{"id":16669,"date":"2010-04-22T11:26:33","date_gmt":"2010-04-22T11:26:33","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/04\/22\/dia-da-terra-questoes-ambientais-na-literatura-portuguesa\/"},"modified":"2010-04-22T11:26:33","modified_gmt":"2010-04-22T11:26:33","slug":"dia-da-terra-questoes-ambientais-na-literatura-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/dia-da-terra-questoes-ambientais-na-literatura-portuguesa\/","title":{"rendered":"Dia da Terra: Quest\u00f5es ambientais na literatura portuguesa"},"content":{"rendered":"<p>Do medo da tosse na garganta provocada pelo fumo da f\u00e1brica \u00e0 simples nostalgia do velho pl\u00e1tano que estava junto \u00e0 escola <!--more--> <\/p>\n<p>Cidade versus campo, medo pela extin&ccedil;&atilde;o dos peixes, invoca&ccedil;&atilde;o dos lobos, grito contra o nuclear, aridez territorial e desertifica&ccedil;&atilde;o humana. Assim chegaram as quest&otilde;es ambientais &agrave; pena de muitos escritores portugueses. Alguns anteciparam-se &agrave;s preocupa&ccedil;&otilde;es do futuro mas os ouvidos n&atilde;o saborearam a escrita prof&eacute;tica. Outros sentiram saudades do verde. Medo da tosse na garganta provocada pelo fumo da f&aacute;brica ou a simples nostalgia do velho pl&aacute;tano que estava junto &agrave; escola. <br \/>Os escritores e poetas portugueses, desde E&ccedil;a de Queiroz e J&uacute;lio Dinis at&eacute; Ruy Belo anunciam sempre esse sentido est&eacute;tico de temor pela paisagem em transforma&ccedil;&atilde;o. Neste Ano Internacional dos Desertos e da Desertifica&ccedil;&atilde;o viaj&aacute;mos at&eacute; ao interior destas obras suculentas e apologistas do &#8220;bom&#8221; ambiente. <br \/>No &#8220;Di&aacute;rio&#8221; &#8211; obra de Miguel Torga &#8211; o escritor assume, fiel e medularmente, essa condi&ccedil;&atilde;o, como aut&ecirc;ntico &#8220;selo de origem, impresso no barro da carne&#8221;. Por isso, o &#8220;Di&aacute;rio&#8221; &eacute; o auto-retrato de Portugal. Como escreveu Jacinto Prado Coelho &#8220;Torga n&atilde;o &eacute; apenas a express&atilde;o de uma paisagem ou de uma alma colectiva: a sua obra &eacute; ele e a Natureza; ele e Portugal, um Portugal que o fez, mas que em parte ele inventou&#8221; (Miguel Torga, Poeta Ib&eacute;rico). <br \/>Eis, segundo cremos, a chave-mestra, o fulcro desta obra fundamental da literatura portuguesa, que representa, no dizer de Carlos Reis, &#8220;not&aacute;vel contributo para o conhecimento da mundivid&ecirc;ncia dum escritor incapaz de viver divorciado do que o cerca&#8221; (Homenagem a Miguel Torga). Ora, o que cerca o escritor, &eacute; Portugal, &#8220;um Portugal com oito s&eacute;culos de exist&ecirc;ncia e que n&atilde;o encontrou ainda a sua identidade nacional&#8221;(Di&aacute;rio XII). &Eacute; essa identidade que Torga procura, e encontra, no apelo constante das suas (nossas) ra&iacute;zes profundas. A realidade de um povo &#8220;timbrada na carne e no esp&iacute;rito como uma tatuagem dignificadora&#8221; (Fogo Preso). <br \/>&Eacute; por isso que Torga visita e revisita todos os recantos da P&aacute;tria, numa procura insofrida do n&uacute;cleo essencial da matriz lusitana. &#8220;Vi Portugal sozinho, sem guias, sem interlocutores, a ouvir apenas nas fragas, nos matagais, nos restolhos, nas areias e nas cal&ccedil;adas o eco dos meus pr&oacute;prios passos&#8221; (Di&aacute;rio XI). N&atilde;o houve aceno de monte ou de plan&iacute;cie a que n&atilde;o respondesse. &#8220;Subi todas as serras e calcorreei todos os vales desta p&aacute;tria&#8221; (Di&aacute;rio VIII). <br \/>Torga palmilhou o Pa&iacute;s, n&atilde;o por nacionalismo, como ele pr&oacute;prio reconhece, mas por uma &#8220;funda necessidade cultural&#8221;. &#8220;A realidade tel&uacute;rica de um pa&iacute;s descoberta pelos m&eacute;todos de um almocreve&#8221;&#8230;.. pois &eacute; &#8220;com o seu pr&oacute;prio corpo que o homem mede o ber&ccedil;o e o caix&atilde;o&#8221; (Di&aacute;rio V). Este escritor transmontano (nasceu em S&atilde;o Martinho de Anta, Sabrosa) reconhece qualquer lugar portugu&ecirc;s por coisas aparentemente t&atilde;o simples, como tactear a terra que pisa ou provar o tempero da carne de porco. A derme e a epiderme da mesma realidade, desvendada pelo sentido f&iacute;sico e metaf&iacute;sico, pois se a terra &eacute; a face vis&iacute;vel, o tempero &eacute; &#8220;assinatura inconfund&iacute;vel que identifica a regi&atilde;o e o habitante dela. A pimenta e o cravo das nossas andan&ccedil;as mar&iacute;timas, e o vinho, o alho e o louro da nossa rotina tel&uacute;rica, depois de complicadas alquimias, passaram de meros condimentos a puras ess&ecirc;ncias de sabedoria&#8221; (Di&aacute;rio VII). <br \/>Sentido e nost&aacute;lgico &eacute; o receio de J&uacute;lio Dinis. O autor de &#8220;Morgadinha dos Canaviais&#8221; assusta-se pelo perigo de ver a paisagem ser triturada pelo progresso. Nesta obra, ele comove-se diante do abate de &aacute;rvores pela voz do Velho Vicente. V&ecirc;-las tombar &eacute; um supl&iacute;cio. Com cora&ccedil;&atilde;o sentimental, J&uacute;lio Dinis escreve: &#8220;exalte-se embora a r&aacute;pida carreira da locomotiva, que atravessa, como meteoro, as povoa&ccedil;&otilde;es e os ermos; mas n&atilde;o seja isso motivo para condenar a compaix&atilde;o pela violeta dos campos que as rodas deixaram esmagada &agrave; beira do carril&#8221;. <br \/>E&ccedil;a de Queiroz &#8211; um observador sagaz &#8211; exalta os valores do mundo campestre e da natureza, primeiro em &#8220;Civiliza&ccedil;&atilde;o&#8221;, o conto que dar&aacute; origem a &#8220;A cidade e as Serras&#8221;, uma das obras mais conhecidas do escritor e mais &oacute;bvias neste contexto do Ano Internacional dos Desertos e da Desertifica&ccedil;&atilde;o. Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s cidades revela que os &#8220;pr&eacute;dios obstrutores de seis andares, a fuma&ccedil;a das chamin&eacute;s, o rolar moroso e grosso do &oacute;nibus, a trama encarcerada da vida urbana&#8230; Mas que diferen&ccedil;a, num cimo de monte, como Torges&#8221;. <br \/><em>Lu&iacute;s Filipe Santos &ndash; AE<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do medo da tosse na garganta provocada pelo fumo da f\u00e1brica \u00e0 simples nostalgia do velho pl\u00e1tano que estava junto \u00e0 escola<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-16669","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16669","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16669"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16669\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16669"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16669"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16669"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}