{"id":167487,"date":"2020-03-27T07:00:13","date_gmt":"2020-03-27T07:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=167487"},"modified":"2020-03-27T10:15:09","modified_gmt":"2020-03-27T10:15:09","slug":"covid-19-e-um-inimigo-invisivel-que-nos-obriga-a-ser-altruistas-padre-tony-neves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/covid-19-e-um-inimigo-invisivel-que-nos-obriga-a-ser-altruistas-padre-tony-neves\/","title":{"rendered":"Entrevista: Covid-19 \u00ab\u00e9 um inimigo invis\u00edvel que nos obriga a ser altru\u00edstas\u00bb &#8211; Padre Tony Neves"},"content":{"rendered":"<p><em>A cumprir isolamento, em Roma, o respons\u00e1vel mundial pelo Departamento Justi\u00e7a e Paz dos Espiritanos conta que para j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam miss\u00f5es em risco<\/em><!--more--><\/p>\n<p>Sacerdote e jornalista, Tony Neves vive em Roma desde finais de 2018, quando foi chamado para liderar o departamento Justi\u00e7a e Paz da Congrega\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, a n\u00edvel mundial.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 Renascen\u00e7a e \u00e0 Ag\u00eancia Ecclesia, pede aos crist\u00e3os que confiem nas decis\u00f5es da Igreja, que tem agido com \u201csentido de responsabilidade social\u201d.<\/p>\n<p>Diz que h\u00e1 li\u00e7\u00f5es s\u00e9rias a tirar da pandemia que infeta o mundo, e que querer voltar ao \u201cnormal\u201d do que existia antes, \u201cser\u00e1 um erro hist\u00f3rico grave\u201d. O maior desafio ser\u00e1 construir \u201cum futuro mais ecol\u00f3gico, mais solid\u00e1rio e mais fraterno, onde as pessoas tenham mais lugar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u00c2ngela Roque, Renascen\u00e7a<\/em><\/p>\n<p><strong> <a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/tony_dakar.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-141765 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/tony_dakar.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/tony_dakar.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/tony_dakar-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/tony_dakar-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/tony_dakar-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/tony_dakar-1080x720.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>Como tem sido esta experi\u00eancia de isolamento social em Roma? O que \u00e9 que tem sido mais dif\u00edcil?<\/strong><\/p>\n<p>O meu isolamento social \u00e9 diferente de muitos isolamentos, porque estou numa comunidade de 20 pessoas de quase outros tantos pa\u00edses, tenho o mundo todo c\u00e1 em casa, portanto, por mais que tente estar isolado, n\u00e3o estou. Tentamos manter as dist\u00e2ncias entre n\u00f3s, temos os cuidados necess\u00e1rios, estamos em casa, mas o mundo entra-nos todo pela casa dentro, porque nas nossas conversas vamos falando do que se passa por esse mundo fora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Est\u00e1 atualizado, desse ponto de vista?<\/strong><\/p>\n<p>A este n\u00edvel, o mundo est\u00e1 todo aqui, todos os dias, a todas as horas. Vamos conversando e trocando mensagens uns com os outros, e mesmo presencialmente vamos contando aquilo que se passa por todo lado. Se, por um lado, isso nos ocupa o tempo, tamb\u00e9m nos\u00a0 preocupa. Aqui temos uma no\u00e7\u00e3o mais global do que este corona v\u00edrus est\u00e1 a fazer por esse mundo fora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es muito complicadas em pa\u00edses onde h\u00e1 mission\u00e1rios espiritanos?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. O maior drama ainda est\u00e1 para acontecer naqueles pa\u00edses onde os meus confrades est\u00e3o a viver e a trabalhar, e acompanham o que se passa no mundo. Eles percebem que localmente n\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para fazer rastreio, o v\u00edrus j\u00e1 por l\u00e1 est\u00e1 a fazer das suas, e nem sequer h\u00e1 meios suficientes para poder trav\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Tem mission\u00e1rios doentes? H\u00e1 alguma miss\u00e3o em risco nesta altura?<\/strong><\/p>\n<p>Miss\u00f5es em risco propriamente n\u00e3o temos, mas todos os nossos mission\u00e1rios j\u00e1 receberam orienta\u00e7\u00f5es. O nosso Superior Geral publicou esta semana uma carta a pedir que todos sigam rigorosamente as orienta\u00e7\u00f5es que forem dadas pelas autoridades e pelas igrejas locais. Isto \u00e9 importante, porque quem est\u00e1 numa dessas miss\u00f5es mais interiores na \u00c1frica, na \u00c1sia ou na Am\u00e9rica Latina, pode achar que este assunto \u00e9 s\u00f3 para os outros, e n\u00e3o. \u00c9\u00a0 preciso que sejamos pioneiros nesta preocupa\u00e7\u00e3o de evitar que o v\u00edrus chegue e se espalhe muito em todo o mundo, e esta preocupa\u00e7\u00e3o n\u00f3s temos.<\/p>\n<p>Neste momento n\u00e3o temos nenhum caso detetado de coronav\u00edrus entre os nossos 3000 confrades. Alguns eventualmente at\u00e1 j\u00e1 est\u00e3o contaminados, mas n\u00e3o fizeram qualquer exame para o descobrir. De qualquer maneira n\u00f3s estamos, a partir aqui de Roma, a dar muitas orienta\u00e7\u00f5es a quem est\u00e1 no terreno, sobretudo nesta perspetiva: muito cuidado, muito comprimento de orienta\u00e7\u00f5es, e que se precavejam, por antecipa\u00e7\u00e3o, que vejam as pessoas com quem lidam, para que aquilo que est\u00e1 acontecer aqui na Europa n\u00e3o aconte\u00e7a na \u00c1frica, na \u00c1sia e na Am\u00e9rica Latina, onde as consequ\u00eancias ser\u00e3o muito mais desastrosas. Se o v\u00edrus entra numa favela do Rio de S\u00e3o Paulo, ou em bairros de Luanda ou de Maputo, ser\u00e1 muito mais complicado o combate.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como mission\u00e1rio j\u00e1 esteve em situa\u00e7\u00f5es muito complicadas e dif\u00edceis. Esta traz novos desafios a quem \u00e9 sacerdote e mission\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>Traz. Ali\u00e1s, tenho refletido muito sobre isso, e conto na pr\u00f3xima semana escrever um texto para fazer a compara\u00e7\u00e3o entre o que foi Angola h\u00e1 30 anos, durante os combates dentro de uma cidade &#8211; e foi um tempo enorme! -, e aquilo que \u00e9 o combate aqui contra o coronavirus. Porque h\u00e1 diferen\u00e7as enormes! Uma delas tem a ver com a contamina\u00e7\u00e3o: uma guerra \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o terr\u00edvel, em que temos a cabe\u00e7a a pr\u00e9mio em cada segundo, porque pode vir uma bomba ou uma bala perdida, podem entrar os militares com metralhadoras a dar rajada, e podemos morrer, muita gente morre. Mas, o perigo de contamina\u00e7\u00e3o do jeito que o coronavirus provoca, esse perigo numa guerra n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Tenho refletido muito sobre isto\u2026\u00a0 Eu durante a Guerra Civil do Huambo sa\u00ed diversas vezes debaixo das balas para ir para os fundos de uns pr\u00e9dios celebrar a missa com o povo, mas isso era um risco para mim. Desde que conseguisse passar a rua e chegar ao fundo do pr\u00e9dio, n\u00e3o ia contaminar ningu\u00e9m, pelo contr\u00e1rio, ia dar alegria, dar esperan\u00e7a, \u00edamos celebrar a nossa f\u00e9 juntos, naquele contexto. \u00c9 completamente diferente quando falamos de um v\u00edrus que n\u00e3o sabemos se ao ir a qualquer s\u00edtio n\u00e3o estamos a levar o v\u00edrus \u00e0s pessoas, ou se as pessoas n\u00e3o nos v\u00e3o dar o v\u00edrus a n\u00f3s, que depois n\u00f3s vamos dar a outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Este \u00e9 um inimigo invis\u00edvel?<\/strong><\/p>\n<p>E de alto cont\u00e1gio! Mas, se este fosse um inimigo invis\u00edvel, mas soubessemos \u00e0 partida que n\u00e3o traria grandes problemas ao n\u00edvel do cont\u00e1gio, cada pessoa podia tomar as suas decis\u00f5es independentemente dos outros, poderia eventualmente p\u00f4r em risco a sua vida, mas n\u00e3o a dos outros. Com as caracter\u00edsticas que a ci\u00eancia nos diz que o covid-19 tem, temos de ter um sentido muito altru\u00edsta e pensar muito tamb\u00e9m nos outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A Igreja Cat\u00f3lica, no seu todo, soube reagir a esta pandemia? Suspender as eucaristias e fechar igrejas foi a decis\u00e3o mais respons\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p>Foi, sobre isso n\u00e3o tenho d\u00favidas. Se h\u00e1 coisa que Deus nos d\u00e1 \u00e9 intelig\u00eancia, e essa intelig\u00eancia ao longo dos s\u00e9culos foi ganhando express\u00f5es, tamb\u00e9m no plano da investiga\u00e7\u00e3o e da tecnologia. Hoje em dia a ci\u00eancia diz-nos que um v\u00edrus como este \u00e9 altamente transmiss\u00edvel por cont\u00e1gio, portanto, a partir do momento em que Deus nos diz, atrav\u00e9s dos cientistas, que este v\u00edrus tem estas caracter\u00edsticas e pode fazer estas maldades, ent\u00e3o a Igreja tem de dar ouvidos a essas pessoas e tomar medidas de acordo com a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A partir do momento em que \u00e9 claro que o melhor que podemos fazer \u00e9 mesmo este distanciamento social, que n\u00e3o permite ao v\u00edrus saltar de pessoa para pessoa, acho que a Igreja cat\u00f3lica, como todas as outras igrejas e religi\u00f5es, n\u00e3o tinham alternativa sen\u00e3o colaborar e entrar neste processo e neste combate. No fundo a Igreja, ao tomar as decis\u00f5es que tomou, aceitou estar neste combate, que \u00e9 um dif\u00edcil, mas que vamos ganhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Refletiu sobre isso na sua mais recente de cr\u00f3nica, publicada esta quinta-feira, com o t\u00edtulo &#8216;padres anti-v\u00edrus&#8217;, onde afirma \u201cn\u00e3o pe\u00e7am aos padres que violem as orienta\u00e7\u00f5es das autoridades civis e do Papa\u201d. Tem havido muita contesta\u00e7\u00e3o e falta de compreens\u00e3o por parte de alguns crist\u00e3os a estas medidas?<\/strong><\/p>\n<p>Tem. N\u00e3o estou obviamente a condenar ningu\u00e9m, estou a dar a minha colabora\u00e7\u00e3o para uma reflex\u00e3o s\u00e9ria, que seja tamb\u00e9m uma reflex\u00e3o de f\u00e9 sobre este tipo de situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Algumas pessoas t\u00eam a tenta\u00e7\u00e3o de olhar para tudo o que acontece de desgra\u00e7a como um castigo de Deus. Na minha perspetiva esta \u00e9 uma maneira muito errada de ver Deus, como castigador e vingativo, e \u00e9 tamb\u00e9m uma maneira muito errada de olhar para a ci\u00eancia. Deus \u00e9 bom, e a ci\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 fruto da sabedoria que Deus d\u00e1, portanto, temos \u00e9 de olhar para a ci\u00eancia que nos diz &#8216;as caracter\u00edsticas deste v\u00edrus s\u00e3o estas e estas, vamos fazer distanciamento social\u2019. \u00c9 isso que temos de fazer.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem ache que a \u00fanica forma de combater este v\u00edrus \u00e9 rezar mais e ter manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de f\u00e9 juntando muita gente, e que foi um erro fechar as igrejas e acabar com as missas. N\u00e3o foi! N\u00f3s podemos rezar, podemos descobrir uma nova forma de rela\u00e7\u00e3o com Deus, e at\u00e9 de uns com os outros enquanto comunidades, respondendo com intelig\u00eancia mas tamb\u00e9m com sentido de responsabilidade social a este tipo de pandemias.<\/p>\n<p>Estou completamente de acordo com as decis\u00f5es que o Papa e a Igreja t\u00eam proposto, e pe\u00e7o a estas pessoas que n\u00e3o compreendem essas decis\u00f5es que reflitam e se deixem orientar pelas nossas hierarquias, que tomaram decis\u00f5es que s\u00e3o muito acertadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Esta cr\u00f3nica, a que fizemos refer\u00eancia, surge no \u00e2mbito de um projeto que entretanto lan\u00e7ou com outro padre portugu\u00eas, a\u00ed em Roma. No que \u00e9 que consiste?<\/strong><\/p>\n<p>O padre Artur Teixeira, que j\u00e1 foi presidente da Confer\u00eancia dos Institutos Religiosos de Portugal, e \u00e9 Conselheiro Geral dos mission\u00e1rios claretianos, est\u00e1 tamb\u00e9m aqui em Roma e conversamos muito sobre muitos temas h\u00e1 v\u00e1rios anos. E ele lan\u00e7ou-me o desafio para, dia sim dia n\u00e3o, publicarmos no Facebook \u2013 e depois divulgar atrav\u00e9s de outros meios \u2013 reflex\u00f5es que possam ajudar as pessoas a perceber este momento que estamos a viver, a partir da nossa maneira pr\u00f3pria de estar na vida. Come\u00e7\u00e1mos na passada sexta-feira. Esta \u00faltima cr\u00f3nica, a dos &#8216;padres anti-v\u00edrus&#8217;, surgiu desta necessidade que sentimos de explicar qual \u00e9 a nossa miss\u00e3o enquanto padres, como \u00e9 que os crist\u00e3os em geral, e o mundo todo que queira, podem olhar para a nossa miss\u00e3o, e qual \u00e9 a colabora\u00e7\u00e3o que todos temos de dar para combater esta pandemia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>No seu caso, que tamb\u00e9m \u00e9 jornalista, sente o desafio de estar sempre atento e ir refletindo sobre as coisas?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Continuo a faz\u00ea-lo todas as semanas no projeto &#8216;Lusofonias&#8217;, atrav\u00e9s do site da ag\u00eancia Ecclesia e de diversas r\u00e1dios lus\u00f3fonas. Escrevo e gravo um coment\u00e1rio sobre um tema da atualidade. Claro que nos \u00faltimos tempos esta tem\u00e1tica do covid-19 imp\u00f5e-se.<\/p>\n<p>No \u00faltimo coment\u00e1rio que publiquei digo de uma forma muito clara que este v\u00edrus n\u00e3o pode esconder outros problemas. Quer dizer, o mundo n\u00e3o se pode reduzir a este v\u00edrus, porque continuamos a ter o problema das guerras, da fome, das pragas de gafanhotos que continuam a dizimar uma parte da \u00c1frica e da \u00c1sia. Continua a haver instabilidade e inseguran\u00e7a em muitos s\u00edtios do mundo, e o covid-19 j\u00e1 est\u00e1 a gerar problemas de desemprego, muita gente que vivia do seu trabalho di\u00e1rio n\u00e3o est\u00e1 a conseguir sobreviver. Depois h\u00e1 idosos que est\u00e3o em casa mais ou menos abandonados, pessoas que est\u00e3o doentes com outras doen\u00e7as, que se calhar agora n\u00e3o se olha tanto para elas, mas temos de ter esta preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o deixar afunilar de tal maneira a nossa reflex\u00e3o e a nossa pr\u00e1tica, que tudo aquilo que n\u00e3o cheire a covid a gente n\u00e3o ligue. N\u00e3o. O mundo continua a andar&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A Igreja em geral \u2013 e em Portugal isso tem sido muito vis\u00edvel \u2013 tem procurado usar os v\u00e1rios meios digitais ao disp\u00f4r para comunicar com os fi\u00e9is. Estamos a assistir a uma nova fase de comunica\u00e7\u00e3o na Igreja? J\u00e1 nada vai ser igual no futuro?<\/strong><\/p>\n<p>Eu espero que o futuro seja diferente. Temos de descobrir outras formas de ser Igreja, de estar com as pessoas, de celebrar, de consolar e de ser solid\u00e1rio. Tem havido gestos t\u00e3o simples mas t\u00e3o importantes, como por exemplo o de um padre que p\u00f5e no seu Facebook a mensagem &#8216;eu agora n\u00e3o gasto tempo em celebra\u00e7\u00f5es e em catequeses e reuni\u00f5es, por favor, pessoas mais idosas e dependentes que precisam de ir \u00e0 farm\u00e1cia ou ao supermercado contactem-me, eu fa\u00e7o isso por voc\u00eas&#8217;. Para al\u00e9m da quantidade de bispos e padres que est\u00e3o a celebrar diariamente a eucaristia com transmiss\u00e3o pela internet, e fazem as suas medita\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es.<\/p>\n<p>Outro aspeto que acho importante, e que tem sido transversal \u00e0 sociedade \u2013 eu como estou mais ligado a c\u00edrculos mais presbiterais, noto muito isso entre n\u00f3s \u2013 \u00e9 o humor, que est\u00e1 muito presente. Em momentos de muita press\u00e3o e de algum stress. o humor \u00e9 muito libertador. N\u00e3o \u00e9 gozar com a situa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 grave, mas \u00e9 atrav\u00e9s do humor pegar nestas situa\u00e7\u00f5es e sermos capazes de distender um bocadinho, e fazer passar mensagens atrav\u00e9s de <em>posts<\/em> ou publica\u00e7\u00f5es (nas redes sociais) de pequenos v\u00eddeos, filmes, muito deles claramente adaptados de coisas antigas, mas que ajustadas a esta realidade nos ajudam a distender, a rir um bocadinho, e sobretudo a lan\u00e7ar perspetivas de futuro, com esperan\u00e7a, com alegria. Porque isto vai passar! O mundo j\u00e1 provou muitas vezes que estas situa\u00e7\u00f5es acontecem, e t\u00eam de ser situa\u00e7\u00f5es que nos purifiquem e nos ajudem a partir para um amanh\u00e3 melhor. \u00c9 assim que eu vejo o futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00c9 respons\u00e1vel mundial pelo Departamento Justi\u00e7a e Paz dos mission\u00e1rios Espiritanos, e isto implica normalmente viajar e acompanhar as miss\u00f5es em v\u00e1rios pa\u00edses. Esta a situa\u00e7\u00e3o tem dificultado o seu trabalho a esse n\u00edvel?<\/strong><\/p>\n<p>Por enquanto ainda n\u00e3o, mas por uma raz\u00e3o simples: n\u00f3s temos &#8211; e ainda n\u00e3o desmarc\u00e1mos &#8211; Cap\u00edtulo Geral na Pol\u00f3nia, em finais de junho. Segundo a programa\u00e7\u00e3o que tinha definido para este ano, eu deveria terminar as minhas idas fora com uma visita de um m\u00eas a Cabo Verde, que completei mesmo no limite desta quarentena come\u00e7ar, por isso o trabalho para esta altura j\u00e1 era muito de casa, preparar o Capitulo Geral. E \u00e9 isso que me tem ocupado. Tenho aqui a minha secret\u00e1ria cheia de pap\u00e9is, muito trabalho de gabinete para fazer, por isso para mim at\u00e9 \u00e9 providencial este confinamento em casa, porque o recolhimento ajuda-me a fazer o que tenho de fazer, com compet\u00eancia e com qualidade.<\/p>\n<p>Se isto se prolongar por muito tempo vamos ter de adiar o Cap\u00edtulo Geral, e os trabalhos que estavam previstos para mais tarde ir\u00e3o sofrer altera\u00e7\u00f5es. At\u00e9 ao momento, pessoalmente n\u00e3o estou a ser v\u00edtima do corona v\u00edrus. At\u00e9 estou a ser ajudado e espero, como todos, que isto se resolva depressa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00c9 inevit\u00e1vel pensarmos nas li\u00e7\u00f5es atirar no p\u00f3s-pandemia, uma delas ao n\u00edvel do sistema econ\u00f3mico. Os alertas do Papa para a necessidade de um novo modelo econ\u00f3mico ainda fazem agora mais sentido?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, absolutamente. Algu\u00e9m dizia h\u00e1 dias que n\u00e3o podemos voltar ao \u2018normal\u2019, porque o \u2018normal\u2019 foi o problema. Se o que queremos depois da passagem deste v\u00edrus \u00e9 voltar ao \u2018normal\u2019, estaremos a cometer um erro hist\u00f3rico grave. O mundo investiu muito a pensar na guerra, nas armas e no terrorismo, mas devia ter investido era na sa\u00fade, na educa\u00e7\u00e3o e na ci\u00eancia, porque isso \u00e9 que nos teria agora dado ferramentas para estarmos preparados para a chegada desta pandemia. Quando investimos nessas brutalidades, estamos a p\u00f4r as pessoas de lado, e o melhor do mundo s\u00e3o as pessoas.<\/p>\n<p>Temos de pensar num futuro com um estilo de vida mais simples. O Papa prop\u00f4s isso na \u2018Laudato Si\u2019 e noutros documentos. Temos de ter uma economia muito mais solid\u00e1ria e assente nas pessoas, uma ecologia mais integral, o respeito pela natureza. E j\u00e1 se nota: bastou um m\u00eas (com esta pandemia) para uma s\u00e9rie de indicadores serem neste momento muito melhores do que eram h\u00e1 dois meses atr\u00e1s, e refiro-me a quest\u00f5es de polui\u00e7\u00e3o, e afins.<\/p>\n<p>Que a gente aprenda com esta experi\u00eancia for\u00e7ada para, de uma forma livre e respons\u00e1vel, construirmos um futuro mais ecol\u00f3gico, mais solid\u00e1rio e mais fraterno onde as pessoas tenham mais lugar. Esse ser\u00e1 o desafio do futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cumprir isolamento, em Roma, o respons\u00e1vel mundial pelo Departamento Justi\u00e7a e Paz dos Espiritanos conta que para j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam miss\u00f5es em risco<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":141765,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[89,6,630],"tags":[698,197],"class_list":["post-167487","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque2","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-covid-19","tag-espiritanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/167487","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=167487"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/167487\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/141765"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=167487"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=167487"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=167487"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}