{"id":16687,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/desertos-realidade-e-simbolo\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"desertos-realidade-e-simbolo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/desertos-realidade-e-simbolo\/","title":{"rendered":"Desertos, realidade e s\u00edmbolo"},"content":{"rendered":"<p>Todos teremos visto imagens do Rally Lisboa-Dacar avan\u00e7ando pelos desertos de Marrocos e da Maurit\u00e2nia, e depois atravessando \u00e1reas desertificadas do Mali, da Guin\u00e9 e do Senegal. Antes da partida de Lisboa, v\u00e1rios dos seus respons\u00e1veis e participantes plantaram algumas \u00e1rvores na Tapada de Mafra num gesto simb\u00f3lico. Porque 2006 foi declarado pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas como Ano Internacional dos Desertos e Desertifica\u00e7\u00e3o. \u00abA desertifica\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das formas mais alarmantes de degrada\u00e7\u00e3o do ambiente. Amea\u00e7a a sa\u00fade e os meios de subsist\u00eancia de mais de um bili\u00e3o de pessoas. E estima-se que, todos os anos, a desertifica\u00e7\u00e3o e a seca causem a perda de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola da ordem dos 42 bili\u00f5es de d\u00f3lares.\u00bb Esta afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 de Kofi Annan, secret\u00e1rio-geral da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), que por isso adoptaram o tema deste Ano Internacional para atacar com urg\u00eancia t\u00e3o vastas e devastadoras ramifica\u00e7\u00f5es do problema. O objectivo da ONU \u00e9 sensibilizar o p\u00fablico para o avan\u00e7o dos desertos, as maneiras de salvaguardar a diversidade biol\u00f3gica das terras \u00e1ridas que cobrem um ter\u00e7o do planeta e a protec\u00e7\u00e3o dos conhecimentos e das tradi\u00e7\u00f5es dos 2 mil milh\u00f5es de seres humanos afectados.  O DESERTO NO \u201cADN\u201d DO POVO B\u00cdBLICO A Palestina est\u00e1 rodeada pelo deserto a Este e a Sul. E algumas zonas semi-\u00e1ridas e desabitadas do seu interior tamb\u00e9m s\u00e3o consideradas \u201cdeserto\u201d pela B\u00edblia. Ao sul destaca-se especialmente o deserto de Jud\u00e1, que em declive desce do maci\u00e7o central at\u00e9 ao Mar Morto e ao rio Jord\u00e3o. Por outro lado, o tema do deserto \u2013 na sua realidade e no seu simbolismo \u2013 percorre toda a B\u00edblia, do primeiro ao \u00faltimo livro. Poder\u00edamos dizer, at\u00e9, que se inscreve no ADN do povo b\u00edblico, integrando a sua matriz social e religiosa.  Os descendentes de Jacob ou Israel, \u00abum arameu errante que desceu ao Egipto\u00bb (Dt 26,5), quando voltaram para a \u201cterra prometida\u201d tiveram de caminhar durante quarenta anos pelo deserto. O Deuteron\u00f3mio descreve assim a interven\u00e7\u00e3o de Deus em favor do seu povo, naqueles dias: \u00abFoi Ele quem te conduziu atrav\u00e9s desse deserto grande e tem\u00edvel, de serpentes venenosas e escorpi\u00f5es, lugar \u00e1rido, onde n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua. Foi Ele quem fez jorrar, para ti, \u00e1gua do rochedo duro. Foi Ele quem te alimentou neste deserto com um man\u00e1 desconhecido dos teus pais, para te humilhar, para te p\u00f4r \u00e0 prova e, no futuro, te tornar feliz\u00bb (Dt 8,15-16). Ali foram dizimados pela fome, a sede e a mordedura das serpentes venenosas: nenhum dos que tinha mais de 20 anos \u00e0 sa\u00edda do Egipto chegou vivo ao seu destino. Mas foi ent\u00e3o que as doze tribos de Israel se uniram num s\u00f3 povo, fizeram uma alian\u00e7a com o Deus \u00danico e desse modo se constitu\u00edram como \u201cpovo eleito\u201d (\u00caxodo 19), organizando-se para O servir e revelar aos outros povos. Finalmente, foram instalados numa terra onde corria leite e mel. A marca desta experi\u00eancia v\u00ea-se logo no segundo relato da cria\u00e7\u00e3o (G\u00e9nesis 2), cronol\u00f3gica e culturalmente anterior ao primeiro. O cen\u00e1rio inicial \u00e9 de deserto (vv. 5-6); o Deus Criador \u00e9 o Deus a quem Israel chamara Jav\u00e9, \u201co Senhor\u201d porque o libertara do Egipto (Ex 15,3); o homem \u00e9 feito do p\u00f3 da terra como se faz um boneco de barro, tal como Israel tinha sido \u201cfeito enquanto Povo\u201d no deserto poeirento (v.7; o nome de Ad\u00e3o, \u201cAdam\u201d, \u00e9 descritivo: quer dizer \u201co que \u00e9 feito de terra\u201d); o homem \u00e9 colocado a viver no jardim verdejante do \u00c9den, um o\u00e1sis ideal para quem sofrera a secura do deserto (vv.8-15).  Mais tarde, Israel viu-se obrigado a fazer alian\u00e7as de defesa com outros povos, sofrendo influ\u00eancias religiosas deles; por outro lado, sentiu atrac\u00e7\u00e3o pelos cultos de Baal, uma divindade cananeia a quem come\u00e7ou a atribuir a fertilidade do solo, as chuvas e as colheitas. O profeta Oseias chama \u201cprostitui\u00e7\u00e3o\u201d a essa infidelidade. Refere-se ao deserto como o tempo da juventude de Israel e o lugar onde ele se tornou \u201cEsposa\u201d do Deus \u00danico, pela Alian\u00e7a. E em nome do seu \u201cMarido\u201d, primeiro amea\u00e7a com a desertifica\u00e7\u00e3o a terra que Ele lhe dera: vai tirar-lhe o trigo, o vinho e o azeite, a l\u00e3 e o linho; as suas vinhas e figueiras ser\u00e3o transformadas num matagal e devoradas pelos animais selvagens (vv.10-14). Depois, promete reconduzi-lo espiritualmente ao deserto, como forma de renovar a sua fidelidade ao Deus da Alian\u00e7a:  \u00ab\u00c9 assim que a vou seduzir: ao deserto a reconduzirei, para lhe falar ao cora\u00e7\u00e3o. Aquele dia \u2013 or\u00e1culo do Senhor \u2013  ela me chamar\u00e1 \u201cMeu Marido\u201d e nunca mais: \u201cMeu Bal\u201d. Ent\u00e3o, te desposarei para sempre; desposar-te-ei conforme a justi\u00e7a e o direito, com amor e miseric\u00f3rdia. Desposar-te-ei com fidelidade, e tu conhecer\u00e1s o Senhor.\u00bb (Os 2,16-18.21-22) E o sinal desses tempos novos, \u00e9 que a sua terra desertificada voltar\u00e1 a ser f\u00e9rtil, produzindo o trigo, o vinho e o azeite (v.24). Mas Israel, geograficamente pequeno e em permanentes lutas internas, ap\u00f3s a morte de Salom\u00e3o partiu-se em Norte e Sul, ou nos reinos de Israel e de Jud\u00e1, respectivamente. Vulner\u00e1veis face aos imp\u00e9rios da regi\u00e3o, e ap\u00f3s v\u00e1rias tentativas de alian\u00e7a pol\u00edtico-militares, ambos sofreram a invas\u00e3o e o ex\u00edlio, vindo a desintegrar-se. Entretanto, o Segundo Isa\u00edas \u2013 um profeta que acompanhara o povo de Jud\u00e1 no ex\u00edlio da Babil\u00f3nia \u2013 anuncia poeticamente o seu regresso (que teria lugar em 538), utilizando a met\u00e1fora do deserto que se transforma em jardim: \u00abN\u00e3o vos lembreis dos acontecimentos de outrora, n\u00e3o penseis mais no passado, pois vou realizar algo de novo, que j\u00e1 est\u00e1 a aparecer: n\u00e3o o notais? Vou abrir um caminho no deserto, e fazer correr rios na estepe. Glorificar-me-\u00e3o os animais selvagens, os chacais e as avestruzes, porque hei-de fazer brotar \u00e1gua no deserto e rios na terra \u00e1rida, para dar de beber ao meu povo, o meu eleito, o povo que Eu formei para mim, e assim h\u00e3o-de proclamar os meus louvores.\u00bb (Is 43,18-21)  A VOZ E A PALAVRA QUE V\u00caM DO DESERTO O mesmo Segundo Isa\u00edas (Is 40-55) inicia de forma prof\u00e9tica, anunciando um novo \u00caxodo por ac\u00e7\u00e3o do mesmo Deus que libertara Israel do Egipto: \u00abConsolai, consolai o meu povo, \u00e9 o vosso Deus quem o diz. Falai ao cora\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m e gritai-lhe: \u201cTerminou a vossa servid\u00e3o, est\u00e3o perdoados os vossos crimes, pois j\u00e1 recebeu da m\u00e3o do Senhor o dobro do castigo por todos os pecados.\u201d  Uma voz grita: \u201cPreparai no deserto o caminho do Senhor, aplanai na estepe uma estrada para o nosso Deus. Todo o vale seja levantado, e todas as colinas e montanhas sejam abaixadas, todos os cumes sejam aplanados, e todos os terrenos escarpados sejam nivelados!\u201d\u00bb(Is 40,1-4) Os Evangelhos Sin\u00f3pticos aplicam estas palavras a Jo\u00e3o Baptista, o precursor de Jesus. Marcos, que criou o g\u00e9nero liter\u00e1rio \u201cevangelho\u201d, abre o seu livro adaptando as palavras de Ex 23,20 \u00e0 sua inten\u00e7\u00e3o catequ\u00e9tica.  Diz o \u00caxodo:  \u00abEis que Eu envio um anjo diante de ti, para te guardar no caminho e para te fazer entrar no lugar que Eu preparei.\u00bb  Diz o Evangelho de Marcos:  \u00abPrinc\u00edpio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Conforme est\u00e1 escrito:  \u201cEis que envio \u00e0 tua frente o meu mensageiro,  a fim de preparar o teu caminho. Uma voz clama no deserto: \u2018Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas\u2019.\u201d Jo\u00e3o Baptista apareceu no deserto a pregar um baptismo de arrependimento para a remiss\u00e3o dos pecados\u00bb (Mc 1,1-4; Ev. do II Domingo do Advento passado). Conhecemos a sequ\u00eancia do texto: Jesus foi baptizado por Jo\u00e3o Baptista, no rio Jord\u00e3o. \u00abEm seguida, o Esp\u00edrito impeliu-o para o deserto. E ficou no deserto quarenta dias. Era tentado por Satan\u00e1s estava entre as feras e os anjos serviam-no\u00bb (Mc 1,9.12-13; Ev. do pr\u00f3ximo I Domingo da Quaresma). E da\u00ed, novamente impelido pelo Esp\u00edrito, voltou para a Galileia onde proclamou o seu programa prof\u00e9tico e iniciou a sua prega\u00e7\u00e3o (Lc 4,14-27). Jo\u00e3o Baptista \u00e9 o profeta que faz a passagem do Primeiro ao Novo Testamento; Jesus, \u201cO Profeta\u201d por excel\u00eancia. Ambos v\u00eam do deserto para continuar, com o novo povo de Deus, a passagem definitiva do jardim do \u00c9den para o jardim do novo c\u00e9u e da nova terra prometida, onde n\u00e3o faltar\u00e1 outro rio e uma nova \u00c1rvore da Vida (Apocalipse 22,1-2).  Os caminhos continuam a ser de convers\u00e3o e penit\u00eancia. A M\u00e3e-Igreja nascente vai ter de enfrentar o Drag\u00e3o das persegui\u00e7\u00f5es para salvar o filho rec\u00e9m-nascido, como Israel enfrentou o Fara\u00f3 do Egipto; e para isso, ter\u00e1 de fugir simbolicamente de novo para o deserto, onde n\u00e3o lhe h\u00e1-de faltar o alimento de Deus (Ap 12,1-6). A isso nos vai chamar, novamente, a Quaresma, que este ano tem in\u00edcio a 1 de Mar\u00e7o.  DESERTO, QUARESMA, P\u00c1SCOA As duras condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas do deserto, a inospitalidade e os perigos que o rodeiam, sup\u00f5em grande despojamento e confian\u00e7a em Deus; as car\u00eancias que nele se encontram, exigem solidariedade e entreajuda para sobreviver. Da\u00ed nasceram as linhas espirituais que marcam o tempo lit\u00fargico da Quaresma, no qual evocamos os quarenta anos de Israel e os quarenta dias de Jesus no deserto: o sil\u00eancio e a ora\u00e7\u00e3o; a penit\u00eancia e a convers\u00e3o; a sobriedade de vida e a ren\u00fancia, para a solidariedade e a partilha.  Por outro lado, nos documentos oficiais ou na linguagem corrente, a Igreja define-se como \u00abo novo Israel do tempo actual, que caminha em busca da cidade futura e permanente\u00bb (Lumen Gentium, 9); \u00abIgreja peregrina\u00bb, em \u00abpassagem por esta vida terrena\u00bb na qual \u00abvivemos no ex\u00edlio\u00bb (idem, 48). Considera este mundo como \u201clugar de peregrina\u00e7\u00e3o\u201d; e o nosso corpo, como \u201ctenda\u201d onde a alma se hospeda at\u00e9 receber \u201cuma habita\u00e7\u00e3o eterna no c\u00e9u\u201d (Pref\u00e1cio de Defuntos). A realidade nua e crua do deserto serviu, tamb\u00e9m, de analogia para Bento XVI, no in\u00edcio do seu servi\u00e7o de Pastor da Igreja Cat\u00f3lica a 24 de Abril do ano passado, falar das pessoas que vivem noutros \u201cdesertos\u201d. Depois de recordar que \u00aba par\u00e1bola da ovelha perdida, que o pastor procura no deserto, foi para os Padres da Igreja numa imagem do mist\u00e9rio de Cristo e da Igreja\u00bb, continuou:  \u00abE h\u00e1 muitas formas de deserto: o deserto da pobreza, o deserto da fome e da sede; o deserto do abandono, da solid\u00e3o, do amor destru\u00eddo. Existe tamb\u00e9m o deserto da escurid\u00e3o de Deus, do vazio das almas que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam consci\u00eancia da dignidade e do rumo do homem. Os desertos exteriores multiplicam-se no mundo, porque os desertos interiores se tornam muito grandes. Por isso, os tesouros da terra j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o ao servi\u00e7o do cultivo do jardim de Deus, no qual todos podem viver, mas est\u00e3o subjugados ao poder da explora\u00e7\u00e3o e da destrui\u00e7\u00e3o.\u00bb  Para concluir: \u00abA Igreja no seu conjunto e os seus Pastores, tal como Cristo, devem p\u00f4r-se ao caminho para conduzir os homens para fora do deserto em direc\u00e7\u00e3o ao lugar da vida, para a amizade com o Filho de Deus, para Aquele que nos d\u00e1 a vida, e a vida em plenitude.\u00bb Essa \u00e9, tamb\u00e9m a finalidade da Quaresma, que nos conduz \u00e0 P\u00e1scoa (este ano, a 16 de Abril), onde vamos celebrar a vida de Jesus entregue por todos e reavida pela ressurrei\u00e7\u00e3o.   F\u00e1tima, 2006 <i>frei Lopes Morgado<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos teremos visto imagens do Rally Lisboa-Dacar avan\u00e7ando pelos desertos de Marrocos e da Maurit\u00e2nia, e depois atravessando \u00e1reas desertificadas do Mali, da Guin\u00e9 e do Senegal. Antes da partida de Lisboa, v\u00e1rios dos seus respons\u00e1veis e participantes plantaram algumas \u00e1rvores na Tapada de Mafra num gesto simb\u00f3lico. 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