{"id":168173,"date":"2020-03-31T12:27:07","date_gmt":"2020-03-31T11:27:07","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=168173"},"modified":"2020-03-31T12:27:07","modified_gmt":"2020-03-31T11:27:07","slug":"lusofonias-roma-30-anos-depois-de-angola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/lusofonias-roma-30-anos-depois-de-angola\/","title":{"rendered":"LUSOFONIAS &#8211; Roma, 30 anos depois de Angola"},"content":{"rendered":"<p><em>Tony Neves, em Roma<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/lusofonias-Angola30anosatras.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-168177 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/lusofonias-Angola30anosatras-260x260.jpg\" alt=\"\" width=\"260\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/lusofonias-Angola30anosatras-260x260.jpg 260w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/lusofonias-Angola30anosatras-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/lusofonias-Angola30anosatras-150x150.jpg 150w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/lusofonias-Angola30anosatras-768x767.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/lusofonias-Angola30anosatras-1080x1079.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/lusofonias-Angola30anosatras-980x979.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/lusofonias-Angola30anosatras-480x480.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/lusofonias-Angola30anosatras.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 260px) 100vw, 260px\" \/><\/a>\u2018L\u00e1zaro, vem c\u00e1 para fora!\u2019, gritou Jesus \u00e0 entrada do t\u00famulo. \u2018Com esta pandemia, nem pensar! Prefiro continuar morto!\u2019 \u2013 responde L\u00e1zaro l\u00e1 de dentro!\u00a0 Assim humorizava um cartoon alusivo ao Evangelho deste domingo que narrava a ressurrei\u00e7\u00e3o de L\u00e1zaro. A verdade \u00e9 que pandemias e guerras trazem mais morte do que vida. S\u00e3o inimigos cru\u00e9is que nunca nos encontram preparados para os enfrentar. Tudo isto a prop\u00f3sito de algumas pessoas me pedirem para comparar a experi\u00eancia de guerra em Angola (h\u00e1 30 anos) com este tempo de covid 19 em Roma. Lamento, mas qualquer compara\u00e7\u00e3o vai falhar.<\/p>\n<p>Andei 30 anos para tr\u00e1s, nas minhas mem\u00f3rias de vida. Fui consultar as duas edi\u00e7\u00f5es de \u2018Miss\u00e3o em Angola\u2019, publicadas em 1996 e 1997, com cr\u00f3nicas escritas a partir do territ\u00f3rio angolano. Revisitar estes textos \u00e9 reavivar os primeiros anos da minha vida de padre e voltar a experimentar alegrias e dores, ang\u00fastias e esperan\u00e7as que me marcaram para sempre.<\/p>\n<p>H\u00e1 30 anos estava eu no Kuito Bi\u00e9 (ex-Silva Porto), uma pequen\u00edssima cidade do interior do planalto angolano. Era \u2018uma ilha de paz cercada de guerra por todos os lados\u2019 (p.22). Mas, por ser uma cidade t\u00e3o isolada e de reduzida dimens\u00e3o, os ataques nocturnos quase di\u00e1rios provocavam rebentamentos que pareciam estoirar sempre debaixo da minha cama. Jovem, rec\u00e9m-chegado de Paris, n\u00e3o tinha estofo para aguentar um cerco desta dimens\u00e3o, sentia-me estrangulado, sem ar vital para respirar. E o pior era sair de casa e olhar \u00e0 minha volta: centenas de pessoas desnutridas, crian\u00e7as esquel\u00e9ticas, todos a gritar por um bocadinho de p\u00e3o, tal a fome que as guerras geram. Do\u00eda o cora\u00e7\u00e3o e a Igreja, atrav\u00e9s da Caritas, era a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o que recebia alimentos, roupa e medicamentos e que, sem olhar a credos, distribu\u00eda, embora fosse claro que n\u00e3o resolvia os problemas das pessoas.<\/p>\n<p>Escrevi do Kuito onze cr\u00f3nicas apenas. Ao rel\u00ea-las, sinto um aperto de alma e apetece-me gritar como o poeta Jacques Pr\u00e9vert, \u2018como \u00e9 est\u00fapida a guerra!\u2019. Escrevi: \u2018Para al\u00e9m das centenas de milhar de mortos, esta terr\u00edvel guerra fez muitos milhares de mutilados. No dobrar de cada esquina, a gente v\u00ea-os sem pernas, sem bra\u00e7os e sem nada que fazer\u2026que futuro?! (p.23). Depois, morreu a Irm\u00e3 Monique, uma Religiosa enfermeira francesa que trabalhava no hospital central e que socorria muita gente que lhe batia \u00e0 porta. Morreu de um enfarte fulminante, v\u00edtima do excesso de trabalho e sofrimento: \u2018foram muitos anos de preocupa\u00e7\u00e3o e dor: das crian\u00e7as que via chegar e morrer, das v\u00edtimas desta guerra a quem o hospital abria as portas sem poder fazer grande coisa!\u2019 (p.31).<\/p>\n<p>Veio a P\u00e1scoa e, tamb\u00e9m h\u00e1 30 anos, a celebra\u00e7\u00e3o foi discreta. Escrevi: \u2018A Igreja lutar\u00e1 pela paz, pela justi\u00e7a e pelos direitos humanos, doa a quem doer! Ela continuar\u00e1 a pugnar pelo cessar fogo, pelo di\u00e1logo, por uma mais correcta distribui\u00e7\u00e3o da riqueza, por mais progresso e ordem social\u2026e por mais p\u00e3o, roupa, medicamentos e voz para o povo!\u2019 (p.34). Foram estes os meus votos de P\u00e1scoa em 1990!<\/p>\n<p>Uma das grandes figuras do Bi\u00e9 era a Irm\u00e3 Tchitalala, directora da Caritas. Entre outras iniciativas, recolheu dezenas que crian\u00e7as cujos pais morreram na guerra, e fez um lar feliz que eu visitava muitas vezes: \u2018Temos 45 internos. Mas \u00e9 bem maior o n\u00famero daqueles que conseguimos integrar em fam\u00edlias e a quem apoiamos. \u00c9 mais pedag\u00f3gico e \u00e9 uma aposta de mais futuro\u2019 \u2013 confessou a Irm\u00e3 numa entrevista a que dei o t\u00edtulo \u2018o quase tudo dos sem nada\u2019 (pp.35-39).<\/p>\n<p>Mas, no meio de tanta trag\u00e9dia, o povo crist\u00e3o ainda ganhou coragem para sair \u00e0 rua no Corpo de Deus, onde dan\u00e7ou e rezou pela paz. E registei em artigo o testemunho de um dos crist\u00e3os da minha par\u00f3quia que regressou vivo do campo de reclus\u00e3o e reeduca\u00e7\u00e3o de S. Nicolau, do Namibe, e veio dizer-me que encontrou a fam\u00edlia bem e que perdoava a quem, injustamente, o tinha denunciado e aos que o tinham maltratado na pris\u00e3o. S\u00e3o estes e outros os momentos em que os mission\u00e1rios percebem que n\u00e3o gastam a vida em v\u00e3o quando arriscam tudo e aceitam ficar l\u00e1 onde a cabe\u00e7a est\u00e1 sempre a pr\u00e9mio.<\/p>\n<p>O Kuito foi tamb\u00e9m terra de ecumenismo, pois Padres, Irm\u00e3s, Pastores e Pastoras, e respectivas comunidades crist\u00e3s, andaram sempre de m\u00e3os dadas nesta tentativa de abrir caminhos de paz e de justi\u00e7a numa terra e num tempo em que s\u00f3 as armas e os seus senhores erguiam as vozes e detinham o poder absoluto.<\/p>\n<p>Volto \u00e0 quest\u00e3o inicial: que rela\u00e7\u00e3o entre o que vivi h\u00e1 30 anos em Angola e vivo agora em Roma com o covid19? Tentarei explicar na pr\u00f3xima cr\u00f3nica. De qualquer forma, fique claro: aprendi a crescer em Angola, quero crescer ainda mais quando o coronav\u00edrus deixar de nos matar.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-168173-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/lusofonias-angola-roma30anos.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/lusofonias-angola-roma30anos.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/lusofonias-angola-roma30anos.mp3<\/a><\/audio>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tony Neves, em Roma<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":114253,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-168173","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/168173","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=168173"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/168173\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/114253"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=168173"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=168173"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=168173"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}