{"id":16689,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/orientacoes-para-uma-pastoral-dos-ciganos\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"orientacoes-para-uma-pastoral-dos-ciganos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/orientacoes-para-uma-pastoral-dos-ciganos\/","title":{"rendered":"Orienta\u00e7\u00f5es para uma pastoral dos ciganos"},"content":{"rendered":"<p>Conselho Pontif\u00edcio da Pastoral para os Migrantes e os Itinerantes  <!--more--> <b>Introdu\u00e7\u00e3o<\/b> 1. A miss\u00e3o confiada por Cristo \u00e0 sua Igreja estende-se \u00aba todos os homens e povos, para conduzi-los com o exemplo da vida, com a prega\u00e7\u00e3o, os sacramentos e os outros meios da gra\u00e7a, \u00e0 f\u00e9, \u00e0 liberdade e \u00e0 paz de Cristo, oferecendo-lhes a possibilidade livre e segura de participar plenamente no mist\u00e9rio de Cristo\u00bb (AG 5). Esta universalidade da miss\u00e3o impele a Igreja a abranger tamb\u00e9m os povos geograficamente mais distantes e a preocupar-se com aqueles que, habitando em terras de antiga tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, ainda n\u00e3o receberam o Evangelho ou o receberam apenas parcialmente, ou n\u00e3o entraram ainda plenamente na comunh\u00e3o eclesial.   2. Entre estes, inclui-se certamente uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o cigana, desde h\u00e1 s\u00e9culos presente em terras tradicionalmente crist\u00e3s, mas frequentemente marginalizada. Marcada pelo sofrimento, pela discrimina\u00e7\u00e3o e frequentemente tamb\u00e9m pela persegui\u00e7\u00e3o, ela n\u00e3o foi, todavia, abandonada por Deus, \u201cque quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade\u00bb (1 Tm 2, 4). De facto, a Provid\u00eancia divina soube suscitar, especialmente no decurso das \u00faltimas d\u00e9cadas, uma aten\u00e7\u00e3o crescente para com esta popula\u00e7\u00e3o, tocando o cora\u00e7\u00e3o e a mente de muitos Agentes pastorais que generosamente se consagraram \u00e0 sua evangeliza\u00e7\u00e3o, sofrendo tamb\u00e9m, eles pr\u00f3prios, uma certa incompreens\u00e3o.  Esta aten\u00e7\u00e3o estendeu-se pouco a pouco \u00e0s v\u00e1rias regi\u00f5es habitadas pelos Ciganos, com um gradual envolvimento dos Pastores das Igrejas particulares, organizando-se, sucessivamente, a n\u00edvel nacional e tamb\u00e9m diocesano. Al\u00e9m disso, foram realizados numerosos Conv\u00e9nios internacionais com o fim de estudar e promover a pastoral a favor dos Ciganos, enquanto tamb\u00e9m no \u00e2mbito civil se desenvolveu uma maior aten\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a eles. Surgiu assim uma realidade pastoral inserida, sem d\u00favida, no esfor\u00e7o mission\u00e1rio da Igreja. Esta, estimulada pelo Esp\u00edrito de Deus, pretende imprimir um impulso decisivo a esta realidade, empenhando-se em sustent\u00e1-la e encoraj\u00e1-la, dedicando-lhe os recursos materiais, humanos e espirituais que s\u00e3o necess\u00e1rios.   3. A partir do esfor\u00e7o pastoral que tem sido desenvolvido e da troca de experi\u00eancias e de ideias, foi delineado um conjunto de atitudes, objectivos a alcan\u00e7ar, dificuldades a superar e recursos a obter, de que resultou um \u201cinstrumentum laboris\u201d realizado pelo Conselho Pontif\u00edcio da Pastoral para os Migrantes e Itinerantes. Esse documento foi notavelmente enriquecido e transformado pelos contributos e pareceres solicitados aos v\u00e1rios Agentes pastorais, incluindo Ciganos, que se empenham na evangeliza\u00e7\u00e3o desta popula\u00e7\u00e3o. Seguidamente, ap\u00f3s uma longa sondagem, procedeu-se \u00e0 redac\u00e7\u00e3o definitiva, tendo tamb\u00e9m presentes as estruturas eclesiais n\u00e3o directamente envolvidas, de modo a situar adequadamente a pastoral a favor dos Ciganos no enquadramento mais amplo da miss\u00e3o universal da Igreja.   4. Com a publica\u00e7\u00e3o deste documento pretende-se reafirmar, sem hesita\u00e7\u00f5es, o empenho da Igreja a favor desta popula\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, prop\u00f5e-se que sejam tra\u00e7ados novos caminhos no seio das sociedades nacionais e das Igrejas particulares, de modo a abrir as comunidades a estes irm\u00e3os. S\u00e3o, tamb\u00e9m, estabelecidos alguns crit\u00e9rios pastorais gerais para a ac\u00e7\u00e3o e as metas a alcan\u00e7ar. O presente documento marca, portanto, um momento importante na hist\u00f3ria de evangeliza\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o humana a favor dos Ciganos, ap\u00f3s o seu encontro com Paulo VI em Pomezia [6]. Deste modo, o documento destina-se n\u00e3o apenas aos Pastores e aos Agentes de uma pastoral espec\u00edfica, mas tamb\u00e9m a toda a comunidade eclesial \u2013 que n\u00e3o pode ficar indiferente nesta mat\u00e9ria \u2013 e aos pr\u00f3prios Ciganos. Dado que o caminho de plena comunh\u00e3o entre Ciganos e n\u00e3o Ciganos apenas come\u00e7ou, ou at\u00e9, em numerosos pa\u00edses, ainda falta percorrer, pede-se a todos uma grande convers\u00e3o da mente, do cora\u00e7\u00e3o e das atitudes: este \u00e9 o primeiro motor de uma tal comunh\u00e3o, consciente de que na raiz de cada situa\u00e7\u00e3o de rejei\u00e7\u00e3o e de injusti\u00e7a se encontra a dolorosa realidade do pecado.   5. Tendo em considera\u00e7\u00e3o que a popula\u00e7\u00e3o cigana est\u00e1 profundamente marcada pela diversidade, cabe \u00e0s Igrejas locais adequar os crit\u00e9rios, as indica\u00e7\u00f5es e as sugest\u00f5es aqui contidas \u00e0 situa\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica e temporal concreta. Al\u00e9m disso, no plano cognitivo, \u00e9 necess\u00e1ria uma grande prud\u00eancia para n\u00e3o uniformizar facilmente uma realidade em si pr\u00f3pria variada. Por esta raz\u00e3o, neste documento tamb\u00e9m quando nos referimos ao povo cigano, se entendem as popula\u00e7\u00f5es ciganas, constitu\u00eddas por diversos cl\u00e3s. Consequentemente, seria conveniente usar habitualmente o plural quando se fala da l\u00edngua, da tradi\u00e7\u00e3o, e dos outros elementos que configuram a identidade cigana; por\u00e9m, isto nem sempre \u00e9 poss\u00edvel e poderia at\u00e9 ser redutor, dado que, de facto, existem v\u00e1rios elementos comuns que confluem num modo de ser espec\u00edfico (Weltanschauung) e configuram fundamentalmente esta identidade.  Deste modo, para indicar estas popula\u00e7\u00f5es na sua globalidade e complexidade, usa-se aqui o termo \u201cCiganos\u201d, que no entanto deve permitir uma refer\u00eancia ao conjunto dos nossos irm\u00e3os n\u00f3madas ou sedent\u00e1rios, com respeito pela sua pessoa e pela sua cultura. Importa, por\u00e9m, n\u00e3o esquecer que a realidade concreta subjacente n\u00e3o \u00e9, portanto, um todo homog\u00e9neo, gen\u00e9rico, mas indica v\u00e1rios grupos ou cl\u00e3s, nomeadamente os Rom, Sinti, Manouches, Kal\u00e9, Gitanos, Y\u00e9niches, etc. Muitos deles preferem mesmo ser reconhecidos e identificados segundo o pr\u00f3prio cl\u00e3. Pelo contr\u00e1rio, com o termo gaj\u00e9 (gaj\u00f3 no singular) os Ciganos designam todos aqueles que n\u00e3o o s\u00e3o, e neste sentido se usa aqui a palavra, sem discriminar a classe.   6. Por fim, deve-se ter em conta que em v\u00e1rios Pa\u00edses vivem numerosos N\u00f3madas, cujas origens remontam a grupos de pastores ou pescadores, ou ca\u00e7adores n\u00f3madas e outros (\u201cTravellers\u201d, por exemplo), para quem o seu modo de vida e as caracter\u00edsticas antropol\u00f3gicas s\u00e3o diferentes das pertencentes \u00e0s popula\u00e7\u00f5es ciganas propriamente ditas. Todavia, as Igrejas locais dos Pa\u00edses onde existem N\u00f3madas poder\u00e3o encontrar igualmente inspira\u00e7\u00e3o pastoral nestas Orienta\u00e7\u00f5es, que certamente devem ser adaptadas \u00e0s circunst\u00e2ncias, necessidades e exig\u00eancias de cada grupo.    <b>Cap\u00edtulo I<\/b> Popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o bem conhecidas e frequentemente marginalizadas  Um longo caminho 7. Os Ciganos constituem uma \u201cpopula\u00e7\u00e3o em movimento\u201d, cuja vis\u00e3o do mundo tem as suas pr\u00f3prias origens na civiliza\u00e7\u00e3o n\u00f3mada, sendo que numa situa\u00e7\u00e3o sedent\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil compreend\u00ea-la em profundidade. O mundo cigano movimenta-se ainda, em grande parte, na tradi\u00e7\u00e3o oral; a sua cultura n\u00e3o \u00e9 escrita e n\u00e3o existe mem\u00f3ria da sua err\u00e2ncia. Eles n\u00e3o pertencem \u00e0 categoria cl\u00e1ssica dos migrantes, na qual geralmente se corre o risco de os classificar. Os testemunhos da sua origem e das suas movimenta\u00e7\u00f5es s\u00e3o de facto externos e marginais e s\u00f3 recentemente a realidade cigana se tornou objecto de estudo. A sua resist\u00eancia ancestral aos recenseamentos \u2013 frequentemente prel\u00fadio de uma deporta\u00e7\u00e3o \u2013 e o facto mais sistem\u00e1tico de que os Ciganos sedent\u00e1rios s\u00e3o geralmente exclu\u00eddos dos recenseamentos, enquanto Ciganos, torna mais dif\u00edcil enumer\u00e1-los e conhecer a sua distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica.  8. N\u00e3o obstante, pode-se dizer que a popula\u00e7\u00e3o cigana est\u00e1 em cont\u00ednuo aumento gra\u00e7as a fam\u00edlias numerosas, revelando, contudo, uma certa tend\u00eancia actual para a diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero dos seus membros.  Al\u00e9m disso, em geral as comunidades caracterizam-se pela sua fixa\u00e7\u00e3o em bairros degradados, em terrenos abandonados, em bairros de lata, em \u00e1reas de estacionamento pouco organizadas, ou em bairros perif\u00e9ricos das cidades e das povoa\u00e7\u00f5es dos gaj\u00e9. Pelo contr\u00e1rio, as fam\u00edlias que disp\u00f5em de maiores recursos estabelecem-se em terrenos adquiridos, onde acampam com as suas caravanas. Existem tamb\u00e9m os sedentarizados, com maiores instru\u00e7\u00f5es e habilita\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, que podem estar bem integrados na sociedade.  Por outro lado, assistimos actualmente a uma nova migra\u00e7\u00e3o, a dos Ciganos provenientes dos Pa\u00edses mais pobres da Europa Central e dos B\u00e1lc\u00e3s que chegam aos pa\u00edses mais industrializados. Em geral, desencadeiam reac\u00e7\u00f5es de rejei\u00e7\u00e3o por parte dos habitantes, criam embara\u00e7o aos respons\u00e1veis pela administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e recebem um acolhimento t\u00edmido, quando n\u00e3o de rejei\u00e7\u00e3o, por parte dos seus irm\u00e3os ocidentais. De qualquer modo, hoje em dia existe uma maior capacidade de acolhimento em compara\u00e7\u00e3o com o passado e uma maior sensibilidade social por parte das autoridades p\u00fablicas.   A rejei\u00e7\u00e3o: oposi\u00e7\u00e3o de culturas 9. A predisposi\u00e7\u00e3o para a itiner\u00e2ncia abarca o conjunto destas popula\u00e7\u00f5es e subsiste como mentalidade tamb\u00e9m entre aqueles que h\u00e1 muito se sedentarizaram e que s\u00e3o, de facto, a maioria. Por\u00e9m, este modo de vida, leg\u00edtimo por natureza, tem suscitado oposi\u00e7\u00e3o por parte da sociedade de acolhimento, a qual se traduz em muitos Pa\u00edses por uma incompreens\u00e3o tenaz, alimentada tamb\u00e9m pela falta de conhecimento das caracter\u00edsticas e da hist\u00f3ria ciganas.  Embora usufruindo da cidadania do Pa\u00eds no qual se estabeleceram, os Ciganos s\u00e3o, na realidade, frequentemente considerados e tratados como cidad\u00e3os de segunda classe. Os estere\u00f3tipos com os quais s\u00e3o classificados s\u00e3o tomados como verdades evidentes e esta persistente ignor\u00e2ncia ou desconhecimento alimenta uma rejei\u00e7\u00e3o latente e perigosa que impede e adultera o necess\u00e1rio di\u00e1logo das etnias nacionais.   10. Por serem vistos por muitos como estrangeiros nocivos e mendigos insistentes, a opini\u00e3o p\u00fablica em geral frequentemente apoiou a proibi\u00e7\u00e3o do nomadismo e a sua segrega\u00e7\u00e3o. No decurso da hist\u00f3ria, tal tamb\u00e9m deu origem a persegui\u00e7\u00f5es que foram justificadas quase como medidas sanit\u00e1rias. A hist\u00f3ria destas popula\u00e7\u00f5es ficou, assim, tristemente marcada por puni\u00e7\u00f5es corporais, deten\u00e7\u00f5es, deporta\u00e7\u00f5es, sedentariza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, escravid\u00e3o, ou por outras medidas utilizadas para conseguir finalmente o seu aniquilamento.   11. Por outro lado, a persegui\u00e7\u00e3o dos Ciganos coincide, em grande parte, com a forma\u00e7\u00e3o dos grandes Estados nacionais. Al\u00e9m disso, o s\u00e9culo XX ficou marcado pela persegui\u00e7\u00e3o racial que os afectou juntamente com os Judeus e foi perpetrada pelo nazismo, mas n\u00e3o s\u00f3. A sua deporta\u00e7\u00e3o para campos de concentra\u00e7\u00e3o, bem como a elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica de milhares e milhares de pessoas, suscitaram, em geral, apenas protestos isolados. Numa \u00e9poca mais recente, tamb\u00e9m a instabilidade pol\u00edtica de v\u00e1rios Pa\u00edses contribuiu para prejudicar os Ciganos. Prova disso foi a guerra dos B\u00e1lc\u00e3s, a qual mostrou, em circunst\u00e2ncias dram\u00e1ticas, que esta popula\u00e7\u00e3o continua a ser rejeitada por grande parte dos cidad\u00e3os. De facto, em v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es registraram-se tamb\u00e9m agress\u00f5es f\u00edsicas contra esta popula\u00e7\u00e3o, que alimentam ainda, num tr\u00e1gico c\u00edrculo vicioso, incompreens\u00e3o e viol\u00eancia.   Uma mentalidade particular 12. A identidade cigana n\u00e3o se revela facilmente, sem d\u00favida porque \u00e9 din\u00e2mica, e at\u00e9 vari\u00e1vel, e porque \u00e9 vista \u00e0 luz de rela\u00e7\u00f5es atribuladas entre Ciganos e gaj\u00e9. Nem sequer \u00e9 poss\u00edvel apontar um territ\u00f3rio ancestral onde teria as suas pr\u00f3prias ra\u00edzes. \u00c9 tamb\u00e9m dif\u00edcil identificar uma unidade \u00e9tnica abrangente e relativamente uniforme a partir da qual se possa chegar \u00e0 origem desta popula\u00e7\u00e3o. No entanto, pode-se falar correctamente de um conjunto de elementos que, tomados na sua globalidade, configuram um certo modo caracter\u00edstico de ser, talvez n\u00e3o regulamentado nem possuindo contornos definidos, antes compreendido como uma mentalidade e uma atitude existencial.  Pode-se assim verificar que esta popula\u00e7\u00e3o \u00e9 essencialmente caracterizada por uma propens\u00e3o para a viagem e para a vida errante que o gaj\u00f3, mesmo quando migrante, n\u00e3o possui. Estes podem desenraizar-se momentaneamente, para basear a sua exist\u00eancia noutro lugar que julgam ser melhor. Em geral, o gaj\u00f3 n\u00e3o tende a repetir esta experi\u00eancia de desenraizamento e migra\u00e7\u00e3o. Por sua vez, o Cigano est\u00e1 por natureza dispon\u00edvel para a viagem, o movimento.   13. Isto continua a ser verdadeiro mesmo se grande parte dos Ciganos, como j\u00e1 se mencionou, s\u00e3o hoje sedent\u00e1rios ou semi-sedent\u00e1rios. Estas novas formas de vida n\u00e3o afectam nos Ciganos a percep\u00e7\u00e3o da sua diversidade face aos gaj\u00e9. O temor de serem absorvidos, de perderem a sua identidade, reafirma neles a resist\u00eancia \u00e0 assimila\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m, de certo modo, \u00e0 sua pr\u00f3pria integra\u00e7\u00e3o.  A longa hist\u00f3ria do isolamento e do contraste com a cultura circundante, as persegui\u00e7\u00f5es sofridas e a incompreens\u00e3o por parte dos gaj\u00e9 influenciaram a identidade cigana, que se traduz por uma atitude de desconfian\u00e7a relativamente aos outros, com tend\u00eancia a fecharem-se sobre si pr\u00f3prios, na consci\u00eancia de poderem contar somente com as pr\u00f3prias for\u00e7as para sobreviver no seio de uma sociedade hostil.   14. No centro da vida da popula\u00e7\u00e3o cigana est\u00e1, de qualquer modo, a fam\u00edlia. Ser Cigano significa estar radicado de forma vital na fam\u00edlia, onde a consci\u00eancia e a mem\u00f3ria colectiva modelam cada pessoa e educam o jovem, at\u00e9 no meio do mundo dos gaj\u00e9 que o envolve e ao mesmo tempo o mant\u00e9m \u00e0 dist\u00e2ncia. Os anci\u00e3os da fam\u00edlia s\u00e3o, pois, muito respeitados e venerados, dado que possuem a sabedoria da vida. Os defuntos permanecem por muito tempo na mem\u00f3ria e, de certo modo, a sua presen\u00e7a conserva-se sempre viva. Al\u00e9m disso, no seio do povo cigano \u00e9 honrada a \u201cfam\u00edlia alargada\u201d constitu\u00edda por uma rede de m\u00faltiplas fam\u00edlias aparentadas, o que d\u00e1 origem a uma atitude de grande solidariedade e de hospitalidade, particularmente em rela\u00e7\u00e3o aos membros do pr\u00f3prio cl\u00e3.  A vontade de ser e permanecer livres, de dispor do espa\u00e7o e do tempo para a sua pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o na fam\u00edlia e na pr\u00f3pria etnia, est\u00e1 assim profundamente enraizada na mentalidade cigana. O desejo e o apre\u00e7o pela liberdade como condi\u00e7\u00e3o fundamental de exist\u00eancia podem de facto ser considerados como fundamentais na sua Weltanschauung.   15. Al\u00e9m disso, a religiosidade desempenha um papel muito relevante na identidade desta popula\u00e7\u00e3o. De facto, o relacionamento com Deus \u00e9 dado como adquirido e traduz-se numa rela\u00e7\u00e3o afectiva e imediata com o Omnipotente, que cuida da vida familiar e a protege, especialmente nas situa\u00e7\u00f5es dolorosas e inquietantes da exist\u00eancia. Esta religiosidade insere-se habitualmente na religi\u00e3o ou na confiss\u00e3o maiorit\u00e1ria do Pa\u00eds onde os Ciganos se encontram, seja ela luterana, reformada, cat\u00f3lica, ortodoxa, mu\u00e7ulmana ou outra, frequentemente sem muitas interroga\u00e7\u00f5es quanto \u00e0s suas diferen\u00e7as.   Uma grande mudan\u00e7a  16. No decurso do s\u00e9culo XX acentuou-se a tend\u00eancia para a sedentariza\u00e7\u00e3o e, em v\u00e1rias regi\u00f5es, tal tem facilitado a escolariza\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e o consequente aumento da popula\u00e7\u00e3o cigana alfabetizada. O maior contacto com o mundo dos gaj\u00e9, da\u00ed resultante, contribuiu, al\u00e9m disso, para uma progressiva adop\u00e7\u00e3o dos novos meios t\u00e9cnicos da sociedade contempor\u00e2nea, como por exemplo o transporte motorizado, a TV, a comunica\u00e7\u00e3o telem\u00e1tica, a inform\u00e1tica, etc.  Consequentemente, a passagem do carro tradicional para a roulotte puxada por um autom\u00f3vel tem, paradoxalmente, aumentado o fen\u00f3meno da semi-sedentariza\u00e7\u00e3o. O autom\u00f3vel permite percorrer livremente longas dist\u00e2ncias no decurso de um dia apenas, sem que a mulher e os filhos tenham necessariamente de acompanhar o chefe de fam\u00edlia ou os homens que exercem a sua actividade profissional. Uma estadia prolongada permite, al\u00e9m disso, que os filhos frequentem a escola com regularidade, nas fam\u00edlias cujos pais compreenderam o desenvolvimento do mundo e experimentaram a inferioridade de serem analfabetos.  Al\u00e9m disso, em alguns Pa\u00edses assiste-se agora \u00e0 incorpora\u00e7\u00e3o bastante generalizada dos Ciganos no trabalho at\u00e9 agora exclusivo dos gaj\u00e9, especialmente no campo art\u00edstico. Tornaram-se tamb\u00e9m mais frequentes os matrim\u00f3nios entre Ciganos e gaj\u00e9 e tamb\u00e9m no \u00e2mbito da promo\u00e7\u00e3o da mulher se registra uma significativa mudan\u00e7a, embora exista ainda muito a fazer no caminho de uma igual dignidade em rela\u00e7\u00e3o ao homem.   17. Apesar das tens\u00f5es que muitas vezes existem entre os diferentes grupos e da falta de h\u00e1bitos de mobiliza\u00e7\u00e3o e congrega\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias for\u00e7as com o fim de alcan\u00e7ar um objectivo, com perseveran\u00e7a e precis\u00e3o, em alguns Pa\u00edses os Ciganos criaram Associa\u00e7\u00f5es que t\u00eam em vista negocia\u00e7\u00f5es colectivas para seu benef\u00edcio. Com alguma frequ\u00eancia, gaj\u00e9 amigos colocam igualmente \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o as suas compet\u00eancias para que eles fa\u00e7am ouvir a pr\u00f3pria voz e assumam o futuro nas suas m\u00e3os. Estas Associa\u00e7\u00f5es reagem com cada vez maior efic\u00e1cia \u00e0s legisla\u00e7\u00f5es que limitam a liberdade de movimento ou que ignoram a sua identidade, restringindo direitos leg\u00edtimos. Naturalmente, o associativismo n\u00e3o tem a mesma for\u00e7a em toda a parte, mas \u00e9 um movimento que existe, est\u00e1 em crescimento e carece de apoio.   18. Todavia, esta evolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 ainda numa fase inicial e varia muito de Pa\u00eds para Pa\u00eds, ou seja, a situa\u00e7\u00e3o geral da popula\u00e7\u00e3o cigana, marcada por um isolamento multissecular, est\u00e1 ainda muito atrasada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s grandes mudan\u00e7as que caracterizaram a sociedade dos gaj\u00e9 durante o \u00faltimo s\u00e9culo. Tal tem pesadas consequ\u00eancias tamb\u00e9m no campo economico-laboral. De facto, o anterior contexto de uma sociedade predominantemente rural tinha permitido uma esp\u00e9cie de simbiose dos Ciganos com a sociedade dos gaj\u00e9, gra\u00e7as \u00e0s suas profiss\u00f5es ligadas \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de cavalos, \u00e0 labora\u00e7\u00e3o dos metais, ao pequeno artesanato, \u00e0 m\u00fasica e ao espect\u00e1culo ambulante. Hoje, pelo contr\u00e1rio, a transforma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico-industrial da sociedade de acolhimento deixa pouco espa\u00e7o econ\u00f3mico, e eles s\u00e3o obrigados a abandonar as profiss\u00f5es tradicionais, agora obsoletas, e a procurar meios de subsist\u00eancia em actividades de escasso lucro, frequentemente no limite da legalidade ou fora do seu \u00e2mbito.   19. Al\u00e9m disso, n\u00e3o se deve subvalorizar a influ\u00eancia da seculariza\u00e7\u00e3o, que depois da sociedade dos gaj\u00e9, atinge progressivamente tamb\u00e9m a cigana. A religiosidade tradicional encontra-se assim submetida \u00e0 press\u00e3o dominadora de uma cultura que volta as costas a Deus ou O nega e, quando n\u00e3o encontra acolhimento numa comunidade crist\u00e3, a popula\u00e7\u00e3o cigana facilmente cai nas malhas das seitas ou dos chamados \u201cnovos movimentos religiosos\u201d. Tal constitui um apelo adicional e urgente para abrir os bra\u00e7os a uma popula\u00e7\u00e3o, apesar de tudo, sempre desejosa do encontro com Deus.  Por outro lado, a actual idolatria do bem-estar, prevalecente entre os gaj\u00e9, n\u00e3o constitui, certamente, um est\u00edmulo a abandonar as pr\u00f3prias comodidades e a ir ao encontro destes nossos irm\u00e3os necessitados de sair da pobreza e do isolamento e de encontrar o seu lugar na sociedade contempor\u00e2nea.   Uma realidade que interpela 20. Tudo isto torna particularmente dolorosa a indiferen\u00e7a ou a oposi\u00e7\u00e3o face a estas popula\u00e7\u00f5es n\u00f3madas. S\u00f3 gradualmente, e muito lentamente, algumas comunidades se abriram ao acolhimento; por\u00e9m, o seu n\u00famero \u00e9 ainda demasiado reduzido para que os Ciganos possam descobrir o rosto materno e fraterno da Igreja. Assim, os sinais de rejei\u00e7\u00e3o persistem e perpetuam-se, suscitando, em geral, poucas reac\u00e7\u00f5es e protestos por parte daqueles que os testemunham.  No entanto, esta situa\u00e7\u00e3o deveria despertar a consci\u00eancia dos cat\u00f3licos, suscitando sentimentos de solidariedade para com esta popula\u00e7\u00e3o. A Igreja sente-se, por isso, chamada a reconhecer o itiner\u00e1rio cigano no decurso da hist\u00f3ria e \u00e9 interpelada pela sua cultura. Ela deve reconhecer o seu direito a \u201cquerer viver em conjunto\u201d, provocando e sustentando uma sensibiliza\u00e7\u00e3o com vista a uma maior justi\u00e7a face a eles, no respeito rec\u00edproco das culturas, orientando os pr\u00f3prios passos segundo o exemplo de Cristo, em resposta \u00e0s expectativas desta popula\u00e7\u00e3o na sua busca do Senhor.   <b>Cap\u00edtulo II<\/b> Solicitude da Igreja  21. N\u00e3o se pode esquecer, todavia, que a partir da segunda metade do s\u00e9culo passado houve por parte dos Pastores uma aproxima\u00e7\u00e3o progressiva aos Ciganos, tendo in\u00edcio em alguns Pa\u00edses uma pastoral espec\u00edfica em favor desta popula\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, o Conc\u00edlio Vaticano II exortou os Bispos para que tivessem \u00abum interesse particular por aqueles fi\u00e9is que, devido \u00e0s suas condi\u00e7\u00f5es de vida, n\u00e3o podem usufruir de forma suficiente do cuidado pastoral comum e ordin\u00e1rio dos P\u00e1rocos, ou que dele s\u00e3o totalmente privados\u00bb, e entre estes fi\u00e9is incluem-se tamb\u00e9m \u00abos n\u00f3madas\u00bb (CD 18). Um tal interesse particular foi confirmado por Paulo VI quando, no c\u00e9lebre encontro de Pomezia, j\u00e1 referido, se dirigiu aos Ciganos nestes termos: \u00abv\u00f3s estais no cora\u00e7\u00e3o da Igreja\u00bb! A dignidade crist\u00e3, na condi\u00e7\u00e3o dos Ciganos, recebeu um reconhecimento posterior com a beatifica\u00e7\u00e3o de Ceferino Gim\u00e9nez Malla (1861-1936), chamado \u201co Pel\u00e9\u201d, um cigano espanhol pertencente ao grupo n\u00f3mada dos Cal\u00f3s.  A estrada da evangeliza\u00e7\u00e3o, de uma aut\u00eantica reconcilia\u00e7\u00e3o e de comunh\u00e3o Ciganos-gaj\u00e9 n\u00e3o pode, contudo, deixar de partir da reflex\u00e3o b\u00edblica, \u00e0 luz da qual tamb\u00e9m o seu mundo encontra uma raz\u00e3o crist\u00e3. Neste \u00e2mbito, \u00e9 necess\u00e1ria uma leitura atenta da Sagrada Escritura, para que nos conduza a uma correcta inser\u00e7\u00e3o da pastoral dos Ciganos no contexto da miss\u00e3o da Igreja.   Alian\u00e7a de Deus e itiner\u00e2ncia dos homens  22. A figura do pastor e da sua vida predominantemente itinerante tem um lugar privilegiado na revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica. Na origem do povo de Israel salienta-se a figura de Abra\u00e3o, que recebe como primeira indica\u00e7\u00e3o de Deus a seguinte: \u00absai da tua terra, do meio dos teus parentes e da casa de teu pai, e vai para a terra que Eu te mostrar\u00bb (Gn 12,1). Abra\u00e3o \u00abpartiu sem saber para onde ia\u00bb (Hb 11,8), e daquele momento em diante, a sua vida foi marcada por cont\u00ednuas desloca\u00e7\u00f5es, \u00abde acampamento em acampamento\u00bb (Gn 13,3), \u00abmorando em tendas\u00bb (Hb 11,9) como estrangeiro (cf. Gn 17,8), sabendo que tamb\u00e9m os seus descendentes imediatos seriam \u00abestrangeiros numa terra que n\u00e3o \u00e9 deles\u00bb (Gn 15,13). Nas confirma\u00e7\u00f5es do pacto da alian\u00e7a de Deus com Abra\u00e3o, a imagem do itinerante aparece como sinal privilegiado da contraparte humana: \u00abanda na minha presen\u00e7a e s\u00ea perfeito\u00bb (Gn 17,1).   23. O povo eleito \u00e9 posteriormente confiado \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s, que \u00abna idade adulta, recusou ser chamado filho da filha do fara\u00f3, preferindo ser maltratado com o povo de Deus a gozar por pouco tempo do pecado\u00bb (Hb 11,24-25). Mois\u00e9s recebeu do Senhor o dever de libertar os israelitas da escravid\u00e3o do Egipto para os levar \u00e0 Terra prometida e isto realizou-se atrav\u00e9s de uma longa caminhada durante a qual eles \u00aberravam pelo deserto solit\u00e1rio, sem achar o caminho para uma cidade habitada\u00bb (Sl 107,4).  \u00c9 precisamente neste contexto itinerante que se deu a confirma\u00e7\u00e3o da alian\u00e7a de Deus com o seu povo, no monte Sinai. Ela ficou representada pela arca contendo os s\u00edmbolos da alian\u00e7a, arca que se desloca com o povo e o acompanha no caminho rumo \u00e0 Terra prometida. Nestas condi\u00e7\u00f5es, mesmo quando s\u00e3o acometidos pela fome e pela sede, pela inimizade e pelo n\u00e3o acolhimento por parte dos povos circundantes, os hebreus encontram a protec\u00e7\u00e3o e a predilec\u00e7\u00e3o de Deus, o que ser\u00e1 posteriormente recordado e cantado nos salmos, do seguinte modo: \u00ab\u00f3 Deus, quando sa\u00edas \u00e0 frente do teu povo, caminhando pelo deserto, a terra tremeu e o c\u00e9u dissolveu-se diante de Deus do Sinai, diante de Deus, o Deus de Israel\u00bb (Sl 68,8-9). A nostalgia destes tempos que forjaram a alma de Israel \u00e9 conservada sempre viva nos tempos posteriores, e evocada pelas peregrina\u00e7\u00f5es que os Hebreus deviam fazer \u00e0 Cidade onde, no Templo, se guardava a arca da alian\u00e7a.   24. A itiner\u00e2ncia \u00e9, por outro lado, uma caracter\u00edstica da atitude de cada homem no seu relacionamento com Deus. Para os salmos \u00abo homem de conduta \u00edntegra\u00bb \u00e9 aquele \u00abque caminha na lei do Senhor\u00bb, que \u00abanda nos seus caminhos\u00bb (Sl 119,1-3, \u00abna terra da (&#8230;) peregrina\u00e7\u00e3o\u00bb (Sl 119,54). \u00abO que vive sem culpa\u00bb (S1 15,2) experimenta at\u00e9 que ponto Deus o \u00abalenta\u00bb e o \u00abguia por caminhos justos\u00bb (Sl 23,3). Neste sentido, Paulo nos recordar\u00e1 que \u00abenquanto habitamos neste corpo, estamos longe do Senhor\u00bb (2 Cor 5,6).  Tamb\u00e9m o mist\u00e9rio de Cristo \u00e9 apresentado pela Sagrada Escritura como um \u00eaxodo, o do Filho do Pai, ao mundo, e do seu regresso ao Pai. A vida terrena de Jesus \u00e9 marcada, j\u00e1 desde o seu in\u00edcio, pela itiner\u00e2ncia, na fuga da persegui\u00e7\u00e3o de Herodes rumo ao Egipto e no regresso a Nazar\u00e9. Al\u00e9m disso, o Evangelho de Lucas testemunha as suas peregrina\u00e7\u00f5es anuais ao Templo de Jerusal\u00e9m (cf. Lc 2,41), e todo o seu minist\u00e9rio p\u00fablico \u00e9 caracterizado pelas desloca\u00e7\u00f5es de uma regi\u00e3o para outra, at\u00e9 ao ponto de que \u00abo Filho do homem n\u00e3o tem onde reclinar a cabe\u00e7a\u00bb (Mt 8,20). O pr\u00f3prio mist\u00e9rio pascal \u00e9, precisamente, introduzido pelo Evangelho de Jo\u00e3o, como a sua hora \u201cde passar deste mundo para o Pai\u00bb (Jo 13,1). Jesus sabia que sa\u00edra de junto de Deus e que voltava para Deus (cf. Jo 13,3). Tamb\u00e9m o homem \u00e9 interpelado por este \u00eaxodo do Filho enviado pelo Pai por obra do Esp\u00edrito Santo a p\u00f4r-se a caminho num \u201c\u00eaxodo pascal\u201d rumo ao Pai.   25. Deste modo, o \u00eaxodo n\u00e3o est\u00e1 ainda conclu\u00eddo visto que \u00aba hist\u00f3ria da Igreja \u00e9 o di\u00e1rio vivo de uma peregrina\u00e7\u00e3o nunca terminada\u00bb (IM 7). Na continua\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o veterotestament\u00e1ria e da vida de Cristo, que \u00abconsumou a sua obra de reden\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da pobreza e das persegui\u00e7\u00f5es\u00bb, tamb\u00e9m a Igreja, Povo de Deus a caminho rumo ao Pai, \u00ab\u00e9 chamada a tomar o mesmo caminho para comunicar aos homens os frutos da salva\u00e7\u00e3o\u00bb (LG 8). Como \u00abnovo Israel da era presente que caminha em busca da cidade futura e perene (cf. Hb 13,14)\u00bb (LG 9), ela \u00abprossegue a sua peregrina\u00e7\u00e3o entre as persegui\u00e7\u00f5es do mundo e as consola\u00e7\u00f5es de Deus\u00bb[7] e \u00abno seu caminho atrav\u00e9s das tenta\u00e7\u00f5es e das tribula\u00e7\u00f5es \u00e9 apoiada pela for\u00e7a da gra\u00e7a de Deus\u00bb (LG 9). Definitivamente, a Igreja revela uma mobilidade testemunhada pela sua \u00edndole escatol\u00f3gica, que nela alimenta as tens\u00f5es polares rumo ao eschaton da sua realiza\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m a condi\u00e7\u00e3o do crist\u00e3o individual \u00e9, por consequ\u00eancia, como uma grande peregrina\u00e7\u00e3o rumo ao Reino de Deus: \u00abdo nascimento at\u00e9 \u00e0 morte, a condi\u00e7\u00e3o de cada um \u00e9 a que \u00e9 pr\u00f3pria do homo viator\u00bb (IM 7).   Vida itinerante e perspectiva crist\u00e3  26. Daqui resulta que a condi\u00e7\u00e3o de itinerante, quer na sua realiza\u00e7\u00e3o objectiva, quer como vis\u00e3o de vida, se torna uma voca\u00e7\u00e3o permanente atrav\u00e9s da qual \u00abn\u00e3o temos aqui uma cidade permanente, mas buscamos a cidade futura\u00bb (Hb 13,14). Ela configura-se como um sinal eclesial solidamente ancorado na revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica, encontrando na estrutura viva da Igreja as suas v\u00e1rias formas existenciais. Entre todas estas inclui-se, certamente, aquela que \u00e9 encarnada na vida dos Ciganos, tanto nas suas diversas realiza\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas como nas circunst\u00e2ncias actuais.   27. Entre os valores que, de certo modo, definem o seu estilo de vida, sobressaem, de facto, alguns semelhantes aos tra\u00e7os b\u00edblicos. Marcada, pois, pela persegui\u00e7\u00e3o, pelo ex\u00edlio, pelo n\u00e3o acolhimento, ou at\u00e9 pela rejei\u00e7\u00e3o, pelo sofrimento e pela discrimina\u00e7\u00e3o, a hist\u00f3ria cigana forjou-se como uma permanente caminhada, que distingue o cigano dos outros e o conserva na sua tradi\u00e7\u00e3o n\u00f3mada, de tal modo que ele n\u00e3o se deixa arrastar, em geral, pela influ\u00eancia do ambiente circundante. Configurou-se assim uma identidade, com a sua cultura, as pr\u00f3prias l\u00ednguas, a sua religiosidade e os pr\u00f3prios h\u00e1bitos, e com um sentido forte de perten\u00e7a e de v\u00ednculo com os outros. Gra\u00e7as aos Ciganos e \u00e0s suas tradi\u00e7\u00f5es, a humanidade enriquece-se, pois, com um verdadeiro patrim\u00f3nio cultural, transmitido sobretudo atrav\u00e9s da vida n\u00f3mada. De facto, \u00aba sua sabedoria n\u00e3o est\u00e1 escrita em nenhum livro, mas nem por isso \u00e9 menos eloquente\u00bb[8].   28. Frequentemente abandonados pelos homens mas n\u00e3o por Deus, os Ciganos colocaram a sua confian\u00e7a na Provid\u00eancia, com uma convic\u00e7\u00e3o assim profunda de poder-se qualificar parte da sua \u201cnatureza\u201d. A vida cigana \u00e9, no fundo, um testemunho vivo de uma liberdade interior face \u00e0s depend\u00eancias do consumismo e das falsas seguran\u00e7as baseadas na suposta auto-sufici\u00eancia do homem. Al\u00e9m disso, n\u00e3o se deve esquecer o dito popular: \u201cAjuda-te que Deus te ajudar\u00e1\u201d.  A sua itiner\u00e2ncia \u00e9, assim, um chamamento simb\u00f3lico e permanente ao caminho da vida rumo \u00e0 eternidade. De um modo muito especial eles vivem aquilo que toda a Igreja deveria viver, ou seja, estar continuamente a caminho rumo a uma outra P\u00e1tria, a verdadeira, a \u00fanica, devendo, pois, cada um empenhar-se no seu trabalho quotidiano e no seu dever.   Catolicidade da Igreja e pastoral para os Ciganos  29. Tudo isto deveria ter como consequ\u00eancia uma solicitude espec\u00edfica da Igreja para com esta popula\u00e7\u00e3o. Como grupo particular do Povo peregrinante de Deus, ela merece, com efeito, uma atitude pastoral especial e um apre\u00e7o pelos seus valores. Mais ainda, uma tal pastoral \u00e9 referida e solicitada como exig\u00eancia interna da catolicidade da Igreja e da sua miss\u00e3o. De facto, com Cristo, do qual ela procede, desaparece todo o tipo de discrimina\u00e7\u00e3o. Ele \u00ab\u00e9 a nossa paz. Dos dois povos, Ele fez um s\u00f3, tendo derrubado o muro de separa\u00e7\u00e3o: a inimizade (\u2026) para, dos dois, criar em si mesmo, um s\u00f3 homem novo, estabelecendo a paz, e para reconciliar a ambos com Deus num s\u00f3 corpo, por meio da cruz, destruindo em si mesmo a inimizade\u00bb (cf. Ef 2,14 16).   30. Portanto, na Igreja, instrumento da miss\u00e3o do Senhor, que nela continua presente, \u00abtodos os homens s\u00e3o chamados a formar o Povo de Deus\u00bb (LG 13). \u00c9 voca\u00e7\u00e3o da Igreja estar presente em todas as na\u00e7\u00f5es da Terra, uma vez que \u00e9 do meio de todos os povos que o Senhor toma os cidad\u00e3os do seu Reino que, pela sua natureza, n\u00e3o \u00e9 da terra mas do c\u00e9u (cf. LG 13). Nela, cada pessoa deve encontrar acolhimento, sem espa\u00e7o para a marginaliza\u00e7\u00e3o, para ser estrangeiro. Com efeito, a Igreja dirige-se de modo particular \u00abaos pobres e sofredores, dedicando-se a eles de boa vontade (cf. 2 Cor 12, 15). De facto, ela compartilha as suas alegrias e as suas dores, conhece as aspira\u00e7\u00f5es e os problemas da vida, sofre com eles na ang\u00fastia da morte\u00bb (AG 12).   31. Al\u00e9m disso, a catolicidade da Igreja, embora contenha a voca\u00e7\u00e3o para abranger todo o homem, de qualquer condi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 apenas extensiva, mas, mais interior e decisivamente, \u00e9 qualitativa, isto \u00e9, tem capacidade para penetrar nas diversas culturas e para fazer suas as ang\u00fastias e esperan\u00e7as de todos os povos, de modo a evangelizar, enriquecendo-se, ao mesmo tempo, com as diversas riquezas culturais da humanidade. O Evangelho, um e \u00fanico, \u00e9, portanto, anunciado de modo adequado tendo tamb\u00e9m em conta as diversas culturas e tradi\u00e7\u00f5es, prosseguindo assim no \u00abmovimento pelo qual o pr\u00f3prio Cristo, atrav\u00e9s da sua encarna\u00e7\u00e3o, se ligou ao ambiente s\u00f3cio-cultural concreto dos homens com os quais conviveu\u00bb (AG 10).   32. Um tal enraizamento cat\u00f3lico faz com que qualquer eventual forma de discrimina\u00e7\u00e3o, no desenvolvimento da sua miss\u00e3o, resulte numa trai\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria identidade eclesial. Nas pegadas do seu Fundador \u2013 o Enviado de Deus \u00abpara anunciar a Boa Nova aos pobres, para proclamar a liberta\u00e7\u00e3o aos presos e aos cegos a recupera\u00e7\u00e3o da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de gra\u00e7a do Senhor\u00bb (Lc 4, 18-19) \u2013, a Igreja procura, assim, meios cada vez mais adequados para anunciar o Evangelho aos Ciganos, de modo vivo e eficaz. Trata-se assim de uma nova evangeliza\u00e7\u00e3o, \u00e0 qual nos convidava com frequ\u00eancia o Papa Jo\u00e3o Paulo II.   33. Da dimens\u00e3o cat\u00f3lica da miss\u00e3o nasce, de facto, aquela capacidade eclesial de encontrar e desenvolver os recursos necess\u00e1rios para ir ao encontro das m\u00faltiplas formas sociais nas quais as comunidades humanas organizam a sua exist\u00eancia. Deste modo, a salva\u00e7\u00e3o est\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de todos. Tendo em conta a advert\u00eancia paulina \u00abai de mim, se eu n\u00e3o anunciar o Evangelho!\u00bb (1 Cor 9, 16), a Igreja n\u00e3o poupa, portanto, esfor\u00e7os e sacrif\u00edcios para alcan\u00e7ar, de facto, todos os homens. \u00c9 uma hist\u00f3ria marcada, tamb\u00e9m, pela iniciativa e pela criatividade, para tornar mais incisivo o an\u00fancio, desafiando frequentemente mentalidades e estruturas que o tempo tornou obsoletas.  As circunst\u00e2ncias actuais em que os Ciganos se encontram, submetidos \u00e0s mudan\u00e7as vertiginosas da sociedade contempor\u00e2nea, ao materialismo selvagem e a falsas propostas que, no entanto, se justificam com o Transcendente, imprimem um impulso urgente \u00e0 ac\u00e7\u00e3o pastoral, de modo a evitar quer o seu encerramento passivo em si mesmos, quer a fuga para as seitas ou a dispers\u00e3o do pr\u00f3prio patrim\u00f3nio religioso, engolido por um materialismo que sufoca todo o chamamento ao Divino.   <b>Cap\u00edtulo III<\/b> Evangeliza\u00e7\u00e3o e incultura\u00e7\u00e3o   34. Tendo em vista a desejada nova evangeliza\u00e7\u00e3o e a reconcilia\u00e7\u00e3o e comunh\u00e3o entre Ciganos e gaj\u00e9, deve-se valorizar adequadamente a \u201cdiversidade cigana\u201d, reconhecendo de pleno direito a sua exist\u00eancia, sem todavia cortar as pontes de encontro com a cultura dos gaj\u00e9. O equil\u00edbrio salutar e justo desta valoriza\u00e7\u00e3o \u00e9, de facto, indispens\u00e1vel para uma correcta equa\u00e7\u00e3o do relacionamento entre evangeliza\u00e7\u00e3o, incultura\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o humana.   A Evangeliza\u00e7\u00e3o dirigida \u00e0 incultura\u00e7\u00e3o  35. Uma vez que a salva\u00e7\u00e3o atinge o homem por inteiro, a evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode, certamente, descurar aqueles aspectos culturais, lingu\u00edsticos, tradicionais, art\u00edsticos e ainda outros, que modelam o ser humano e os povos na sua integridade. Ao faz\u00ea-lo, a Igreja \u00abnada retira ao bem temporal de qualquer povo, mas, pelo contr\u00e1rio, fomenta e acolhe todas as riquezas, os recursos e modos de vida dos povos, naquilo que t\u00eam de bom e, acolhendo-os, purifica-os, consolida-os e eleva-os\u00bb (LG 13). Al\u00e9m disso, o esp\u00edrito genuinamente cat\u00f3lico da evangeliza\u00e7\u00e3o conduz a um enriquecimento rec\u00edproco, visto que \u00abcada uma das partes leva os seus pr\u00f3prios dons \u00e0s outras partes e a toda a Igreja, de maneira que o todo e cada uma das partes se incrementam com um interc\u00e2mbio m\u00fatuo universal\u00bb (LG 13).   36. Portanto, nesta vis\u00e3o, alguns crit\u00e9rios orientadores encontram a sua compreens\u00e3o adequada para a anima\u00e7\u00e3o da ac\u00e7\u00e3o pastoral com os Ciganos, ou seja, n\u00e3o apenas a aceita\u00e7\u00e3o da sua leg\u00edtima reivindica\u00e7\u00e3o de uma identidade espec\u00edfica e do direito \u00e0 sua inser\u00e7\u00e3o, enquanto tal, na estrutura vital da sociedade civil e eclesial, mas tamb\u00e9m a aprecia\u00e7\u00e3o real \u2013 afectiva e efectiva \u2013 dos aut\u00eanticos valores da sua tradi\u00e7\u00e3o, que deve ser n\u00e3o s\u00f3 respeitada, mas tamb\u00e9m defendida. Mais ainda: nesta perspectiva soteriol\u00f3gica, \u00e9 necess\u00e1rio compreender a cultura desta popula\u00e7\u00e3o a partir do seu interior, enquanto elemento a integrar no des\u00edgnio salv\u00edfico divino.   37. A peculiaridade da Weltanschauung cigana e da sua forma de vida caracter\u00edstica n\u00e3o \u00e9 facilmente compar\u00e1vel com a de outras realidades sociais da humanidade. A realidade cigana enquadra-se, pois, plenamente, nas pr\u00e1ticas mission\u00e1rias, em que a Igreja, especialista em humanidade, aplicou o axioma segundo o qual \u00aba qualquer condi\u00e7\u00e3o ou estado devem corresponder actos apropriados e instrumentos adequados\u00bb (AG 6). Daqui adv\u00e9m a necessidade e a conveni\u00eancia de uma assist\u00eancia pastoral espec\u00edfica para os Ciganos, n\u00e3o reduzida \u00e0 solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil de simplesmente os pressionar para a \u201cintegra\u00e7\u00e3o\u201d no conjunto dos restantes fi\u00e9is; ela deve ser dirigida sobretudo \u00e0 sua evangeliza\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o.  Deste modo, deve-se ter em conta que a estrutura eclesi\u00e1stica ordin\u00e1ria e territorial para a pastoral das almas n\u00e3o permite, em geral, a esta popula\u00e7\u00e3o uma inser\u00e7\u00e3o efectiva e duradoura na vida e na comunidade eclesial. Torna-se assim necess\u00e1rio um discernimento cauteloso com o objectivo de encontrar o justo equil\u00edbrio tamb\u00e9m na adapta\u00e7\u00e3o das plataformas pastorais comuns \u00e0s particularidades exigidas por cada situa\u00e7\u00e3o.   38. Com efeito, a especificidade da cultura cigana exige que n\u00e3o se lhes ofere\u00e7a uma evangeliza\u00e7\u00e3o simplesmente \u201cdesde o externo\u201d, a qual facilmente seria considerada uma invas\u00e3o. Na esteira da verdadeira catolicidade, a Igreja deve tornar-se, num certo sentido, ela pr\u00f3pria cigana entre os Ciganos, para que eles possam participar plenamente na vida da Igreja. Isto leva a procurar uma atitude pastoral caracterizada pela partilha e pela amizade, para o que se torna importante que os Agentes pastorais espec\u00edficos se integrem na sua forma de vida e partilhem a sua condi\u00e7\u00e3o, pelo menos durante algum tempo. Para tal contribui, portanto, de um modo muito especial, aquilo que a Igreja exige a quantos est\u00e3o empenhados nos territ\u00f3rios mission\u00e1rios, ou seja, que \u00abdevem conhecer os homens com quem convivem e levar as rela\u00e7\u00f5es com eles a um di\u00e1logo sincero e compreensivo, para que venham a conhecer quantas riquezas Deus na sua magnanimidade deu aos povos\u00bb (AG 11).   Purifica\u00e7\u00e3o, eleva\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o da cultura cigana em Cristo  39. Um encontro aut\u00eantico entre Evangelho e cultura cigana n\u00e3o pode, todavia, legitimar indiscriminadamente todos os seus aspectos particulares. A hist\u00f3ria universal da evangeliza\u00e7\u00e3o testemunha, de facto, que a difus\u00e3o da mensagem crist\u00e3 foi sempre acompanhada por um processo de purifica\u00e7\u00e3o das culturas a que se dirige, purifica\u00e7\u00e3o que \u00e9 vista, na realidade, como um aspecto necess\u00e1rio \u00e0 sua eleva\u00e7\u00e3o crist\u00e3. N\u00e3o \u00e9 pois de admirar que, a par da \u201caceita\u00e7\u00e3o\u201d de uma tal cultura, a Igreja oriente a pastoral tamb\u00e9m para a supera\u00e7\u00e3o daqueles aspectos n\u00e3o partilhados pela vis\u00e3o crist\u00e3 da vida ou que, de um modo ou de outro, constituem obst\u00e1culos ao caminho da reconcilia\u00e7\u00e3o e da comunh\u00e3o entre Ciganos e gaj\u00e9. Uma atitude minimalista face a estes obst\u00e1culos ou uma defesa indiscriminada de tudo aquilo que est\u00e1 presente nas tradi\u00e7\u00f5es ciganas, sem as devidas distin\u00e7\u00f5es e os relativos ju\u00edzos evang\u00e9licos, n\u00e3o pode, pois, ajudar \u00e0 causa da pr\u00f3pria evangeliza\u00e7\u00e3o.   40. Neste contexto, \u00e9 necess\u00e1rio acrescentar que a cust\u00f3dia das pr\u00f3prias tradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o deveria tornar-se um \u00e1libi para justificar uma atitude de isolamento, fechado tamb\u00e9m ao justo progresso das sociedades dos gaj\u00e9. Assim, a reconcilia\u00e7\u00e3o e a comunh\u00e3o entre Ciganos e gaj\u00e9 incluem a interac\u00e7\u00e3o leg\u00edtima das culturas, e neste processo, a iniciativa deve partir tamb\u00e9m da parte cigana. Deste modo, deve-se outrossim ter em conta que a actual configura\u00e7\u00e3o geral da sociedade n\u00e3o permite o necess\u00e1rio progresso das culturas que ficam isoladas da din\u00e2mica central do desenvolvimento. Embora evidentemente tamb\u00e9m existam muitas situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a social que, em \u00faltimo caso, t\u00eam a sua origem no pecado, \u00e9 preciso, contudo, reconhecer que, actualmente, as situa\u00e7\u00f5es de subdesenvolvimento social nem sempre prov\u00eam da m\u00e1 vontade dos outros estratos sociais, mas tamb\u00e9m da estrutura do pr\u00f3prio contexto social que exige a integra\u00e7\u00e3o como condi\u00e7\u00e3o de progresso.   41. \u00c9 igualmente caracter\u00edstica da sociedade contempor\u00e2nea a necessidade da educa\u00e7\u00e3o, da qualifica\u00e7\u00e3o profissional e da iniciativa e responsabilidade pessoais como condi\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis para alcan\u00e7ar uma qualidade de vida pelo menos digna. S\u00e3o valores apreciados e fomentados, especialmente pelos pais. Grande parte da popula\u00e7\u00e3o cigana transporta ainda, com efeito, uma heran\u00e7a \u00e0 qual falta este conhecimento, o que tamb\u00e9m \u00e9 consequ\u00eancia do isolamento. Ainda que, frequentemente, n\u00e3o se possa nem se deva culpabiliz\u00e1-los, \u00e9, apesar de tudo, necess\u00e1rio superar esta car\u00eancia, especialmente tendo em vista as gera\u00e7\u00f5es futuras.  Neste contexto, a igualdade de direitos entre homem e mulher, deve ser, decididamente, fomentada, eliminando-se toda a forma de discrimina\u00e7\u00e3o injusta. Tal n\u00e3o significa, por\u00e9m, perturbar a institui\u00e7\u00e3o familiar, como infelizmente acontece quando esta igualdade \u00e9 mal compreendida, n\u00e3o aceitando a diferen\u00e7a entre homem e mulher numa cultura da reciprocidade. Por\u00e9m, a igualdade exige o respeito pela dignidade da mulher, a eleva\u00e7\u00e3o da cultura feminina, a promo\u00e7\u00e3o social, etc.   42. O forte sentido de fam\u00edlia, t\u00e3o enraizado nos Ciganos, n\u00e3o pode, pois, permitir que as ofensas pessoais ou colectivas sofridas se tornem um ressentimento permanente transmitido de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, prolongando no tempo a inimizade entre fam\u00edlias e\/ou cl\u00e3s.  A honestidade e a rectid\u00e3o no \u00e2mbito laboral s\u00e3o, por outro lado, um valor civil e crist\u00e3o que nunca deve ser descuidado. As actividades que produzem \u201cdinheiro f\u00e1cil\u201d, \u00e0 margem ou directamente fora da legalidade, devem, por isso, ser abandonadas. \u00e9 necess\u00e1rio considerar o apreci\u00e1vel dano que isto provoca, quer \u00e0 popula\u00e7\u00e3o na qual os Ciganos se inserem quer a si pr\u00f3prios, dado que contribui para alimentar os preconceitos dos gaj\u00e9.   Interac\u00e7\u00e3o cultural  43. Todavia, a purifica\u00e7\u00e3o da cultura cigana n\u00e3o deveria significar o seu esvaziamento. Por\u00e9m, juntamente com o respeito e o apre\u00e7o pelos seus leg\u00edtimos valores, o processo da sua integra\u00e7\u00e3o no seio da cultura da sociedade circundante deve ser decididamente impulsionado, o que implicar\u00e1 uma atitude de acolhimento por parte desta \u00faltima. Tanto por motivos de caridade crist\u00e3 como por exig\u00eancias da vida civil, o desencontro ou oposi\u00e7\u00e3o entre as culturas cigana e dos gaj\u00e9 \u00e9, de facto, uma realidade que deve ser superada, o que exige uma grande mudan\u00e7a de mentalidade quer no \u00e2mbito eclesial quer no civil.   44. Por outro lado, neste processo desempenha um papel decisivo a educa\u00e7\u00e3o ministrada nas escolas dos gaj\u00e9. Efectivamente, os textos escolares comuns apresentam, com frequ\u00eancia, uma vis\u00e3o hist\u00f3rica e sociol\u00f3gica da popula\u00e7\u00e3o cigana herdeira de preconceitos transmitidos de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, continuando, assim, a alimentar a atitude geral de desconfian\u00e7a. Paralelamente, a informa\u00e7\u00e3o difundida atrav\u00e9s dos mass media s\u00f3 raramente leva ao conhecimento do grande p\u00fablico os valores positivos da cultura cigana, sendo bem mais frequente a difus\u00e3o de not\u00edcias negativas que contribuem para denegrir ainda mais a sua imagem. Pelo contr\u00e1rio, o zelo pelo respeito das minorias, cada vez mais generalizado nos nossos dias, deveria encontrar a sua realiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m nestes \u00e2mbitos, sem nenhum tipo de discrimina\u00e7\u00e3o. Neste caso, aquilo que \u00e9 v\u00e1lido para todas as minorias tamb\u00e9m se aplica \u00e0 minoria cigana. Assim, falta proceder a um grande trabalho de abertura e de informa\u00e7\u00e3o, para eliminar nos \u00e2nimos a desconfian\u00e7a, que \u00e9 sustentada por uma literatura acr\u00edtica e tristemente difundida na sociedade, que alimenta a atitude de rejei\u00e7\u00e3o.   <b>Cap\u00edtulo IV<\/b> Evangeliza\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o humana   Unidade da fam\u00edlia humana  45. Em Ad\u00e3o, Deus revela-se Criador, Pai de todos os homens e de todas as mulheres que formam uma s\u00f3 fam\u00edlia, toda a humanidade. Cada pessoa foi criada \u00e0 imagem de Deus (cf. Gn 1,27-28.), em solidariedade com os outros. Assim, a rela\u00e7\u00e3o de Deus com o homem, mesmo quando infelizmente n\u00e3o \u00e9 reconhecida, permanece vital, fundamento da dignidade da pessoa humana.  No dom da vida, Deus manifesta incessantemente o seu amor criador, assim como Cristo revela a toda a humanidade, com as suas palavras e ac\u00e7\u00f5es, com a sua paix\u00e3o e ressurrei\u00e7\u00e3o, a presen\u00e7a actual deste amor criador, que tamb\u00e9m \u00e9 redentor. Deste modo, a humanidade composta por filhos e filhas de Deus, irm\u00e3os e irm\u00e3s no Filho de Deus, \u00e9 chamada a viver em conjunto numa \u00fanica fam\u00edlia enriquecida pelos dons de cada um e pelas caracter\u00edsticas de cada povo. Todos s\u00e3o convidados a construir uma humanidade fraterna, chamada a testemunhar que o Reino de Deus j\u00e1 est\u00e1 presente na pessoa do Ressuscitado e na sua Igreja, seu in\u00edcio e semente (cf. LG 5).   Direitos humanos e civis dos Ciganos  46. A unidade da fam\u00edlia humana manifesta-se tamb\u00e9m no reconhecimento da dignidade e da liberdade de cada pessoa, qualquer que seja a sua etnia, o seu Pa\u00eds de origem e a sua religi\u00e3o, numa rela\u00e7\u00e3o de solidariedade com todos. Al\u00e9m disso, a pessoa \u00e9 infinitamente preciosa pois Cristo ofereceu a sua vida por cada um. Ele \u00e9 o primog\u00e9nito desta humanidade nova, infinitamente amada pelo Pai. Ap\u00f3s o triunfo da Ressurrei\u00e7\u00e3o, que sela a morte do \u00f3dio e de toda a morte, Ele difundiu o seu Esp\u00edrito Santo, Esp\u00edrito de verdade e de amor, Esp\u00edrito de liberdade e de paz, que nos reconcilia com o advers\u00e1rio, nos arranca da indiferen\u00e7a, tornando-nos pr\u00f3ximos de todos os membros da fam\u00edlia humana.   47. Cada pessoa, \u00fanica e insubstitu\u00edvel, \u00e9 assim chamada a realizar as suas pr\u00f3prias capacidades, a desenvolver-se no exerc\u00edcio dos seus direitos e deveres, a viver do seu trabalho, respeitando-se reciprocamente. Para que tal fa\u00e7a parte da vida quotidiana, qualquer decis\u00e3o pessoal ou colectiva deve partir da pessoa humana, nas suas rela\u00e7\u00f5es com os outros, tendo em conta as condi\u00e7\u00f5es de vida de car\u00e1cter pol\u00edtico e econ\u00f3mico. A prioridade do amor pelo outro, que Cristo proclamou e viveu, dever\u00e1 assim conduzir os crist\u00e3os ao amor incondicional por cada ser humano e a ocupar com Ele o lugar de servo. Foi desta forma que Ele combateu, sem viol\u00eancia, o desejo de poder que subjuga em particular os nossos irm\u00e3os mais vulner\u00e1veis at\u00e9 ao aniquilamento.   48. \u00c9, por isso, de grande import\u00e2ncia e urg\u00eancia o dever de trabalhar para que os Ciganos, particularmente vulner\u00e1veis, se considerem e sejam aceites como membros de pleno direito da fam\u00edlia humana. Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar a paz aut\u00eantica e duradoura, que deveria ser um reflexo da \u201cfam\u00edlia divina\u201d (a Sant\u00edssima Trindade), fora de um contexto de justi\u00e7a e desenvolvimento. Assim, no seio da popula\u00e7\u00e3o cigana, deve ser preservada a dignidade e respeitada a identidade colectiva, devendo ser encorajadas as iniciativas para o seu desenvolvimento[9] e para a defesa dos seus direitos.   Minoria particular entre as minorias  49. Para compreender adequadamente a hist\u00f3ria frequentemente dram\u00e1tica desta popula\u00e7\u00e3o, deve-se ter presente n\u00e3o apenas a sua situa\u00e7\u00e3o de minoria no seio da sociedade, mas tamb\u00e9m a sua especificidade relativamente \u00e0s outras minorias. Com efeito, a sua peculiaridade est\u00e1 no facto que os Ciganos constituem uma minoria sem uma radica\u00e7\u00e3o territorial precisa ou um Estado de refer\u00eancia original, e portanto, sem o seu eventual apoio. Esta aus\u00eancia de garantias pol\u00edticas e de protec\u00e7\u00e3o civil torna muito cr\u00edtica a vida dos Ciganos. Enquanto que a chegada de outras popula\u00e7\u00f5es em busca de ref\u00fagio e de seguran\u00e7a conseguiu, de facto, mobilizar um certo n\u00famero de pessoas, a chegada dos Ciganos provocou, pelo contr\u00e1rio, fen\u00f3menos generalizados de rejei\u00e7\u00e3o. Todavia, os fluxos dos seus refugiados demonstram inequivocamente que tamb\u00e9m eles s\u00e3o origin\u00e1rios de Pa\u00edses pobres, onde, al\u00e9m disso, a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 frequentemente acompanhada por viol\u00eancia. Assim, esta situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 poder\u00e1 ser gerida se os Governos definirem, em conjunto, uma pol\u00edtica comum, global e partilhada, de modo a arrancar os Ciganos \u00e0 mis\u00e9ria e \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o.   50. Tudo isto torna particularmente necess\u00e1rio o interesse dos Organismos internacionais por esta popula\u00e7\u00e3o. Do mesmo modo, os Governos nacionais devem respeitar esta minoria entre as minorias e reconhec\u00ea-la, contribuindo para erradicar os epis\u00f3dios de racismo e xenofobia ainda disseminados, que d\u00e3o origem a discrimina\u00e7\u00f5es em mat\u00e9ria de emprego, de habita\u00e7\u00e3o e de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o.  Tamb\u00e9m a Igreja, atrav\u00e9s do Conselho Pontif\u00edcio da Pastoral para os Migrantes e Itinerantes, por meio dos Representantes e dos Observadores da Santa S\u00e9 junto dos Organismos internacionais, e das Autoridades eclesi\u00e1sticas das v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es, \u00e9 chamada a intervir a fim de que as decis\u00f5es dos Organismos nacionais e internacionais a favor dos Ciganos sejam acolhidas pelas inst\u00e2ncias locais e se repercutam na vida quotidiana.   Condi\u00e7\u00f5es de desenvolvimento integral  51. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o fundamental e imprescind\u00edvel para o desenvolvimento. Neste respeito, enquanto, no passado, os h\u00e1bitos itinerantes dos Ciganos tornavam bastante dif\u00edcil a educa\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica das jovens gera\u00e7\u00f5es, actualmente os obst\u00e1culos a superar residem antes no tipo de ensino ministrado. a sua integra\u00e7\u00e3o \u2013 quando poss\u00edvel \u2013 no percurso educativo normal contribuir\u00e1 para superar eventuais car\u00eancias. Enfim, quando a semi-sedentariza\u00e7\u00e3o ou itiner\u00e2ncia tornam imposs\u00edvel a educa\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica normal, ser\u00e1 ent\u00e3o necess\u00e1rio um esfor\u00e7o conjunto dos Governos, das associa\u00e7\u00f5es ciganas, e tamb\u00e9m da Igreja, para levar \u00e0 pr\u00e1tica de qualquer outro modo a forma\u00e7\u00e3o dos jovens ciganos.   52. Da mesma forma, \u00e9 necess\u00e1rio pensar em todos os outros factores de desenvolvimento dos quais tamb\u00e9m estas popula\u00e7\u00f5es deveriam usufruir, ou seja, a forma\u00e7\u00e3o profissional dos jovens, o acesso aos servi\u00e7os sanit\u00e1rios, condi\u00e7\u00f5es condignas de habita\u00e7\u00e3o, previd\u00eancia social, etc. Todavia, se n\u00e3o se tiver em conta a hist\u00f3ria dos Ciganos, a ac\u00e7\u00e3o social tender\u00e1 a orientar-se a partir da no\u00e7\u00e3o de um desvio social a superar. No fundo, eles ser\u00e3o facilmente considerados associais que devem ser reconduzidos o mais rapidamente poss\u00edvel ao curso da sociedade maiorit\u00e1ria. Deste modo, negar-se-ia a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e0 qual os Ciganos foram submetidos durante s\u00e9culos e seria menor o reconhecimento da especificidade da sua cultura.  Pelo contr\u00e1rio, deve-se focar o respeito por toda e qualquer pessoa humana, tamb\u00e9m na sua dimens\u00e3o colectiva, sobretudo se as condi\u00e7\u00f5es de vida a fragilizaram. Da\u00ed derivam alguns crit\u00e9rios que devem ser considerados aquando da avalia\u00e7\u00e3o dos projectos de desenvolvimento das comunidades ciganas. Ou seja, se os Ciganos forem sistematicamente relegados para a categoria de assistidos, existe o risco, logo \u00e0 partida, de que este objectivo n\u00e3o seja atingido. \u00c9 certo que as circunst\u00e2ncias podem frequentemente exigir um assistencialismo adequado, mas uma promo\u00e7\u00e3o aut\u00eantica deve ir muito al\u00e9m, a fim de que os Ciganos se tornem verdadeiramente respons\u00e1veis pelos recursos necess\u00e1rios ao seu desenvolvimento.   53. Al\u00e9m disso, a prepara\u00e7\u00e3o das vias de desenvolvimento exige uma compreens\u00e3o adequada das no\u00e7\u00f5es distintas de integra\u00e7\u00e3o e de assimila\u00e7\u00e3o. De facto, a primeira deve, decididamente, ser encorajada, tendo como objectivo a plena inser\u00e7\u00e3o da vida e das tradi\u00e7\u00f5es ciganas no conjunto das outras culturas, mas respeitando a pr\u00f3pria. Pelo contr\u00e1rio, devem ser totalmente rejeitadas as tentativas de assimila\u00e7\u00e3o, ou seja, as que conduzem ao aniquilamento da cultura cigana, dissolvendo-a na da maioria. O Cigano integrado na sociedade dos gaj\u00e9 dever\u00e1 continuar a ser ele mesmo, isto \u00e9, preservando a identidade pr\u00f3pria.  Por outro lado, \u00e9 necess\u00e1rio um conhecimento da situa\u00e7\u00e3o das comunidades a partir do seu interior. Com demasiada frequ\u00eancia, os Poderes p\u00fablicos, submetidos \u00e0 press\u00e3o de acontecimentos desumanos, que acabam por perturbar a opini\u00e3o p\u00fablica, ou \u00e0 ac\u00e7\u00e3o das associa\u00e7\u00f5es ciganas e de pessoas que denunciam as condi\u00e7\u00f5es de vida sub-humanas destas fam\u00edlias, correm o risco de tomar decis\u00f5es precipitadas relativamente \u00e0s medidas a tomar. Em vez disso, \u00e9 necess\u00e1rio trabalhar de forma s\u00e9ria, de comum acordo com os interessados, sem ignorar o modo de vida, as tradi\u00e7\u00f5es e a especificidade do trabalho dos Ciganos.   54. Neste contexto, o associativismo cigano ganha import\u00e2ncia como um interlocutor \u00fatil com vista a delinear as vias de desenvolvimento. Para tal, este associativismo deve adquirir compet\u00eancia e seriedade nas suas iniciativas, de modo a representar toda a sua popula\u00e7\u00e3o e a ser consultado pelos Poderes p\u00fablicos na elabora\u00e7\u00e3o de projectos de grande alcance, com o objectivo de melhorar a habita\u00e7\u00e3o, as \u00e1reas de estacionamento, a escolariza\u00e7\u00e3o, as condi\u00e7\u00f5es de vida dos sedent\u00e1rios, dos semi-sedent\u00e1rios ou daqueles que viajam.   Perspectiva crist\u00e3 da promo\u00e7\u00e3o  55. Mesmo que o lan\u00e7amento de projectos concretos de promo\u00e7\u00e3o humana compita primordialmente ao Estado, poder\u00e1 ser conveniente e tamb\u00e9m necess\u00e1rio que institui\u00e7\u00f5es da Igreja sejam envolvidas em iniciativas concretas neste \u00e2mbito, tornando poss\u00edvel que os pr\u00f3prios Ciganos sejam protagonistas. Contudo, compete, mais propriamente, \u00e0 miss\u00e3o fundamental da Igreja chamar a aten\u00e7\u00e3o das inst\u00e2ncias p\u00fablicas para as dificuldades desta popula\u00e7\u00e3o.   56. No entanto, \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o esquecer que \u00abo desenvolvimento de um povo n\u00e3o depende primeiramente nem do dinheiro, nem das ajudas materiais, nem das estruturas t\u00e9cnicas, mas da forma\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias, da maturidade das mentalidades e dos costumes. O homem \u00e9 o protagonista do desenvolvimento, n\u00e3o o dinheiro ou a t\u00e9cnica\u00bb (RM 58).   <b>Cap\u00edtulo V<\/b> Aspectos particulares da pastoral para os Ciganos   57. A evangeliza\u00e7\u00e3o dos Ciganos \u00e9 miss\u00e3o de toda a Igreja, dado que nenhum crist\u00e3o deveria ficar indiferente perante situa\u00e7\u00f5es de marginaliza\u00e7\u00e3o ou de distanciamento da comunh\u00e3o eclesial. Apesar de a pastoral para os Ciganos ter uma especificidade pr\u00f3pria e exigir aos seus protagonistas directos uma forma\u00e7\u00e3o cuidada e espec\u00edfica, uma atitude de acolhimento deve, assim, manifestar-se em toda a comunidade cat\u00f3lica. \u00c9 assim necess\u00e1rio sensibilizar principalmente todo o Povo de Deus n\u00e3o apenas no sentido de superar a hostilidade, a rejei\u00e7\u00e3o ou a indiferen\u00e7a, mas tamb\u00e9m para alcan\u00e7ar um comportamento abertamente positivo no relacionamento com os nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s Ciganos.   Aspectos espec\u00edficos desta pastoral  58. Para delinear convenientemente a pastoral para os Ciganos, a dimens\u00e3o antropol\u00f3gica tem uma grande relev\u00e2ncia, at\u00e9 porque eles est\u00e3o especialmente abertos ao impacto \u201csens\u00edvel\u201d de um acontecimento, sobretudo quando ele diz respeito ao ambiente familiar. A sua rela\u00e7\u00e3o com a hist\u00f3ria \u00e9 sempre profundamente emotiva. Com efeito, os seus pontos de refer\u00eancia no espa\u00e7o e no tempo n\u00e3o s\u00e3o fixados pela geografia ou pelas datas do calend\u00e1rio, mas, antes, pela densidade afectiva de um encontro, de um trabalho, de um incidente, de uma festa. As suas reac\u00e7\u00f5es s\u00e3o sobretudo imediatas, guiadas por um crit\u00e9rio mais intuitivo do que por um pensamento te\u00f3rico. Tudo isto torna indispens\u00e1vel uma grande capacidade de discernimento, de iniciativa e de criatividade no modo de delinear a ac\u00e7\u00e3o pastoral.   Abordagem e modos de comunica\u00e7\u00e3o  59. No contexto da mentalidade dos Ciganos, a ac\u00e7\u00e3o pastoral ser\u00e1 mais incisiva se se desenvolver no seio de pequenos grupos. Nesse ambiente, \u00e9 mais f\u00e1cil a personaliza\u00e7\u00e3o e a partilha da experi\u00eancia de f\u00e9, enquanto se participa nos mesmos acontecimentos, iluminando-os com a luz do Evangelho e se transmitem as experi\u00eancias \u00fanicas do encontro com o Senhor. Em tais grupos, os Ciganos encontram-se consigo pr\u00f3prios e com a sua cultura e \u00e9 apreciado o seu \u201cprotagonismo\u201d e a sua responsabilidade de leigos. Pelo contr\u00e1rio, o anonimato despersonalizado retira \u00e0 pastoral uma grande parte das suas potencialidades.  60. A Palavra de Deus anunciada aos Ciganos nos v\u00e1rios \u00e2mbitos da ac\u00e7\u00e3o pastoral ser\u00e1 acolhida com maior facilidade se for proclamada por algu\u00e9m que, em concreto, se tenha mostrado solid\u00e1rio para com eles no decurso dos acontecimentos da vida. Al\u00e9m disso, no \u00e2mbito concreto da catequese, \u00e9 importante incluir sempre um di\u00e1logo que permita aos Ciganos exprimir como interpretam e vivem o pr\u00f3prio relacionamento com Deus. Frequentemente, as situa\u00e7\u00f5es vividas dizem mais do que as ideias redundantes nas quais correm o risco de se perder.   61. Al\u00e9m disso, deve-se ter em considera\u00e7\u00e3o a oportunidade de realizar tradu\u00e7\u00f5es de textos lit\u00fargicos, da B\u00edblia, de livros de ora\u00e7\u00f5es, para a l\u00edngua utilizada pelos v\u00e1rios cl\u00e3s nas diversas regi\u00f5es. Do mesmo modo, o recurso \u00e0 m\u00fasica \u2013 muito apreciada e praticada pelos Ciganos \u2013 nos encontros pastorais e nas celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas \u00e9 um suporte muito v\u00e1lido, que conv\u00e9m promover e desenvolver. Enfim, dado que a mem\u00f3ria visual dos Ciganos \u00e9 extraordinariamente desenvolvida, os apoios did\u00e1cticos em suporte de papel e v\u00eddeo, com fotos significativas e com toda a variedade oferecida pelas novas tecnologias, se forem bem adaptadas \u00e0 mentalidade cigana, podem oferecer uma ajuda preciosa, ou at\u00e9 mesmo indispens\u00e1vel.   Pastoral sacramental  62. O pedido dos sacramentos por parte das fam\u00edlias situa-se num contexto que diz respeito ao relacionamento rec\u00edproco entre a Igreja e os Ciganos. Eles procuram preferencialmente o Ra\u0161aj (sacerdote) ou a equipa paroquial que soube mostrar-se acolhedora e aberta aos seus problemas, sem d\u00favida porque, junto dos seus membros, eles partilharam tamb\u00e9m momentos dolorosos ou perigosos da sua vida. Antes de dar uma resposta precipitada, \u00e9 necess\u00e1rio discernir a qualidade da rela\u00e7\u00e3o existente entre a fam\u00edlia cigana e a comunidade crist\u00e3 local. Esta avalia\u00e7\u00e3o determina a autenticidade do pedido, e dever\u00e1 incidir sobre a prepara\u00e7\u00e3o para o sacramento e o seu desenvolvimento.   63. Em geral, o baptismo \u00e9 o sacramento mais solicitado. Por\u00e9m, deve-se assegurar o acompanhamento espiritual da fam\u00edlia e do baptizado, de modo a completar todo o ciclo da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3. A resposta dada a partir do primeiro pedido de baptismo ser\u00e1, assim, determinante e repercutir-se-\u00e1 sobre o futuro, sobre toda uma vida.  Deste modo, o di\u00e1logo preparat\u00f3rio para a celebra\u00e7\u00e3o do baptismo dever\u00e1 partir da exist\u00eancia cigana quotidiana, de outra forma, correr-se-\u00e1 o risco de utilizar uma linguagem religiosa paralela \u00e0 sua vida, \u00e0 qual aderir\u00e3o apenas exteriormente. Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1ria uma escolha cuidadosa do padrinho e da madrinha, um papel que implica a aceita\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o privilegiada e continuada com a fam\u00edlia. Por este motivo, a sua presen\u00e7a na prepara\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante, embora nem sempre seja facilmente assegurada.   64. Devem, assim, ser evitados quer os baptismos sem adequada prepara\u00e7\u00e3o quer a imposi\u00e7\u00e3o das exig\u00eancias que valem para os gaj\u00e9, como se os Ciganos fossem membros \u201chabituais\u201d da comunidade local. Se o celebrante n\u00e3o tiver uma forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para uma catequese adaptada aos Ciganos, \u00e9 conveniente que se aconselhe com o Capel\u00e3o dos Ciganos mais pr\u00f3ximo. Durante a celebra\u00e7\u00e3o \u00e9 importante cuidar-se a linguagem, de modo a poder alimentar e desenvolver a f\u00e9 dos pais, dos padrinhos, das madrinhas e de toda a fam\u00edlia presente. Nem todas as palavras utilizadas por um gaj\u00f3 s\u00e3o, de facto, compreens\u00edveis para um Cigano. De facto, as imagens utilizadas n\u00e3o t\u00eam o mesmo impacto numa vis\u00e3o do mundo diferente.  Por outro lado, o baptismo deveria ser celebrado na presen\u00e7a dos membros de todo o Povo de Deus. Como no caso dos outros cat\u00f3licos, a fam\u00edlia cigana, na sua diversidade, ser\u00e1 associada \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o e \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o. Pode-se chegar, assim, a uma experi\u00eancia de catolicidade capaz de iniciar uma nova rela\u00e7\u00e3o entre Ciganos e gaj\u00e9, principalmente se as rela\u00e7\u00f5es estabelecidas por ocasi\u00e3o da prepara\u00e7\u00e3o forem mantidas, posteriormente, partilhando a sua vida.   65. \u00c9 importante, sobretudo para os jovens, que surja uma pastoral da confirma\u00e7\u00e3o, sacramento que \u00e9 praticamente desconhecido pelas comunidades ciganas. A prepara\u00e7\u00e3o para este sacramento permite recuperar, com base no modelo catecumenal, as anteriores car\u00eancias da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3, educando para uma ades\u00e3o livre e consciente \u00e0 Igreja. A confirma\u00e7\u00e3o, enquanto introduz o baptizado na plena participa\u00e7\u00e3o na vida do Esp\u00edrito, na experi\u00eancia de Deus e no testemunho da f\u00e9, revela-lhe tamb\u00e9m o significado da sua incorpora\u00e7\u00e3o eclesial e da sua responsabilidade mission\u00e1ria. Parece tamb\u00e9m importante destacar o outro \u201csujeito\u201d do sacramento, que \u00e9 a comunidade, a qual deve ser inclu\u00edda na catequese de forma inter-generacional, para que por ocasi\u00e3o da celebra\u00e7\u00e3o dos \u201cseus crismados\u201d, ela pr\u00f3pria possa viver a gra\u00e7a de um novo Pentecostes, sendo confirmada pelo sopro do Esp\u00edrito, na sua voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e na sua miss\u00e3o evangelizadora.   66. A eucaristia \u00e9 fonte e v\u00e9rtice da comunh\u00e3o em Cristo e com a Igreja, memorial da morte e ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor, por\u00e9m um sacramento ainda n\u00e3o aceite no seu pleno significado pelos Ciganos. No entanto, ele tem uma equival\u00eancia importante na tradi\u00e7\u00e3o de alguns grupos acerca dos banquetes sagrados, habitualmente celebrados em honra do Santo protector da fam\u00edlia ou pela paz dos defuntos. Ali se louva a Deus pelas gra\u00e7as recebidas e se partilham os alimentos, em primeiro lugar o p\u00e3o e o vinho, que frequentemente s\u00e3o aben\u00e7oados pelo pai da fam\u00edlia anfitri\u00e3. Esta experi\u00eancia de comunh\u00e3o em conv\u00edvio, durante a qual os Ciganos afirmam a perten\u00e7a \u00e0 pr\u00f3pria comunidade, pode ser permeada por uma cont\u00ednua refer\u00eancia a Deus enquanto fonte dos bens que d\u00e3o sentido e valor \u00e0 vida, neste caso torna-se ponto de partida para uma progressiva introdu\u00e7\u00e3o na comunidade crist\u00e3 reunida em ora\u00e7\u00e3o. Tal sucede sobretudo na liturgia eucar\u00edstica, onde o sacramento poder\u00e1 ser revelado e celebrado como uma partilha do mesmo p\u00e3o da vida, \u00e0 mesa do Pai, no encontro com o mist\u00e9rio pascal, celebrado na eucaristia enquanto memorial de Cristo que se deu por n\u00f3s. Retribu\u00edmo-lhe oferecendo-nos n\u00f3s pr\u00f3prios a Deus e ao pr\u00f3ximo, na caridade.   67. O sacramento da penit\u00eancia ou reconcilia\u00e7\u00e3o, embora abandonado na forma sacramental, encontra uma refer\u00eancia precisa quer no h\u00e1bito dos Ciganos de pedir continuamente e tamb\u00e9m publicamente perd\u00e3o a Deus pelas pr\u00f3prias faltas, quer na concep\u00e7\u00e3o e no comportamento com o qual a tradi\u00e7\u00e3o regula a reconcilia\u00e7\u00e3o, quando readmite um membro na comunidade, onde tinha sido declarado \u201cimpuro\u201d e banido por infrac\u00e7\u00f5es graves ao c\u00f3digo \u00e9tico. Assim, o sacramento torna-se um sinal vis\u00edvel de um processo de convers\u00e3o, no qual, por um lado, \u00e9 o pr\u00f3prio Jesus que, mediante o minist\u00e9rio da Igreja, d\u00e1 o perd\u00e3o misericordioso do Pai, insepar\u00e1vel da reconcilia\u00e7\u00e3o com os irm\u00e3os, e por outro lado, \u00e9 a resposta humana sustentada pela gra\u00e7a do Esp\u00edrito, que se abre \u00e0 consci\u00eancia moral recta na ades\u00e3o radical a Deus.   68. No que se refere ao matrim\u00f3nio, deve-se ter em conta que este est\u00e1 inscrito na cultura e tradi\u00e7\u00e3o cigana com um vasto leque de rituais, dependendo do grupo a que pertencem, mas com igual car\u00e1cter. Os dois contraentes assumem, assim, todos os direitos e deveres conjugais perante a comunidade, que consagra a validade da uni\u00e3o, enquanto status permanente onde os valores \u00e9ticos e naturais \u2013 liberdade, fidelidade, insolubilidade e fecundidade \u2013 s\u00e3o fundamentalmente defendidos. A uni\u00e3o matrimonial \u00e9 aqui entendida como sendo inteiramente diferente de uma simples uni\u00e3o sexual e apresenta-se assim como um acontecimento extraordin\u00e1rio, que se aproxima da vis\u00e3o cat\u00f3lica do matrim\u00f3nio, podendo, desse modo, ser entendido pelos baptizados, como uma base significativa do futuro sacramento, cuja \u201cforma\u201d \u00e9 solicitada pela Igreja. A fam\u00edlia, cora\u00e7\u00e3o e fundamento da cultura e da estrutura social dos Ciganos, assim renovada sacramentalmente, torna-se terreno fecundo para a forma\u00e7\u00e3o de pequenas comunidades crist\u00e3s, na perspectiva da gradual e plena participa\u00e7\u00e3o na vida da Igreja atrav\u00e9s dos v\u00e1rios carismas e minist\u00e9rios.   69. A un\u00e7\u00e3o dos doentes \u00e9 um sacramento que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 praticado mas tamb\u00e9m \u00e9 desconhecido enquanto sinal sacramental de Cristo e ora\u00e7\u00e3o de toda a Igreja pelo doente. A recusa do sacramento deve-se \u00e0 falsa convic\u00e7\u00e3o de que ele esteja ligado \u00e0 morte. Da\u00ed a necessidade de uma evangeliza\u00e7\u00e3o do sofrimento, segundo a qual o enfermo, unido a Cristo, que carregou os sofrimentos da humanidade (cf. Mt 8,17), vive a experi\u00eancia da sua enfermidade como abandono confiante a Deus Pai e como abertura generosa \u00e0 solidariedade com os outros pacientes, dispondo-se assim a acolher o dom da cura, que Deus pode operar nas profundezas da alma, irradiando os seus efeitos sobre o corpo. O sacramento pode encontrar um ponto de partida eficaz na grande solicitude pelos doentes, e em particular pelos moribundos, que s\u00e3o levados do hospital para \u201ccasa\u201d para que <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conselho Pontif\u00edcio da Pastoral para os Migrantes e os Itinerantes<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[295,127,144,154,168,189,193,203,206,221,237,246,268,279,285,291,294,297,314],"class_list":["post-16689","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-biblia","tag-catequese","tag-concilio-vaticano-ii","tag-crianca","tag-diocese-da-guarda","tag-direitos-humanos","tag-educacao","tag-europa","tag-familia","tag-historia-da-igreja","tag-joao-paulo-ii","tag-liturgia","tag-nova-evangelizacao","tag-pastoral-dos-ciganos","tag-patrimonio","tag-refugiados","tag-sacramentos","tag-santa-se","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16689","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16689"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16689\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16689"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16689"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16689"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}