{"id":16754,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-lei-de-deus-e-as-leis-dos-homens\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-lei-de-deus-e-as-leis-dos-homens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-lei-de-deus-e-as-leis-dos-homens\/","title":{"rendered":"A Lei de Deus e as leis dos homens"},"content":{"rendered":"<p>Catequese de D. Jos\u00e9 Policarpo no 1\u00ba Domingo da Quaresma <!--more--> 1. O Congresso sobre a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o deixou-nos uma inquieta\u00e7\u00e3o, que se torna exig\u00eancia: exprimir a nossa f\u00e9 crist\u00e3 na totalidade da exist\u00eancia, na simplicidade de um des\u00edgnio de Deus que nos \u00e9 manifestado como chamamento e voca\u00e7\u00e3o \u00e0 santidade. Nada, na nossa vida, pode ser estranho a esse chamamento, pois a fidelidade que o Senhor espera de n\u00f3s, exprime-se na vida e n\u00e3o apenas em afirma\u00e7\u00f5es ou declara\u00e7\u00f5es de inten\u00e7\u00f5es. Esse chamamento \u00e9 a Sua \u201cLei\u201d.  J\u00e1 depois do Congresso, a Igreja toda foi enriquecida com a primeira Enc\u00edclica do Papa Bento XVI, intitulada \u201cDeus \u00e9 amor\u201d, que desafia a Igreja a fazer do amor, n\u00e3o apenas afirmado, mas expresso em atitudes, para com Deus e para com os homens, nossos irm\u00e3os, a principal express\u00e3o da f\u00e9 e da fidelidade. As \u00faltimas palavras da Enc\u00edclica encerram todo um programa: \u201cViver o amor e, deste modo, fazer entrar a luz de Deus no mundo, eis o convite que vos quero deixar com a presente Enc\u00edclica\u201d (S.S. Bento XVI, \u201cDeus caritas est\u201d, n.\u00ba 39) Por outro lado, verifica-se hoje, dentro da pr\u00f3pria comunidade eclesial, uma tend\u00eancia para separar a f\u00e9 professada e celebrada da sua viv\u00eancia na exist\u00eancia concreta, vivida segundo as exig\u00eancias da P\u00e1scoa de Jesus. Esta atitude \u00e9 concebida, n\u00e3o como infidelidade, mas como express\u00e3o da liberdade e autonomia da consci\u00eancia, como se cada um tivesse o direito de fazer a sua lei e interpretar \u00e0 sua maneira as exig\u00eancias da f\u00e9 crist\u00e3, esquecendo que nada interpela tanto a consci\u00eancia como o chamamento do Senhor a viver no amor e na verdade.  A Igreja reconhece um papel importante \u00e0 consci\u00eancia pessoal no discernimento das exig\u00eancias do chamamento da Palavra de Deus, concretizadas na vida, desde que nunca deixe de se escutar a voz do Senhor, e nos defendamos das concep\u00e7\u00f5es individualistas da autonomia da liberdade, relativizando a Palavra de Deus e a verdade da comunidade a que se pertence, t\u00e3o fortemente afirmadas na cultura contempor\u00e2nea. Notam-se, na sociedade actual, muitas manifesta\u00e7\u00f5es da afirma\u00e7\u00e3o desta autonomia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 f\u00e9 e \u00e0 doutrina da Igreja, como se estas fossem obst\u00e1culo \u00e0 liberdade. E a actividade legislativa \u00e9, certamente, uma express\u00e3o importante desta busca de autonomia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 influ\u00eancia da Igreja e dos seus ensinamentos, na express\u00e3o legal das mais variadas e delicadas atitudes humanas. Em nenhum pa\u00eds a Igreja pretende, hoje, impor as \u201cleis religiosas\u201d como leis dos Estados que se definem como laicos, sobretudo no Ocidente. Mas isso n\u00e3o significa que a Igreja abdique de entrar no di\u00e1logo cultural, em culturas de matriz crist\u00e3, impregnando-as das dimens\u00f5es \u00e9ticas que devem inspirar o sentido das leis, e dos valores humanos da revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3, que antes de serem religiosos, s\u00e3o afirma\u00e7\u00f5es de um \u201cuniversal humano\u201d, radicado no cora\u00e7\u00e3o de cada homem. A Igreja n\u00e3o pode, igualmente, renunciar ao direito e ao dever de esclarecer a consci\u00eancia dos crist\u00e3os quando as leis agridem esses valores fundamentais. Os crist\u00e3os est\u00e3o na cidade, a procurarem, de m\u00e3os dadas com todos, a sua humaniza\u00e7\u00e3o e a sua harmonia, e a\u00ed s\u00e3o chamados a dar testemunho da grandeza dos valores crist\u00e3os. Eis porque escolhi, este ano, como tema das \u201cCatequeses Quaresmais\u201d a Lei de Deus, que se resume no mandamento do amor e a sua coexist\u00eancia, na sociedade concreta em que vivemos, com o exerc\u00edcio da liberdade, com os crit\u00e9rios culturais do seu exerc\u00edcio e com a justeza das leis que nos prop\u00f5em. Se a Palavra de Deus interpela a nossa consci\u00eancia, as leis dos homens exigem desta um discernimento l\u00facido e corajoso.  <b>A Lei de Deus<\/b> 2. A Lei de Deus assenta num pressuposto fundamental, a certeza de que o homem foi criado por Deus, com amor e que para ele e por causa dele, criou o pr\u00f3prio Universo. Essa certeza define o sentido radical da exist\u00eancia humana, porque a plenitude que todos os homens desejam e a que chamam felicidade, est\u00e1 contida no ideal de homem que Deus criou, \u00e0 Sua imagem, isto \u00e9, feito para participar da pr\u00f3pria plenitude divina. Deus tem um des\u00edgnio para o homem, que \u00e9 de amor e de felicidade. Esse des\u00edgnio, \u201cescondido desde todos os s\u00e9culos em Deus\u201d (Ef. 3,9), encerra, n\u00e3o apenas a defini\u00e7\u00e3o de plenitude humana desejada por Deus, mas tamb\u00e9m os caminhos e os meios atrav\u00e9s dos quais o homem pode, na sua exist\u00eancia hist\u00f3rica, caminhar para essa plenitude. Deus acompanha o homem, nessa caminhada, com o mesmo amor com que o criou. A encarna\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Deus, em Jesus Cristo, e a Sua morte oferecida por n\u00f3s, mostram-nos que essa solicitude amorosa de Deus atingiu o extremo da loucura de amor.  A Lei de Deus, Torah em hebraico, \u00e9 simultaneamente, ensinamento e chamamento. Deus chama todos os homens \u00e0 plenitude da vida e revela-lhes os caminhos para a alcan\u00e7ar. A Lei \u00e9 Palavra de Deus e toda a Palavra de Deus revela a solicitude de Deus acerca dos homens. \u00c9 por isso que Jesus Cristo, Palavra encarnada e plenitude da Revela\u00e7\u00e3o, \u00e9 tamb\u00e9m a plenitude da Lei. Esta Lei de Deus, como revela\u00e7\u00e3o e chamamento a viver a vida em comunh\u00e3o com Deus, \u00e9 gravada no cora\u00e7\u00e3o do homem pelo acto criador. Est\u00e1 contida na afirma\u00e7\u00e3o de que o homem \u00e9 \u201cimagem de Deus\u201d, chamado a viver em alian\u00e7a de comunh\u00e3o com Ele. Esta dimens\u00e3o de alian\u00e7a ser\u00e1 a base constitutiva do Povo eleito. A\u00ed, no tempo de Mois\u00e9s, a Lei de Deus, impressa no cora\u00e7\u00e3o de cada homem, exprime-se no c\u00f3digo de alian\u00e7a. Ao longo dos s\u00e9culos a Lei deve tornar viva a exig\u00eancia da alian\u00e7a. Reavivar a Lei significa assumir, de maneira mais profunda, o mist\u00e9rio da alian\u00e7a, que encontrar\u00e1 a sua plenitude na nova e definitiva alian\u00e7a, revelada e ratificada no sangue de Cristo e que a Igreja, novo Povo de Deus, renova em cada Eucaristia que celebra.  3. Na fase constitutiva do Povo de Israel, Mois\u00e9s, o grande legislador, concretiza o c\u00f3digo da Alian\u00e7a nas leis concretas que regulam a vida do Povo, em todos os aspectos, e que indicam o caminho de fidelidade ao esp\u00edrito da Alian\u00e7a, vivida no concreto da vida. A Lei que \u00e9, na sua ess\u00eancia, revela\u00e7\u00e3o e chamamento, transformou-se em norma legal. Os preceitos v\u00e3o-se multiplicando, at\u00e9 obscurecerem o sentido radical de revela\u00e7\u00e3o e chamamento. A prega\u00e7\u00e3o dos Profetas vai na linha de reavivar o sentido fundador da Lei como chamamento de alian\u00e7a, e de denunciar o cumprimento exterior e material de preceitos concretos, que j\u00e1 n\u00e3o exprimem a fidelidade amorosa \u00e0 alian\u00e7a com Deus. A decad\u00eancia da Lei como caminho de vida segundo o des\u00edgnio de Deus, vai-se acentuando at\u00e9 Cristo, que retoma a Lei no seu sentido original de caminho de alian\u00e7a. Ele, enviado do Pai, apresenta-se a Si mesmo como \u00fanico caminho. S\u00f3 unido a Ele, pela f\u00e9 e pelo baptismo, se pode caminhar para a plenitude da vida. Em S\u00e3o Paulo encontramos a express\u00e3o mais radical desta tens\u00e3o entre a uni\u00e3o a Jesus Cristo, pela f\u00e9, e a Lei como caminho de vida e de salva\u00e7\u00e3o (cf. Rom. 7,1-6; 10,5-13). O Cristianismo, afirmando que a verdade essencial da Lei est\u00e1 em Jesus Cristo, caminho para o Pai, n\u00e3o s\u00f3 reconduz toda a Lei ao sentido primordial, mas valoriza a Lei impressa no cora\u00e7\u00e3o de cada homem, que \u00e9 a porta aberta \u00e0 f\u00e9 em Jesus Cristo.  <b>A Lei inscrita por Deus no cora\u00e7\u00e3o do homem<\/b> 4. A revela\u00e7\u00e3o do des\u00edgnio de Deus acerca do homem e a indica\u00e7\u00e3o do caminho para atingir a plenitude da vida, n\u00e3o come\u00e7a, segundo a Sagrada Escritura, na proposta de alian\u00e7a feita a Abra\u00e3o e na lei positiva de Mois\u00e9s. A humanidade at\u00e9 a Abra\u00e3o e todos os povos, de todos os tempos, que n\u00e3o conhecem a economia judaico-crist\u00e3, n\u00e3o vivem sem lei, isto \u00e9, sem Deus, que os criou, lhes indicar os caminhos da vida. Deus gravou no cora\u00e7\u00e3o do homem uma lei, que ele h\u00e1-de conhecer e discernir atrav\u00e9s da sua consci\u00eancia. S\u00e3o Paulo, na Carta aos Romanos, \u00e9 claro a este respeito: \u201cos pag\u00e3os n\u00e3o t\u00eam a Lei. Mas, embora n\u00e3o a tenham, se fazem espontaneamente o que a Lei manda, eles pr\u00f3prios s\u00e3o lei para si mesmos. Assim mostram que os preceitos da Lei est\u00e3o escritos nos seus cora\u00e7\u00f5es; a sua consci\u00eancia tamb\u00e9m testemunha isso, assim como os julgamentos interiores, que ora os condenam, ora os aprovam. \u00c9 o que vai acontecer no dia em que Deus, segundo o meu Evangelho, vai julgar, por meio de Jesus Cristo, o comportamento secreto dos homens\u201d (Rom. 2,14-16). A esta inspira\u00e7\u00e3o do sentido da vida, de discernimento do que \u00e9 bem ou mal, continua a chamar-se \u201cLei natural\u201d, embora a express\u00e3o n\u00e3o apare\u00e7a, explicitamente, na Sagrada Escritura. Ela consiste, globalmente, no sentido do bem e do mal. Os seus conte\u00fados s\u00e3o religiosos, antropol\u00f3gicos e morais. S\u00e3o religiosos, porque ela inclui o reconhecimento de Deus, a obedi\u00eancia \u00e0 Sua vontade e a adora\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 devida. A atitude religiosa \u00e9 a dimens\u00e3o mais universal da humanidade, que se exprime nas religi\u00f5es e marca profundamente as culturas. Tem dimens\u00e3o antropol\u00f3gica, porque anuncia o mist\u00e9rio do homem e a sua dignidade. A sua rela\u00e7\u00e3o com Deus define a sua natureza; a sua realiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa por nenhuma forma de solid\u00e3o, mas sim pela rela\u00e7\u00e3o com os outros homens. Esta dimens\u00e3o relacional encontra a sua express\u00e3o constitutiva, na comunh\u00e3o do homem e da mulher, afirmando a complementaridade dos sexos, base da fam\u00edlia humana e garantia da sua continuidade, como elemento constitutivo da verdade de todos os seres humanos (cf. Gen. 23,18-25). Como afirma Bento XVI na sua recente Enc\u00edclica, a rela\u00e7\u00e3o entre o homem e a mulher, exprime o principal prot\u00f3tipo do amor, garantia da felicidade. \u201cEm toda a gama de significados da palavra amor, o amor entre o homem e a mulher (\u2026) sobressai como arqu\u00e9tipo do amor por excel\u00eancia\u201d (S.S. Bento XVI, \u201cDeus caritas est\u201d, n.\u00ba 1). A rela\u00e7\u00e3o com os outros homens completa-se no relacionamento com o universo criado, casa comum de toda a fam\u00edlia humana, que lhe foi dado para que o cultivasse e aperfei\u00e7oasse, mostrando, assim, a sua colabora\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3prio Criador. Todas as coisas pertencem a Deus, que as colocou a todos sob o poder do homem, para que as desenvolva e aperfei\u00e7oe, n\u00e3o para que as destrua. A Lei natural encerra, finalmente, uma clara exig\u00eancia moral. O poder discernir entre o bem e o mal est\u00e1 afirmado na narra\u00e7\u00e3o da Cria\u00e7\u00e3o, na \u201c\u00e1rvore da ci\u00eancia do bem e do mal\u201d (cf. Gen. 2,9-10; 3,3). S\u00f3 Deus \u00e9 Senhor da vida humana e nenhum homem tem poder sobre a vida de outro ser humano (Gen. 4,9-12); ao contr\u00e1rio, tem o dever de a cultivar e multiplicar (Gen. 1,28).  5. Esta Lei natural n\u00e3o pode ser anulada por nenhuma lei positiva. Quando na constitui\u00e7\u00e3o do Povo de Israel surge a Lei de Mois\u00e9s, ela \u00e9 a explicita\u00e7\u00e3o clara desta lei impressa no cora\u00e7\u00e3o do homem. O n\u00facleo central da Lei mosaica \u00e9 constitu\u00eddo pelos ditames da Lei natural: amar\u00e1s o Senhor teu Deus, honrar\u00e1s pai e m\u00e3e e n\u00e3o cobi\u00e7ar\u00e1s a mulher do pr\u00f3ximo, n\u00e3o matar\u00e1s, tratar\u00e1s com justi\u00e7a a todos por igual, mesmo o pobre e o estrangeiro. Deus n\u00e3o se pode contradizer ou mudar inesperadamente a Sua vontade acerca do homem. Durante s\u00e9culos, at\u00e9 Jesus Cristo, plenitude da Lei, Deus n\u00e3o fez mais que manifestar a profundidade e a verdade deste c\u00f3digo de vida, que \u00e9 mensagem constitutiva do ser humano. Esta Lei natural \u00e9 pr\u00e9-religiosa, \u00e9 constitutiva do ser humano. Ela vai exprimir-se em religi\u00f5es e culturas, mas para al\u00e9m de todas elas \u00e9 patrim\u00f3nio universal da humanidade. Encontramo-la, na sua verdade fundamental, em todas as religi\u00f5es e culturas, fundamento \u00e9tico que deveria ser respeitado por todas as leis humanas.  <b>As leis humanas<\/b> 6. As leis s\u00e3o uma express\u00e3o normal e necess\u00e1ria das regras de conviv\u00eancia dos homens em sociedade. Elas traduzem o modelo de sociedade a construir, porque aplicam \u00e0 pr\u00e1tica da exist\u00eancia os valores \u00e9ticos a promover. S\u00e3o grandes os povos que t\u00eam leis s\u00e1bias e justas. Estas s\u00e3o indeslig\u00e1veis da cultura dos povos, pois s\u00f3 a cultura garante a s\u00edntese desses valores, numa tradi\u00e7\u00e3o que re\u00fane o passado e o presente e harmoniza todas as express\u00f5es da alma de um povo: a religi\u00e3o, a arte, o pensamento, a sabedoria com que se venceram dificuldades e se ultrapassaram conflitos. Quando um povo faz leis que agridem o seu patrim\u00f3nio cultural, compromete a sua pr\u00f3pria harmonia. As religi\u00f5es foram sempre uma express\u00e3o importante da Lei natural e  elemento marcante da constitui\u00e7\u00e3o das culturas. N\u00e3o admira que muitas vezes, ao longo da hist\u00f3ria, e em diversos horizontes culturais, a religi\u00e3o inspirasse as leis humanas que regulavam a conviv\u00eancia dos povos. Foi assim no Povo de Israel, onde todas as leis deveriam ser express\u00f5es da Lei de Deus; foi assim na Europa, numa \u00e9poca de forte predomin\u00e2ncia dos valores crist\u00e3os na estrutura das sociedades; ainda hoje \u00e9 assim em alguns pa\u00edses de maioria isl\u00e2mica, onde continua viva a tend\u00eancia de identificar lei religiosa e lei civil. No Ocidente, cujas culturas t\u00eam no judeo-cristianismo a sua identidade matricial, nunca houve uma total identifica\u00e7\u00e3o entre lei religiosa e lei civil. E com o andar dos tempos foi-se acentuando a autonomia do Estado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja, que encontrou na autonomia da legisla\u00e7\u00e3o civil uma das suas principais express\u00f5es. Ningu\u00e9m, hoje, na Igreja, pretende impor a lei religiosa como lei civil. Ao respeitar a autonomia do Estado, a Igreja respeita a sua autonomia legislativa. Mas isso n\u00e3o nos pode fazer esquecer que a f\u00e9 crist\u00e3, que tem uma componente moral inevit\u00e1vel, continua a inspirar os comportamentos dos crentes e a ter primazia sobre as leis civis, quando estas agridem a moralidade crist\u00e3. Mas continuamos a afirmar que todas as leis se devem inspirar na nossa cultura, a que n\u00e3o \u00e9 alheia a maioria cat\u00f3lica do nosso povo. H\u00e1 sintomas preocupantes de leis j\u00e1 aprovadas, outras em elabora\u00e7\u00e3o e outras anunciadas, que n\u00e3o respeitam aquele \u201cuniversal humano\u201d contido na Lei natural. E quando a Igreja se pronuncia contra essas leis, n\u00e3o o faz contra pessoas ou grupos, mas sim na defesa de valores fundamentais, radicados na pr\u00f3pria dignidade da pessoa humana, e n\u00e3o o faz para impor perspectivas religiosas ao conjunto dos cidad\u00e3os. Sabemos distinguir entre leis religiosas, que s\u00f3 obrigam em consci\u00eancia os crentes, e leis civis justas e consent\u00e2neas com os valores mais profundos da nossa cultura.  7. Este tipo de leis exige aos crist\u00e3os um discernimento claro: nem tudo o que \u00e9 legal \u00e9 moral. Esta \u00e9 uma tend\u00eancia facilitante, a de considerar que o que \u00e9 legal \u00e9 moral. E pode haver leis civis, que se os crist\u00e3os as aplicarem a si mesmos, pecam, ofendendo gravemente a Deus. Em certas circunst\u00e2ncias devem mesmo recusar-se, atrav\u00e9s do estatuto de \u201cobjectores de consci\u00eancia\u201d, a participar na sua aplica\u00e7\u00e3o. Mesmo nesses casos a sua participa\u00e7\u00e3o na sociedade n\u00e3o pode ser passiva. Devem intervir na discuss\u00e3o p\u00fablica, propondo os valores \u00e9ticos da nossa tradi\u00e7\u00e3o cultural. \u00c9 um dos casos em que pode ser decisiva a presen\u00e7a activa dos crist\u00e3os na cidade. \u00c9 caracter\u00edstica da moderna actividade legislativa dar prioridade \u00e0 regula\u00e7\u00e3o de problemas concretos e situa\u00e7\u00f5es de facto, esquecendo que a recta solu\u00e7\u00e3o dessas situa\u00e7\u00f5es tem de se fazer com leis que veiculam a dignidade da pessoa humana, solid\u00e1ria e respons\u00e1vel, respeitando a natureza e propondo os valores superiores da cultura. Transigir em valores fundamentais \u00e9 sempre ir contra a pessoa humana, mesmo quando, no imediato, se vai ao encontro dos interesses de alguns. Na perspectiva crist\u00e3, o amor fraterno \u00e9 a s\u00edntese de todas as leis.  S\u00e9 Patriarcal, 5 de Mar\u00e7o de 2006 <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Catequese de D. Jos\u00e9 Policarpo no 1\u00ba Domingo da Quaresma<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,295,127,161,191,203,206,268,275,285,91],"class_list":["post-16754","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-biblia","tag-catequese","tag-d-jose-policarpo","tag-economia","tag-europa","tag-familia","tag-nova-evangelizacao","tag-pascoa","tag-patrimonio","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16754","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16754"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16754\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16754"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16754"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16754"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}