{"id":164342,"date":"2020-03-06T04:55:34","date_gmt":"2020-03-06T04:55:34","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=164342"},"modified":"2020-03-06T11:41:04","modified_gmt":"2020-03-06T11:41:04","slug":"padre-vitor-feytor-pinto-88-anos-de-vida-em-busca-do-acolhimento-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/padre-vitor-feytor-pinto-88-anos-de-vida-em-busca-do-acolhimento-de-deus\/","title":{"rendered":"Padre V\u00edtor Feytor Pinto: 88 anos de vida em busca do acolhimento de Deus"},"content":{"rendered":"<p><em>O Monsenhor V\u00edtor Feytor Pinto celebra hoje 88 anos de vida. O seu percurso de 65 anos de padre devo-o ao Conc\u00edlio Vaticano II, onde foi beber a renova\u00e7\u00e3o da Igreja que tanto ansiava e hoje reconhece no Papa Francisco. Sente-se profundamente livre: diz que deve a sua liberdade ao discernimento e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o que recebeu em casa, e isso permite-lhe ser amigo de diferentes pessoas, de diversas ideologias e contextos.<\/em><\/p>\n<p><em>Depois de ter passado por uma septicemia, em 2018, entende hoje o seu sacerd\u00f3cio como mais valioso. Com desassombro afirma que a vida crist\u00e3 \u00abn\u00e3o \u00e9 doutrina, n\u00e3o \u00e9 mandamentos, n\u00e3o \u00e9 liturgia. A vida crist\u00e3 \u00e9 Jesus\u00bb e que o paradigma dos crist\u00e3os, tal como o do Papa Francisco, tem de ser o amor.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por L\u00edgia Silveira<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_164442\" aria-describedby=\"caption-attachment-164442\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor_pinto.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-164442\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor_pinto.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor_pinto.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor_pinto-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor_pinto-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor_pinto-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor_pinto-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor_pinto-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor_pinto-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor_pinto-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-164442\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Ag\u00eancia Ecclesia (AE) \u2013 Chamam-lhe mais monsenhor ou padre?<\/em><\/p>\n<p>Monsenhor Vitor Feytor Pinto (VFP) \u2013 Chamam-me mais padre porque eu gosto muito que me tratem por padre. Ser monsenhor \u00e9 um t\u00edtulo, e eu tenho de agradecer muito ao Papa Bento XVI que me deu este t\u00edtulo, mas simplesmente no trato familiar, normal, em comunidade sou o padre V\u00edtor. \u00c9 assim que me sinto bem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Preparando este nosso encontro, encontrei um testemunho a seu respeito: \u00abTem a luminosidade intr\u00ednseca e a pureza de cora\u00e7\u00e3o de quem foi muito amado nos primeiros anos de vida. Recebeu com o leite materno a sentido da bondade das coisas\u00bb. Reconhece-se?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Penso que \u00e9 um elogio muito grande. Uma coisa verdadeira \u00e9 o carinho dos meus pais, sobretudo da minha m\u00e3e, que era uma senhora espantosa e me acompanhou ao longo de toda a minha vida sacerdotal.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que ela tinha uma dist\u00e2ncia muito grande do meu pai: o meu pai era um crente fervoroso e a minha m\u00e3e era uma crente cr\u00edtica. Muito interessante porque queria aprofundar as coisas. A certa altura estudou tanta Teologia e considerou que conhecia mais Teologia do que eu. T\u00ednhamos discuss\u00f5es at\u00e9 \u00e0s 4h da manh\u00e3 sobre problemas teol\u00f3gicos, muito interessantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Em heran\u00e7a de f\u00e9, recebeu mais da sua m\u00e3e ou do seu pai?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Dos dois. No fundo, um filho que tem uns pais assim \u00e9 fruto da mistura da sua rela\u00e7\u00e3o. O meu pai levou a minha m\u00e3e a aprofundar muito a sua f\u00e9, porque a minha m\u00e3e tinha uma f\u00e9 pequenina e o meu pai tinha uma f\u00e9 de beir\u00e3o. A m\u00e3e tinha nascido em Coimbra, o seu pai era professor na Universidade no tempo da Rep\u00fablica. Havia uma dist\u00e2ncia muito grande dos problemas da Igreja e da f\u00e9. A minha m\u00e3e respirou essa n\u00e3o-f\u00e9, no ambiente em que vivia em Coimbra.<\/p>\n<p>Conheceram-se a estudar na Universidade de Coimbra; a m\u00e3e achou o meu pai um rapaz simp\u00e1tico e ele ajudou-a a aprofundar a sua f\u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Est\u00e1 na nascen\u00e7a, no amor e na seguran\u00e7a que se recebe em pequeno, as ra\u00edzes para no futuro, em adulto, uma pessoa sentir-se segura, amada, confiante. Acredita que est\u00e1 no seu ber\u00e7o as raz\u00f5es da sua luminosidade de 87 anos?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 A nossa casa era de alegria extrema. Com a cultura da minha m\u00e3e, o sentido crist\u00e3o profundo do meu pai, efetivamente, isso teria de repetir-se em todos n\u00f3s. Os quatro irm\u00e3os s\u00e3o assim, por temperamento somos assim: felizes, alegres, profundos quanto poss\u00edvel, crentes a n\u00e3o poder ser mais.<\/p>\n<p>Eu escolhi o sacerd\u00f3cio e sinto-me muito feliz desde que achei que devia ser padre, sinto-me muito feliz com a op\u00e7\u00e3o que fiz, que \u00e9 uma voca\u00e7\u00e3o. Reconhe\u00e7o profundamente que estou na voca\u00e7\u00e3o em que Deus quis que eu estivesse.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Em que \u00e9 que a liberdade foi marcando o seu percurso? Tamb\u00e9m em casa, porque n\u00e3o seria esse o percurso sonhado pelo seu pai, mas com liberdade o padre Feytor Pinto foi impondo a sua voca\u00e7\u00e3o, no respeito pela liberdade do que o seu pai um dia sonhou para si\u2026<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Em minha casa os pais deixavam os filhos em completa liberdade, mas criavam regras e n\u00f3s t\u00ednhamos de ser fi\u00e9is a essas regras. \u00c0s vezes n\u00e3o \u00e9ramos e t\u00ednhamos uns castigos muito engra\u00e7ados\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Como por exemplo?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Ter uma linha de costura presa \u00e0 perna e a uma cadeira e n\u00e3o poder partir a linha. Era algo muito complicado, quando rebeldes n\u00f3s eramos. Senti-me bem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; A liberdade foi sempre marcando o seu percurso.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Profundamente livre. E livre numa coisa interessante: n\u00e3o sou capaz de estar preso a ideologias, a partidos, a opini\u00f5es que podem ter um contradit\u00f3rio. Sinto completamente livre o meu cora\u00e7\u00e3o e a minha mente, precisamente para poder optar, porque perante o meu discernimento \u00e9 aquilo pelo qual devo optar. Sinto-me feliz, porque me sinto completamente livre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Teve a certeza da voca\u00e7\u00e3o muito cedo, ou foi confirmando no seu percurso no Semin\u00e1rio?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Aos cinco anos disse aos meus pais que queria ser padre e aos 10 impus-me. O pai queria que eu fosse para o liceu, ele tinha um Col\u00e9gio, e eu disse que n\u00e3o, que o meu lugar seria no Semin\u00e1rio. Naquele tempo entrava-se no Semin\u00e1rio aos 10 e eu entrei aos 10.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Porque queria fazer o percurso todo\u2026<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Queria fazer o percurso todo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Influenciado pelos anteriores sacerdotes da sua fam\u00edlia.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Cheg\u00e1mos a ser sete padres na nossa fam\u00edlia. Todos eles beir\u00f5es, logicamente. Do lado de Coimbra n\u00e3o havia sacerdotes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Lembra-se do que o marcava ao ver os seus familiares sacerdotes? Tinha inspira\u00e7\u00e3o para prosseguir esta inquieta\u00e7\u00e3o vocacional?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Tinha uma devo\u00e7\u00e3o imensa em ajudar \u00e0 missa de dois tios padres, os mais novos. Eles preparavam. Foi curioso, j\u00e1 o disse, quando est\u00e1vamos em Castelo Branco, um dos tios ia passar f\u00e9rias connosco, e eu levantava-me \u00e0s 6 horas da manh\u00e3 para acolitar na missa, ajudar na S\u00e9 de Castelo Branco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Eram os gestos, os ritos\u2026<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Tinha um gosto enorme. Sentia que o meu caminho seria parecido com os meus tios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Durante o tempo de Semin\u00e1rio n\u00e3o vacilou, teve d\u00favidas?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Tive de me discernir muito, aten\u00e7\u00e3o. Durante 12 ou 13 anos, no Semin\u00e1rio, era extremamente importante estar atento \u00e0 realidade. Eu hesitei, claro, eu duvidei. Eu tive a preocupa\u00e7\u00e3o de sentir o que era de verdade. E na altura da p\u00f3s-adolesc\u00eancia, 16, 17 e 18 anos, foram tempos de grande clarifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aos 18, 19 anos decidi, indiscutivelmente, que o meu caminho era do sacerd\u00f3cio. Foi nessa altura que iniciei Teologia. Queria conhecer o mist\u00e9rio de Deus, o desafio de Jesus Cristo, deixar-me apanhar pela for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo. Foi uma riqueza enorme.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Foi dif\u00edcil deixar a fam\u00edlia para tr\u00e1s?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 N\u00e3o, n\u00e3o senti que tinha deixado a fam\u00edlia. Senti mesmo que a minha fam\u00edlia, todos, pai, m\u00e3e e irm\u00e3os, se sentiam felizes com o meu sacerd\u00f3cio. Curioso que o meu pai tinha feito ao reitor do Semin\u00e1rio uma exig\u00eancia: durante a perman\u00eancia no Semin\u00e1rio, quando estava em casa, vestia como os meus irm\u00e3os, convivia com os meus irm\u00e3os, ia \u00e0s festas como os meus irm\u00e3os. O meu pai pediu isso ao reitor e ele concordou porque reconheceu um ambiente familiar bom. Isso tamb\u00e9m facilitou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; \u00c9 do tempo do Semin\u00e1rio as cartas trocadas com a sua irm\u00e3?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Sim, \u00e9 do tempo do Semin\u00e1rio. Com uma das irm\u00e3s, a Maria de F\u00e1tima, a mais pr\u00f3xima de mim. Estabelecemos uma rela\u00e7\u00e3o muito bonita. \u00c9ramos os traquinas da casa. A minha irm\u00e3 mais velha era muito calma e serena, dava-se muito \u00e0s leituras; o meu irm\u00e3o era um homem interessant\u00edssimo, n\u00e3o s\u00f3 com a sua cultura mas tamb\u00e9m na arte, era extraordin\u00e1rio. Era o pianista das grandes orquestras na Universidade de Coimbra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Os ser\u00f5es musicais marcaram a sua vida. Come\u00e7ou a tocar piano, violino\u2026<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 N\u00e3o havia televis\u00e3o. Toc\u00e1vamos piano, eu tocava violino, cantava-se, declamava-se poesia. Muitos poemas que hoje sei, declamava-os aos 10,11 ou 12 anos em casa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Que poetas?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Jos\u00e9 R\u00e9gio, Fernando Pessoa, de uma forma espetacular. Outros tamb\u00e9m: Guerra Junqueiro, no livro \u00abOs simples\u00bb tem poemas fabulosos. Mais tarde tivemos curiosidade em conhecer os poetas brasileiros. N\u00f3s cultiv\u00e1vamos o ser\u00e3o com cultura. Na altura era uma sorte n\u00e3o ter televis\u00e3o. Havia mais conv\u00edvio e os nossos pais a exigirem o contributo para a festa comum no ser\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Na companhia de Beethoven, Mozart, Chopin.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Todos eles.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; A m\u00fasica marca o seu crescimento. E o seu gosto atual.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Os meus descansos s\u00e3o passados a ouvir m\u00fasica ou a ver \u00f3peras. \u00c9 de uma riqueza enorme para o cora\u00e7\u00e3o e intelecto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Ao longo da sua vida contatou com muitas pessoas, viu nascer muitas fam\u00edlias, participa do seu dia-a-dia. O que se aprende hoje com as fam\u00edlias?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Tenho fam\u00edlias que acompanho h\u00e1 cinco gera\u00e7\u00f5es: os casamentos, batizados, casamentos de filhos, batizados de etos, num ou noutro funeral. Sou o padre que realiza os sacramentos. E n\u00e3o costumo ir almo\u00e7ar nem jantar. Mesmo aqui na par\u00f3quia, praticamente nunca jantei com paroquianos, porque isso seria privilegiar uns e n\u00e3o outros, porque n\u00e3o poderia ir a todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Mas acompanha o crescimento das fam\u00edlias.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Sim, acompanho e isso \u00e9 muito importante para mim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; O que aprende com as fam\u00edlias hoje?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Aprendo e desafio: \u00e0 unidade, \u00e0 comunh\u00e3o. Houve fam\u00edlias em que houve testamentos e n\u00e3o houve nenhuma briga, todos se encontraram na solu\u00e7\u00e3o. Isso para mim \u00e9 o que melhor revela a uni\u00e3o entre as fam\u00edlias, a serenidade na transmiss\u00e3o dos bens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Sente-se no cora\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 E as fam\u00edlias est\u00e3o no meu. Rezo muito por todas, por todos os casais a que presidi ao casamento, por todas as crian\u00e7as que batizei e por todas as fam\u00edlias que acompanho. \u00c9 um elemento da minha ora\u00e7\u00e3o, a experi\u00eancia vital de Deus. Deus est\u00e1 presente nestas fam\u00edlias, nos casais, nas crian\u00e7as. E tamb\u00e9m est\u00e1 presente por mim, pelo meu sacerd\u00f3cio, n\u00e3o pela minha riqueza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id='gallery-1' class='gallery galleryid-164342 gallery-columns-3 gallery-size-thumbnail'><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-vocacao-do-padre-vitor-feytor-pinto-nascida-na-familia-emissao-10-02-2020\/vitor-feytor-pinto-3\/'><img decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/vitor_feytor_pinto2020b-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" aria-describedby=\"gallery-1-162377\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<figcaption class='wp-caption-text gallery-caption' id='gallery-1-162377'>\n\t\t\t\tAg\u00eancia ECCLESIA\/MC &#8211; padre V\u00edtor Feytor Pinto\n\t\t\t\t<\/figcaption><\/figure><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/padre-vitor-feytor-pinto-88-anos-de-vida-em-busca-do-acolhimento-de-deus\/vitor-feytor-pinto-2\/'><img decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/vitor_feytor_pinto2020a-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" aria-describedby=\"gallery-1-162376\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<figcaption class='wp-caption-text gallery-caption' id='gallery-1-162376'>\n\t\t\t\tAg\u00eancia ECCLESIA\/MC &#8211; padre V\u00edtor Feytor Pinto\n\t\t\t\t<\/figcaption><\/figure><figure class='gallery-item'>\n\t\t\t<div class='gallery-icon landscape'>\n\t\t\t\t<a href='https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/eutanasia-debate-esta-a-ser-colocado-da-pior-forma-possivel-padre-vitor-feytor-pinto\/vitor-feytor-pinto\/'><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"150\" height=\"150\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/vitor_feitor_pinto2020-150x150.jpg\" class=\"attachment-thumbnail size-thumbnail\" alt=\"\" aria-describedby=\"gallery-1-161826\" \/><\/a>\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<figcaption class='wp-caption-text gallery-caption' id='gallery-1-161826'>\n\t\t\t\tFoto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/ MC &#8211; padre V\u00edtor Feytor Pinto\n\t\t\t\t<\/figcaption><\/figure>\n\t\t<\/div>\n\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Mem\u00f3rias do dia da ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal<\/strong><\/h3>\n<p><em>AE- 65 anos de sacerd\u00f3cio, a celebrar em julho. Ainda recorda esse dia?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 N\u00e3o havia de recordar? Levantei-me \u00e0s 6 da manh\u00e3 e, curiosamente, na v\u00e9spera tinha estado a preparar-me na ora\u00e7\u00e3o, e estava uma manh\u00e3 lind\u00edssima, a desafiar o sol que ia chegar. Acordei com uma pomba a picar o vidro da minha janela. Olhei e pensei: de facto o Esp\u00edrito Santo est\u00e1 a querer chegar nesta hora. Recordo profundamente. Olhei e vi aquela pomba depois a esvoa\u00e7ar.<\/p>\n<p>A ordena\u00e7\u00e3o foi \u00e0s 7 da manh\u00e3: naquela altura as ordena\u00e7\u00f5es eram muito cedo. S\u00f3 com a fam\u00edlia, algumas pessoas da cidade, eram muito discretas. Hoje uma ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal \u00e9 algo espetacular.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; E a missa nova?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Oito dias depois, no dia 17 de julho, na S\u00e9 nova de Coimbra. Os meus pais nessa altura j\u00e1 viviam em Coimbra. Foi de uma beleza extraordin\u00e1ria. Tinha como di\u00e1cono e subdi\u00e1conos os meus tios padres, na altura n\u00e3o havia concelebra\u00e7\u00f5es; e como presb\u00edtero assistente um sacerdote, p\u00e1roco da S\u00e9 velha de Coimbra.<\/p>\n<p>Vieram os meus colegas, o reitor do Semin\u00e1rio do Fund\u00e3o, que foi o orador, na altura era um serm\u00e3o. E os paramentos eram g\u00f3ticos, fabulosos, do fim do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; H\u00e1 uma frase sua que diz que se n\u00e3o fosse o Conc\u00edlio Vaticano II (1962-1965), o seu sacerd\u00f3cio n\u00e3o teria vingado. O Concilio marca o seu minist\u00e9rio, mas a sua forma\u00e7\u00e3o foi feita antes.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 A minha forma\u00e7\u00e3o foi toda pr\u00e9-conciliar. Fiquei, depois, nove anos a trabalhar na diocese da Guarda, onde me ordenei. Fiquei coadjutor na S\u00e9, durante dois anos, e depois fui f\u00e2mulo do bispo durante sete anos.<\/p>\n<p>Nessa altura trabalhei na JEC (Juventude Estudantil Cat\u00f3lica) e tamb\u00e9m dei aulas de Educa\u00e7\u00e3o Moral e Religiosa Cat\u00f3lica (EMRC), e de M\u00fasica e Portugu\u00eas na Escola Comercial da Guarda, fundada nessa altura. Orientei o coro da cidade, fui fundador, e animava muitas coisas.<\/p>\n<p>Naquela altura a diocese tinha grandes dificuldades, precisamente por causa dos problemas pol\u00edticos. Os novos sacerdotes tinham uma cultura que j\u00e1 n\u00e3o se coadunava com a pouca liberdade de pensamento. Surgiu um grande conflito na diocese. Um grande n\u00famero de sacerdotes estava a ser questionado pelo bispo. Aquilo foi muito dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Eu estava f\u00e2mulo do bispo, n\u00e3o podia estar de acordo em algumas coisas \u2026 Associei-me muito aos que efetivamente se interrogavam sobre a presen\u00e7a da Igreja no mundo da pol\u00edtica, na altura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Encontrava espa\u00e7o para esse questionamento?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Nitidamente. Criei uma grande rela\u00e7\u00e3o com algumas pessoas que estavam opostas ao regime de ent\u00e3o. T\u00ednhamos ser\u00f5es muito interessantes para poder conversar sobre todas as coisas. Soube depois que, quando foi o 25 de abril, o governador civil entregou a minha ficha \u00e0 PIDE. Interessante.<\/p>\n<p>Nessa altura eu senti que a minha voca\u00e7\u00e3o brigava no meio daquele conflito. Eu sentia que a Igreja tinha de ser de comunh\u00e3o, n\u00e3o de tens\u00e3o. Nessa altura pedi, profundamente, ao bispo que me deixasse ir para Roma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Acompanhar as duas \u00faltimas sess\u00f5es do Conc\u00edlio.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Com D. Manuel Vieira Pinto com quem trabalhei, depois, seis anos, a anunciar o Concilio. Na altura em que consegui ir para Roma, aprofundar a minha f\u00e9, valorizar a minha conce\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica. Toda a Teologia do Conc\u00edlio era para mim uma extraordin\u00e1ria revolu\u00e7\u00e3o e uma verdadeira revela\u00e7\u00e3o de Deus e de Jesus Cristo. Por isso fui apaixonado pelo Conc\u00edlio e o Conc\u00edlio moldou a minha vida e formou o meu sacerd\u00f3cio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Ainda hoje.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 O meu grande l\u00edder e respons\u00e1vel por radicar o meu sacerd\u00f3cio foi D. Manuel Vieira Pinto, com quem tenho uma imensa gratid\u00e3o. Numa atitude de grande descri\u00e7\u00e3o aconselhou-me e orientou-me. Aqueles dois anos em Roma ajudaram-me muito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Como recordar essas duas sess\u00f5es do Concilio, que teve oportunidade de acompanhar?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Os padres do Concilio eram os nossos mestres. Antev\u00edamos a conclus\u00e3o que iria ser votada, precisamente no Concilio, pela reflex\u00e3o desses grandes professores, o Joseph Ratzinger era um deles. Foram momentos \u2013 estive no Centro Internacional Pio XII, onde foi ali a minha forma\u00e7\u00e3o \u2013 e essa forma\u00e7\u00e3o permitiu atualizar-me profundamente e revolucionar a minha teologia e a\u00e7\u00e3o pastoral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; O documento \u00abGaudium et Spes\u00bb, a constitui\u00e7\u00e3o pastoral do Conc\u00edlio Vaticano II, promulgada em 1965, \u00e9 um dos documentos da sua vida?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Sem d\u00favida, \u00e9 um documento fundamental. Tem o essencial da rela\u00e7\u00e3o da Igreja com o mundo: defender a dignidade humana, constituir a comunidade humana e promover a atividade humana. Tem toda a presen\u00e7a da Igreja naquilo que \u00e9 a ordem temporal: a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia tem de ser crist\u00e3, n\u00e3o pode ser an\u00e1rquica, tem de ter valores crist\u00e3os para ser projetora de uma grande felicidade.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da fam\u00edlia, um problema muito importante \u00e9 o da cultura. H\u00e1 muitos homens e mulheres da cultura que dizem que s\u00e3o agn\u00f3sticos. N\u00e3o conhecem o mist\u00e9rio de Deus, caso contr\u00e1rio saberiam que a cultura \u00e9 um caminho para a ultrapassagem e chegar ao mist\u00e9rio de Deus que d\u00e1 sentido \u00e0 nossa vida.<\/p>\n<p>Num debate em que esteve o Jos\u00e9 Saramago e o D. Manuel Clemente, o escritor dizia que n\u00e3o gostava nem conhecia Deus, mas o Sr D. Manuel disse-lhe, algo muito bonito: mas Deus gosta de si.<\/p>\n<p>De facto o problema da cultura \u00e9 um caminho extraordin\u00e1rio para encontrar o mist\u00e9rio de Deus.<\/p>\n<p>Outro campo \u00e9 o da economia social, que agora se desenvolve de uma maneira muito bonita, com a Economia de Francisco. A Economia de Francisco \u00e9 exatamente a dimens\u00e3o econ\u00f3mica da vida econ\u00f3mico-social contida no Conc\u00edlio.<\/p>\n<p>Depois, a interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Este documento, da ordem temporal, diz que os crist\u00e3os t\u00eam de estar na pol\u00edtica, t\u00eam de desenvolver os bens da comunidade humana, n\u00e3o podem deixar de ser cr\u00edticos perante a dignidade e liberdade humana. T\u00eam, por isso, de intervir na pol\u00edtica quando chamados para contemplar a verdade, a justi\u00e7a, a liberdade, a paz e o amor.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, a \u00abGaudium et Spes\u00bb pode atuar na constru\u00e7\u00e3o da paz. E nesse texto o Papa Paulo VI, em 1968 criou o Dia Mundial da Paz, que ainda hoje celebramos no dia 1 de janeiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Renova\u00e7\u00e3o da Igreja e pontificado do Papa Francisco<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Est\u00e1 a desaparecer o sentido de renova\u00e7\u00e3o, aquele com que cresceu?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Em todos os ciclos hist\u00f3ricos a realidade que est\u00e1 no poder tem cr\u00edticos. No meu tempo, no princ\u00edpio do meu sacerd\u00f3cio, s\u00f3 se via a espiritualidade. N\u00f3s, jovens padres, sentimos a urg\u00eancia da temporalidade, da dimens\u00e3o crist\u00e3 da temporalidade. Quisemos a renova\u00e7\u00e3o. Depois, veio o Conc\u00edlio, que veio confirmar a nossa esperan\u00e7a numa renova\u00e7\u00e3o profunda da Igreja.<\/p>\n<p>Atualmente esta renova\u00e7\u00e3o conciliar deveria estar a ser vivida, mas ainda est\u00e1 muito aqu\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Quando o Papa Francisco diz que a realidade \u00e9 superior \u00e0 ideia, est\u00e1 precisamente a seguir essa linha\u2026<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Ele efetivamente tem uma alma conciliar, uma intelig\u00eancia conciliar, um cora\u00e7\u00e3o conciliar. Ele \u00e9 fabuloso. Se esta \u00e9 a corrente papal, alguns certamente come\u00e7am a criticar para julgar que o importante \u00e9 o passado. S\u00e3o tremendos conservadores.<\/p>\n<p>Ser conservador, moderadamente, n\u00e3o \u00e9 negativo, logicamente. \u00c9 uma forma de estar na vida. Mas ser conservador de tal maneira que se oponha \u00e0 renova\u00e7\u00e3o que o Papa Francisco est\u00e1 a tentar fazer na linha conciliar, isto \u00e9 absolutamente desastroso. \u00c9 dividir a comunidade crist\u00e3. Isso n\u00e3o pode ser.<\/p>\n<p>Mas uma coisa curiosa: o Conc\u00edlio de Trento (1545 \u2014 1563) s\u00f3 teve a sua plenitude executiva 100 anos depois. N\u00f3s ainda estamos nos 60 anos depois do t\u00e9rmino do Conc\u00edlio Vaticano II. Ainda \u00e9 poss\u00edvel criar uma Igreja renovada que seja, de facto conciliar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; A realiza\u00e7\u00e3o dos S\u00ednodos que o Papa tem convocado, apela a essa din\u00e2mica.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 E muito bem. E a novidade que os S\u00ednodos do Papa Francisco t\u00eam mostrado, mas todos, no geral. Todos foram continua\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio. N\u00e3o atrasaram, nem diminu\u00edram a evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; O Papa Francisco diz que o importante \u00e9 abrir processos.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 E caminhar. Tenho um livro que me ofereceram, publicado na altura dos meus 50 anos de sacerd\u00f3cio, que diz que \u00abo caminho faz-se caminhando\u00bb. O caminho dos crist\u00e3os, o caminho da Igreja tamb\u00e9m se faz caminhando. Porque a cada passo surgem novas quest\u00f5es e pela luz do Esp\u00edrito, pelo discernimento humano, efetivamente, iremos descobrir qual o lugar para onde devemos ir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; No caminho, perde-se o horizonte de Jesus Cristo?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 A vida crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 doutrina, a vida crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 mandamentos, a vida crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 liturgia. A vida crist\u00e3 \u00e9 Jesus. N\u00f3s temos que nos centrar em Jesus, porque \u00e9 raz\u00e3o da vida de um crist\u00e3o, da vida da Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; O que \u00e9 que isso quer dizer para uma pessoa que n\u00e3o \u00e9 crente?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 \u00c9 muito f\u00e1cil: conversar com ele e relevar-lhe Jesus pelo amor que temos. Porque Jesus \u00e9 amor. Se eu amo algu\u00e9m estou a dar-lhe Jesus. Ele aos poucos, vai descobrir isso. Quem o disse foi o Papa Paulo VI, no documento \u00abEvangelli Gaudium\u00bb: O testemunho crist\u00e3o consiste em acolher e compreender toda a gente, ser solid\u00e1rio sobretudo com os mais pobres e viver a vida no seu ambiente, fazendo parte desse mundo. Sendo assim, os outros que nos ouvem e que nos veem a amar assim, v\u00e3o perguntar porque \u00e9s assim? Ent\u00e3o eu tenho a oportunidade de dizer: porque creio em Jesus Cristo. A isto se chama o in\u00edcio da evangeliza\u00e7\u00e3o, o kerigma, o an\u00fancio de Jesus Cristo. \u00c9 muito bonito.<\/p>\n<p>Pelo nosso amor os outros descobrem porque \u00e9 que este homem \u00e9 assim, porque \u00e9 que ele me perdoa? Porque \u00e9 que n\u00e3o se vingou de mim? Porque \u00e9 que me perdoou e me quer reconciliado? Eu tenho a oportunidade de dizer, porque acredito em Jesus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_164441\" aria-describedby=\"caption-attachment-164441\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor-pinto1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-164441 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor-pinto1.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor-pinto1.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor-pinto1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor-pinto1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor-pinto1-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor-pinto1-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor-pinto1-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor-pinto1-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/feytor-pinto1-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-164441\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Igreja e em di\u00e1logo<\/strong><\/h3>\n<p><em>AE \u2013 O padre Feytor Pinto \u00e9 um homem de di\u00e1logo, e nesse di\u00e1logo encontra caminhos comuns, \u00e0s vezes em campos que a sociedade considera opostos.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 N\u00f3s, crist\u00e3os, n\u00e3o podemos ser opostos, advers\u00e1rios. Companheiros com ideias diferentes, ideologias diferentes, op\u00e7\u00f5es diferentes, religi\u00f5es diferentes, mas companheiros. Com o nosso testemunho de vida, o que \u00e9 a nossa realidade, anuncia o que \u00e9 a comunidade crist\u00e3.<\/p>\n<p>O cardeal Maradiaga disse-me, num encontro em Lisboa, que o Papa Francisco quer mudar a paradigma da Igreja. As regras eram ir \u00e0 missa ao domingo, comungar na P\u00e1scoa da ressurrei\u00e7\u00e3o, confessar-me uma vez por ano. Isto eram as regras, o paradigma. Quem \u00e9 crist\u00e3o \u00e9 quem vai \u00e0 missa? N\u00e3o \u00e9. Quem \u00e9 crist\u00e3o \u00e9 quem ama. O paradigma da Igreja, dos crist\u00e3os \u00e9 o amor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E estamos a afirmar isso?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 N\u00e3o tanto, mas esta tem de ser a inten\u00e7\u00e3o. Eu digo, com toda a simplicidade, eu tento viver isto. Tento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E procurou viver com diferentes pessoas que vieram ter consigo, com quem se encontrou em diferentes contextos\u2026<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Estive num trabalho de responsabilidade pol\u00edtica. O problema da droga e das migra\u00e7\u00f5es, das culturas, esse campo no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, na Presid\u00eancia do Conselho de Ministros. Conheci muita gente de muita cor e sou amigo de todos. H\u00e1 muita gente com quem trabalhei que n\u00e3o tem a f\u00e9 crist\u00e3, que at\u00e9, eventualmente ser\u00e3o contra alguma aspeto, mas somos amigos. A amizade e o amor fraterno \u00e9 a plataforma da evangeliza\u00e7\u00e3o, o primeiro campo do kerigma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 No livro dos seus 50 anos de sacerd\u00f3cio escreviam que, com igual dignidade, o padre Feytor Pinto est\u00e1 na par\u00f3quia, nas comunidades mais pequenas, como nos mais altos cargos e nas reuni\u00f5es no Vaticano. Todos os ambientes trata com igual dignidade.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 N\u00e3o sei se sou assim, porque n\u00e3o me posso julgar, n\u00e3o sei, sei que tento isso. Cada pessoa que est\u00e1 ao meu lado, qualquer que seja a sua f\u00e9, qualquer que seja a sua idade ou partido pol\u00edtico, \u00e9 a presen\u00e7a de Jesus, porque foi Jesus que mo disse: ao mais pequenino dos meus irm\u00e3os, \u00e9 a mim que serves.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Dizem tamb\u00e9m que procura acertar numa pastoral mais pr\u00f3xima da vida das pessoas. Sair das ideias e dogmas para ir ao encontro da realidade.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Sem d\u00favida. O Papa Francisco \u00e9 assim, ela fala tanto de proximidade e, talvez antes do Papa Francisco o dizer\u2026 eu estava muito preocupado com o ser pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Os seus 65 anos de padre dizem, isso, j\u00e1 antes do Papa Francisco o indicar. N\u00e3o sabe ser diferente?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 \u00c9 do ber\u00e7o, julgo que n\u00e3o. Fui moldado assim pelos meus pais. Sinto isto com muita alegria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E escuta todos?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Sim, todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O seu telefone toca, batem \u00e0 porta do seu gabinete\u2026<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Est\u00e1 sempre aberta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 A escuta \u00e9 um minist\u00e9rio central de um padre? Mais do que administrar sacramentos?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 A raz\u00e3o do seu celibato \u00e9 estar completamente dispon\u00edvel para todos. Depois, qual o tipo de disponibilidade? Isso depende do problema da pessoa. A pessoa tem um problema, a pessoa tem de estar dispon\u00edvel para isso. Isto \u00e9 muito bonito. S\u00e3o Tiago diz isto: a f\u00e9 sem obras \u00e9 morta.<\/p>\n<p>Quando te pedirem alguma coisa e n\u00e3o responderes, n\u00e3o ajudares concretamente, efetivamente n\u00e3o tens uma f\u00e9 ativa, mas te\u00f3rica. \u00c9 impressionante. As cartas dos ap\u00f3stolos e os Evangelhos t\u00eam uma atualidade fant\u00e1stica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Qual o livro que mais aprecia?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Os Evangelhos. \u00c9 Jesus. O Evangelho de Jo\u00e3o, fant\u00e1stico. O de Lucas, o de Marcos, s\u00e3o catequeses. Ali vemos a originalidade do cristianismo e a sua beleza. Jesus esteve pr\u00f3ximo de todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Quando as pessoas o procuram e o padre Feytor Pinto as escuta, o que acontece nesse encontro? As pessoas saem melhor depois de estar consigo\u2026<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Este escrit\u00f3rio \u00e9 muito giro, h\u00e1 pessoas que entram a chorar e saem a sorrir, n\u00e3o a rir, mas a sorrir. E isso \u00e9 muito importante. Vou tentando fazer isso com todas as pessoas, que todos os que daqui saem, depois de conversar, saiam a sorrir.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso encontrar o segredo para nortear a pessoa, ainda quando a pessoa n\u00e3o pode continuar a fazer o que faz. Tem de ser a pessoa a descobrir.<\/p>\n<p>O problema da escuta n\u00e3o \u00e9 de orienta\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o gosto da express\u00e3o de \u00abdiretor espiritual\u00bb, ser eu a dizer o que ele vai fazer. Na conversa eu tenho de iluminar, apontar v\u00e1rios caminhos, at\u00e9 a pessoa descobrir o que \u00e9 melhor para si. E o que \u00e9 melhor para si \u00e9 diferente do que julgava antes. Este segredo, esta maneira de refletir, penso que \u00e9 muito importante e bonito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Este escrit\u00f3rio testemunhou encontros muito bonitos. Ali\u00e1s, \u00abbonito\u00bb \u00e9 uma palavra que o padre Feytor Pinto usa muito\u2026 Sente-se confortado por estes momentos.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Sinto-me muito bem. Gosto muito de ajudar uma pessoa a sair daqui em paz, serena.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E todos os dias confirma o seu sacerd\u00f3cio por esses momentos.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 A minha vida hoje, \u00e9 essa: celebrar a Eucaristia, algum sacramento do batismo e receber pessoas. Quando querem algum confidente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Padre no mundo da sa\u00fade<\/strong><\/h3>\n<p><em>AE \u2013 Nos di\u00e1logos e nas pontes que foi estabelecendo na sua vida, j\u00e1 fal\u00e1mos de v\u00e1rios quadrantes na vida pol\u00edtica n\u00e3o apenas eclesial, em que esteve e atuou, quais as pontes mais dif\u00edceis de fazer?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Penso que o mundo da droga \u00e9 muito complicado. Tent\u00e1mos naqueles seis anos, em que estive \u00e0 frente dessa \u00e1rea, desenvolver um processo que salvasse quantos fosse poss\u00edvel salvar. A salva\u00e7\u00e3o naquela altura era muito limitada, 16-18% dos que trat\u00e1vamos. Mas foi muito interessante o trabalho que realiz\u00e1mos porque foi, de uma maneira especial, o trabalho preventivo.<\/p>\n<p>Naquela altura a nossa grande preocupa\u00e7\u00e3o era o doente, tentar cur\u00e1-lo ou cuidar dele. Se n\u00e3o \u00e9ramos capazes de o curar eramos capazes de cuidar dele. Antes quer\u00edamos prevenir: na escola, nas fam\u00edlias para que os adolescentes e jovens n\u00e3o ca\u00edssem nos consumos.<\/p>\n<p>Isto foi um trabalho muito bonito. Curiosamente, dentro da equipa de 40 pessoas vindas de todos os partidos, de todas as ideologias, da f\u00e9 religiosa d\u00edspar, de todos os estatutos sociais e todos unidos. Todos nos respeit\u00e1vamos e est\u00e1vamos objetivados na luta contra o consumo da droga, na luta pela cura dos doentes, est\u00e1vamos objetivados nisto e tudo o resto era secund\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c0s ter\u00e7as-feiras t\u00ednhamos uma reuni\u00e3o com representantes de oito Minist\u00e9rios. No primeiro ano foi muito dif\u00edcil porque era um filho de muita m\u00e3e. E a perspetiva de cada minist\u00e9rio era terr\u00edvel. No fim dos seis anos \u00e9ramos amigos profundos e continuamos hoje a s\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Na altura sentia-se que o Minist\u00e9rio das Finan\u00e7as era o que mais mandava?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Na altura deram-nos muito dinheiro. Os dois Minist\u00e9rios, a Presid\u00eancia do Conselho de Ministros, com o primeiro-ministro Cavaco Silva, deu razoavelmente um or\u00e7amento bom. O or\u00e7amento que nos foi dado pelo engenheiro Guterres foi espetacular. Pudemos fazer muito trabalho. Cada tost\u00e3ozinho era aplicado a s\u00e9rio e com imenso rigor.<\/p>\n<p>Eu nunca assinava um cheque em primeiro lugar; a primeira assinatura era de um ministro. Ter muito cuidado e ser muito transparente para poder ser eficaz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 A eutan\u00e1sia est\u00e1 a ser colocada da melhor forma?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Est\u00e1 a ser colocada da pior forma. N\u00e3o \u00e9 um problema religioso mas humano. N\u00e3o \u00e9 um problema de opini\u00e3o pessoal, mas da Constitui\u00e7\u00e3o Portuguesa, artigo 41, artigo 3\u00ba dos Direitos Humanos: o direito \u00e0 vida \u00e9 incondicional e n\u00e3o se pode travar precisamente a vida por circunst\u00e2ncia nenhuma.<\/p>\n<p>Temos de cultivar os cuidados paliativos porque, eu sei muito bem isso, s\u00e3o suficientemente eficazes para poder tirar completamente a dor, sofrimento n\u00e3o tira porque \u00e9 espiritual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O facto de n\u00e3o haver investimento nos Cuidados Paliativos \u00e9 uma quest\u00e3o de or\u00e7amento?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Julgo que se d\u00e1 raz\u00e3o ao or\u00e7amento, mas penso que efetivamente, n\u00e3o sei se sou capaz de dizer uma coisa, \u00e9 muito mais caro os cuidados paliativos do que a precipita\u00e7\u00e3o da morte. E os governos, \u00e0s vezes, e os pol\u00edticos \u00e0s vezes, t\u00eam o problema econ\u00f3mico e t\u00e9cnico muito mais \u00e0 frente do que o problema humano.<\/p>\n<p>O Papa diz isso num documento not\u00e1vel, \u00abLaudato Si\u00bb. O novo paradigma do mundo \u00e9 o paradigma tecnol\u00f3gico, cient\u00edfico e econ\u00f3mico, e sacrifica-se o paradigma fundamental que \u00e9 da dignidade e liberdade humana. N\u00e3o podemos tirar liberdade a ningu\u00e9m, n\u00e3o podemos tirar dignidade a ningu\u00e9m, n\u00e3o podemos tirar vida a ningu\u00e9m porque n\u00e3o h\u00e1 dignidade nem liberdade sem a vida.<\/p>\n<p>O problema da eutan\u00e1sia \u00e9 um problema de destrui\u00e7\u00e3o de vida, n\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o do sofrimento. Temos sim de destruir o sofrimento mantendo a vida. Destruir o sofrimento s\u00f3 com cuidados paliativos. S\u00e3o caros mas temos de faz\u00ea-los para garantir a vida de todos os cidad\u00e3os para todos terem a certeza de que no fim da sua vida n\u00e3o lhes v\u00e3o provocar a sua morte por conveni\u00eancia pol\u00edtica, econ\u00f3mica ou das fam\u00edlias que sofrem.<\/p>\n<p>As fam\u00edlias podem sofrer mas n\u00e3o podem destruir a dignidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>A f\u00e9, o sofrimento e a morte<\/strong><\/h3>\n<p><em>AE \u2013 A sua f\u00e9 nunca vacilou?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 N\u00e3o. Tenho d\u00favidas, de explica\u00e7\u00e3o de algumas coisas, mas aqui respondo como o Papa. Ele diz: \u00abEu tamb\u00e9m tenho d\u00favidas\u00bb.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Que d\u00favidas tem?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 No campo da Teologia, justificar muitos princ\u00edpios e valores. Mas tenho uma s\u00edntese extraordin\u00e1ria utilizada no Novo Testamento: quando esbarro com uma porta e a minha raz\u00e3o n\u00e3o consegue, penso: \u00abA Deus nada \u00e9 imposs\u00edvel\u00bb. Esta palavra serena-me. Ofere\u00e7o a Deus e digo-lhe \u00abCuida Tu das minhas d\u00favidas\u00bb.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O desconhecido n\u00e3o o amedronta?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 N\u00e3o, \u00e9 normal. Vou entrar num avi\u00e3o e ele pode cair, mas n\u00e3o deixo de entrar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Confia em Deus para se abandonar nas suas m\u00e3os e n\u00e3o perder tempo a pensar no desconhecido?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Deus \u00e9 amor. Nada mais. N\u00e3o \u00e9 um juiz, n\u00e3o \u00e9 um carrasco, n\u00e3o \u00e9 um castigador, nada disso. Deus \u00e9 amor e ama-me. Deus far\u00e1 tudo para que se eu for pecador, me converta. Para poder depois, estar com ele na gl\u00f3ria. Mas tenho de fazer o meu caminho de fidelidade ao Senhor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 \u00c9 natural ter medo da morte?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Sim, \u00e9 natural, mas quando lemos S\u00e3o Paulo, sobretudo, compreendemos precisamente que a vida n\u00e3o acaba, apenas se transforma. Desfeita a morada do ex\u00edlio terrestre, adquirimos no c\u00e9u uma habita\u00e7\u00e3o eterna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E como \u00e9 que essas palavras de tornam vida e n\u00e3o apenas palavras escritas?<\/em><\/p>\n<p>VFT \u2013 H\u00e1 uns tempos falei com uma jornalista e disse-lhe: a morte \u00e9 apenas uma porta, do lado de c\u00e1 est\u00e1 um limite da natureza, n\u00e3o \u00e9 a bondade de Deus, n\u00e3o \u00e9 um castigo de Deus, mas o limite. A morte \u00e9 um limite da natureza. Do lado de l\u00e1 est\u00e1 a ternura maravilhosa de Deus que nos acolhe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Como se vive isso no dia-a-dia?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Serenamente. As doen\u00e7as s\u00e3o um limite da natureza, as ignor\u00e2ncias, os desastres. S\u00e3o limites, assim como a morte. A natureza n\u00e3o nos permite a imortalidade. Temos de nos preparar para chegar a essa porta. N\u00e3o sabemos quando a vamos encontrar no caminho percorrido. Mas eu sei que do lado de l\u00e1 est\u00e1 a miseric\u00f3rdia de Deus.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo disse-nos isto de uma maneira espantosa: no cap\u00edtulo 15 da sua primeira carta aos Cor\u00edntios: H\u00e1 por ai Cor\u00edntios que dizem que n\u00e3o h\u00e1 ressurrei\u00e7\u00e3o, mas se n\u00e3o h\u00e1 ressurrei\u00e7\u00e3o Cristo n\u00e3o ressuscitou e a nossa f\u00e9 \u00e9 v\u00e3, a nossa vida \u00e9 in\u00fatil, sem significado. Mas ele ressuscitou, e porque ressuscitou n\u00f3s ressuscitamos com ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Essa \u00e9 a sua esperan\u00e7a?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Completamente e acrescento com muita verdade: quero merec\u00ea-lo, quero merecer que Deus me acolha.<\/p>\n<p>N\u00f3s, padres rezamos uma ora\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica, no brevi\u00e1rio, do velho Sime\u00e3o: Senhor, tu podes hoje levar o teu servo em paz, porque j\u00e1 vi a salva\u00e7\u00e3o de Israel. Em cada noite, quando adormecemos estamos nas m\u00e3os de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Como \u00e9 que encara o sofrimento? Em 2018 o padre Feytor Pinto passou por um per\u00edodo dif\u00edcil\u2026<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 O sofrimento faz parte da vida. O sofrimento, por vezes, tem vantagens, valores. O sofrimento permite-nos, pela esperan\u00e7a, o desafio da ultrapassagem. Cremos vencer o sofrimento, queremos ultrapass\u00e1-lo e fazemo-lo \u00e0s vezes, com barbit\u00faricos e terapias, mas por vezes o sofrimento n\u00e3o vai com terapias vai com o controlo da mente. E acredito que com o controlo do esp\u00edrito conseguimos serenar no meio do sofrimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 \u00c9 a sabedoria que permite chegar a esse estado?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Penso que \u00e9 mais: \u00e9 o confiar completamente em Deus que nos possuiu e que tudo o que \u00e9 o mist\u00e9rio do nosso sofrimento nos permite unirmo-nos ao sofrimento de Jesus, e sermos coredentores com Jesus. Esta espiritualiza\u00e7\u00e3o do sofrimento alivia-nos. Permite-nos a paz e a serenidade. Julgo isso.<\/p>\n<p>Eu tive, em outubro de 2018, uma septicemia e estive do outro lado. \u00c9 curioso que quando me apercebi, me pus nas m\u00e3os de Deus. E julgo que n\u00e3o senti mais nada. Durante aquele tempo, em que estive meio adormecido ou em coma, n\u00e3o senti mais nada. Fiquei sereno. Sereno com todos os problemas que uma Unidade de Cuidados Intensivos cont\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Sentiu-se no conforto de Deus?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Senti sim. Foi-me dada a Santa Un\u00e7\u00e3o e eu pensei: \u00abSenhor, estou nas tuas m\u00e3os\u00bb. \u00c9 curioso que acordei tr\u00eas, quatro ou cinco dias depois e acordei em paz, acordei muito em paz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Mas renovado para viver o que ainda ai vem?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 E a luta. Quando sa\u00ed do hospital n\u00e3o podia deter-me de p\u00e9. Recuperei e fui para a Casa sacerdotal, onde estou agora num ambiente de carinho enorme, e esse ambiente tamb\u00e9m me recuperou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Como \u00e9 que olha para essa experi\u00eancia, hoje?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Normal. Qualquer pessoa pode ter este problema, \u00e9 uma enfermidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Pelo que passou, pelo que sentiu, pelas ora\u00e7\u00f5es que lhe foram chegando\u2026<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Penso que Deus teve piedade de mim, ou melhor, Deus disse para os seus bot\u00f5es: \u00abAinda preciso de ti ai, portanto fica\u00bb.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Para fazer o qu\u00ea?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Para fazer o que fa\u00e7o. O exerc\u00edcio do meu sacerd\u00f3cio hoje \u00e9 muito mais rico, depois desta experi\u00eancia. Foi muito forte e violenta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 \u00c0 segunda-feira ainda descansa? Desaparece?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Sim, desapare\u00e7o, sem d\u00favida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Como \u00e9 que descansa?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Almo\u00e7o fora, ou\u00e7o m\u00fasica, passeio se me levarem de autom\u00f3vel, junto ao mar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Tem praias preferidas?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Neste momento \u00e9 entre Cascais e o Guincho. Essa zona retempera-me.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O mar ajuda-o a descansar?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Muito. O mar \u00e9 para mim a imagem de Deus. Joga-se no mar a experi\u00eancia de Deus: a sua grandeza e beleza. Olhar para o mar, para a sua beleza, necessariamente compreendemos que Deus existe.<\/p>\n<p>Da mesma forma como quando olhamos para uma crian\u00e7a. Uma crian\u00e7a revela-nos, indiscutivelmente o mist\u00e9rio de Deus, na sua perfei\u00e7\u00e3o. \u00c9 fant\u00e1stico. Como \u00e9 que aquele pequenino resulta de dois cromossomas, de uma m\u00f3rula que, nove meses depois, \u00e9 uma perfei\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas espetacular. Como \u00e9 que isto \u00e9 poss\u00edvel? Quando olharmos para esta realidade, n\u00e3o podemos deixar de ter f\u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Os tr\u00eas pontos da homilia<\/strong><\/h3>\n<p><em>AE \u2013 Ardor, paix\u00e3o, novidade, sentido da Igreja ainda dar\u00e3o muitos frutos na vida do padre Feytor Pinto\u2026.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Tenho um amor profundo \u00e0 Igreja. Esta comunidade crist\u00e3 quando se entrela\u00e7a pelo amor entre todos \u00e9 uma imagem bela. \u00c9 o que diz S\u00e3o Jo\u00e3o no Evangelho, cap\u00edtulo 17, vers\u00edculo 20: \u00abQue todos sejam um, Pai, como tu est\u00e1s em mim e eu em ti. Que eles tamb\u00e9m estejam em n\u00f3s, para que o mundo creia que tu me enviaste\u00bb. A evangeliza\u00e7\u00e3o faz parte de uma Igreja una, de uma Igreja unida, cheia de comunh\u00e3o, cheia de vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Radica a sua vida na B\u00edblia, s\u00e3o v\u00e1rios os trechos que sabe de cor, naturalmente pelo trabalho que faz, mas \u00e9 l\u00e1 que radica a sua vida.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 \u00c9 o meu alimento. Tudo o que \u00e9 Teologia tem de radicar na Sagrada Escritura. Sobretudo no Novo Testamento, mas tamb\u00e9m no Antigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Como \u00e9 que com 87 anos se chega ao amb\u00e3o, no domingo, e com toda a vivacidade e alegria, se pede a renova\u00e7\u00e3o e o cont\u00e1gio, com alegria dos crist\u00e3os que celebram consigo?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 \u00c9 uma gra\u00e7a muito grande que Deus me d\u00e1. Eu preparo muito bem as homilias, praticamente a partir de quinta-feira, vejo o texto, tento cruz\u00e1-los, vejo qual o pensamento comum e, ao descrever a trama b\u00edblica, nos tr\u00eas textos com a coordenada comum que \u00e9 a tem\u00e1tica que quero desenvolver, fa\u00e7o tr\u00eas pontos.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso que h\u00e1 muita gente que toma notas dos tr\u00eas pontos. Vai alimentar a vida das pessoas. \u00c9 engra\u00e7ado. As pessoas terem gosto de ouvir alguma coisa que \u00e9 \u00fatil para si, n\u00e3o \u00e9 uma conversa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Tem muito a ver com a forma como \u00e9 transmitido.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Sem d\u00favida. Eu gosto muito de comunicar e um comunicar pr\u00e1tico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Quando, h\u00e1 pouco dizia, que o seu minist\u00e9rio se confirma, nestes \u00faltimos tempos pelo que passou a n\u00edvel de sa\u00fade, relaciona-se com o que transmite no amb\u00e3o e d\u00e1 significado \u00e0 vida das pessoas.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 O amb\u00e3o \u00e9 a linha prof\u00e9tica de um sacerdote. Um sacerdote tem de ter profetismo, n\u00e3o pode dar palavras. Para quem tem o dever de falar, de transmitir valores para outro que ouve se transformar, n\u00e3o dizer nada \u00e9 um pecado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Como \u00e9 que se explicam 43 anos numa par\u00f3quia?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Foi uma presen\u00e7a diversificada em tr\u00eas tempos.<\/p>\n<p>Com o padre Armindo, no in\u00edcio, eu vinha apenas celebrar a eucaristia das 19h, em 1975. Inicialmente estavam sete pessoas, depois foi enchendo, enchendo, enchendo, foi preciso tirar uma parede da igreja e fazer um sal\u00e3o, depois mais tr\u00eas degraus e mais tarde, o sal\u00e3o que est\u00e1 hoje. E encheu sempre.<\/p>\n<p>Quando fui nomeado p\u00e1roco em 1997 a organiza\u00e7\u00e3o da par\u00f3quia deu-me muito gosto: gostei muito de desenvolver e a par\u00f3quia cresceu muito.<\/p>\n<p>Em 2017 o Senhor Patriarca perguntou-me se eu queria que fosse nomeado um coadjutor ou se preferia sair e ser nomeado outro sacerdote? Eu acho que o ideal seria ter um sacerdote jovem, com quem eu colaboro. Esta \u00e9 a terceira fase. Estes quase tr\u00eas anos t\u00eam sido uma fase com o padre Hugo Gon\u00e7alves, que \u00e9 um sacerdote extraordin\u00e1rio, e que tem a lideran\u00e7a da par\u00f3quia e eu obede\u00e7o ao que ele me pede. Ele consulta-me no que entende. Este interc\u00e2mbio \u00e9 maravilhoso e tamb\u00e9m rejuvenesce o meu cora\u00e7\u00e3o de padre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 43 anos explicam-se pelas rela\u00e7\u00f5es que se criam, pela afetividade e pelo crescer junto?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Para meu crescimento, meu profundo crescimento. Antes tinha cargos oficiais, cargos na Igreja, mas n\u00e3o tinha a obriga\u00e7\u00e3o da eucaristia pontual, ia celebrando em diferentes locais e eu precisava de uma comunidade.<\/p>\n<p>Quando tive oportunidade de me ser dada uma comunidade, para que o meu sacerd\u00f3cio rendesse mais, consegui faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Quando lhe perguntam por locais que lhe sejam caros \u00e9 o Campo Grande que elege.<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Estou a viver na casa sacerdotal, saio de l\u00e1 para aqui, e ao final do dia regresso \u00e0 casa para jantar. E \u00e9 uma vida toda aqui, praticamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>AE \u2013 Continua a mov\u00ea-lo a felicidade das pessoas?<\/p>\n<p>VFP \u2013 Quero que as pessoas sejam felizes. Pesar-me-ia que pudesse perturbar a vida de algu\u00e9m. Quero ajudar as pessoas a ser felizes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E as pessoas ajudam-no ser feliz?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Eu julgo que \u00e9 rec\u00edproco. Sou inspirado por um grande autor, que n\u00e3o \u00e9 cat\u00f3lico nem crente, Erich Fromm, autor do livro \u00abA Arte de Amar\u00bb. Ele define o amor como a arte de me esquecer de mim para ir ao encontro do outro e o fazer feliz. Esta vis\u00e3o est\u00e1 muito no meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Tem projetos, escritos que gostaria de tornar p\u00fablico?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 Estou a escrever mensalmente na revista \u00abFam\u00edlia Crist\u00e3\u00bb, escrevo tamb\u00e9m no jornal da par\u00f3quia. Ocasionalmente pedem-me algum escrito mais.<\/p>\n<p>Os meus olhos j\u00e1 n\u00e3o me permitem ler, mas o secretariado da par\u00f3quia ajuda-me. Agora eu escrevo, falando. Uma das secret\u00e1rias escreve o que eu digo. Fica muito bem e eu admiro muito as pessoas do secretariado, porque ainda v\u00e3o \u00e0 minha frente, e conseguem reproduzir o que eu j\u00e1 n\u00e3o consigo escrever.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 \u00c9 mais uma forma de carinho?<\/em><\/p>\n<p>VFP \u2013 \u00c9 muito bonito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Monsenhor V\u00edtor Feytor Pinto celebra hoje 88 anos de vida. O seu percurso de 65 anos de padre devo-o ao Conc\u00edlio Vaticano II, onde foi beber a renova\u00e7\u00e3o da Igreja que tanto ansiava e hoje reconhece no Papa Francisco. 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