a \u00fanica riqueza que acumulemos \u00e9 a riqueza corporal dos gestos que marcaram os outros e aqueles que nos marcaram, que carregamos como gestos de amor, e fazem uma esp\u00e9cie de tatuagens invis\u00edveis de d\u00e1diva, de generosidade pura\u201d.<\/p>\n<p>Sensibilidade e delicadeza s\u00e3o convocadas quando estamos no dom\u00ednio do toque.<\/p>\n<blockquote><p>As m\u00e3os podem assumir diferentes gestos e personificam diversos talentos, devendo, sublinha C\u00e1tia Tuna, ser alvo de grande respeito.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u201cAs m\u00e3os dos outros merecem muito respeito porque nos servem de m\u00faltiplas formas\u201d.<\/p>\n<p>Gestos de ora\u00e7\u00e3o, de pedido de esmola \u2013 \u201cvazias e abertas\u201d, s\u00e3o movimentos que acompanhamos quotidianamente.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cNa esmola o mais importante \u00e9 o toque: porque n\u00e3o fazer desse pequeno e r\u00e1pido encontro, um pretexto para tocar. Poder repensar a pr\u00e1tica da esmola, muito valorizada no mundo isl\u00e2mico, e que se perde no mundo crist\u00e3o\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<h2>O toque de Jesus<\/h2>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Escadas.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Escadas-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" \/><\/a><\/p>\n<p>C\u00e1tia Tuna recorda a forma como o verbo \u00abtocar\u00bb \u00e9 tantas vezes conjugado nos Evangelhos com a ideia de \u201cmultid\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO toque \u00e9 singularizador e resgata de anonimato, ou de caracter\u00edsticas transversais. O toque conhece e reconhece. E conhecer, em portugu\u00eas n\u00e3o se nota tanto, mas em franc\u00eas, sim \u2013 \u00abconnaitre\u00bb, co-nascer &#8211; que confirma a ideia de que a experi\u00eancia do tato como experi\u00eancia primeira e reconhecimento do outro, e imediatamente como ser relacional\u201d.<\/p>\n<p>A investigadora d\u00e1 conta de como os milagres de Jesus s\u00e3o descritos, e pela sua pr\u00e1tica, se distanciam de tantos outros milagreiros do seu tempo.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEle n\u00e3o fazia milagres para se auto exibir, fazia-os com grande pudor e descri\u00e7\u00e3o e apenas centrado no outro, na sua necessidade. Jesus recorria pouco a media\u00e7\u00f5es, a objetos que intermediassem essa cura, era pouco sofisticada\u2026 Os seus milagres implicam sempre um toque no outro, a capacidade de rasgar os protocolos do interdito, tocar no intoc\u00e1vel\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>E quem consideramos n\u00f3s que \u00e9 intoc\u00e1vel? \u201c\u00c0s vezes somos n\u00f3s mesmos os intoc\u00e1veis\u201d, indica.<\/p>\n<p>A Quaresma, enquanto \u201cgrande retiro da Igreja\u201d \u00e9 um tempo \u201cmuito sugestivo espiritualmente\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO jejum dos toques pode levar a essa aprendizagens da despossess\u00e3o dos outros e a melhor diferencia\u00e7\u00e3o do toque, do afeto e a antropofagia. O toque pode ser uma forma de queremos consumir o outro. H\u00e1 gestos que lemos, l\u00e1 no fundo, que tem algo de manipulador, de umas m\u00e3os que querem for\u00e7ar alguma coisa\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>C\u00e1tia Tuna recorda uma leitura que fez do livro \u00abAdam, o amado de Deus\u00bb, do padre Henri Nouwen, muito amigo de Jean Vanier, e esteve ligado \u00e0 comunidade \u00abA Arca\u00bb, pesando assist\u00eancia numa comunidade em Toronto, no Canad\u00e1.<\/p>\n<blockquote><p>\u00abEle conheceu o Adam, portador de uma defici\u00eancia profunda, que vai acabar por morrer, e o sacerdote holand\u00eas, que nessa ocasi\u00e3o pensava escrever um livro sobre o credo, acaba por escrever este livro e percebe ser o melhor texto capaz de descrever a sua compreens\u00e3o sobre o mist\u00e9rio de Jesus, evidenciado na rela\u00e7\u00e3o que estabeleceu com Adam que n\u00e3o falava mas que, ao cuidar, ao toc\u00e1-lo, foi sendo trabalhado para se tornar sens\u00edvel\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Esta rela\u00e7\u00e3o transformadora, sobretudo para o padre holand\u00eas\u201d mudou-lhe a perce\u00e7\u00e3o de Deus\u201d.<\/p>\n<p>Em 2002, C\u00e1tia Tuna ouviu numa confer\u00eancia D. Jos\u00e9 Policarpo, antigo cardeal-patriarca de Lisboa, estabelecer cinco etapas para a rela\u00e7\u00e3o humana e tamb\u00e9m para o relacionamento com Deus:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cAtrac\u00e3o: h\u00e1 sempre um fator de fasc\u00ednio, que cria uma rela\u00e7\u00e3o de magnetismo, pode ser raz\u00f5es muito pequeninas, e isso acontece tamb\u00e9m com Deus; Revela\u00e7\u00e3o: onde existe uma comunica\u00e7\u00e3o rec\u00edproca, uma troca de conhecimento de si e do outro, geradora, depois, da Contempla\u00e7\u00e3o: deslumbramo-nos com o que o outro revelou de si; Intimidade: num n\u00edvel mais profundo; Ternura: que implica o toque, o contato ou o tato. Nesta fase o corpo \u00e9 devolvido, mas j\u00e1 \u2018retrabalhado\u2019 pela confian\u00e7a que se cria, pela revela\u00e7\u00e3o e pelo caminho feito onde o corpo do outro, sendo o mesmo \u00e9 novo e diferente. Isto acontece tamb\u00e9m na nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wp-playlist wp-audio-playlist wp-playlist-light\">\n\t\t\t<div class=\"wp-playlist-current-item\"><\/div>\n\t\t<audio controls=\"controls\" preload=\"none\" width=\"640\"\n\t\t\t><\/audio>\n\t<div class=\"wp-playlist-next\"><\/div>\n\t<div class=\"wp-playlist-prev\"><\/div>\n\t<noscript>\n\t<ol>\n\t\t<li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_23mar2020.mp3'>ecclesia_23mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_24mar2020.mp3'>ecclesia_24mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_25mar2020.mp3'>ecclesia_25mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_26mar2020.mp3'>ecclesia_26mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_27mar2020.mp3'>ecclesia_27mar2020<\/a><\/li>\t<\/ol>\n\t<\/noscript>\n\t<script type=\"application\/json\" class=\"wp-playlist-script\">{\"type\":\"audio\",\"tracklist\":true,\"tracknumbers\":true,\"images\":false,\"artists\":false,\"tracks\":[{\"src\":\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/ecclesia_23mar2020.mp3\",\"type\":\"audio\/mpeg\",\"title\":\"ecclesia_23mar2020\",\"caption\":\"\",\"description\":\"\\\"ecclesia_23mar2020\\\". 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Escuta significa compreens\u00e3o. Na verdade, se h\u00e1 uma maneira privilegiada de se ser emp\u00e1tico \u00e9 atrav\u00e9s da escuta porque nem mesmo uma resposta pode ser considerada emp\u00e1tica se n\u00e3o partir de uma escuta ativa do quanto a pessoa nos transmite e diz\u201d.<\/p>\n<p>Na express\u00e3o de Santo Agostinho \u00abquero que tu sejas\u00bb, defini\u00e7\u00e3o de amor, entende-se o que \u00e9 a escuta.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA escuta \u00e9 um ato de amor. \u00c9 um ato de amor porque queremos que a pessoa que est\u00e1 \u00e0 nossa frente, seja. E \u00e9 um ato de amor tamb\u00e9m porque implica\u00a0um\u00a0esp\u00e9cie de esvaziamento de n\u00f3s mesmos,\u00a0que nos esque\u00e7amos de n\u00f3s e se d\u00ea protagonismo a quem escutamos\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Escutar, \u00e9 por isso, muito mais do que ouvir.<\/p>\n<p>Sandra Chaves Costa chama a aten\u00e7\u00e3o para o facto de todos nascermos com a capacidade de ouvir, nem todos sabermos escutar.<\/p>\n<p>\u201cNa atitude de escuta cultiva-se o prestar aten\u00e7\u00e3o ao que o outro diz, mas tamb\u00e9m ao que ele n\u00e3o diz e nos transmite pela sua maneira de estar, com a sua presen\u00e7a. Escutar implica, por isso, usar o olhar, que possui um enorme poder para recolher mensagens e captar significados\u201d, indica.<\/p>\n<p>Trata-se de uma escuta com o cora\u00e7\u00e3o: embora seja mais exigente, permite-nos recolher muito mais, pois \u00e9 mais \u201cmais profunda\u201d e convoca todos os sentidos.<\/p>\n<p>A coordenadora do GE explica que uma pessoa pode falar cerca de 140 a 160 palavras por minutos, mas tem a capacidade de escutar at\u00e9 600.<\/p>\n<p>\u201cE o que fazemos n\u00f3s com o tempo que nos sobra? Normalmente usamo-lo para preparar uma resposta, para pensar no que temos para fazer ou onde gostar\u00edamos de estar ou, ainda, para julgar a outra pessoa, enfim, em tudo menos no acolhimento do outro\u201d, lamenta.<\/p>\n<p>No processo de escuta acontece, assiduamente, as pessoas \u201cn\u00e3o conseguirem verbalizar o que sentem\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201c\u00c9 fun\u00e7\u00e3o de quem escuta recolher o mundo emocional e devolver-lhe, atribuindo um nome aos sentimentos, pois s\u00f3 assim eles podem ser assumidos e integrados. Quem escuta funciona como um espelho que reflete de forma ordenada o que ouve, v\u00ea e sente.\u00a0Desta maneira, a pessoa que \u00e9 escutada em clima de respeito e confian\u00e7a, com aus\u00eancia de julgamento, sente-se compreendida e digna de respeito e continua a explorar-se. Este processo dinamiza um movimento interior que \u00e9 altamente terap\u00eautico\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>O GE quer ser um servi\u00e7o de apoio \u201cdesburocratizado, portanto de acesso r\u00e1pido, e de proximidade\u201d, funcionando em tr\u00eas locais distintos: igreja de S\u00e3o Mamede, prestando apoio \u00e0s pessoas do centro de Lisboa; Centro Comercial Colombo, mais direccionado para os residentes em Benfica, Amadora e linha de Sintra; Oeiras, que presta apoio \u00e0s pessoas de toda a linha de Cascais.<\/p>\n<blockquote><p>A pessoa pode entrar em contacto com o centro de Escuta atrav\u00e9s de um n\u00famero de telefone centralizado, o 964400675, atrav\u00e9s de e-mail,\u00a0gescuta@gmail.com, ou atrav\u00e9s do nosso site,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.gabinetedeescuta.pt\/\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/www.gabinetedeescuta.pt&amp;source=gmail&amp;ust=1585948452802000&amp;usg=AFQjCNGwH_4yTHsu-9siHQXiw7V9FXobrw\">www.gabinetedeescuta.pt<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>O GE funciona com uma equipa de volunt\u00e1rios, \u201ccom forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para o efeito, que presta apoio psico-emocional atrav\u00e9s do m\u00e9todo de Rela\u00e7\u00e3o de Ajuda, que lan\u00e7a m\u00e3o dos conceitos da Psicologia Humanista e de Counselling e por isso exige uma forma\u00e7\u00e3o formal\u201d.<\/p>\n<p>O objetivo, esclarece Sandra Chaves Costa, \u00e9 \u201cacompanhar algu\u00e9m para que se fa\u00e7a respons\u00e1vel pela sua vida, mobilizando os seus pr\u00f3prios recursos, assumindo os seus limites pessoais, para que seja capaz de enfrentar o seu problema ou consiga viver de forma saud\u00e1vel o que n\u00e3o pode ser mudado\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Uma mudan\u00e7a de vida para receber tesouros<\/h2>\n<p>Depois de 20 anos a trabalhar na ind\u00fastria farmac\u00eautica, Sandra Chaves Costa, com forma\u00e7\u00e3o em engenharia qu\u00edmica, confronta-se com a morte de uma amiga, \u201cmuito pr\u00f3xima\u201d e entende a inabilidade de muitos em lidar com a situa\u00e7\u00e3o em si e com o sofrimento.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA morte era o elefante branco em cima da mesa de quem toda a gente se dava conta, mas que ningu\u00e9m queria aceitar e por isso acerca do qual ningu\u00e9m queria falar. Por isso, senti que nunca fui capaz de acolher verdadeiramente esta minha amiga e as suas necessidades\u201d, lamenta.<\/p><\/blockquote>\n<p>O seu processo de cura come\u00e7ou quando partilhou as suas inquieta\u00e7\u00f5es com um sacerdote amigo, que lhe lan\u00e7ou o desafio de integrar a equipa fundadora, colocando-a perante uma \u201cmudan\u00e7a de paradigma de vida\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cPercebi que eu, enquanto pessoa, para ter uma vida mais plena, para ter um sentimento de maior realiza\u00e7\u00e3o pessoal tinha de viver de forma mais pr\u00f3xima dos meus valores pessoais\u201d, valoriza.<\/p><\/blockquote>\n<p>Escutar o outro, iniciar este caminho no GE, permitiu a Sandra Chaves Costa, um exerc\u00edcio de humildade, \u201cde dar protagonismo ao outro, de me anular e esvaziar em prole de quem tenho \u00e0 minha frente\u201d e, simultaneamente, receber tesouros.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO reconhecimento do quanto a escuta pode reconfigurar a vida das pessoas, valida a nossa exist\u00eancia, que nos permite ser quem somos, que nos faz sentir valorizados e dignos de respeito\u201d, sublinha.<\/p><\/blockquote>\n<p>Perante uma das maiores necessidades do ser humana, a escuta, importa \u201csilenciar o ru\u00eddo interior, a verborreia, muitas vezes autorreferencial, que consome e distrai, porque s\u00f3 se escuta verdadeiramente com sil\u00eancio interior\u201d.<\/p>\n<p>Sandra Chaves Costa acredita ser nesse sil\u00eancio que quem escuta se encontra e tamb\u00e9m procura Deus.<\/p>\n<p>Precisamos de aprender a escutar a Palavra de Deus, reconhece: \u201ch\u00e1 uma aprendizagem a fazer\u201d, indica, porque quem \u201cescuta, compromete-se e quer configurar-se com Deus\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cSe n\u00f3s n\u00e3o pomos o que ouvimos em pr\u00e1tica ent\u00e3o n\u00e3o entendemos nada do que a Palavra de Deus nos diz.\u00a0Se o nosso cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o sair inflamado quando escuta Palavra de Deus, se n\u00e3o sentirmos vontade de mudar o mundo e de personificar essa mudan\u00e7a, ent\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o a escut\u00e1mos verdadeiramente\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Sandra Caves Costa reconhece, no entanto, que a hist\u00f3ria dos crentes \u00e9 um caminho \u00e0 procura de escutar a voz de Deus.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cA vida do crente \u00e9 sempre um lugar de caminho nunca terminado, \u00e9 um lugar de combate e de incerteza. Em que o sil\u00eancio do Pai \u00e9 tantas vezes interpretado como um abandono e n\u00e3o como o sil\u00eancio de quem escuta\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>A escuta do isolamento profil\u00e1tico<\/h2>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Escutar.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Escutar-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" \/><\/a><\/p>\n<p>No momento presente, \u201cneste tempo estranho, neste territ\u00f3rio desconhecido e em terreno inaugural\u201d, Sandra Chaves Costa afirma a possibilidade de uma mais radicalidade \u201cde entrega e de ren\u00fancia\u201d.<\/p>\n<p>Inspirando-se na reflex\u00e3o da psic\u00f3loga italiana Francesca Morelli, a coordenadora do GE, indica:<\/p>\n<p>\u201cNum momento hist\u00f3rico em que muitos governos tomam medidas discriminat\u00f3rias e xen\u00f3fobas, aparece um v\u00edrus que nos reduz \u00e0 nossa mais fr\u00e1gil condi\u00e7\u00e3o humana de forma igual, independentemente da ra\u00e7a, pa\u00eds, orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, religiosa ou sexual; uma cultura orientada para o consumo, aparece um v\u00edrus que nos ensina a fazer escolhas e a viver do essencial; Numa sociedade em que os valores de rapidez, efic\u00e1cia e produtividade s\u00e3o ensinados nas escolas e faculdades, e professados profissionalmente, aparece um v\u00edrus que nos obriga a estar em casa, a relativizar estes conceitos e a perceber que s\u00f3 sobreviveremos se n\u00e3o pusermos neles o nosso cora\u00e7\u00e3o; Num espa\u00e7o em que \u00e9 privilegiada a independ\u00eancia e a individualidade como crit\u00e9rios de emancipa\u00e7\u00e3o, surge um v\u00edrus que nos faz perceber a nossa verdadeira natureza &#8211; a de sermos seres interdependentes; Num tempo que descarta os idosos ao abandono e ostraciza os mais fr\u00e1geis aparece um v\u00edrus que nos convoca a todos para os proteger, que salienta a nossa generosidade e solidariedade\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO coronavirus\u00a0convoca-nos a sermos mais.\u00a0A perceber que n\u00e3o h\u00e1 eu e o mundo mas que o mundo e eu somos um s\u00f3. Neste tempo que vivemos somos todos convocados, tal como escreveu Etty Hillesum no meio do holocausto no seu Di\u00e1rio, a mostrar como a vida \u00e9 bela e cheia de sentido. Ela que, tendo a op\u00e7\u00e3o de escapar aos campos de morte, optou por cumprir o destino do seu povo e n\u00e3o abandonar Deus porque entendeu que Ele precisava dela\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Este tempo, indeterminado e desconhecido, pode ser \u201cduplamente profil\u00e1tico\u201d, indica, uma vez que para al\u00e9m da preven\u00e7\u00e3o da contamina\u00e7\u00e3o, \u201cpode ajudar a prevenir o sentimento de solid\u00e3o\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cH\u00e1 que aprender a estar s\u00f3 para n\u00e3o se sentir sozinho.\u00a0A\u00a0solid\u00e3o ensina-nos a n\u00e3o ter medo dos nossos dem\u00f3nios, porque \u00e9 nela que os conseguimos conhecer e dominar antes que sejam eles a dominar-nos\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>O isolamento \u00e9 tamb\u00e9m condi\u00e7\u00e3o para o \u201ccrescimento espiritual e est\u00e1 no \u00edntimo da experi\u00eancia religiosa\u201d.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO isolamento e a solid\u00e3o dele decorrente \u00e9 indispens\u00e1vel para a explora\u00e7\u00e3o espiritual que est\u00e1 subjacente \u00e0 experi\u00eancia m\u00edstica, pois \u00e9 o \u00fanico caminho para a introspe\u00e7\u00e3o e comunh\u00e3o com o divino. Tudo isto ser\u00e1 certamente prop\u00edcio para a escuta de Deus e de n\u00f3s mesmos, porque ela exige um permanecer, um habitar o tempo em sil\u00eancio\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"wp-playlist wp-audio-playlist wp-playlist-light\">\n\t\t\t<div class=\"wp-playlist-current-item\"><\/div>\n\t\t<audio controls=\"controls\" preload=\"none\" width=\"640\"\n\t\t\t><\/audio>\n\t<div class=\"wp-playlist-next\"><\/div>\n\t<div class=\"wp-playlist-prev\"><\/div>\n\t<noscript>\n\t<ol>\n\t\t<li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/ecclesia_30mar2020.mp3'>ecclesia_30mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/ecclesia_31mar2020.mp3'>ecclesia_31mar2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/ecclesia_01abr2020.mp3'>ecclesia_01abr2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/ecclesia_02abr2020.mp3'>ecclesia_02abr2020<\/a><\/li><li><a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/ecclesia_03abr2020.mp3'>ecclesia_03abr2020<\/a><\/li>\t<\/ol>\n\t<\/noscript>\n\t<script type=\"application\/json\" class=\"wp-playlist-script\">{\"type\":\"audio\",\"tracklist\":true,\"tracknumbers\":true,\"images\":false,\"artists\":false,\"tracks\":[{\"src\":\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/ecclesia_30mar2020.mp3\",\"type\":\"audio\/mpeg\",\"title\":\"ecclesia_30mar2020\",\"caption\":\"\",\"description\":\"\\\"ecclesia_30mar2020\\\". 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