{"id":16696,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/atender-a-dignidade-da-pessoa\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"atender-a-dignidade-da-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/atender-a-dignidade-da-pessoa\/","title":{"rendered":"Atender \u00e0 dignidade da pessoa"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do Bispo do Porto em Quarta-feira de Cinzas <!--more--> Iniciamos, em Quarta-feira de Cinzas, o tempo lit\u00fargico da Quaresma. \u00c9 forte e eloquente a palavra de Deus, que inspira a reflex\u00e3o deste dia e explica as particularidades do ritual: \u201cConvertei-vos a Mim de todo o cora\u00e7\u00e3o, com jejuns, l\u00e1grimas e lamenta\u00e7\u00f5es\u201d (Joel 2, 12); \u201cN\u00f3s vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus&#8230; no tempo favor\u00e1vel, Eu te ouvi&#8230; Este \u00e9 o tempo favor\u00e1vel\u201d (2Cor. 5,20 e 6,2); \u201cTende cuidado&#8230; quando deres esmola&#8230; quando rezardes&#8230; quando jejuardes&#8230; Teu Pai, que v\u00ea o que est\u00e1 oculto, te dar\u00e1 a recompensa\u201d (Mt. 6,1 e passim); \u201cJesus, ao ver as multid\u00f5es, encheu-se de compaix\u00e3o por elas\u201d (Mt. 9,36). Sendo um tempo de prepara\u00e7\u00e3o para a P\u00e1scoa, no esp\u00edrito e inten\u00e7\u00e3o da Igreja, a Quaresma \u00e9 sobretudo e essencialmente uma peregrina\u00e7\u00e3o para Deus. Assim, a define o Papa Bento XVI na Mensagem que nos enviou: \u201ctempo privilegiado de peregrina\u00e7\u00e3o interior at\u00e9 \u00c0quele que \u00e9 a fonte de miseric\u00f3rdia\u201d. Na Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja o tempo de prepara\u00e7\u00e3o \u00e9 normalmente pretexto e apelo \u00e0 penit\u00eancia \u2013 penit\u00eancia e tristeza pelo que se anseia e n\u00e3o est\u00e1 alcan\u00e7ado, tristeza e penit\u00eancia que caracteriza a falta de plenitude para a qual se tende. A generalidade dos povos, em qualquer civiliza\u00e7\u00e3o, tem as suas pr\u00e1ticas penitenciais onde n\u00e3o falta o jejum. Assim acontecia com o povo de Israel, como consta da linguagem dos profetas. Joel \u00e9 particularmente elucidativo quando se faz voz e express\u00e3o da vontade de Deus: \u201cConvertei-vos a Mim de todo o cora\u00e7\u00e3o, com jejuns, l\u00e1grimas e lamenta\u00e7\u00f5es\u201d (Joel 2,12). Este convite-apelo dirige-se a todos os filhos de Israel, para que se integrem numa penit\u00eancia p\u00fablica e colectiva, destinada \u00e0s v\u00e1rias classes et\u00e1rias, profissionais e sociais, na esperan\u00e7a manifesta do perd\u00e3o de Deus como argumento e defesa da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o privilegiada por parte de Deus. Esta consci\u00eancia e auto-convic\u00e7\u00e3o expressa-se ainda no exemplo concreto de pessoas que, como a profetisa Ana, \u201cn\u00e3o se afastava nunca do templo, servindo a Deus noite e dia com jejuns e ora\u00e7\u00f5es\u201d (Lc. 2,36-37). Esta era a atitude de quantos, como o velho Sime\u00e3o, no tempo e porventura no templo, \u201cesperavam a consola\u00e7\u00e3o de Israel\u201d (Lc. 2,25). Por isso Jo\u00e3o Baptista, no an\u00fancio do Messias, dava origem a uma classe de disc\u00edpulos que viviam na expectativa do Salvador distinguindo-se pela pr\u00e1tica do jejum (cf. Mc. 2,18-20). O jejum, a esmola e a ora\u00e7\u00e3o eram pr\u00e1ticas distintas da religi\u00e3o judaica. No tempo de Jesus havia um dia de jejum oficial \u2013 a festa da Expia\u00e7\u00e3o. Ele mesmo retirou-se no deserto para jejuar, antes de iniciar o minist\u00e9rio p\u00fablico: \u201cjejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome\u201d (Mt. 4,2 . cf. Lc. 4,1-2). Com quase naturalidade e natural pedagogia foi com jejum e outras penit\u00eancias que Cristo se preparou para o minist\u00e9rio e miss\u00e3o que o Pai lhe confiou. Pode dizer-se que na sociedade, por raz\u00f5es de f\u00e9 e de humanismo, a pr\u00e1tica do jejum se baseia em raz\u00f5es quase consensuais: poupar para poder ajudar quem precisa, fortalecer a pr\u00f3pria vontade para resistir a tend\u00eancias ou tenta\u00e7\u00f5es inc\u00f3modas, e constitui-se em sinal de que somos ainda peregrinos a caminho do Reino de Deus em plenitude. Integrando-se na vida e nas tradi\u00e7\u00f5es do seu povo, Cristo disse aos disc\u00edpulos daquela hora e de sempre: \u201cN\u00e3o penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. N\u00e3o vim revog\u00e1-la, mas complet\u00e1-la\u201d (Mt. 5,17). E completou-a segundo estes crit\u00e9rios: \u201ctende cuidado em n\u00e3o praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles\u201d (Mt. 6,1); \u201cquando deres esmola, n\u00e3o toques a trombeta diante de ti, como fazem os hip\u00f3critas\u201d (Mt. 6,2); \u201cquando rezardes, n\u00e3o sejais como os hip\u00f3critas\u201d (Mt. 6,5); \u201cquando jejuardes, n\u00e3o tomeis um ar sombrio, como os hip\u00f3critas, que desfiguram o rosto, para mostrarem aos homens que jejuam\u201d (Mt. 6,16).  A Igreja de Cristo interroga-se pela palavra de S. Paulo: \u201cAnulamos a Lei com a f\u00e9 (em Cristo)?\u201d e responde: \u201cDe modo algum. Antes a confirmamos\u201d (Rm. 3,31). A Igreja actual confirma a fidelidade \u00e0s suas tradi\u00e7\u00f5es penitenciais actualizando-as conforme as car\u00eancias e necessidades da sociedade que pretende iluminar e ajudar. O Papa Bento XVI acaba de dar o exemplo quando na sua Mensagem nos convida a reflectir \u201csobre uma quest\u00e3o muito debatida pelos nossos contempor\u00e2neos: o desenvolvimento\u201d. E convida-nos a reflectir com o \u201colhar compassivo\u201d de Cristo que, \u201cao ver as multid\u00f5es, se encheu de compaix\u00e3o por elas (Mt. 9,36). E o nosso \u201colhar\u201d sobre a pessoa humana s\u00f3 pode imitar o olhar de Cristo se promovermos um desenvolvimento integral do homem, pois \u201cn\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel separar a resposta \u00e0s necessidades materiais e sociais da satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades do cora\u00e7\u00e3o\u201d. Na linha da doutrina social dos \u00faltimos Papas, h\u00e1 que atender \u00e0 dignidade da pessoa, ao esp\u00edrito de pobreza, \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o para o bem comum, \u00e0 paix\u00e3o pela paz, e tamb\u00e9m ao reconhecimento dos valores supremos que levam a Deus e \u00e0 caridade que nos volta para o pr\u00f3ximo. \u00c9 certo que tamb\u00e9m entre os crist\u00e3os foram cometidos erros ao longo da hist\u00f3ria, entre os quais sobressai a tenta\u00e7\u00e3o de separar e fasear a humaniza\u00e7\u00e3o e a cristianiza\u00e7\u00e3o, o que originou uma \u201cgradual seculariza\u00e7\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o\u201d que ainda se nota e n\u00e3o se v\u00ea como superar. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo esquecer as in\u00fameras obras de caridade que a partir da Igreja contribu\u00edram para o desenvolvimento da sociedade como factores importantes de promo\u00e7\u00e3o profissional e social.  Considerando a sua miss\u00e3o essencial e o \u00e2mbito pr\u00f3prio desta miss\u00e3o, olhando para o passado, avaliando as perspectivas e  esperan\u00e7as do futuro, a Igreja entende ser sua miss\u00e3o pedir respeito pela dignidade humana, pela liberdade religiosa efectiva e pelos aut\u00eanticos valores religiosos que desempenham um papel central na vida do homem. Por outro lado, \u201ca primeira contribui\u00e7\u00e3o que a Igreja oferece para o desenvolvimento do homem e dos povos n\u00e3o se consubstancia em meios materiais nem em solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas, mas no an\u00fancio da verdade de Cristo, que educa as consci\u00eancias e ensina a aut\u00eantica dignidade da pessoa e do trabalho, promovendo a forma\u00e7\u00e3o de uma cultura que corresponda verdadeiramente a todas as exig\u00eancias do homem\u201d. Estas palavras s\u00e3o da Mensagem do Papa. Entendemo-las como pertinentes e oportunas, embora para n\u00f3s dif\u00edceis de passar e ser entendidas como mensagem necess\u00e1ria e urgente, dado o ambiente que nos envolve, a mentalidade que impera e se expande, o ar que se respira, a press\u00e3o que aumenta e a corrente que arrasta e amea\u00e7a levar consigo valores de solidez menosprezada. Considerando os tremendos desafios da pobreza real e mundial que as apar\u00eancias n\u00e3o conseguem esquecer, a penit\u00eancia quaresmal \u2013 o jejum, a esmola e a ora\u00e7\u00e3o, s\u00e3o os meios ao nosso alcance para nos identificarmos com o \u201colhar\u201d misericordioso de Cristo e interpretarmos o melhor sentido da tradi\u00e7\u00e3o da Igreja \u2013 a partilha, concretizada no contributo penitencial quaresmal.  A cada Bispo cumpre indicar as finalidades do contributo penitencial da sua Diocese, como afirma\u00e7\u00e3o de solidariedade e como apelo \u00e0 comunh\u00e3o eclesial. A Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa decidiu h\u00e1 algum tempo que cada Diocese reservasse 5% (cinco por cento) do contributo penitencial para um fundo de solidariedade com as Dioceses estrangeiras que nos dirigem pedidos. Sobretudo pa\u00edses lus\u00f3fonos. Pe\u00e7o aos Rev.dos P\u00e1rocos e Reitores das Igrejas da Diocese que expliquem aos fi\u00e9is todas as normas disciplinares da Igreja relativamente \u00e0 pr\u00e1tica penitencial em tempo da Quaresma. E os informem que o contributo penitencial desta Quaresma de 2006 se destina genericamente a fomentar e intensificar a actividade social e caritativa da nossa Diocese. Que esta Quaresma seja em verdade tempo de prepara\u00e7\u00e3o, de penit\u00eancia, de fraternidade, de reconcilia\u00e7\u00e3o, de perd\u00e3o, de amor por Deus e em Deus. Como crist\u00e3os, sintamos e proclamemos com S. Paulo: \u201cN\u00f3s somos embaixadores de Cristo&#8230; N\u00f3s vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus&#8230; Este \u00e9 o tempo favor\u00e1vel, este \u00e9 o dia da salva\u00e7\u00e3o\u201d(2Cor 5, 20-6, 2).  <i>D. Armindo Lopes Coelho, Bispo do Porto<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do Bispo do Porto em Quarta-feira de Cinzas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,147,160,187,275,91,314],"class_list":["post-16696","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-conferencia-episcopal-portuguesa","tag-d-armindo-lopes-coelho","tag-diocese-do-porto","tag-pascoa","tag-quaresma","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16696","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16696"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16696\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16696"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16696"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16696"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}