{"id":16706,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/quaresma-2006-estimulo-a-diferenca\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"quaresma-2006-estimulo-a-diferenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/quaresma-2006-estimulo-a-diferenca\/","title":{"rendered":"Quaresma 2006 &#8211; est\u00edmulo \u00e0 diferen\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga <!--more--> A vida hodierna est\u00e1 dominada por uma multiplicidade de acontecimentos que nem sempre permitem a capacidade de entender a beleza de viver. Parece que o programa est\u00e1 previamente elaborado para cada dia e limitamo-nos a correr para repetir ac\u00e7\u00f5es com maior ou menor responsabilidade. Os dias s\u00e3o iguais e, consequ\u00eancia disso, procuram-se espa\u00e7os fugazes para a distrac\u00e7\u00e3o, para a evas\u00e3o. Neste ambiente, o crist\u00e3o, interpelado pelo ritmo lit\u00fargico, deveria ser capaz de reconhecer que h\u00e1 dias e momentos especiais para, com coragem, encarar a vida, sendo diferente. A Quaresma situa-se nesta exig\u00eancia de pensar a vida. Foi sempre assim. Hoje urge dar-lhe esta caracter\u00edstica. S\u00f3 deste modo compreenderemos a novidade que Cristo trouxe e que a moda e o ambiente n\u00e3o podem deturpar. Pode ser dif\u00edcil. \u00c9 mais uma raz\u00e3o para apostar num programa que manifeste a diferen\u00e7a dum viver crist\u00e3o. A Quaresma estrutura-se, habitualmente, como tempo de ora\u00e7\u00e3o, jejum, esmola (Contributo Penitencial) e reflex\u00e3o como mais consistente encontro com a Palavra de Deus. Sublinho, este ano, esta \u00faltima dimens\u00e3o n\u00e3o para esquecer as outras, mas para que encontrem o seu verdadeiro significado. Como refer\u00eancia coloco a mensagem do Santo Padre \u2013 \u201cJesus, ao ver as multid\u00f5es, encheu-se de compaix\u00e3o por elas\u201d (Mt. 9, 36) \u2013 \u00e9 a sua Enc\u00edclica \u201cDeus caritas est\u201d. Convidando a pensar a vida, como tarefa e encargo para sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos, gostaria que ela fosse enquadrada no contexto natural de seu desenvolvimento: a fam\u00edlia. Seria bom entender a beleza do viver a partir da nossa fam\u00edlia e, em simult\u00e2neo, compreender as mudan\u00e7as e os enigmas que caracterizam o mundo familiar, em geral, e discernir as propostas que, como Igreja, devemos delinear.. Convido-vos a que todos sejamos capazes de seguir um itiner\u00e1rio que sintetizo: ver (1), ser (2), dizer (3) e fazer (4).  1 \u2013 Ter compaix\u00e3o parte do \u201cver\u201d: Ver a realidade familiar de cada um com muita coragem e serenidade, n\u00e3o tendo medo do confronto com os poss\u00edveis aspectos negativos; dialogar sobre aquilo que se \u201cviu\u201d e consciencializar-se do dever de mudar o que exige mudan\u00e7a. Este \u201cver\u201d, depois, deve alargar-se ao contexto sociol\u00f3gico que nos rodeia em termos paroquiais, diocesanos, nacionais ou mundiais; por vezes n\u00e3o queremos tomar consci\u00eancia daquilo que vai acontecendo e pretendemos encobrir realidades que emergem como for\u00e7a destruidora incapaz de se suster. Compete \u00e0 par\u00f3quia um papel importante na linha do \u201cver\u201d. O cristianismo \u00e9 sempre uma incultura\u00e7\u00e3o, ou seja, um penetrar num terreno concreto. H\u00e1 uma atitude que dever\u00e1 acompanhar a an\u00e1lise: conhecer a realidade nunca pode ser sin\u00f3nimo de catalogar ou marginalizar. Assume-se uma realidade para discernir os dinamismos de vida que nos prop\u00f5e.  2 \u2013 A realidade convida a \u201cSer\u201d: \u201cSer\u201d \u00e9 a etapa que se segue. Consciencializar-se do concreto tem de ser gra\u00e7a para uma aposta na verdadeira identidade. Sabemos que esta nem sempre se encontra naquilo que se v\u00ea dentro e fora da inst\u00e2ncia familiar. Conhecer a verdade n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de aceitar as \u201cverdades\u201d das opini\u00f5es ou da moda. Com isto deve nascer a coragem duma aposta sem ambiguidades no dever ser, ainda que custe ou se esteja a ir contra a corrente. S\u00f3 a fidelidade pode salvar a fam\u00edlia e o mundo moderno necessita de a ver patenteada no testemunho silencioso que pode transportar-se para o dom\u00ednio p\u00fablico sem vergonha de mostrar aquilo em que acreditamos.  3 \u2013 O \u201cDizer\u201d como obrigat\u00f3rio: A paragem quaresmal concentra-se nesta descoberta do modelo de vida familiar que n\u00e3o ignora outras alternativas mas ousa ser o que \u00e9.. A catequese paroquial tem de, neste tempo, passar por este \u201cdiscurso\u201d positivo. N\u00e3o importa falar mal das coisas.. S\u00f3 amaremos o modelo de fam\u00edlia alicer\u00e7ada no matrim\u00f3nio se a conhecermos. Acontece que, muitas vezes, se parte do pressuposto que todos conhecem e sabem. Por isso n\u00e3o se evangeliza propondo uma doutrina que, conhecida, entusiasme.  H\u00e1 muitas maneiras de anunciar a verdadeira identidade da fam\u00edlia crist\u00e3 e, por isso, a criatividade pastoral \u00e9 sempre algo a ter em considera\u00e7\u00e3o. Os caminhos s\u00e3o muitos e devem ser escolhidos correspondendo \u00e0s expectativas, \u201cdizendo\u201d a doutrina perene do amor numa linguagem capaz de ser entendida e compreendida. Este \u201cdizer\u201d \u00e9 responsabilidade de toda a comunidade. Sei que o \u201cser\u201d das fam\u00edlias \u00e9 o an\u00fancio mais eloquente; reconhe\u00e7o, por\u00e9m, que as fam\u00edlias n\u00e3o devem reservar para si o tesouro que descobriram e v\u00e3o saboreando. Compete-lhes a responsabilidade de falar \u201calto\u201d sobre coisas que muitos n\u00e3o querem ouvir. Se elas n\u00e3o forem \u201cvazias\u201d de conte\u00fados levar\u00e3o muitos a pensar e acolher a proposta que lhes foi formulada. Aos casais compete um protagonismo na evangeliza\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias que ningu\u00e9m poder\u00e1 assumir por eles. Queremos ser uma Igreja Povo de Deus e aceitar que a fam\u00edlia \u00e9 \u201cIgreja dom\u00e9stica\u201d que vive \u201cdentro\u201d a Boa Nova e a transporta para \u201cfora\u201d com coragem e ousadia. Seja-me permitido um par\u00eantesis para reconhecer o trabalho imenso realizado por casais crist\u00e3os onde \u201carde\u201d a paix\u00e3o por ser comunidade de amor e de vida que anuncia a felicidade que experimentam. S\u00e3o muitos os casais que trabalham neste \u201cdizer\u201d a fam\u00edlia hoje. Muitos outros poderiam reconhecer que \u201cdando\u201d recebem e, por isso, se oferecem para trabalhar numa pastoral familiar, dando-lhe qualidade e consist\u00eancia. O amor transborda e comunica-se com alegria.  4 \u2013 S\u00f3 o \u201cFazer\u201d completa o an\u00fancio: Depois de \u201cver\u201d, reconhecendo a prioridade do \u201cser\u201d e reclamando a urg\u00eancia do \u201cdizer\u201d sem ambiguidades, chegamos ao compromisso do \u201cfazer\u201d. O cen\u00e1rio que nos \u00e9 oferecido pelo mundo das fam\u00edlias n\u00e3o se contenta com a palavra. Importa colocar-se na ac\u00e7\u00e3o. Neste espa\u00e7o de proposta sigo, agora, as sugest\u00f5es do Santo Padre. Ele alarga a sua mensagem \u00e0s diversas situa\u00e7\u00f5es actuais. Eu aplico, preferencialmente, \u00e0s fam\u00edlias. \u201cJesus, ao ver as multid\u00f5es, encheu-se de compaix\u00e3o por elas\u201d (Mt. 9, 36). Jesus, hoje na sua Igreja Particular de Braga, ao ver as fam\u00edlias, encheu-se de compaix\u00e3o por elas. 4.1. \u2013 \u201cFazer\u201d vivendo a compaix\u00e3o: Qual o verdadeiro significado da palavra compaix\u00e3o? Literalmente dizemos que significa \u201csofrimento padecido com\u201d. A Sagrada Escritura permite-nos uma interpreta\u00e7\u00e3o mais abrangente e n\u00e3o s\u00f3 limitada ao sofrimento. Na verdade, ela era o atributo essencial de Deus em todo o Velho Testamento como algo que o povo hebreu reconhecia como importante e caracter\u00edstico. O Novo Testamento situa a \u201ccompaix\u00e3o\u201d como uma express\u00e3o particular e concreta de Deus que \u00e9 Amor e est\u00e1 a recordar-nos que o \u201colhar\u201d de Deus pousa sobre os homens e povos e torna-se compassivo para eles atrav\u00e9s dum amor que adquire muitas express\u00f5es. Se Deus se identifica com a humanidade \u00e9 para caminhar com ela e oferecer-lhe o que, talvez inconscientemente, procura. Deus n\u00e3o fica no \u201cver as multid\u00f5es\u201d, vai ao seu encontro com gestos muito precisos e definidos.  4.2. \u2013 Compaix\u00e3o atrav\u00e9s dum desenvolvimento integral: Ao \u201cver\u201d como Jesus, teremos de \u201cresponder\u201d como Ele \u201cque nunca quis separar a resposta \u00e0s necessidades materiais e sociais dos homens da satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades profundas do seu cora\u00e7\u00e3o\u201d. A separa\u00e7\u00e3o destes dois mundos s\u00f3 a poderemos aceitar teoricamente para uma compreens\u00e3o humana da realidade. Como crentes unimos as duas dimens\u00f5es e somos protagonistas e anunciadores dum \u201chumanismo total\u201d como certeza dum verdadeiro desenvolvimento de todos e, particularmente, de todas as fam\u00edlias. Integrar este duplo cuidado \u00e9 a tarefa primordial da Igreja que nunca se identifica com uma sociedade filantr\u00f3pica que responde a necessidades materiais. A cultura da compaix\u00e3o ter\u00e1 de ser global e partindo dos crit\u00e9rios da ci\u00eancia e das an\u00e1lises sociol\u00f3gicas. Isto n\u00e3o \u00e9 suficiente. \u201cA tenta\u00e7\u00e3o hoje \u00e9 reduzir o cristianismo a uma sabedoria meramente humana, como se fosse a ci\u00eancia do bom viver. Num mundo fortemente secularizado, surgiu uma gradual seculariza\u00e7\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o, onde se procura lutar pelo homem, mas por um homem dividido, reduzido unicamente \u00e0 dimens\u00e3o horizontal. Ora, n\u00f3s sabemos que Jesus veio trazer a salva\u00e7\u00e3o integral\u201d (Jo\u00e3o Paulo II, R. M. 11) Por isso, a primeira contribui\u00e7\u00e3o que a Igreja oferece para o desenvolvimento do homem e dos povos n\u00e3o se consubstancia em meios materiais nem em solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, mas no an\u00fancio da verdade de Cristo, que educa as consci\u00eancias e ensina a aut\u00eantica dignidade da pessoa e do trabalho, promovendo a forma\u00e7\u00e3o de uma cultura que corresponda verdadeiramente a todas as exig\u00eancias humanas. \u00c9 este o alcance da nossa doutrina e desistir ou calar significa trai\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja e adapta\u00e7\u00e3o f\u00e1cil \u00e0quilo que alguns pretendem que sejamos: uma realidade in\u00f3cua a colocar no museu da hist\u00f3ria. Esta originalidade distingue-nos de muitas associa\u00e7\u00f5es e n\u00e3o podemos temer colocamo-nos num \u00e2mbito mais abrangente que talvez n\u00e3o siga a moda e os crit\u00e9rios da facilidade mas olha para os contributos da ci\u00eancia humana e d\u00e1-lhe uma profundidade que nem todos querem aceitar. 4.3. \u2013 Compaix\u00e3o fixada nas fam\u00edlias: Se esta doutrina sobre o desenvolvimento integral tem aplica\u00e7\u00f5es em todos os \u00e2mbitos da vida, o mundo da fam\u00edlia experimenta-a duma maneira particular. Sempre a Igreja interpretou uma doutrina de humanismo integral que n\u00e3o negligencia nada de humano e particularmente da verdadeira ci\u00eancia mas vai mais al\u00e9m para propor a sua originalidade e diferen\u00e7a. Muitos pretendem que a Igreja se cale ou caminhe a reboque. Se estamos num mundo multi-cultural devem, pelo menos, aceitar a nossa diferen\u00e7a e permitir que a comuniquemos em todos os espa\u00e7os que comp\u00f5em a vida. \u00c9 nossa miss\u00e3o falar nas igrejas mas nunca nos resignaremos a ficar s\u00f3 a\u00ed. Neste sentido, come\u00e7o por recordar as palavras maravilhosas da Beata Teresa de Calcut\u00e1 quando referia que a primeira e principal pobreza dos povos \u00e9 n\u00e3o conhecer Cristo. S\u00e3o interpelantes para a Igreja, as palavras do Papa Bento XVI. \u201cQuem n\u00e3o d\u00e1 Deus, d\u00e1 demasiado pouco\u201d. Aqui est\u00e1 o futuro da Igreja e o grande contributo que ela deve oferecer. H\u00e1 muita coisa para fazer e para dar. O que se precisa e espera \u00e9 um Deus operante na hist\u00f3ria. 4.4. \u2013 A compaix\u00e3o suscitadora dum humanismo: Este dar Deus \u00e0 sociedade e \u00e0s fam\u00edlias, encontrado no deserto e na ora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode limitar-se ao mundo dos conceitos. Ele \u00e9 dinamismo criador incans\u00e1vel duma ordem nova, reconciliador duma humanidade dividida, agente dum humanismo no respeito pela vida em todas as suas manifesta\u00e7\u00f5es. Deus fala e manifesta-se atrav\u00e9s da ac\u00e7\u00e3o dos Seus e coloca a prioridade no amor como dom de si. \u201cMesmo neste tempo de interdepend\u00eancia global, pode-se verificar como nenhum projecto econ\u00f3mico, social ou pol\u00edtico substitui aquele dom de si mesmo ao outro, que brota da caridade\u201d. Salvar a fam\u00edlia significa dar-lhe Deus e a partir d\u2019Ele entrar na arte de amar, que consiste em doar-se permanentemente, em cada momento presente e com aquela alegria de quem cresce oferecendo-se. Mas, se a cultura da compaix\u00e3o, como atitude de comunh\u00e3o profunda com o semelhante, exige permanente auto-doa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode permanecer nestes gestos. Preciso de tocar nas \u201cchagas\u201d e tormentos para encontrar respostas e solu\u00e7\u00f5es. Se a fam\u00edlia cresce na auto-doa\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio fixar o olhar nas m\u00faltiplas obras de caridade que teremos de continuar a ter presente e aprender com a hist\u00f3ria para suscitar respostas novas. \u201cSurgiram na Igreja muitas obras de caridade\u2026 hospitais, universidades, escolas de forma\u00e7\u00e3o profissional, micro-empresas. S\u00e3o iniciativas que, muito antes de outras f\u00f3rmulas da sociedade civil, deram provas de sincera preocupa\u00e7\u00e3o pelo homem por parte de pessoas animadas pela mensagem evang\u00e9lica\u201d. A Igreja se foi pioneira no passado, chegando aos problemas antes da sociedade civil, tamb\u00e9m dever\u00e1 situar-se na vanguarda com respostas audazes e concretas. S\u00e3o estas que \u201cfalam\u201d da compaix\u00e3o de Deus pela humanidade e dizem \u00e0 humanidade como Deus \u00e9 imprescind\u00edvel. Tocados pelo amor de Deus n\u00e3o nos detemos, mas prolongamos o Seu amor compassivo no aqui e agora da humanidade e, concretamente das fam\u00edlias. 4.5. \u2013 A compaix\u00e3o gesto complementar: A Igreja, e nela as comunidades, atrav\u00e9s da \u201ccaridade social\u201d, sabe que realiza algo inerente \u00e0 sua miss\u00e3o e s\u00f3 \u00e9 verdadeira se vive a solidariedade e a comunh\u00e3o. Mas, ao mesmo tempo, tem consci\u00eancia das suas limita\u00e7\u00f5es e n\u00e3o pode substituir o Estado a quem compete o dever de proporcionar o indispens\u00e1vel para todos. \u201cCom a mesma compaix\u00e3o que Jesus tinha pelas multid\u00f5es, a Igreja sente hoje, tamb\u00e9m, como sua miss\u00e3o pedir a quem tem responsabilidades pol\u00edticas e compet\u00eancias no poder econ\u00f3mico e financeiro, que se promova um desenvolvimento baseado no respeito da dignidade de todo o homem\u201d. Quantas vezes reconhecemos as nossas incapacidades perante a gravidade de situa\u00e7\u00f5es? Ningu\u00e9m nos poder\u00e1 calar e nunca estamos contra ningu\u00e9m \u2013 nem muito menos a fazer pol\u00edtica \u2013 se denunciamos casos que conhecemos e onde a dignidade humana nem sempre \u00e9 respeitada. Tamb\u00e9m aqui a dimens\u00e3o externa da miss\u00e3o da Igreja deve acontecer. Se muito se tem feito, muito mais se poderia fazer se houvesse esta preocupa\u00e7\u00e3o de ver o mundo dos mais fracos e lhes oferecer o m\u00ednimo exig\u00edvel para um ser humano. Os contrastes continuam a acontecer e s\u00e3o muitos os que vivem abaixo da elementar dignidade.  5 \u2013 A miseric\u00f3rdia de Deus no Sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o: Ver as multid\u00f5es, no sentido individual ou familiar, ter compaix\u00e3o por elas, em nome e como Cristo, dever\u00e1 conduzir-nos \u00e0 necessidade de, como crentes, experimentar a mesma miseric\u00f3rdia de Deus. A salva\u00e7\u00e3o oferecida por Cristo, sendo global, implica o material e o espiritual. Ver fora ter\u00e1 de conduzir \u00e0 dimens\u00e3o interna do nosso existir, reconhecendo que o pecado continua a oprimir-nos e, por isso, necessitamos de experimentar a Sua miseric\u00f3rdia, atrav\u00e9s do Sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o. O mundo moderno pretende fugir \u00e0 necessidade de \u201carrumar a casa\u201d interior e, numa paragem serena, efectuar uma avalia\u00e7\u00e3o da vida onde aliamos o perd\u00e3o de Deus \u00e0 vontade dum itiner\u00e1rio de perfei\u00e7\u00e3o a percorrer. A Quaresma torna-se, desta maneira, o tempo diferente para agir dum modo diferente porque queremos ser diferentes. A prescri\u00e7\u00e3o de se reconciliar, na celebra\u00e7\u00e3o individual do sacramento, n\u00e3o \u00e9 um cumprimento burocr\u00e1tico e moralista dum mandamento. Colocamo-nos em quest\u00e3o durante um tempo determinado e queremos celebrar um encontro festivo com este Deus misericordioso que perdoa mas n\u00e3o quer deixar a vida na mesma. Houve tempo em que a reconcilia\u00e7\u00e3o era encarada dum modo apressado e sem o m\u00ednimo de consci\u00eancia. Talvez por isso muitos se tenham afastado desta experi\u00eancia reconfortante. Ser\u00e1 ousadia solicitar aos sacerdotes disponibilidade de tempo e, particularmente, de cora\u00e7\u00e3o para acolher as pessoas com o cuidado necess\u00e1rio? Ser\u00e1 ingenuidade esperar que os crist\u00e3os dediquem a Quaresma a este centrar-se nas exig\u00eancias da miseric\u00f3rdia de Deus para dar um sentido novo ao Sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o?  6 \u2013 Conclus\u00e3o: Pistas de renova\u00e7\u00e3o pessoal e comunit\u00e1ria: Termino sintetizando e deixando pontos concretos para uma peregrina\u00e7\u00e3o que partindo de dentro se encontre com o mundo exterior e, em simult\u00e2neo, reflectindo sobre a fam\u00edlia (pessoal e da comunidade) penetre no labirinto de tantas quest\u00f5es existenciais. S\u00e3o pistas ou sugest\u00f5es a que cada um, no sil\u00eancio e ora\u00e7\u00e3o, dever\u00e1 dar um conte\u00fado program\u00e1tico para a festa do encontro com Cristo Ressuscitado. A ideia central a descodificar, semanalmente, est\u00e1 na atitude de Jesus para com o povo que n\u00f3s como Arquidiocese e nesta Quaresma aplicaremos, preferencialmente, \u00e0 fam\u00edlia. A cultura da miseric\u00f3rdia acompanha-nos como ideia central. A enc\u00edclica \u201cDeus \u00e9 amor\u201d pode completar a reflex\u00e3o. 1 \u2013 Ver a realidade da minha fam\u00edlia e, particularmente, das fam\u00edlias da minha comunidade. Conhecer criteriosamente esta realidade desconhecida. O Contributo Penitencial deve ser proposta desta perspectiva de renunciar para dar na consci\u00eancia de ser fam\u00edlia. 2 \u2013 Descortinar a verdadeira identidade da fam\u00edlia para, num mundo de confrontos, ser fam\u00edlias segundo o modelo crist\u00e3o. 3 \u2013 Conhecendo a sua real identidade, ter a coragem de dizer, em nome da liberdade religiosa, a doutrina que assumimos. 4 \u2013 O mundo das fam\u00edlias necessita duma compaix\u00e3o feita em gestos de auto-doa\u00e7\u00e3o e atitudes de quem responde \u00e0s variad\u00edssimas perplexidades.  5 \u2013 Somos int\u00e9rpretes da miseric\u00f3rdia de Deus. Teremos de a experimentar na celebra\u00e7\u00e3o serena e bem preparada do Sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o. 6 \u2013 Preparar um plano de viv\u00eancia da Semana Santa com as interpela\u00e7\u00f5es que foram sendo descobertas e que, na miseric\u00f3rdia de Cristo que morre para dar vida, queremos continuar numa P\u00e1scoa de liberta\u00e7\u00e3o. 7 \u2013 A Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, como an\u00fancio da sua ressurrei\u00e7\u00e3o e presen\u00e7a na hist\u00f3ria de cada fam\u00edlia, convida a deixar uma mensagem em cada lar para uma festa Pascal de cariz familiar. Fam\u00edlias inteiras podem a integrar o compasso, simbolizando a responsabilidade que elas assumem de anunciar o \u201cEvangelho da Fam\u00edlia\u201d. N\u00e3o somos disc\u00edpulos dum Cristo doutrina nem muito menos duma personalidade hist\u00f3rica. Continuamos hoje o Seu projecto que nasce dum protagonismo capaz de conciliar a contempla\u00e7\u00e3o com a luta por um mundo novo. Nascidos da Paix\u00e3o Redentora de Cristo, por Ela e no Esp\u00edrito Santo, entramos no seio da Sant\u00edssima Trindade e confiamos o encargo de ser fam\u00edlia crist\u00e3 \u00e0 Fam\u00edlia de Nazar\u00e9 onde Jos\u00e9 \u00e9 figura do muito trabalho a realizar, Maria contempla e age no sil\u00eancio e Jesus \u00e9 Palavra que anuncia determinadamente, gasta a Sua vida \u201cfazendo o bem\u201d.  <b>Contributo Penitencial<\/b> O cristianismo nunca foi s\u00f3 um conjunto de mandamentos a cumprir. O crist\u00e3o \u00e9 colocado perante Cristo e aceita-O como \u201ccaminho\u201d a percorrer em atitudes concretas que manifestam a vontade duma profunda identifica\u00e7\u00e3o com a Sua maneira de pensar e agir.  Este projecto de vida assemelha-se a uma peregrina\u00e7\u00e3o que, na aceita\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es humanas, necessita de \u201calertas\u201d que se assumem em per\u00edodos especiais. A Quaresma \u00e9 este tempo \u201cdiferente\u201d que atrav\u00e9s da ora\u00e7\u00e3o, do jejum, da medita\u00e7\u00e3o da Palavra, reconhece o \u201cprimado\u201d de Deus como Pai a viver na aceita\u00e7\u00e3o duma Fraternidade Universal. Colocando-se perante Deus reencontra-se a dignidade de todo e qualquer ser humano e renuncia-se a coisas sup\u00e9rfluas para partilhar numa generosidade alegre. O contributo Penitencial ou Ren\u00fancia Quaresma tem este significado. Renuncio, conscientemente e como programa pessoal, para poder \u201ccontribuir\u201d para causas da Arquidiocese e da Igreja Universal e isto como viv\u00eancia duma Penit\u00eancia, ou seja, exigindo sacrif\u00edcios. Como nos anos anteriores, o Contributo Penitencial reverter\u00e1 para causas diocesanas e iniciativas que nos consciencializam da solidariedade universal. Neste sentido, determino: &#8211; A Casa Sacerdotal continua a ser objecto duma predilec\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os para que os sacerdotes sintam as condi\u00e7\u00f5es humanas necess\u00e1rias para uma entrega incondicional ao Reino de Deus. Em nome dos sacerdotes de idade e dos doentes, manifesto a minha gratid\u00e3o e espero uma generosidade concreta de todos, sacerdotes e leigos. &#8211; No dia 12 de Dezembro de 2006 completam-se 25 anos da morte de D. Manuel Ferreira Cabral. O Bispo da Diocese da Beira, onde ele serviu a Igreja, solicitou uma ajuda para o Secretariado da Pastoral dessa Diocese. Reavivaremos a nossa consci\u00eancia mission\u00e1ria e recordaremos o testemunho de vida evang\u00e9lica que D. Manuel \u201csemeou\u201d na Arquidiocese. &#8211; Por determina\u00e7\u00e3o do Conselho Presbiteral destinaremos uma pequena parte para a constru\u00e7\u00e3o de novas igrejas e por compromisso da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa entregaremos id\u00eantica quantia para o Fundo de Solidariedade da mesma.  Espero que todos os agentes de pastoral procurem comunicar o verdadeiro significado do Contributo Penitencial e conduzam as comunidades para uma viv\u00eancia da Quaresma geradora dum encontro com Cristo.  <i>+ Jorge Ferreira da Costa Ortiga, Arcebispo Primaz de Braga<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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