{"id":16684,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/o-respeito-pelo-sagrado-e-algo-que-a-cultura-nao-pode-por-em-questao\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"o-respeito-pelo-sagrado-e-algo-que-a-cultura-nao-pode-por-em-questao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-respeito-pelo-sagrado-e-algo-que-a-cultura-nao-pode-por-em-questao\/","title":{"rendered":"<i>O respeito pelo sagrado \u00e9 algo que a cultura n\u00e3o pode p\u00f4r em quest\u00e3o<\/i>"},"content":{"rendered":"<p>Patriarca de Lisboa, na homilia de Quarta-feira de Cinzas <!--more--> \u201cA Quaresma \u00e9, para a Igreja, um tempo de verdade e de gra\u00e7a\u201d  Homilia de Quarta-Feira de Cinzas S\u00e9 Patriarcal, 1 de Mar\u00e7o de 2006   1. Iniciamos, hoje, mais uma Quaresma, a primeira depois daqueles dias t\u00e3o belos e t\u00e3o repletos de um novo entusiasmo, que foi o Congresso para a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o. Para mim, como crist\u00e3o e como vosso Bispo, este \u00e9 um tempo de esperan\u00e7a e de temor. A esperan\u00e7a de que seja um tempo de renova\u00e7\u00e3o espiritual para a nossa Igreja diocesana, tempo de convers\u00e3o e de fidelidade, tornando-a mais profundamente Povo do Senhor. Mas o receio de que seja apenas mais uma Quaresma, que corre veloz com a velocidade do tempo, sem pararmos para confrontar toda a nossa vida com Deus e com a P\u00e1scoa do Seu Filho Jesus Cristo. Receio que a P\u00e1scoa nos surpreenda na rotina da nossa vida. Que n\u00e3o tomemos a s\u00e9rio a advert\u00eancia do Ap\u00f3stolo Paulo: \u201cEste \u00e9 o tempo favor\u00e1vel, este \u00e9 o dia da salva\u00e7\u00e3o\u201d (2Cor. 6,2). Que significado tem a Quaresma no contexto da nossa sociedade contempor\u00e2nea, onde muitos n\u00e3o acreditam em Deus, onde, mesmo muitos crist\u00e3os, n\u00e3o cultivam a f\u00e9 como rela\u00e7\u00e3o viva e confiante com Ele, onde a Sua Palavra n\u00e3o \u00e9 luz que ilumina a vida, onde a Sua Lei n\u00e3o interpela a liberdade, onde a doutrina da Igreja \u00e9 pura sugest\u00e3o? A Quaresma \u00e9, para a Igreja, um momento de verdade, de se assumir como \u201cresto fiel\u201d, Povo que o Senhor escolheu e conduz. \u00c9 tempo para assumirmos corajosamente a nossa diferen\u00e7a, no mundo em que vivemos: diferen\u00e7a na f\u00e9, nas motiva\u00e7\u00f5es e nos crit\u00e9rios. \u00c9 tempo de penetrar no des\u00edgnio de Deus a nosso respeito, de percebermos que Ele tem uma vontade para o Seu Povo, onde revela os caminhos da vida e que nos fortalece, com o Seu Esp\u00edrito, para os podermos percorrer. Tomemos consci\u00eancia de que a Quaresma tem de ser, para n\u00f3s, tempo de discernimento e de fidelidade.  2. A primeira interpela\u00e7\u00e3o da Quaresma \u00e9 a de tomarmos Deus mais a s\u00e9rio. \u00c9 o grito, em tom dram\u00e1tico, do Profeta Joel: \u201cConvertei-vos a Mim de todo o cora\u00e7\u00e3o, com jejuns, l\u00e1grimas e lamenta\u00e7\u00f5es. Rasgai o vosso cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o os vossos vestidos. Convertei-vos ao Senhor vosso Deus\u201d (Jl. 2,12-13). E S\u00e3o Paulo, em tom igualmente s\u00e9rio, escreve aos Cor\u00edntios: \u201cN\u00f3s vos pedimos, em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus\u201d (2Cor. 5,20). Se n\u00f3s, os crist\u00e3os, n\u00e3o acolhemos estes apelos, quem os h\u00e1-de ouvir? Este \u00e9 o maior problema espiritual, com consequ\u00eancias morais, da nossa cultura contempor\u00e2nea: relativizou-se Deus. Est\u00e1 na moda fazer profiss\u00e3o de f\u00e9 de agnosticismo; o homem, considerado como individuo e n\u00e3o como pessoa, necessariamente comprometido com uma comunidade, tornou-se o \u00fanico crit\u00e9rio de verdade e de discernimento \u00e9tico; Deus deixou de ter lugar na hist\u00f3ria. Apesar do apregoado respeito pelas religi\u00f5es e pela f\u00e9 de quem acredita, alguns n\u00e3o hesitam em brincar com o sagrado; chegou-se mesmo a apregoar, em nome da liberdade, o direito \u00e0 blasf\u00e9mia. Fiquem sabendo que para n\u00f3s que buscamos o rosto de Deus e procuramos viver a vida em di\u00e1logo com Ele, isso nos indigna e magoa, porque temos gravado no nosso cora\u00e7\u00e3o aquele mandamento primordial: \u201cn\u00e3o invocar\u00e1s o Santo Nome de Deus em v\u00e3o\u201d. Como afirmou um prestigiado colunista, que ali\u00e1s se confessa descrente, com o sagrado n\u00e3o se brinca. O respeito pelo sagrado \u00e9 algo que a cultura n\u00e3o pode p\u00f4r em quest\u00e3o, mesmo em nome da liberdade. A todos esses que sentem n\u00e3o acreditar em Deus, eu digo em nome do povo crente: a vossa dificuldade em acreditar em Deus, n\u00e3o toca na realidade insofism\u00e1vel de Deus. N\u00f3s respeitamos a vossa descren\u00e7a, e n\u00e3o hesitamos em dar-vos as m\u00e3os em todas as lutas pelo bem e por causas justas. Mas respeitai a nossa f\u00e9, mesmo no exerc\u00edcio da vossa liberdade; sobretudo respeitai Deus em quem acreditamos. Mas o grande desafio da Palavra da Eucaristia \u00e9 dirigido a n\u00f3s, os crentes: convertei-vos ao Senhor, nosso Deus, tomai Deus mais a s\u00e9rio, como o fez Jesus Cristo, que em solidariedade com toda a humanidade, obedeceu a Deus, Seu Pai, at\u00e9 \u00e0 morte e morte na Cruz. A primeira manifesta\u00e7\u00e3o desse \u201ctomar Deus a s\u00e9rio\u201d, \u00e9 redescobrir a Sua Lei, a santa Lei de Deus. Ele tem uma vontade a nosso respeito, que \u00e9 um des\u00edgnio de amor, que nos revela pela Sua Palavra. A Lei de Deus \u00e9 revela\u00e7\u00e3o e chamamento e o exerc\u00edcio da nossa liberdade s\u00f3 pode ser uma obedi\u00eancia a essa Palavra. Esse caminho de obedi\u00eancia \u00e9 dif\u00edcil e exigente, mas \u00e9 poss\u00edvel com a for\u00e7a do Seu amor. S\u00f3 Deus torna poss\u00edvel a nossa fidelidade, vivendo a vida segundo a Sua vontade, percorrendo os caminhos do Seu des\u00edgnio. Isto exige de n\u00f3s, os crist\u00e3os, que completemos a l\u00f3gica da natureza com a l\u00f3gica da gra\u00e7a. Com que facilidade deixamos reduzir o nosso ideal de vida \u00e0 ordem natural, contentando-nos com o que a natureza oferece. Os dons da Natureza s\u00e3o apenas o an\u00fancio de uma plenitude definitiva, que \u00e9 como uma segunda cria\u00e7\u00e3o, um \u201cnascer de novo\u201d, cujo horizonte de plenitude ultrapassa a felicidade que naturalmente podemos desejar e realizar. E esse novo horizonte de vida \u00e9-nos revelado por Deus, em Jesus Cristo, que o inaugurou na Sua P\u00e1scoa, tornando-se as \u201cprim\u00edcias\u201d do homem futuro e do futuro do homem. Este horizonte da gra\u00e7a n\u00e3o anula a natureza, antes a liberta do risco de ficar prisioneira da sua finitude e fragilidade e revela-lhe o esplendor da \u00e1rvore de que ela \u00e9 apenas a semente. A Quaresma \u00e9 um tempo em que somos chamados a viver ao ritmo da gra\u00e7a, recorrendo a todas as ajudas que, para isso, Deus nos d\u00e1, por Jesus Cristo, atrav\u00e9s da for\u00e7a sacramental da Igreja. N\u00e3o tenhamos ilus\u00f5es: muitas das fragilidades dos crist\u00e3os devem-se ao facto de reduzirem a sua vida \u00e0 ordem da natureza, esquecendo que a rectid\u00e3o natural, mesmo que se consiga, n\u00e3o \u00e9 ainda a santidade.  3. Este naturalismo como perspectiva de vida \u00e9 a principal causa e, porventura, express\u00e3o dos nossos pecados. \u00c9 assim no amor, na busca da verdade que inspira os crit\u00e9rios morais e o sentido da vida; \u00e9 assim num individualismo autista, que nos corta da densidade de corresponsabilidade com os outros; \u00e9 assim na gan\u00e2ncia e na indisponibilidade para a partilha; \u00e9 assim na busca do rosto de Deus, glorificando-o com a nossa vida e experimentando a comunh\u00e3o com Ele na ora\u00e7\u00e3o. A Quaresma cont\u00e9m uma forte interpela\u00e7\u00e3o \u00e0 convers\u00e3o, o que significa aceitar os nossos pecados e a confian\u00e7a na miseric\u00f3rdia transformadora de Deus. N\u00e3o tenhamos ilus\u00f5es, irm\u00e3os: somos todos pecadores e talvez o nosso principal drama seja o j\u00e1 n\u00e3o identificarmos os nossos pecados, no concreto da nossa vida. E essa situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 mudar\u00e1, se nos convertermos ao Deus Vivo e voltarmos a amar a Sua Lei. A convers\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia de realismo e de confian\u00e7a: realismo de quem reconhece o seu pecado, confian\u00e7a na infinita miseric\u00f3rdia de Deus: \u201cEle \u00e9 clemente e compassivo, paciente e misericordioso, pronto a desistir dos castigos que promete\u201d (Jl. 2,13).  4. A caminhada da Quaresma n\u00e3o pode ser s\u00f3 individual. Os caminhos da convers\u00e3o devem ser percorridos em Igreja e pela Igreja. A convers\u00e3o do Seu Povo \u00e9 o grande desejo de Deus, pois s\u00f3 isso n\u00e3o tornar\u00e1 in\u00fatil a morte de Jesus Cristo. A express\u00e3o comunit\u00e1ria tem de envolver e fortalecer a caminhada individual. Ou\u00e7amos o apelo do Profeta e demos-lhe concretiza\u00e7\u00e3o nos caminhos da Igreja: \u201cTocai a trombeta sagrada. Reuni o Povo, convocai a assembleia, congregai os anci\u00e3os, reuni os jovens e as crian\u00e7as\u201d (Jl. 2,15-16). Tenho esperan\u00e7a que a Igreja de Lisboa, dinamizada para a miss\u00e3o, viva profundamente esta Quaresma, como caminho de convers\u00e3o e de gra\u00e7a. Quero fazer esta caminhada convosco, rezo por v\u00f3s.  \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Patriarca de Lisboa, na homilia de Quarta-feira de Cinzas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[154,268,275,91,314],"class_list":["post-16684","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-crianca","tag-nova-evangelizacao","tag-pascoa","tag-quaresma","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16684","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16684"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16684\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16684"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16684"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16684"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}