{"id":16580,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/recuperar-a-alegria-de-viver-e-o-nosso-compromisso-com-o-mundo\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"recuperar-a-alegria-de-viver-e-o-nosso-compromisso-com-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/recuperar-a-alegria-de-viver-e-o-nosso-compromisso-com-o-mundo\/","title":{"rendered":"\u00abRecuperar a alegria de viver e o nosso compromisso com o mundo\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Uma reflex\u00e3o da CNJP na Quaresma de 2006 <!--more--> 1. Apresenta\u00e7\u00e3o Este \u00e9 o primeiro texto p\u00fablico da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz, recentemente nomeada para o tri\u00e9nio 2006-08.  Desejamos aproveitar o tempo privilegiado da Quaresma, em que os crist\u00e3os s\u00e3o convidados a acolher, de modo particular, a Palavra de Deus e o mist\u00e9rio da salva\u00e7\u00e3o, para partilhar, a essa luz, algumas reflex\u00f5es sobre a nossa sociedade e o mundo em que vivemos, numa \u00e9poca marcada por profundas transforma\u00e7\u00f5es e riscos que a todos afectam e interpelam. Em primeiro lugar, dirigimo-nos aos crist\u00e3os, suas comunidades e movimentos. Queremos contribuir para que os nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s na f\u00e9 possam encarar, com lucidez e esperan\u00e7a, o devir, reconhecendo-se como sujeitos da hist\u00f3ria pessoal e colectiva e n\u00e3o como meros objectos e espectadores.  O nosso segundo objectivo consiste em refor\u00e7ar as sinergias entre quantos, crentes e n\u00e3o crentes, est\u00e3o empenhados em deixar neste nosso mundo marcas de mais justi\u00e7a, solidariedade, verdade, amor e paz.  N\u00e3o temos a pretens\u00e3o de apresentar a leitura \u00fanica ou sequer a mais l\u00facida e rigorosa. A realidade multifacetada, que caracteriza a nossa exist\u00eancia de mulheres e homens inseridos num tempo e num espa\u00e7o em muta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se compagina com vis\u00f5es unilaterais e pretensamente neutras, mas antes se enriquece com leituras plurais, nomeadamente quando s\u00e3o expl\u00edcitos os respectivos pressupostos. A nossa vis\u00e3o do mundo inspira-se na f\u00e9 em Jesus Cristo e nos valores evang\u00e9licos e apoia-se na doutrina social da Igreja cat\u00f3lica.  Reconhecemos, contudo, que esta vis\u00e3o releva de uma matriz \u00e9tica comum a crentes de diferentes religi\u00f5es e a n\u00e3o crentes. Tal nos anima a desejar que a nossa reflex\u00e3o tenha uma ampla difus\u00e3o e mere\u00e7a dos nossos concidad\u00e3os e concidad\u00e3s um acolhimento de simpatia e boa vontade, que leve ao aprofundamento da universal voca\u00e7\u00e3o humana de caminheiros na busca da Verdade e ao maior empenhamento de todos na constru\u00e7\u00e3o de novas formas de vida pessoal e colectiva a que presidam a Harmonia, a Justi\u00e7a e a Paz.  2. Contra o pessimismo e o des\u00e2nimo, recuperar a alegria de viver Vivemos tempos de turbul\u00eancia e grande complexidade.  Experimentamo-lo nas nossas vidas pessoais e familiares, nas rela\u00e7\u00f5es com os outros, no trabalho, na vida pol\u00edtica, nas Igrejas; em suma, em todos os quadrantes em que se desdobra a nossa exist\u00eancia como pessoas e como comunidades. Os valores que julg\u00e1vamos firmes e as institui\u00e7\u00f5es que acredit\u00e1vamos serem inatac\u00e1veis, revelam-se, afinal, de grande fragilidade, ao mesmo tempo que, por ora, se apresenta turvo o horizonte das refer\u00eancias onde assentar os novos pilares da sociedade. De tal modo o curso dos acontecimentos parece inexor\u00e1vel, que uma primeira tenta\u00e7\u00e3o a que estamos sujeitos \u00e9 a de nos sentirmos impotentes para intervir de forma eficaz nos processos de mudan\u00e7a e de baixar os bra\u00e7os, numa expectativa ing\u00e9nua de deixar correr o rio, sem lhe cuidar das margens. Ou, pior do que isso, cedendo \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de refor\u00e7ar atitudes e comportamentos ego\u00edstas, procurando, mesmo sem raz\u00e3o, defender e ampliar, desmesuradamente, poderes e privil\u00e9gios individuais ou de grupo, descurando os interesses colectivos e o bem comum e menosprezando, descaradamente, a situa\u00e7\u00e3o dos mais vulner\u00e1veis e desfavorecidos. A frequ\u00eancia com que se invoca a inevitabilidade do devir \u00e0 escala mundial e se exaltam os riscos da crise econ\u00f3mica tem servido para alimentar o comportamento egoc\u00eantrico e insano e para desencorajar a procura de caminhos alternativos e de solu\u00e7\u00f5es mais humanas face aos novos desafios. Esquece-se que as crises, desde que devidamente encaradas, podem constituir, tamb\u00e9m, oportunidades para corrigir o que est\u00e1 mal, para lan\u00e7ar as bases de solu\u00e7\u00f5es mais justas e para criar novos dinamismos sociais. Para tanto, necess\u00e1rio se torna fomentar uma atitude positiva de esperan\u00e7a face \u00e0 vida. Por\u00e9m, ao inv\u00e9s do que seria desej\u00e1vel, vem-se gerando e consolidando, na mentalidade corrente, uma cultura de pessimismo e des\u00e2nimo enquanto, do mesmo passo, se assiste, com grande passividade, a uma demoli\u00e7\u00e3o devastadora do prest\u00edgio de institui\u00e7\u00f5es fundamentais em qualquer sociedade democr\u00e1tica.  \u00c9 nossa firme convic\u00e7\u00e3o que, diante desta nuvem de pessimismo e des\u00e2nimo, todos somos chamados &#8211; e os crist\u00e3os por raz\u00f5es acrescidas &#8211; a assumir a nossa qualidade de seres capazes de orientar a transforma\u00e7\u00e3o do mundo no sentido de um bem comum.  Se, pelo contr\u00e1rio,  nos deixarmos dominar pela ideia de \u201ccrise inevit\u00e1vel\u201d, perderemos o gosto e a alegria de viver, adiaremos as medidas de curto e m\u00e9dio prazo que se imp\u00f5em  e correremos o risco de nos vermos confrontados com problemas bem mais s\u00e9rios no futuro. Em qualquer caso, com tais sentimentos, estaremos deixando fugir o nosso tempo e a n\u00e3o honrar o nosso compromisso com o mundo. N\u00e3o basta, por\u00e9m, que uma ou outra voz se oponha a uma tal atitude, aparentemente t\u00e3o generalizada, de des\u00e2nimo. \u00c9 preciso que o tom de esperan\u00e7a enraizado em cada crist\u00e3o e crist\u00e3 ganhe uma dimens\u00e3o colectiva e assuma express\u00f5es concretas no \u00e2mbito das  fam\u00edlias, das empresas e das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, do ordenamento das cidades, das escolas e universidades, dos centros de sa\u00fade e hospitais, dos servi\u00e7os p\u00fablicos, das organiza\u00e7\u00f5es de solidariedade social, das institui\u00e7\u00f5es, das que j\u00e1 existem e daquelas que temos de imaginar e criar para fazer face \u00e1s novas necessidades humanas e sociais. Em tempo de crise, soam mais alto as palavras de Jesus ao paral\u00edtico \u201cLevanta-te e anda\u201d (Mc, 2&#8230;). S\u00f3 quando os crist\u00e3os tiverem respondido a esta ordem, o mundo poder\u00e1 saborear o gosto do sal e ver a luz de que devemos ser portadores (Mt 5,13-16).   3. Superar as raz\u00f5es da exclus\u00e3o social e acabar com a pobreza No enfrentar dos m\u00faltiplos desafios que se nos deparam, n\u00e3o podemos deixar de dar relevo \u00e0 exclus\u00e3o social e \u00e0 pobreza, que continuam a subsistir no nosso mundo de abund\u00e2ncia, de progresso material e de conhecimento. Que existam pessoas \u2013 e estimam-se em cerca de dois milh\u00f5es, no nosso Pa\u00eds \u2013 com rendimentos insuficientes para garantir um padr\u00e3o de vida decente \u00e9, certamente, uma situa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o podemos tolerar. Antes do mais, por raz\u00f5es de dignidade humana; mas tamb\u00e9m porque um t\u00e3o elevado n\u00famero de exclu\u00eddos \u00e9, obviamente, um factor de tens\u00e3o e conflitualidade, com inevit\u00e1veis consequ\u00eancias para a coes\u00e3o social e para um desenvolvimento humano e sustent\u00e1vel. A pobreza e a exclus\u00e3o social n\u00e3o podem ser vistas apenas \u00e0 luz fria dos indicadores estat\u00edsticos. Por detr\u00e1s dos n\u00fameros, est\u00e3o rostos e vidas de homens, mulheres, crian\u00e7as, jovens e idosos.  Pessoas a quem a falta de recursos monet\u00e1rios, a doen\u00e7a, a precariedade do trabalho e os baixos sal\u00e1rios, o reduzido n\u00edvel de escolaridade, a desintegra\u00e7\u00e3o familiar e outros factores, n\u00e3o permitem que, por si s\u00f3s, ven\u00e7am as barreiras da pobreza e da exclus\u00e3o. Pessoas que n\u00e3o encontram habita\u00e7\u00e3o digna a pre\u00e7o acess\u00edvel, ainda que, nas nossas cidades, vilas e aldeias, muitos alojamentos estejam por utilizar. Pessoas a quem a escola n\u00e3o conseguiu cativar e preparar para a vida. Pessoas v\u00edtimas de explora\u00e7\u00e3o no trabalho por parte de alguns empres\u00e1rios sem escr\u00fapulos e de um sistema socio-economico-pol\u00edtico que n\u00e3o previne \u2013 antes produz \u2013 exclus\u00e3o social. Pessoas que vieram de outros pa\u00edses em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, mas que, tamb\u00e9m aqui, ou n\u00e3o conseguiram singrar ou porque, tendo perdido as ra\u00edzes dos seus pa\u00edses de origem, n\u00e3o se sentem integradas na sociedade em que vivem. Pessoas sem abrigo e vivendo da esmola ou do furto. Pessoas fr\u00e1geis na sua rela\u00e7\u00e3o com o \u00e1lcool, a droga, a promiscuidade, etc. Pessoas para quem a pobreza \u00e9 persistente e conhecida desde tenra idade; uma heran\u00e7a que receberam de seus pais. Pessoas para muitas das quais pobreza significa morte. A exclus\u00e3o \u00e9 um cancro social que importa prevenir e remediar, quanto antes; mas a grande pobreza \u00e9, verdadeiramente, uma inf\u00e2mia intoler\u00e1vel. O combate \u00e0 pobreza inscreve-se no primeiro dos direitos humanos universais, o direito \u00e0 vida.  Os estados t\u00eam de ser mais responsabilizados pela erradica\u00e7\u00e3o da pobreza nos respectivos pa\u00edses. Mas tamb\u00e9m os partidos pol\u00edticos, os parceiros sociais e a sociedade civil t\u00eam de unir os seus esfor\u00e7os para que a grande pobreza seja, em breve, uma situa\u00e7\u00e3o do passado, como hoje j\u00e1 sucede com a escravatura ou a pena de morte, na nossa sociedade. Por seu lado, os crist\u00e3os e suas comunidades n\u00e3o podem deixar de se comprometer activamente nesta luta e podem faz\u00ea-lo, antes de mais, em tr\u00eas frentes convergentes e complementares: &#8211;\t ac\u00e7\u00f5es que procurem levar socorro \u00e0s v\u00edtimas; &#8211;\t den\u00fancia das causas estruturais geradoras da pobreza; &#8211;\t apoio e viabiliza\u00e7\u00e3o de propostas que visem a erradica\u00e7\u00e3o da pobreza, no nosso Pa\u00eds e no mundo. A universalidade do amor crist\u00e3o, recentemente sublinhada por Bento XVI na sua primeira enc\u00edclica \u201cDeus caritas est\u201d, n\u00e3o consente que nos preocupemos apenas com a pobreza nacional. \u00c9 imperioso inscrever, no \u00e2mbito das nossas preocupa\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m a pobreza, a mis\u00e9ria e a fome que atingem, de forma dram\u00e1tica, milh\u00f5es de homens, mulheres e crian\u00e7as no mundo de hoje. \u00c9 urgente e poss\u00edvel reduzir drasticamente essa fonte de morte e indiz\u00edvel sofrimento humano pelo que n\u00e3o temos d\u00favidas em afirmar que tal se inscreve no \u201cpecado do mundo\u201d de que fala Jo\u00e3o Baptista. \u00c9 urgente acabar com o esc\u00e2ndalo da grande pobreza no mundo.  \u00c9 uma tarefa de todos e de cada um e cada uma de n\u00f3s. Os objectivos do Mil\u00e9nio fixados no in\u00edcio de 2000 e que mereceram o compromisso da generalidade dos pa\u00edses da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas apontaram como meta o ano de 2015, para p\u00f4r termo \u00e0s situa\u00e7\u00f5es mais dram\u00e1ticas da pobreza. Todavia, os resultados at\u00e9 agora alcan\u00e7ados est\u00e3o longe das metas estabelecidas. Nem a redu\u00e7\u00e3o da pobreza monet\u00e1ria, nem os ganhos em sa\u00fade, no acesso a \u00e1gua pot\u00e1vel ou na escolaridade t\u00eam avan\u00e7ado aos ritmos previstos. T\u00e3o pouco os governos dos pa\u00edses ricos t\u00eam honrado os seus compromissos em rela\u00e7\u00e3o a este Pacto, n\u00e3o contribuindo com  a parcela de rendimento nacional respectivo destinado \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento a que se tinham comprometido. Acresce que os pa\u00edses economicamente mais avan\u00e7ados continuam impondo os seus interesses ego\u00edstas quer atrav\u00e9s de algumas das suas pol\u00edticas nacionais quer nas negocia\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Com\u00e9rcio, reservando para si vantagens e privil\u00e9gios que prejudicam as economias mais d\u00e9beis e os milh\u00f5es de mulheres e homens que vivem em situa\u00e7\u00e3o de pobreza extrema nos pa\u00edses emergentes.  4. A grande desigualdade \u00e9 uma afronta \u00e0 justi\u00e7a e \u00e0 boa conviv\u00eancia c\u00edvica Se a pobreza \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o extrema a exigir, com urg\u00eancia, a nossa reflex\u00e3o e o nosso empenhamento em erradic\u00e1-la, tamb\u00e9m as grandes disparidades de riqueza, de rendimento e de conhecimento n\u00e3o podem deixar-nos indiferentes. \u00c9 que, por detr\u00e1s de uma grande desigualdade, est\u00e1 sempre uma injusti\u00e7a gritante e um funcionamento injusto de um sistema de organiza\u00e7\u00e3o da economia e da sociedade. Por outro lado, a grande desigualdade de riqueza e rendimento gera fen\u00f3menos de indesej\u00e1vel concentra\u00e7\u00e3o de poder que podem minar os alicerces da pr\u00f3pria democracia, \u00e9 causa de esbanjamento de recursos, e suscita, por emula\u00e7\u00e3o, padr\u00f5es m\u00e9dios de consumo e estilos de vida desequilibrados e desajustados em rela\u00e7\u00e3o a um padr\u00e3o de desenvolvimento humano sustent\u00e1vel.   A desigualdade de rendimentos em Portugal n\u00e3o s\u00f3 \u00e9, presentemente, a mais alta da Uni\u00e3o Europeia como evidencia uma tend\u00eancia de agravamento que se tem acentuado nos \u00faltimos anos. Essa desigualdade atravessa grupos sociais, gera\u00e7\u00f5es, territ\u00f3rios, categorias s\u00f3cio-profissionais, sectores de actividade econ\u00f3mica. Nos \u00faltimos tempos, os media t\u00eam chamado a aten\u00e7\u00e3o \u2013 e bem \u2013 para n\u00edveis de remunera\u00e7\u00f5es de alguns gestores p\u00fablicos e privados, que contrastam fortemente com a conten\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios que os mesmos preconizam para as suas respectivas empresas e para a economia em geral. S\u00e3o, igualmente, conhecidos alguns indicadores de riqueza, manifestos na compra de autom\u00f3veis de topo de gama, dispendiosas viagens de f\u00e9rias no estrangeiro, habita\u00e7\u00f5es de luxo e condom\u00ednios fechados de elevad\u00edssimos encargos. Se n\u00e3o se arrepiar caminho nesta desigualdade crescente, \u00e9 de esperar um aumento da conflitualidade social e das suas consequ\u00eancias negativas e mesmo dram\u00e1ticas, e ficar\u00e1 adiado o t\u00e3o desejado desenvolvimento humano e sustent\u00e1vel que a todos beneficie. A desigualdade n\u00e3o \u00e9 apenas um problema individual do injusti\u00e7ado. Quer nas suas causas quer nas solu\u00e7\u00f5es, constitui, sobretudo, um problema da sociedade que a todos interpela. A esta luz, tamb\u00e9m n\u00f3s crist\u00e3os, temos de nos reconhecer como parte deste problema, e, em muitos casos, confessarmo-nos culpados por actos e omiss\u00f5es. Por\u00e9m, porque temos raz\u00f5es de f\u00e9 e de pr\u00e1tica de vida para nos situarmos na primeira linha da defesa activa da justi\u00e7a e da solidariedade, tamb\u00e9m devemos deixar-nos reconfortar pela esperan\u00e7a que poderemos abrir novos caminhos de solu\u00e7\u00e3o. Pela palavra, pelas atitudes e comportamentos nas nossas respectivas esferas de actividade e influ\u00eancia. Pelo nosso empenhamento nas causas comuns portadoras de desenvolvimento e equidade para o nosso Pa\u00eds e para a Humanidade. Pela  \u201cfantasia da caridade\u201d, na bela express\u00e3o de Jo\u00e3o Paulo II. A solidariedade \u00e9 um valor universal, mas ganha um sentido mais profundo \u00e0 luz do Evangelho. \u00c9 uma atitude b\u00e1sica sempre necess\u00e1ria, mas torna-se ainda mais necess\u00e1ria e urgente em tempo de turbul\u00eancia e de mudan\u00e7a como este em que vivemos. Na travessia de um tempo de dificuldades, o povo ganha outro \u00e2nimo quando v\u00ea que todos se sentem co-respons\u00e1veis pelo problema e est\u00e3o empenhados nas solu\u00e7\u00f5es. \u00c9 este o esp\u00edrito de que a nossa sociedade precisa. Para tanto, s\u00e3o necess\u00e1rios, antes de mais, gestos concretos de quem det\u00e9m maior poder e responsabilidade quer a n\u00edvel nacional, quer nos \u00e2mbitos local, institucional e empresarial. Mas s\u00e3o igualmente fecundos, e j\u00e1 despontam entre n\u00f3s, exemplos de iniciativas de base que anunciem, com coer\u00eancia e perspic\u00e1cia, tempos novos para a democracia. Pensamos, na economia social nas suas m\u00faltiplas vertentes, nas lojas de com\u00e9rcio justo, no micro-cr\u00e9dito, no banco do tempo, no voluntariado em diversos empreendimentos de \u00edndole cultural, ecol\u00f3gica e social, empresas de economia de comunh\u00e3o, nas ac\u00e7\u00f5es de den\u00fancia do consumismo ou da agressividade do marketing, nas experi\u00eancias de vida comunit\u00e1ria, etc..   5. Superar o consumismo irrespons\u00e1vel A influ\u00eancia do marketing, cada vez mais sofisticada e poderosa, vem levando muitas pessoas a adoptar padr\u00f5es de consumo desproporcionados relativamente ao seu respectivo n\u00edvel de rendimento, com uma dupla consequ\u00eancia negativa: o endividamento excessivo das fam\u00edlias, n\u00e3o raro para fazer face a encargos com aquisi\u00e7\u00e3o de bens que seriam dispens\u00e1veis, e a distor\u00e7\u00f5es das  prioridades na satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades b\u00e1sicas de alimenta\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade ou seguran\u00e7a. Estamos perante a emerg\u00eancia de uma verdadeira cultura de consumismo com consequ\u00eancias sociais e ecol\u00f3gicas preocupantes que n\u00e3o devem ser subestimadas. Os grupos mais jovens da popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o, em raz\u00e3o da pr\u00f3pria idade, particularmente influenci\u00e1veis pela ac\u00e7\u00e3o do marketing, tanto mais quanto, imersos numa cultura dominante de consumismo, n\u00e3o desenvolveram uma estrutura interior de auto-estima suficientemente forte para pensarem e agirem por si pr\u00f3prios e por isso dependem muito dos comportamentos padr\u00f5es dos seus pares. Pais e educadores t\u00eam uma particular responsabilidade na educa\u00e7\u00e3o das camadas mais jovens da popula\u00e7\u00e3o acerca de um consumo esclarecido, respons\u00e1vel e solid\u00e1rio. Tamb\u00e9m os grupos de jovens crist\u00e3os deveriam prestar a devida aten\u00e7\u00e3o a esta problem\u00e1tica.  Dir-se-\u00e1 que o consumo sustenta a procura e esta \u00e9 factor que incentiva a produ\u00e7\u00e3o e o emprego e por isso constitui um esteio necess\u00e1rio ao crescimento econ\u00f3mico. Trata-se de uma verdade unilateral, pois oculta outras dimens\u00f5es da realidade, nomeadamente as seguintes: &#8211;\t\u00c9 desej\u00e1vel orientar as op\u00e7\u00f5es de consumo para bens que aumentem o bem-estar efectivo e a qualidade de vida dos consumidores, o que nem sempre \u00e9 assegurado pela publicidade; &#8211;\tOs gastos em consumo devem ser proporcionados ao n\u00edvel m\u00e9dio de rendimento de quem consome; &#8211;\t\u00c9 de evitar o desperd\u00edcio e o sup\u00e9rfluo, de modo a  respeitar o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico; &#8211;\tO uso do dinheiro, como o de todos os outros recursos, n\u00e3o deve eximir-se ao crivo dos crit\u00e9rios da solidariedade e do bem comum. Em suma: h\u00e1 que respeitar o princ\u00edpio de que a economia est\u00e1 ao servi\u00e7o das pessoas, como frequentemente \u00e9 recordado nos textos da doutrina social da Igreja.  Por outro lado, a propens\u00e3o consumista \u00e9 co-respons\u00e1vel de um outro problema que afecta, muito negativamente, o nosso modo de viver. Referimo-nos aos ritmos de vida stressantes que marcam o nosso quotidiano, sobretudo nas grandes cidades, e que est\u00e3o associados aos esfor\u00e7os que visam conseguir maiores rendimentos, com vista a consumir mais e alcan\u00e7ar patamares sempre mais ambiciosos de vida material. Os reflexos negativos desta atitude s\u00e3o vis\u00edveis n\u00e3o s\u00f3 na sa\u00fade dos pr\u00f3prios como no enfraquecimento e na perda de qualidade das rela\u00e7\u00f5es intra-familiares, no cuidado com as crian\u00e7as e no tempo que lhes \u00e9 dispensado pelos seus pais, bem como na presta\u00e7\u00e3o de cuidados aos familiares idosos. Tamb\u00e9m a vida c\u00edvica, pol\u00edtica, cultural e religiosa se ressente da falta de tempo  e disponibilidade da popula\u00e7\u00e3o. A este prop\u00f3sito, deixamos algumas interroga\u00e7\u00f5es a que s\u00f3 cada um\/a poder\u00e1 responder: &#8211;\tSer\u00e1 que vale mesmo a pena continuar com estes ritmos de trabalho stressantes? A que bens ter\u00edamos de renunciar se opt\u00e1ssemos por uma vida de menos stress? E o que ganhar\u00edamos em troca? &#8211;\tCom o progresso material j\u00e1 alcan\u00e7ado, n\u00e3o dever\u00edamos valorizar mais as rela\u00e7\u00f5es humanas e dar maior prioridade aos bens relacionais e \u00e0 qualidade da vida pessoal, familiar e comunit\u00e1ria, nomeadamente naqueles casos em que j\u00e1 se ultrapassaram as barreiras do necess\u00e1rio? &#8211;\tN\u00e3o ser\u00e1 este um tempo oportuno para reorganizarmos a nossa vida por forma a criar condi\u00e7\u00f5es para a ora\u00e7\u00e3o e a contempla\u00e7\u00e3o? &#8211;\tN\u00e3o estaremos, inadvertidamente, a servir o deus dinheiro e a sacrificar-lhe os nossos melhores dons e energias?   6. Um risco de viol\u00eancia que \u00e9 preocupante A extens\u00e3o e severidade da pobreza de uma parte consider\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o no nosso Pa\u00eds (cerca de um quinto) associada a uma vis\u00edvel e muito gritante e crescente desigualdade na reparti\u00e7\u00e3o da riqueza, do rendimento e das oportunidades, est\u00e3o criando um ethos social potencialmente gerador de tens\u00f5es e de conflitualidade social. Esta situa\u00e7\u00e3o espelha-se em todo o territ\u00f3rio, como atestam as ocorr\u00eancias dos mais variados tipos de viol\u00eancia. A situa\u00e7\u00e3o em bairros perif\u00e9ricos de algumas das nossas cidades \u00e9 particularmente prop\u00edcia ao afloramento de manifesta\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia e constitui terreno f\u00e9rtil a que se desenvolvam ac\u00e7\u00f5es de marginalidade social e criminalidade, para n\u00e3o falar de uma anomia social generalizada existente nesses territ\u00f3rios. A esta realidade n\u00e3o s\u00e3o estranhas as pol\u00edticas de urbaniza\u00e7\u00e3o que fomentam os guetos na cidade. A prolifera\u00e7\u00e3o de armas e o tr\u00e1fico ilegal das mesmas encontram, neste contexto  de viol\u00eancia potencial, um terreno f\u00e9rtil. Trata-se de uma problem\u00e1tica para a qual a sociedade civil s\u00f3 agora come\u00e7a a despertar. \u00c9 fundamental sensibilizar mais as consci\u00eancias acerca dos riscos que a prolifera\u00e7\u00e3o das armas acarreta e cuidar de forma mais eficiente dos meios para lhes fazer face.  Neste contexto, h\u00e1, certamente, lugar para uma interven\u00e7\u00e3o social apropriada, mas h\u00e1 que, igualmente, pugnar pelo termo das causas que est\u00e3o na origem desta situa\u00e7\u00e3o preocupante. Entre estas, cabe destacar o tipo de habitat em que sobrevivem certas popula\u00e7\u00f5es ou as dificuldades de acesso a um trabalho est\u00e1vel e devidamente remunerado. Importa, igualmente, cuidar da melhoria das escolas e servi\u00e7os de sa\u00fade locais bem como dos demais meios de promover a inser\u00e7\u00e3o social. Gostar\u00edamos, ainda, de sublinhar a import\u00e2ncia de que se reveste uma ac\u00e7\u00e3o concertada entre todos os parceiros sociais e participada pela pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o no sentido da requalifica\u00e7\u00e3o urgente das \u00e1reas de habitat degradado, ac\u00e7\u00e3o essa que vise prevenir os riscos de viol\u00eancia e criar as indispens\u00e1veis sinergias de inclus\u00e3o social.  7. O dever de acolher os imigrantes Os recentes acontecimentos em Ceuta e em Paris, vieram chamar a aten\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica europeia para o grave problema da imigra\u00e7\u00e3o no continente europeu.  No primeiro caso, os governos dos pa\u00edses membros e a pr\u00f3pria Comiss\u00e3o europeia foram confrontados com um fluxo potencial de imigrantes africanos que, a manterem-se as actuais condi\u00e7\u00f5es de extrema pobreza em \u00c1frica, ser\u00e1 dificilmente control\u00e1vel, sem recurso a formas extremas de repress\u00e3o a que, certamente, a maioria dos europeus n\u00e3o deseja recorrer, pois isso seria negar ideais b\u00e1sicos de liberdade, justi\u00e7a e solidariedade, que constituem pilares de uma filosofia pol\u00edtica e de uma cultura consolidadas ao longo de s\u00e9culos. Importa re-afirmar que o recurso a tais meios repressivos merecem inteira reprova\u00e7\u00e3o \u00e0 luz dos valores crist\u00e3os e dos direitos humanos.   No interesse de todos, haveria que encontrar modalidades de uma coopera\u00e7\u00e3o privilegiada entre a Uni\u00e3o Europeia e os pa\u00edses da bacia do mediterr\u00e2neo que abrisse caminho no sentido de um maior desenvolvimento humano e sustent\u00e1vel dessa regi\u00e3o. Por outro lado, n\u00e3o pode ignorar-se a situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica da regi\u00e3o sub-sahariana e remover, urgentemente, os bloqueios externos e internos ao seu desenvolvimento. Tamb\u00e9m neste espa\u00e7o geogr\u00e1fico os europeus det\u00eam particulares responsabilidades, pois muitos desses novos pa\u00edses foram antigas col\u00f3nias cuja explora\u00e7\u00e3o muito contribuiu para a prosperidade econ\u00f3mica da Europa. Os acontecimentos de Paris, por seu turno, vieram p\u00f4r em foco os desafios do acolhimento e da integra\u00e7\u00e3o dos imigrantes que chegam \u00e0 Europa, sem esquecer as segundas gera\u00e7\u00f5es, que, embora tendo j\u00e1 nascido na Europa, n\u00e3o conseguem alcan\u00e7ar aqui um patamar de cidadania plena. Oxal\u00e1 aquilo que se passou em Paris e em outras cidades do centro europeu nunca venha a suceder entre n\u00f3s. Mas, sejamos realistas, se verdadeiramente o quisermos evitar, deveremos empreender um redobrado esfor\u00e7o no sentido de uma integra\u00e7\u00e3o melhor dos imigrantes que vivem entre n\u00f3s.  Essa integra\u00e7\u00e3o passa, antes de mais, pela defesa dos direitos em mat\u00e9ria laboral e de seguran\u00e7a social. O imigrante n\u00e3o pode continuar a ser uma presa f\u00e1cil de alguns patr\u00f5es sem escr\u00fapulos e sujeito a uma sobre-explora\u00e7\u00e3o  porque n\u00e3o tem documentos, n\u00e3o conhece as leis do Pa\u00eds e as suas estruturas administrativas, ou porque se exprime mal em portugu\u00eas e n\u00e3o tem amigos nacionais que lhe d\u00eaem apoio. Diferentes entidades p\u00fablicas e privadas, entre as quais algumas radicadas em comunidades crist\u00e3s t\u00eam desenvolvido uma ac\u00e7\u00e3o merit\u00f3ria neste dom\u00ednio de acolhimento aos imigrantes e ser\u00e1 muito importante que continuem servindo estes irm\u00e3os mais desfavorecidos, os estrangeiros que procuram no nosso Pa\u00eds superar as condi\u00e7\u00f5es de grande pobreza em que seriam obrigados a viver se permanecessem nos seus pa\u00edses de origem. Os riscos que correm nos seus percursos at\u00e9 ao destino revelam bem que n\u00e3o se trata apenas de busca de uma vida mais confort\u00e1vel mas da mais elementar sobreviv\u00eancia. As par\u00f3quias, sendo a presen\u00e7a territorializada da Igreja, est\u00e3o particularmente bem colocadas para uma ajuda de proximidade, a come\u00e7ar pelo apoio na obten\u00e7\u00e3o de documentos de identidade e\/ou autoriza\u00e7\u00e3o de perman\u00eancia, e bem assim para fomentarem o incentivo \u00e0 inser\u00e7\u00e3o social e \u00e0 conviv\u00eancia c\u00edvica de todos. \u00c9 uma ac\u00e7\u00e3o que deve ser assumida por todos os membros da comunidade pois esta n\u00e3o pode ficar alheia ao acolhimento devido ao imigrante. Analogamente, a problem\u00e1tica geral da regula\u00e7\u00e3o do fluxo das migra\u00e7\u00f5es e da inser\u00e7\u00e3o dos imigrantes nos pa\u00edses de acolhimento deve merecer a nossa aten\u00e7\u00e3o e empenhamento. Ainda que, no limite, fossem adoptadas medidas fortemente repressivas (sempre reprov\u00e1veis, \u00e0 luz de valores crist\u00e3os), tal n\u00e3o estancaria o afluxo de imigrantes e poderia mesmo encorajar o refor\u00e7o de redes de tr\u00e1fico de pessoas. H\u00e1, pois, que procurar solu\u00e7\u00f5es que satisfa\u00e7am crit\u00e9rios de equidade e de respeito da dignidade da pessoa humana. H\u00e1 que, promover uma mentalidade que valorize o acolhimento e o bom relacionamento humano, entre nacionais e estrangeiros, que favore\u00e7a a convivialidade e a solidariedade, que estime e incentive a multiculturalidade. A mudan\u00e7a de mentalidade em rela\u00e7\u00e3o aos imigrantes \u00e9 um desafio individual e colectivo.  A este prop\u00f3sito, ocorre-nos deixar algumas pistas de reflex\u00e3o. &#8211; Como encaramos esta realidade que continuar\u00e1 com forte intensidade e de dif\u00edcil regula\u00e7\u00e3o enquanto subsistirem grandes desequil\u00edbrios das capacidades sociais e econ\u00f3micas entre os pa\u00edses? &#8211; Consideramos os imigrantes, que vivem entre n\u00f3s, como nossos irm\u00e3os e reconhecemos que o seu contributo \u00e9 \u00fatil \u00e0 nossa sociedade? Ou tendemos, mais ou menos conscientemente, a culp\u00e1-los da inseguran\u00e7a, do desemprego e da degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es laborais?  &#8211; As nossas preocupa\u00e7\u00f5es n\u00e3o deveriam conduzir-nos \u00e0 procura de caminhos para enfrentar a origem destes males e para a procura de solu\u00e7\u00f5es compat\u00edveis com a caridade evang\u00e9lica? Caminhos que passam pela melhor partilha dos bens da terra, pela aceita\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a, pelo zelo no cumprimento das leis laborais, pelo apoio a normas justas que regulem os fluxos migrat\u00f3rios, pela ajuda empenhada ao desenvolvimento dos pa\u00edses mais pobres.   8. Pela dignifica\u00e7\u00e3o do trabalho humano  N\u00e3o obstante o progresso material a que temos assistido nos \u00faltimos 20 anos, a que n\u00e3o \u00e9 alheio o fen\u00f3meno da globaliza\u00e7\u00e3o da economia, temos de reconhecer que o processo em curso tem sido acompanhado por um conjunto de consequ\u00eancias muito desfavor\u00e1veis para boa parte do trabalho humano as quais n\u00e3o podem passar despercebidas a quantos se preocupam em colocar a economia ao servi\u00e7o da pessoa humana, do seu bem-estar individual e colectivo. Em primeiro lugar, porque a desterritorializa\u00e7\u00e3o dos processos produtivos e a competitividade alargada e em condi\u00e7\u00f5es muito desiguais, que a globaliza\u00e7\u00e3o proporciona, d\u00e3o origem a situa\u00e7\u00f5es de desemprego de dif\u00edcil absor\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a re-estrutura\u00e7\u00e3o das economias com cria\u00e7\u00e3o de novos empregos \u00e9 lenta e a re-qualifica\u00e7\u00e3o dos trabalhadores exige, igualmente, tempo de adapta\u00e7\u00e3o a novos empregos. O desemprego elevado \u00e9 hoje um dos fen\u00f3menos sociais mais preocupantes na nossa sociedade. N\u00e3o ter emprego ou outra modalidade de actividade profissional remunerada constitui, s\u00f3 por si, uma priva\u00e7\u00e3o s\u00e9ria para a popula\u00e7\u00e3o em idade activa j\u00e1 que se traduz em insufici\u00eancia de rendimento, uma vez que as presta\u00e7\u00f5es compensat\u00f3rias ficam aqu\u00e9m das remunera\u00e7\u00f5es potencialmente auferidas. Acresce o facto de que o emprego \u00e9 uma via importante de realiza\u00e7\u00e3o pessoal, de socializa\u00e7\u00e3o e de inser\u00e7\u00e3o social; e, bem assim, constitui um dos factores primordiais de alicerce da auto-estima e do status social.  A falta de emprego est\u00e1 na origem de muitos comportamentos desviantes, assim como de depress\u00f5es e outras doen\u00e7as do foro ps\u00edquico e mental. A falta de emprego gera tens\u00f5es sociais e conflitualidade e mina as ra\u00edzes da perten\u00e7a social, seguramente um dos pilares mais s\u00f3lidos de uma sociedade democr\u00e1tica s\u00e3. Por outro lado, na medida em que induz acelera\u00e7\u00e3o nos processos de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica cada vez menos intensivos em m\u00e3o de obra, a globaliza\u00e7\u00e3o d\u00e1 lugar a press\u00f5es no sentido de maior precariedade no v\u00ednculo laboral e gera maior toler\u00e2ncia com a degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho.  Esta \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que presentemente se vive entre n\u00f3s e merece ser denunciada, nas suas m\u00faltiplas manifesta\u00e7\u00f5es: hor\u00e1rios de trabalho excessivamente longos, abuso do recurso a horas extraordin\u00e1rias, sal\u00e1rios baixos, desleixo nas condi\u00e7\u00f5es de higiene e seguran\u00e7a dos trabalhadores nos locais de trabalho, perda de direitos inquestion\u00e1veis, utiliza\u00e7\u00e3o indevida de formas contratuais prec\u00e1rias, etc..  A este prop\u00f3sito, cabe aqui fazer apelo n\u00e3o s\u00f3 a quem det\u00e9m o poder de legislar mas tamb\u00e9m \u00e0 Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica respons\u00e1vel pela aplica\u00e7\u00e3o das normas legais e aos tribunais a quem compete sancionar atempadamente o respectivo incumprimento. \u00c9 igualmente fundamental apelar \u00e0 consci\u00eancia dos empres\u00e1rios e gestores e, em geral, \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica para que se promova um maior respeito pela situa\u00e7\u00e3o de quem trabalha e pelos direitos dos trabalhadores. Vivemos tempos de transforma\u00e7\u00f5es profundas nas economias nacionais e mundiais que exigem novos instrumentos de regula\u00e7\u00e3o deste processo evolutivo. Est\u00e3o desencadeadas iniciativas interessantes no plano mundial. Entre elas, cabe saudar as que visam estender os direitos do trabalho a todos os pa\u00edses. \u00c9 importante prestar-lhes aten\u00e7\u00e3o. Mas que tal n\u00e3o nos dispense de, \u00e0 escala local e nacional, procurar, com urg\u00eancia, caminhos de maior criatividade na cria\u00e7\u00e3o de novas oportunidades de emprego digno e justamente remunerado para todos os desempregados que procuram trabalho. A situa\u00e7\u00e3o do desemprego juvenil \u00e9, a nosso ver, particularmente preocupante. Muitas vezes com elevadas qualifica\u00e7\u00f5es universit\u00e1rias, os jovens que n\u00e3o t\u00eam acesso ao  primeiro emprego est\u00e3o a desperdi\u00e7ar um recurso que, por sua natureza, n\u00e3o pode ser acumulado para ser utilizado mais tarde e, pior ainda, est\u00e3o privados de continuar a progredir na sua respectiva \u00e1rea de conhecimento. Acresce que, sem emprego ou com emprego prec\u00e1rio, como podem estes jovens formar novas fam\u00edlias, arranjar casa, fazer projectos de futuro?  Frustra\u00e7\u00e3o para o jovem desempregado, o desemprego juvenil constitui tamb\u00e9m uma s\u00e9ria disfun\u00e7\u00e3o do ponto de vista da organiza\u00e7\u00e3o da sociedade e das suas potencialidades de desenvolvimento. Neste quadro de reflex\u00e3o, queremos deixar algumas interroga\u00e7\u00f5es: &#8211;\tQuando tantas pessoas est\u00e3o desempregadas, n\u00e3o se h\u00e1 de questionar, em alguns casos, o duplo (e, \u00e1s vezes, triplo!) emprego, ou o recurso excessivo ao trabalho extraordin\u00e1rio? &#8211;\tN\u00e3o seria poss\u00edvel, a n\u00edvel local, incluindo as pr\u00f3prias par\u00f3quias, cuidar de ajudar os desempregados a criar para si pr\u00f3prios novos empregos em actividades consideradas \u00fateis do ponto de vista da colectividade ou mesmo em \u00e1reas de produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os, sobretudo em \u00e1reas desconsideradas pelo mercado?  &#8211;\tN\u00e3o \u00e9 chegada a hora de reflectir seriamente numa reparti\u00e7\u00e3o mais justa do emprego? H\u00e1 pessoas que pensam que, na sociedade globalizada em que nos encontramos, s\u00e3o as empresas multinacionais, o mercado mundial, as institui\u00e7\u00f5es financeiras e as grandes organiza\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas regionais e mundiais as \u00fanicas inst\u00e2ncias que podem ter uma palavra a dizer na concretiza\u00e7\u00e3o do processo de globaliza\u00e7\u00e3o em curso e nada resta aos mais fracos, pessoas, governos e povos, sen\u00e3o a pura submiss\u00e3o ou a revolta. Mas n\u00e3o \u00e9 assim. Os governos devem continuar a ser responsabilizados por pol\u00edticas que visem o bem comum, designadamente promovendo estrat\u00e9gias de desenvolvimento humano e sustent\u00e1vel e adoptando adequados esquemas de protec\u00e7\u00e3o social que permitam enfrentar as crises (desemprego e outras) com os menores custos sociais e humanos poss\u00edveis. Consideramos que \u00e9 tamb\u00e9m uma ocasi\u00e3o para apelar a uma maior exig\u00eancia de participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil \u2013 cidad\u00e3s e cidad\u00e3os de todas as idades e condi\u00e7\u00f5es sociais, empresas, associa\u00e7\u00f5es, institui\u00e7\u00f5es,  grupos informais &#8211;  e a que cada um assuma o papel que lhe cabe na \u201cconstru\u00e7\u00e3o da cidade\u201d. Nas sociedades democr\u00e1ticas, \u00e9 cada vez mais necess\u00e1rio que a democracia representativa seja complementada e estimulada pela democracia participativa. Apelamos \u00e0s comunidades crist\u00e3s, par\u00f3quias e movimentos a que acolham estas problem\u00e1ticas no \u00e2mbito das suas reflex\u00f5es e preocupa\u00e7\u00f5es pastorais correntes. A recente enc\u00edclica do Papa Bento XVI, Deus caritas est, oferece um ensinamento claro sobre a import\u00e2ncia das obras sociais da Igreja e de como estas devem responder \u00e0s novas necessidades da sociedade, com efici\u00eancia e dando testemunho do amor crist\u00e3o.   9. Em defesa dos bens p\u00fablicos N\u00e3o se pode ignorar a import\u00e2ncia que o acesso a bens p\u00fablicos \u2013 \u00e1gua e saneamento b\u00e1sico, servi\u00e7os de sa\u00fade ou de educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a social e assist\u00eancia em situa\u00e7\u00f5es de particular necessidade \u2013 tem  para largas parcelas da popula\u00e7\u00e3o. Fazem parte integrante de um modelo social, at\u00e9 h\u00e1 poucos anos, incontestado. Hoje, por\u00e9m, no mercado europeu e global, assiste-se a uma  forte press\u00e3o no sentido de tentar captar para o mercado a oferta de tais bens, ainda h\u00e1 pouco da responsabilidade de sector p\u00fablico. \u00c9 o que sucede, por exemplo, no dom\u00ednio do abastecimento de \u00e1gua pot\u00e1vel \u00e0s popula\u00e7\u00f5es, o que j\u00e1 motivou fortes protestos por parte de alguma opini\u00e3o p\u00fablica mundial que v\u00ea no neg\u00f3cio privado da \u00e1gua uma propens\u00e3o ao seu encarecimento e uma dificuldade acrescida de acesso a esse bem primordial por parte das popula\u00e7\u00f5es mais carenciadas.  O mesmo se poder\u00e1 dizer em rela\u00e7\u00e3o aos cuidados b\u00e1sicos de sa\u00fade ou \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, os quais caber\u00e1 ao Estado, directa ou subsidiariamente, garantir em igualdade de oportunidades para todos os cidad\u00e3os e cidad\u00e3s, sem preju\u00edzo das responsabilidades da sociedade no seu todo. Porque se trata de op\u00e7\u00f5es que muito t\u00eam a ver com a justi\u00e7a e a solidariedade, pensamos que, neste dom\u00ednio, cabe aos crist\u00e3os uma particular responsabilidade no sentido de defender a manuten\u00e7\u00e3o deste tipo de bens de interesse geral na esfera n\u00e3o lucrativa bem como pugnar sempre por uma maior efici\u00eancia na sua provis\u00e3o e uma maior equidade no respectivo acesso.    10. Confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es e reabilita\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica. N\u00e3o ignoramos que, veiculada pela situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e social, e n\u00e3o s\u00f3, existe tamb\u00e9m, entre n\u00f3s, uma s\u00e9ria  crise pol\u00edtica que se concretiza em v\u00e1rias frentes: o desinteresse da maioria dos cidad\u00e3os e cidad\u00e3s pela vida pol\u00edtica e partid\u00e1ria, indiferen\u00e7a crescente em rela\u00e7\u00e3o a actos eleitorais, desconfian\u00e7a generalizada relativa \u00e0s institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, suspei\u00e7\u00e3o de corrup\u00e7\u00e3o f\u00e1cil e impune por parte de funcion\u00e1rios e pol\u00edticos, etc.. \u00c9 imperioso reverter este panorama, eliminando os seus poss\u00edveis fundamentos. Em particular, \u00e9 urgente credibilizar a justi\u00e7a no nosso Pa\u00eds, tornando-a mais c\u00e9lere e respons\u00e1vel. \u00c9, igualmente, indispens\u00e1vel que o acesso \u00e0 justi\u00e7a esteja ao alcance de todos os cidad\u00e3os e cidad\u00e3s, independentemente do seu n\u00edvel de rendimento e capacidade de pagamento de custas e de honor\u00e1rios a advogados. Que, entre n\u00f3s, por nenhuma raz\u00e3o, possa prevalecer a convic\u00e7\u00e3o, t\u00e3o generalizada quanto deprimente, de que a justi\u00e7a s\u00f3 est\u00e1 ao alcance dos mais afortunados. Ultimamente t\u00eam vindo a p\u00fablico factos que indiciam que entre o poder pol\u00edtico e o poder econ\u00f3mico se est\u00e3o entretecendo rela\u00e7\u00f5es pouco transparentes. N\u00e3o se compreende, por exemplo, que aqueles que deixaram cargos p\u00fablicos de relevo venham, quase sem interrup\u00e7\u00e3o, a ser contratados como administradores e gestores de empresas, mormente quando estas se situam precisamente em sectores por aqueles anteriormente tutelados. A opini\u00e3o p\u00fablica tem denunciado estas situa\u00e7\u00f5es, mas, por ora, sem consequ\u00eancias vis\u00edveis. H\u00e1, obviamente, que legislar nesta mat\u00e9ria, mas \u00e9 necess\u00e1rio, sobretudo, que a consci\u00eancia colectiva  as considere eticamente reprov\u00e1veis e encontre os instrumentos adequados para as inviabilizar na pr\u00e1tica. N\u00e3o dever\u00e3o as nossas comunidades crist\u00e3s estar vigilantes neste dom\u00ednio e empenhadas em contribuir para uma maior exig\u00eancia no que se refere a comportamentos \u00e9ticos na pol\u00edtica e na condu\u00e7\u00e3o dos neg\u00f3cios? E que responsabilidade particular n\u00e3o t\u00eam os pol\u00edticos e gestores que se reconhecem como mulheres e homens de f\u00e9 em Jesus Cristo?   11. A quaresma \u2013 um tempo oportuno de convers\u00e3o e de esperan\u00e7a A Quaresma \u00e9 tempo oportuno para olharmos para as mudan\u00e7as em curso e para o modo como elas nos atingem e nos desafiam. Devemos faz\u00ea-lo, n\u00e3o a partir das nossas vis\u00f5es preconceituadas  e dos nossos interesses individualistas e ego\u00edstas, mas deixando-nos guiar pela luz do Evangelho e situando-nos sempre num horizonte de esperan\u00e7a. Ao terminar esta nossa reflex\u00e3o sobre aspectos relevantes do nosso viver em comum, em tempo de turbul\u00eancia e de risco, queremos, ainda, acrescentar algumas interroga\u00e7\u00f5es que ajudem a uma reflex\u00e3o pessoal e comunit\u00e1ria, neste tempo que dever\u00e1 ser de revis\u00e3o de vida, discernimento e convers\u00e3o: &#8211;    Como encaramos a mudan\u00e7a? Com temor ou com esperan\u00e7a? &#8211;\tSer\u00e1 que, n\u00f3s pr\u00f3prias\/os seguimos um modelo de vida consumista e nos sentimos desanimados\/as s\u00f3 porque n\u00e3o podemos continuar com o ritmo de consumo a que nos habitu\u00e1mos? &#8211;\tN\u00e3o ser\u00e1 esta uma oportunidade para rever, se for caso disso, os crit\u00e9rios b\u00e1sicos em que assenta o nosso estilo de vida? Se n\u00e3o estivermos atentos, o consumismo cria em n\u00f3s o sentimento de que tudo \u00e9 necess\u00e1rio, ao ponto de sacrificar-lhe valores importantes, tais como a vida familiar e a qualidade das demais rela\u00e7\u00f5es humanas, para podermos consumir mais, ter mais coisas. &#8211;\tEm que est\u00e1 assente o nosso conceito de felicidade? &#8211;\tAssumimo-nos como sujeitos activos deste mundo em transforma\u00e7\u00e3o ou resignamo-nos a ser apenas sujeitos passivos, privilegiados ou v\u00edtimas? &#8211;\t Ser\u00e1 que a magnitude dos desafios nos deixa conformados com a aparente inevitabilidade dos processos em curso e indiferentes ao cortejo das suas v\u00edtimas, ou, pelo contr\u00e1rio, nos move na busca de novas alternativas e nos leva a mobilizar as nossas energias no sentido de aproveitar as potencialidades criadas para abrir caminho \u00e0 justi\u00e7a, \u00e0 solidariedade e \u00e0 fraternidade, em todos os espa\u00e7os de proximidade em que nos movemos, mas sem esquecer o vasto Mundo e a constru\u00e7\u00e3o de uma cidadania mundial a que apelava Jo\u00e3o Paulo II?   Neste esfor\u00e7o de humaniza\u00e7\u00e3o, os disc\u00edpulos e disc\u00edpulas de Cristo, suas comunidades e movimentos n\u00e3o est\u00e3o isolados. Mais do que nunca, importa reconhec\u00ea-lo e, atrav\u00e9s do di\u00e1logo e da concerta\u00e7\u00e3o, encontrar plataformas de coopera\u00e7\u00e3o que libertem as sinergias de que o nosso mundo globalizado carece para n\u00e3o cair em novas barb\u00e1ries. Queremos um mundo de todos e para todos! A Palavra de Deus que a Igreja oferece \u00e0 nossa reflex\u00e3o, em cada dia e em cada Domingo da Quaresma, \u00e9 uma interpela\u00e7\u00e3o sobre o fundamental, sobre aquilo que realmente interessa para sermos felizes. Para construirmos um mundo justo e fraterno, um mundo de paz. Para captarmos o verdadeiro sentido de P\u00e1scoa, a passagem da morte \u00e0 vida, atrav\u00e9s do caminho estreito do amor e do servi\u00e7o. Para realizarmos a nossa pr\u00f3pria P\u00e1scoa.  Mar\u00e7o 2006 Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma reflex\u00e3o da CNJP na Quaresma de 2006<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[101,120,134,154,189,191,193,203,206,211,237,258,261,266,275,91,314,329],"class_list":["post-16580","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-africa","tag-bento-xvi","tag-cnjp","tag-crianca","tag-direitos-humanos","tag-economia","tag-educacao","tag-europa","tag-familia","tag-ferias","tag-joao-paulo-ii","tag-migracoes","tag-missoes","tag-nacoes-unidas","tag-pascoa","tag-quaresma","tag-solidariedade","tag-voluntariado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16580","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16580"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16580\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16580"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16580"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16580"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}