{"id":16383,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/funchal-homenageou-d-david-de-sousa\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"funchal-homenageou-d-david-de-sousa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/funchal-homenageou-d-david-de-sousa\/","title":{"rendered":"Funchal homenageou D. David de Sousa"},"content":{"rendered":"<p>\u00abFelizes os que habitam na vossa casa Senhor\u00bb (Sl. 83)  1. No passado Domingo, 5 de Fevereiro quando realizava uma visita pastoral \u00e0 Boaventura, uma senhora idosa aproximou-se de mim e disse-me: Morreu o Senhor D. David de Sousa, antigo Bispo do Funchal.  Ao Senhor D. David Deus concedeu uma idade patriarcal, morreu com 94 anos, ajudava os estudantes franciscanos no Semin\u00e1rio da Luz a estudar grego e hebraico, l\u00ednguas que antes leccionara, levava uma vida pac\u00edfica e feliz, apesar dos contratempos pr\u00f3prios de uma longa idade.  Ap\u00f3s uma vida dedicada a Deus e aos irm\u00e3os, desde a juventude, o Senhor chamou-o a participar da sua felicidade: \u00abFelizes os que habitam na vossa casa, Senhor, eles podem louvar-Vos continuamente\u00bb.   2 &#8211; Nascido a 25 de Outubro de 1911 na Diocese do Porto, desde muito jovem D. David sentiu-se atra\u00eddo pela espiritualidade de S\u00e3o Francisco, e com 15 anos ingressou em Tui, na Espanha no Col\u00e9gio Ser\u00e1fico da Prov\u00edncia Portuguesa. Aluno inteligente e estudioso foi enviado para Roma a estudar Teologia e Sagrada Escritura e, regressando a Portugal, foi um estimado e conhecido professor destas disciplinas, at\u00e9 que a 25 de Setembro de 1957, o Papa Pio XII o nomeou bispo do Funchal. Foi ordenado Bispo na Catedral de Lisboa pelo Cardeal patriarca D. Manuel Gon\u00e7alves Cerejeira a 10 de Novembro de 1957.  A entrada na Diocese do Funchal foi dram\u00e1tica, devido ao mar agitado que n\u00e3o permitiu ao navio Angola atracar no porto do Funchal. Tendo esperado um dia no mar, seguiu para o Porto da Cruz, onde desembarcou sendo recebido pelas autoridades e muito povo. Seguiu para a Quinta de S\u00e3o Jorge donde veio tomar posse da diocese a 8 de Dezembro de 1957 na Catedral do Funchal.  Recordo-me do primeiro encontro com D. David, quando lhe comuniquei que tinha sido escolhido para estudar Teologia e Sagrada Escritura em Roma. Entusiasmou-me por esse estudo e quando mais tarde lhe pedi para frequentar a Escola B\u00edblica de Jerusal\u00e9m, concedeu-me essa licen\u00e7a, gra\u00e7a que sempre recordarei.  Durante os oito anos de episcopado na Madeira, devido aos meus estudos em Roma e Jerusal\u00e9m, s\u00f3 estive na Diocese durante quatro anos. Nomeou-me professor de Sagrada Escritura, l\u00ednguas orientais e membro da equipa formadora do Semin\u00e1rio, pedindo-me, al\u00e9m disso, para ser Assistente espiritual na Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica e Cursos de Cristandade.  D. David, apesar da falta de experi\u00eancia pastoral numa par\u00f3quia, em pouco tempo tomou consci\u00eancia das maiores urg\u00eancias da Diocese e encontrou medidas cujos efeitos se projectam no futuro.  Sendo necess\u00e1rio separar os cursos de Teologia e escola secund\u00e1ria no Semin\u00e1rio, tomou a iniciativa de comprar o hotel Bela Vista em 1958, sendo obrigado para isso a esvaziar as pequenas economias da Diocese, do Cabido e pedir ajuda \u00e0s par\u00f3quias que colaboraram durante v\u00e1rios anos.  O futuro veio demonstrar como a seculariza\u00e7\u00e3o obrigou a tomar medidas diferentes. Mandou formar diversos sacerdotes em Roma e universidades estatais, e foi com grande tristeza que teve conhecimento de alguns deles terem abandonado o sacerd\u00f3cio. Procurou ser pai bondoso para com os sacerdotes, mas lamentou ser maltratado e difamado por alguns deles. A hist\u00f3ria repete-se, desde os tempos de Cristo at\u00e9 hoje.  Para a catequese, numa fase ainda pouco evolu\u00edda, criou o Secretariado Diocesano da Catequese que foi depois aperfei\u00e7oado pelo seu sucessor, at\u00e9 que o Plano Nacional elaborou os novos catecismos, dando uma unidade na evangeliza\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e adolescentes.  Considerando o ent\u00e3o confort\u00e1vel n\u00famero de sacerdotes e a demasiada popula\u00e7\u00e3o de algumas par\u00f3quias, empreendeu o seu maior trabalho na diocese, o estudo e divis\u00e3o das par\u00f3quias, criando 50 que foram desmembradas das 52 j\u00e1 existentes. O futuro demonstrou como era necess\u00e1rio a divis\u00e3o, embora algumas delas com as emigra\u00e7\u00f5es internas e externas ficassem demasiado pequenas e fosse necess\u00e1rio uni-las sob a direc\u00e7\u00e3o do mesmo p\u00e1roco.  A necessidade criada com a constru\u00e7\u00e3o das novas Igrejas ainda n\u00e3o terminou, mas teve o cond\u00e3o de dotar a diocese com uma rede de edif\u00edcios modernos e adaptados \u00e0 nova pastoral. D. David n\u00e3o teve a felicidade de as visitar mas interrogava-me sobre elas. Dedicou a Igreja do Campan\u00e1rio e colocou 9 primeiras pedras para constru\u00e7\u00f5es futuras. Os problemas que surgiram com as divis\u00f5es das par\u00f3quias e incompreens\u00f5es de alguns membros do Clero, foram uma coroa de espinhos que o atormentaram at\u00e9 deixar a diocese.  Tendo em conta o servi\u00e7o caritativo dos vicentinos aplicou \u00e0 Madeira os projectos de constru\u00e7\u00e3o de casas para o Patrim\u00f3nio dos Pobres.  Um dos graves problemas que muito o afligiram foi encontrar meios econ\u00f3micos para a sustenta\u00e7\u00e3o do Jornal da Madeira, tendo sido obrigado a vender a quase totalidade do patrim\u00f3nio im\u00f3vel da Diocese.  D. David participou no maior acontecimento da Igreja no s\u00e9culo XX, o Conc\u00edlio Vaticano II, desde 11 de Outubro de 1962 at\u00e9 ao seu termo.  Em 1965, como sucedeu com muitos dos seus antecessores na Diocese, foi transferido para o Continente para a Arquidiocese de \u00c9vora, c\u00e1tedra que ocupou at\u00e9 1981, data em que a deixou, devido \u00e0 falta de sa\u00fade, principalmente da vista. Deus chamou-o \u00e0 sua presen\u00e7a a 5 de Fevereiro deste ano. Paz \u00e0 sua alma.   3 &#8211; \u00abN\u00e3o h\u00e1 maior amor do que dar a vida por aqueles que se ama\u00bb, esta \u00e9 a \u00fanica forma de ser bispo e seguir Jesus Cristo porque \u00abDeus \u00e9 amor\u00bb. Com humildade e simplicidade franciscana, D. David viveu os seus \u00faltimos anos numa total disponibilidade aos pequenos servi\u00e7os que transformam a vida em felicidade.  Hoje a vida alonga-se de tal forma que se algu\u00e9m morre por volta dos setenta anos, at\u00e9 se diz que \u00abera jovem\u00bb! Podemos dizer o mesmo de D. David, embora ele morresse com uma idade patriarcal. Teve a felicidade de uma velhice aben\u00e7oada por Deus, com qualidade de vida, n\u00e3o s\u00f3 biol\u00f3gica, mas humana, espiritual, em harmonia com Deus e os homens, esperando a irm\u00e3 morte.  O modelo das bem-aventuran\u00e7as \u00e9 um convite \u00e0 felicidade, que \u00e9 um paradoxo para alguns, ou seja, o contr\u00e1rio do que se espera num mundo pag\u00e3o. A felicidade nunca ser\u00e1 plena sen\u00e3o no Reino de Deus, nos novos c\u00e9us, onde o mal e a morte foram vencidos, mas desse Reino j\u00e1 podemos saborear em parte neste mundo, quando n\u00e3o separamos o amor da justi\u00e7a.  Santo Agostinho escreve nas suas Confiss\u00f5es que o homem n\u00e3o desejaria tanto a felicidade se j\u00e1 a n\u00e3o possu\u00edsse de qualquer forma. Para este santo, a felicidade \u00e9 a \u00abalegria que vem da verdade\u00bb, ou seja, o gozo de Deus que \u00e9 a Verdade. Esta experi\u00eancia do Eterno s\u00f3 \u00e9 plena quando ressoar aos nossos ouvidos a m\u00fasica de Deus, naquele Reino onde os eleitos dan\u00e7am \u00e9brios de alegria, porque, \u00e9 ainda Agostinho que nos diz: Deus \u00e9 m\u00fasica, ritmo, harmonia.  Os Padres da Igreja diziam, que \u00abDeus criou o homem e o colocou no para\u00edso, isto \u00e9, em Cristo\u00bb. O para\u00edso \u00e9 a nossa voca\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma oferta de Deus a todos os seus filhos.  Pedimos a Deus que fa\u00e7a participante da sua felicidade o nosso saudoso Bispo, que ele seja saciado na Paz de Cristo, com Maria, m\u00e3e de Jesus, com S. Francisco e a irm\u00e3 Santa Clara, com todos os santos do Para\u00edso.  Com o salmista n\u00f3s proclamamos tamb\u00e9m: \u00abFelizes os que habitam na vossa casa Senhor (Sl. 83).    Missa Exequial por alma de D. David de Sousa  <i>\u2020 Teodoro de Faria, Bispo do Funchal<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abFelizes os que habitam na vossa casa Senhor\u00bb (Sl. 83) 1. No passado Domingo, 5 de Fevereiro quando realizava uma visita pastoral \u00e0 Boaventura, uma senhora idosa aproximou-se de mim e disse-me: Morreu o Senhor D. David de Sousa, antigo Bispo do Funchal. Ao Senhor D. 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