{"id":16814,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/biblia-literatura-e-beleza\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"biblia-literatura-e-beleza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/biblia-literatura-e-beleza\/","title":{"rendered":"B\u00edblia, literatura e beleza"},"content":{"rendered":"<p>Quando Santo Agostinho, no seu De Doctrina Christiana, escrevia que quem folhear a B\u00edblia \u00abencontrar\u00e1 muitos g\u00e9neros de locu\u00e7\u00e3o de tanta beleza\u00bb, ousava temerariamente equiparar os Livros Sagrados \u00e0 excel\u00eancia liter\u00e1ria dos textos cl\u00e1ssicos, reconhecendo que a qualidade espiritual \u00e9 tamb\u00e9m enunciada por uma qualidade est\u00e9tica. Para Agostinho, a B\u00edblia era, claro, fonte de experi\u00eancia religiosa, mas tamb\u00e9m, e de um modo irresist\u00edvel, uma escola de escrita e de leitura. O seu s\u00e9culo, por\u00e9m, estava encravado num estreito c\u00e2none de beleza: se um jovem quisesse aprender a surpresa e perfei\u00e7\u00e3o do estilo devia unicamente beber na tradi\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica ou po\u00e9tica tradicional, que \u00e9 como quem diz greco-latina. A B\u00edblia era apenas um suporte religioso. Uma l\u00edngua de trapos acusada de \u2018rusticitas\u2019. As coisas que contava tinham um sentido, mas descritas de um modo irrelevante numa sociedade que se amotinava em torno aos fil\u00f3sofos, aos dramaturgos ou aos tribunos. As palavras de Agostinho falando de \u00abtanta beleza\u00bb a prop\u00f3sito da B\u00edblia representariam, aos ouvidos do seu tempo, n\u00e3o um ju\u00edzo, mas uma provoca\u00e7\u00e3o. Hoje n\u00e3o sei bem o que s\u00e3o. O entendimento da B\u00edblia, como repert\u00f3rio avulso de verdades, leva a que ainda um grande n\u00famero de abordagens ao texto b\u00edblico se interesse mais pelas ideias de homem, de alma ou de escatologia, negligenciando as ditas \u2018palavras\u2019, isto \u00e9, os dados da express\u00e3o, muitas vezes considerados como aspectos menores ou estranhos ao estudo de um documento essencialmente religioso. Embora, nos \u00faltimos anos, se v\u00e1 consolidando a verifica\u00e7\u00e3o de que a verdade b\u00edblica \u00e9 solid\u00e1ria com o seu suporte est\u00e9tico expressivo, pois f\u00e9 e linguagem intrinsecamente se reclamam. E esteja a alterar-se uma certa conjuntura intelectual que remetia a B\u00edblia para o restrito dom\u00ednio do religioso, esquecendo que a condi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica da B\u00edblia \u00e9 insepar\u00e1vel da sua natureza propriamente liter\u00e1ria. Essa \u00e9, ali\u00e1s, uma exig\u00eancia da Revela\u00e7\u00e3o. Na realidade, quando se olha para a especificidade da experi\u00eancia religiosa que a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica transmite, somos confrontados com a realidade de um Deus que se revela na hist\u00f3ria. E a economia dessa revela\u00e7\u00e3o, como explicita a Dei Verbum, realiza-se por meio de ac\u00e7\u00f5es e palavras intimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras manifestam e confirmam as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem o mist\u00e9rio nelas contido. Para o grande esfor\u00e7o de viragem metodol\u00f3gica que se vive actualmente nas ci\u00eancias b\u00edblicas, muito tem contribu\u00eddo o inesperado labor de autores que n\u00e3o come\u00e7aram por ser te\u00f3logos ou exegetas, mas prov\u00eam do \u00e2mbito dos estudos liter\u00e1rios e olham com entusiasmo pela alt\u00edssima qualidade da narra\u00e7\u00e3o b\u00edblica.   Penso em Erich Auerbach, que na sua obra monumental sobre o realismo na literatura do ocidente, distingue apenas dois \u00fanicos paradigmas como fundamentais: o da Odisseia e o da B\u00edblia, dando-se conta que, na economia das narra\u00e7\u00f5es b\u00edblicas, h\u00e1 uma profunda intencionalidade art\u00edstica e uma concep\u00e7\u00e3o muito elaborada do real.   Noutra obra de refer\u00eancia dedicada ao estudo da narra\u00e7\u00e3o, Scholes e Kellog afirmam que o desenvolvimento do mundo interior dos personagens que, por exemplo, nos emociona em Shakespeare ou em James Joyce s\u00e3o, afinal, um elemento de deriva\u00e7\u00e3o crist\u00e3, pois Jesus for\u00e7ou a sua cultura (em grande medida nossa) a tomar maior consci\u00eancia da vida interior e a preocupar-se menos com a apar\u00eancia exterior.  Em \u201cDe profundis\u201d, Oscar Wilde d\u00e1 o seguinte testemunho: \u00abNo natal, consegui apoderar-me de um Novo Testamento em grego, e todas as manh\u00e3s, depois de ter limpo a cela e de ter polido os pratos, leio um pouco dos Evangelhos, uma d\u00fazia de vers\u00edculos escolhidos ao acaso. \u00c9 uma deliciosa maneira de come\u00e7ar o dia. (\u2026) N\u00f3s perdemos a na&#1111;vet\u00e9, a frescura e o encanto dos Evangelhos. Ouvimos l\u00ea-los demasiadas vezes, e mal demais, e toda a repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 anti-espiritual. Quando regressamos ao grego, \u00e9 como se entr\u00e1ssemos num jardim de l\u00edrios, depois de sairmos de uma casa estreita e escura\u00bb. Nos Evangelhos o escritor encontrava todos os elementos da vida: o mist\u00e9rio, a estranheza, a sugest\u00e3o, o \u00eaxtase, o amor, o apelo \u00e0 capacidade de espanto que cria aquela disposi\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito pela qual, e apenas pela qual, sublinha, pode ser compreendido. Por isso, explica ele, aos textos b\u00edblicos se deve tudo: a Catedral de Chartres, o ciclo das lendas arturianas, a vida de S\u00e3o Francisco de Assis, a arte de Giotto, a Divina Com\u00e9dia de Dante, O Romeu e Julieta e o Conto de Inverno, Os Miser\u00e1veis de V\u00edctor Hugo e As Flores do Mal de Baudelaire, os m\u00e1rmores de Miguel \u00c2ngelo, a nota de piedade dos romances russos, Verlaine e os poemas de Verlaine. De facto, basta folhear a B\u00edblia, mesmo numa mediana tradu\u00e7\u00e3o, para perceber afirma\u00e7\u00f5es como as de William Blake que chamava \u00e0 B\u00edblia o grande c\u00f3dice da Arte ocidental, reconhecendo como a navalha tremeluzente do seu brilho continua a iluminar a intermin\u00e1vel aventura da cria\u00e7\u00e3o. Ou Paul Claudel que a considera \u00abo imenso vocabul\u00e1rio\u00bb, pois nela, e \u00e0s vezes s\u00f3 nela, se apreende a misteriosa, dif\u00edcil e intermin\u00e1vel arte de nomear. Ou Chagall que designava como \u00abo atlas iconogr\u00e1fico\u00bb, j\u00e1 que tantas dessas imagens que perfuram o nosso olhar e os nossos sonhos est\u00e3o a\u00ed mergulhadas. A B\u00edblia \u00e9 tudo isso e tamb\u00e9m aquilo que nem conseguimos dizer, porque \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil, t\u00e3o diferente dizer uma literatura constru\u00edda, n\u00e3o o esque\u00e7amos, por poetas an\u00f3nimos, uma literatura que foi segredada e recitada durante s\u00e9culos, antes de ser escrita, que \u00e9 tecida de palavras que solicitam o indiz\u00edvel, e que foram, e que s\u00e3o n\u00e3o apenas a express\u00e3o das hist\u00f3rias, mas o rastro de um estremecimento que as atravessa, como um sopro de Deus.  <i>Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a<\/i>, in \u201cObservat\u00f3rio da Cultura\u201d, n\u00ba 5.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando Santo Agostinho, no seu De Doctrina Christiana, escrevia que quem folhear a B\u00edblia \u00abencontrar\u00e1 muitos g\u00e9neros de locu\u00e7\u00e3o de tanta beleza\u00bb, ousava temerariamente equiparar os Livros Sagrados \u00e0 excel\u00eancia liter\u00e1ria dos textos cl\u00e1ssicos, reconhecendo que a qualidade espiritual \u00e9 tamb\u00e9m enunciada por uma qualidade est\u00e9tica. 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