{"id":163738,"date":"2020-02-28T07:00:10","date_gmt":"2020-02-28T07:00:10","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=163738"},"modified":"2020-02-28T10:00:29","modified_gmt":"2020-02-28T10:00:29","slug":"eutanasia-nao-podemos-desistir-dos-nossos-doentes-raquel-abreu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/eutanasia-nao-podemos-desistir-dos-nossos-doentes-raquel-abreu\/","title":{"rendered":"Eutan\u00e1sia: \u00abN\u00e3o podemos desistir dos nossos doentes\u00bb &#8211; Raquel Abreu"},"content":{"rendered":"<p>Uma semana depois da aprova\u00e7\u00e3o, no Parlamento, de cinco projetos lei com vista \u00e0 futura legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia, a Ecclesia e a Renascen\u00e7a conversam com Raquel Abreu, que superou uma doen\u00e7a incapacitante, sobre a sua experi\u00eancia pessoal, a eutan\u00e1sia e a distan\u00e1sia, porque \u00e9 preciso parar tratamentos quando n\u00e3o h\u00e1 mais nada a fazer. \u00c9 desde h\u00e1 sete anos uma \u2018patient advocate\u2019, dedicando-se a acompanhar doentes com patologias graves, cr\u00f3nicas e raras<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_163739\" aria-describedby=\"caption-attachment-163739\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-163739\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_1-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_1-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_1-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_1-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_1-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_1-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_1.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-163739\" class=\"wp-caption-text\">Fotos: RR\/Miguel Rato<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>\u00c9 contra a eutan\u00e1sia e manifestou isso de forma contundente em v\u00e1rios artigos de opini\u00e3o que escreveu, tanto em 2018 como agora, que o assunto voltou a estar em cima da mesa. Surpreendeu-a que desta vez os projetos de lei tenham sido aprovados no Parlamento?<\/em><\/p>\n<p>Infelizmente n\u00e3o me surpreendeu. Quando em 2018, muito ativamente e at\u00e9 a convite de alguns movimentos pr\u00f3-vida, como o STOP Eutan\u00e1sia, fui falar a grupos parlamentares, a universidades e a grupos de jovens, j\u00e1 havia uma sensa\u00e7\u00e3o entre o movimento pr\u00f3-vida de que mesmo que daquela vez passasse o &#8216;n\u00e3o&#8217;, era uma vit\u00f3ria ef\u00e9mera. Ali\u00e1s, eu escrevi um artigo a dizer \u2018vencemos hoje, mas e agora?&#8217;. E toda a gente dizia &#8216;agora esta legislatura est\u00e1 a acabar, e este assunto vai entrar outra vez&#8217;. Houve quase uma desist\u00eancia, nada se fez.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O que \u00e9 que mais a chocou no processo?<\/em><\/p>\n<p>Neste processo agora? V\u00e1rias coisas. Chocou-me a pressa legislativa, chocou-me (ver) que a maior parte dos partidos n\u00e3o tinha no seu programa eleitoral a eutan\u00e1sia, ou qualquer assunto relacionado com a eutan\u00e1sia.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Nem foi um tema central do debate para as legislativas\u2026<\/em><\/p>\n<p>De maneira nenhuma, o assunto esteve escondido. Ali\u00e1s, quem est\u00e1 atento ao tema sabia isso, e foi dizendo v\u00e1rias vezes &#8216;aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se est\u00e1 a falar deste assunto, est\u00e1-se a esconder o assunto de prop\u00f3sito\u2019. O que tamb\u00e9m me preocupa muito foi que n\u00e3o se ouviram os especialistas, fez-se t\u00e1bua rasa do que disseram os especialistas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Houve v\u00e1rios pareceres negativos que n\u00e3o foram tidos em conta, nomeadamente dos profissionais de sa\u00fade.<\/em><\/p>\n<p>Dos profissionais de sa\u00fade, da Comiss\u00e3o de \u00c9tica, da Ordem dos M\u00e9dicos, da Ordem dos Enfermeiros, todos os pareceres mesmo jur\u00eddicos foram negativos. Estamos a violar direitos fundamentais, estamos a violar a Constitui\u00e7\u00e3o, e estamos a esquecer uma coisa &#8211; que eu abordei na cr\u00f3nica que escrevi para a Renascen\u00e7a na semana passada &#8211; que \u00e9 isto: a partir da II guerra mundial constru\u00edmos a nossa sociedade fazendo valer um princ\u00edpio fundamental que est\u00e1 na base da nossa pir\u00e2mide, que \u00e9 o direito \u00e0 vida, porque quer\u00edamos evitar atropelos \u00e0 vida. Legisl\u00e1mos para proteger a vida mesmo contra a nossa vontade, n\u00e3o s\u00f3 de atos criminosos como de atos n\u00e3o criminosos, porque entendemos que a vida \u00e9 um direito fundamental, e todas as sociedades consideradas civilizadas, todos os Estados organizados do mundo \u2013 pela minha conta andam \u00e0 volta dos 200 &#8211; aceitam a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos do Homem como princ\u00edpio fundamental dos seus ordenamentos jur\u00eddicos. Isto quer dizer que a vida \u00e9 o primado do direito, que se sobrep\u00f5e a todos os outros, at\u00e9 \u00e0 nossa autonomia e \u00e0 nossa liberdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mediaticamente teve muito mais peso o testemunho das pessoas que est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a e que pedem e desejam a morte, do que o contr\u00e1rio\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, infelizmente n\u00e3o se ouviram nem se deu voz a estes doentes. No meu trabalho de acompanhamento de doentes, e na minha pr\u00f3pria hist\u00f3ria de sofrimento, percebi que o instinto humano \u00e9 viver. N\u00f3s queremos viver, queremos c\u00e1 estar, queremos ver o sol nascer, queremos ir de f\u00e9rias, queremos comer gelados. \u00c9 o normal, \u00e9 o nosso instinto. Todos temos medo do sofrimento e todos temos medo da dor, sobretudo da dor f\u00edsica. Agora, esta dor, hoje, em pleno s\u00e9culo XXI, \u00e9 mais do que trat\u00e1vel.<\/p>\n<p>J\u00e1 acompanhei muitos doentes em sofrimento, e em dois tipos de sociedade muito diferentes: em \u00c1frica, nos pa\u00edses de guerra onde geri hospitais de campanha e campos de refugiados e deslocados internos, as pessoas lutam pela vida, e lutam pela vida com uma ferocidade &#8211; que me parece normal &#8211; muito diferente da nossa. Na nossa sociedade &#8211; e falo da Europa ocidental, Estados Unidos, etc. &#8211; temos muito pouca toler\u00e2ncia ao desconforto e \u00e0 dor. Mas, o sofrimento faz parte da vida humana. Agora, eu vi pessoas morrerem de sarna! Sarna \u00e9 uma doen\u00e7a que passa com \u00e1gua e sab\u00e3o. Vi crian\u00e7as a morrer, vi pais com crian\u00e7as a morrer, e nunca ningu\u00e9m nos pediu, a n\u00f3s e \u00e0s estruturas m\u00e9dicas que eu geria, &#8216;ajudem-nos a morrer&#8217;.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_163740\" aria-describedby=\"caption-attachment-163740\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-163740\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_2-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_2-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_2-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_2-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_2-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_2-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_2-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_2-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_2.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-163740\" class=\"wp-caption-text\">Fotos: RR\/Miguel Rato<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>A eutan\u00e1sia \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses desenvolvidos?<\/em><\/p>\n<p>Eu nem punha a quest\u00e3o assim\u2026. O sofrimento \u00e9 uma quest\u00e3o universal. Dos pa\u00edses desenvolvidos n\u00e3o diria, porque s\u00f3 temos seis pa\u00edses do mundo que aprovaram a eutan\u00e1sia. Come\u00e7ou h\u00e1 20 anos com o &#8216;vamos legislar para proteger uma situa\u00e7\u00e3o de extremo&#8217;, para depois se abrir a porta, e em 20 anos \u2013 estamos a falar dos pa\u00edses do Benelux, sobretudo, (B\u00e9lgica, Pa\u00edses Baixos e Luxemburgo) &#8211; criaram-se 25 novos projetos de alargamento. Ou seja, come\u00e7ou com uma exce\u00e7\u00e3o e acabou com uma amplitude t\u00e3o grande que, e cito, agora &#8216;posso pedir a eutan\u00e1sia porque estou cansado de viver\u2019. Portanto, n\u00e3o \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o, parece-me \u00e9 que a nossa sociedade, perante o sofrimento agonizante de muitos doentes \u2013 e pe\u00e7o desculpa, isto n\u00e3o \u00e9 nenhum ataque \u00e0 classe m\u00e9dica em geral, h\u00e1 profissionais bons e maus em todo o lado -, mas por causa da distan\u00e1sia, da obstina\u00e7\u00e3o terap\u00eautica&#8230; Eu j\u00e1 acompanhei mais de 300 doentes oncol\u00f3gicos, e quase todos eles t\u00eam uma hist\u00f3ria, quando chegam ao p\u00e9 de mim, de &#8216;a quimio j\u00e1 era paliativa, mas o m\u00e9dico quer continuar&#8217;. Eu percebo que o m\u00e9dico est\u00e1 bem intencionado, mas o m\u00e9dico est\u00e1 a tratar a doen\u00e7a, n\u00e3o est\u00e1 a tratar o doente. Tem se de ouvir o doente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 preciso saber parar?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 preciso saber parar. A obstina\u00e7\u00e3o terap\u00eautica \u00e9 louv\u00e1vel at\u00e9 a um certo ponto, mas n\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o insistirmos naquele tratamento que provoca dor que desistimos do doente e n\u00e3o vamos tratar a dor que ele tem. N\u00f3s n\u00e3o tratamos doentes s\u00f3 com o objetivo de os curar, tratamos os doentes porque est\u00e3o vivos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nas entrevistas que temos feito sobre este tema temos falado disso, de que h\u00e1 uma ideia de uma medicina ocidental, superpoderosa, que tem rem\u00e9dio para tudo, e vai esquecendo a ideia de cuidar\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. \u00c9 quase uma ideia superfit, queremos tratar toda a gente, todos os dias. Eu trabalho sobretudo com medicina alem\u00e3, muito avan\u00e7ada, e quase todos os meses temos novas descobertas, portanto, dizer que hoje a medicina n\u00e3o trata a dor, pe\u00e7o desculpa, mas \u00e9 mentira! Trata a dor. E agora perguntam-me: &#8216;e a dor emocional?&#8217;. Tamb\u00e9m se trata com medica\u00e7\u00e3o, e com o apoio que os cuidados paliativos d\u00e3o, que \u00e9 o acompanhamento, o combate \u00e0 solid\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Porque o sofrimento \u00e9 mais do que a dor f\u00edsica.<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Agora, tamb\u00e9m vi isto ao contr\u00e1rio: uma pessoa que est\u00e1 em grande sofrimento f\u00edsico e pede para morrer &#8211; e se pede para morrer \u00e9 porque n\u00e3o foi bem tratado esse sofrimento f\u00edsico &#8211; n\u00e3o estar\u00e1 tamb\u00e9m num sofrimento psicol\u00f3gico t\u00e3o forte que a torna incapaz? A sua capacidade de pedir n\u00e3o estar\u00e1 tamb\u00e9m ela tolhida por esse sofrimento?<\/p>\n<p>H\u00e1 dois anos fui falar a v\u00e1rios grupos parlamentares, e falei com o deputado Ant\u00f3nio Filipe, do PCP, que falou no \u2018direito \u00e0 morte&#8217;. A morte n\u00e3o \u00e9 um direito, a morte \u00e9 uma inevitabilidade. E quando o doente que est\u00e1 em sofrimento excruciante pede para morrer, a autonomia dele n\u00e3o est\u00e1 a ser sequer tida em conta, porque a decis\u00e3o \u00e9 tomada por terceiros. Porque ele pede, h\u00e1 um conselho que vai decidir, at\u00e9 lhe pode ser negado esse direito, e depois \u00e9 administrada por terceiros. Ent\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 autonomia, n\u00e3o h\u00e1 liberdade.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Em Portugal j\u00e1 existem alguns direitos para os doentes.<\/em><\/p>\n<p>Existem muitos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os doentes podem recusar determinados tratamentos, e h\u00e1 o &#8216;Testamento Vital&#8217;, mas isso n\u00e3o est\u00e1 devidamente divulgado, nem \u00e9 apresentado aos doentes pelos m\u00e9dicos. Porque \u00e9 que isso acontece?<\/em><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei porque \u00e9 que acontece. Mas, por exemplo nas consultas &#8211; e estou a falar das doen\u00e7as mais graves &#8211; porque \u00e9 que os m\u00e9dicos n\u00e3o explicam ao doente a forma como o pretendem tratar? Porque \u00e9 que n\u00e3o d\u00e3o a lista dos efeitos secund\u00e1rios daquilo que lhes vai ser administrado? Porque \u00e9 que se trata o doente de uma forma muito paternalista?<\/p>\n<p>Eu tenho imensos casos de m\u00e9dicos que dizem &#8216;o senhor n\u00e3o decide nada, quem decide sou eu, o senhor n\u00e3o se preocupe, quem se preocupa sou eu&#8217;. Porque \u00e9 que se faz isto? O doente \u00e9 e deve ser soberano, as coisas devem-lhe ser explicadas, e se ele n\u00e3o tiver essa capacidade de entendimento, ent\u00e3o a quem o acompanhe, mostrar as implica\u00e7\u00f5es totais, sem escamotear a verdade, daquilo que lhe \u00e9 proposto, e depois o doente ter a soberania de decidir. Porque j\u00e1 existe a capacidade de recusa terap\u00eautica. Existe.<\/p>\n<p>Os doentes para tomarem uma decis\u00e3o t\u00eam de saber que direitos t\u00eam, e n\u00e3o conhe\u00e7o muitos m\u00e9dicos que tenham dito &#8211; ali\u00e1s n\u00e3o conhe\u00e7o nenhum. E importa aqui dizer que muitos doentes que acompanho s\u00e3o eles pr\u00f3prios m\u00e9dicos e oncologistas, a quem, que eu me lembre, nunca lhes foi dito &#8216;olhe, pode recusar tratamento&#8217;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No caso dos cuidados paliativos quem est\u00e1 no terreno tem-nos contado que as fam\u00edlias chegam muito assustadas e muito mal informadas, muitas vezes nem tendo consci\u00eancia do que est\u00e1 a acontecer. \u00c9 poss\u00edvel que no contexto atual isto aconte\u00e7a? Que as pessoas n\u00e3o tenham sequer a explica\u00e7\u00e3o devida de que o fim est\u00e1 pr\u00f3ximo, e que objetivamente n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer?<\/em><\/p>\n<p>Continua a ser um cen\u00e1rio. Eu tenho esta profiss\u00e3o h\u00e1 sete anos (\u2018patient advocate\u2019), mas antes j\u00e1 acompanhei o meu pai em fim de vida, j\u00e1 acompanhei doentes e amigos, e isso \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>A maior parte das vezes vamos a uma consulta &#8211; e isto \u00e9 estrutural, n\u00e3o \u00e9 culpa deste ou daquele m\u00e9dico em espec\u00edfico -, e o m\u00e9dico est\u00e1 \u00e0 frente de um ecr\u00e3. O m\u00e9dico se calhar n\u00e3o lhe pega na m\u00e3o, n\u00e3o lhe puxa pele e v\u00ea se est\u00e1 hidratado, ou n\u00e3o olha para os seus olhos e v\u00ea se tem icter\u00edcia, e tantas outras coisas. O m\u00e9dico est\u00e1 preocupado com o tempo que lhe foi atribu\u00eddo para inserir no computador os dados. O m\u00e9dico n\u00e3o tem tempo para olhar para n\u00f3s. N\u00e3o h\u00e1, na maior parte das vezes, humanidade e empatia com o doente, porque o m\u00e9dico &#8211; e ele n\u00e3o tem culpa &#8211; tem de ver 50 doentes em tr\u00eas horas! Para um doente oncol\u00f3gico, por exemplo, precisaria de uma hora e meia para lhe explicar &#8216;este \u00e9 o caminho terap\u00eautico, mas este caminho n\u00e3o terap\u00eautico tamb\u00e9m \u00e9 uma hip\u00f3tese&#8217;, e depois de explicar ao doente, dizer &#8216;e agora a fa\u00e7a-me perguntas&#8217;.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_6.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-163744\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_6-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_6-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_6-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_6-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_6-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_6-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_6-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_6-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_6-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_6.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Isso acontece poucas vezes?<\/em><\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 feito. Dos 300 doentes que eu acompanhei, todos eles oncol\u00f3gicos, a nenhum foi dito: preencha um testamento vital. Ou \u00e0s suas fam\u00edlias, porque \u00e0s vezes o doente n\u00e3o est\u00e1 capaz ou n\u00e3o quer; ent\u00e3o, como \u00e9 evidente, \u00e9 o familiar mais pr\u00f3ximo, que acompanha e decide. E esse familiar n\u00e3o foi informado.<\/p>\n<p>H\u00e1 outra coisa que \u00e9 verdade e at\u00e9 \u00e9 paradoxal: a muitos doentes oncol\u00f3gicos \u00e9 dito, no princ\u00edpio, que j\u00e1 est\u00e3o em paliativos. Ou seja, sabe-se que se lhe vai dar um tratamento, sabe-se que n\u00e3o tem intuito curativo. O doente fica muito assustado e diz: ah, mas oh Raquel, logo na primeira sess\u00e3o de quimioterapia estava escrito, l\u00e1\u2026 \u00c9 dif\u00edcil para um doente interpretar estes dados, mas eles percebem a palavra paliativo.<\/p>\n<p>Se j\u00e1 n\u00e3o havia intuito curativo, porque \u00e9 que isto n\u00e3o \u00e9 dito? Porque \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 dito o que se pode esperar, ao longo desta doen\u00e7a? \u00c9 normal o m\u00e9dico dar esperan\u00e7a a um doente, mas temos de ter bom senso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esta quest\u00e3o da distan\u00e1sia, da obstina\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, o insistir muitas vezes em tratamentos desajustados, tamb\u00e9m tem contribu\u00eddo para que muita gente receie o sofrimento e a morte, pense que em muitas doen\u00e7as o \u00faltimo est\u00e1gio \u00e9 de um sofrimento atroz e n\u00e3o h\u00e1 outra alternativa\u2026 Chega-se a esta fase em que se pensa que, se calhar, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 mesmo pedir para morrer. Isto tamb\u00e9m tem contribu\u00eddo para que muita gente aceite ou tenda a aceitar a legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia?<\/em><\/p>\n<p>Para mim, essa \u00e9 a raz\u00e3o principal para que se tenha chegado ao ponto a que se chegou. As pessoas percebem que pode haver um sofrimento atroz, sentem, veem\u2026 Quantos doentes eu n\u00e3o tenho e pessoas que me perguntam\u2026 \u201cMas a minha prima morreu, de forma atroz, porque tinha um cancro\u201d, a, b ou c, \u201ceu assisti \u00e0quilo, eu n\u00e3o quero aquilo para mim, n\u00e3o quero aquilo para os meus\u201d. Pois n\u00e3o. Mas \u00e9 exatamente a obstina\u00e7\u00e3o terap\u00eautica que fundamenta e que tem fundamentado a discuss\u00e3o em Portugal da necessidade da eutan\u00e1sia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Embora seja considerada m\u00e1 pr\u00e1tica m\u00e9dica.<\/em><\/p>\n<p>P\u00e9ssima pr\u00e1tica m\u00e9dica. Vamos opor a distan\u00e1sia \u00e0quilo que deveria existir, a ortotan\u00e1sia: o que \u00e9 que isto quer dizer? Temos um doente em sofrimento. Esse doente est\u00e1 agonizar em dores, n\u00e3o vou dizer aqui que n\u00e3o h\u00e1 dor, o que \u00e9 que o m\u00e9dico pode fazer? Pode e deve administrar todos os medicamentos necess\u00e1rios para diminuir e sedar o doente, mesmo que nesta administra\u00e7\u00e3o de f\u00e1rmacos, a vida do doente seja encurtada. \u00c9 o chamado princ\u00edpio do duplo efeito. Isso \u00e9 aceit\u00e1vel, porque eu estou a tratar o doente, a permitir que ele viva sem dor, \u00e9 a chamada seda\u00e7\u00e3o \u00e9tica. Que existe e que \u00e9 feita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esse princ\u00edpio do duplo efeito \u00e9, ali\u00e1s, aceite pela Igreja Cat\u00f3lica.<\/em><\/p>\n<p>De forma pac\u00edfica. Acho que n\u00f3s estamos muito confundidos, nesta sociedade atual, porque queremos tratar a doen\u00e7a e n\u00e3o o doente. E n\u00e3o \u00e9. N\u00f3s queremos tratar o doente, quero perceber, quando um doente chega, o que \u00e9 que ele quer. Estamos aqui a falar de doen\u00e7as complexas, terminais, de um r\u00e1pido fim. Eu quero ouvi-lo, perceb\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Portanto, o investimento teria de ser feito, prioritariamente, nos cuidados paliativos. Faz sentido que s\u00f3 se olhe para isto depois de se legalizar a eutan\u00e1sia?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, porque \u00e9 evidente que precisamos de cuidados paliativos, mas se n\u00e3o pararmos a distan\u00e1sia, vamos continuar a ter pedidos de eutan\u00e1sia e os pr\u00f3prios paliativos v\u00e3o ser redundantes. At\u00e9 pode existir uma rede fant\u00e1stica, mas v\u00e3o ser redundantes.<\/p>\n<p>A m\u00e1 pr\u00e1tica m\u00e9dica tem de ser revista, t\u00eam de ser criar \u00f3rg\u00e3os que acompanham, independentes, para estar com estes doentes em sofrimento, em fim de vida, para perceber se estamos a passar a fronteira, a infringir dor sem inten\u00e7\u00e3o curativa, desnecess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Criar redes de cuidados paliativos \u00e9 uma parte da quest\u00e3o, mas se continuarmos com a distan\u00e1sia, vamos continuar a ter pessoas que contam estas hist\u00f3rias e a fundamentar projetos de lei que dizem: h\u00e1 pessoas a morrer e temos de acabar com o sofrimento extremo. E vamos acabar com o sofrimento extremo, acabando com a vida. \u00c9 a maior contradi\u00e7\u00e3o poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A sua experi\u00eancia pessoal \u00e9 importante neste contexto: na d\u00e9cada de 90 chegou a estar ligada \u00e0 m\u00e1quina e a receber morfina, e passou 5 anos entre uma cadeira de rodas e canadianas. Em 2014 foi-lhe diagnosticada outra doen\u00e7a incur\u00e1vel, autoimune\u2026. Tendo j\u00e1 vivido situa\u00e7\u00f5es limite com a sua pr\u00f3pria sa\u00fade, e tamb\u00e9m com a sa\u00fade de familiares pr\u00f3ximos, como \u00e9 que encara o sofrimento? Alguma vez pensou em pedir a morte como solu\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>De todo. E at\u00e9 lhe dou o exemplo de quando estive em cadeira de rodas e em grande sofrimento em Londres, h\u00e1 22 anos. Eu era professora universit\u00e1ria, trabalhava no Minist\u00e9rio dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, liderava um grupo de jovens cat\u00f3licos, tinha uma vida superativa. E, de repente, come\u00e7o a n\u00e3o mexer o lado esquerdo do corpo.<\/p>\n<p>Eu tinha 28 anos e o melhor m\u00e9dico especialista, na altura \u2013 foi muito r\u00e1pido, o avan\u00e7o da minha doen\u00e7a -, disse-me: \u201cRaquel, voc\u00ea nunca mais vai\u2026 a progress\u00e3o da sua doen\u00e7a \u00e9 t\u00e3o grave, \u00e9 t\u00e3o r\u00e1pida, que eu acho que voc\u00ea n\u00e3o vai andar, falar, ser aut\u00f3noma \u2013 porque depois tamb\u00e9m me afetou o c\u00e9rebro. Portanto, temos de olhar para isto apenas e s\u00f3 como uma tentativa de travar; eu n\u00e3o sei como vou fazer isto, vou fazer o meu melhor, mas a probabilidade de ficar na cadeira de rodas e completamente dependente de cuidados de terceiros \u00e9 a maior probabilidade, neste momento\u201d.<\/p>\n<p>Eu jamais pensei em pedir que me aliviassem o sofrimento, matando-me. Isso, para mim, est\u00e1 fora de quest\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Essa for\u00e7a de viver vem tamb\u00e9m da sua f\u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Vem da minha f\u00e9, claro. A minha determina\u00e7\u00e3o em viver vem do facto que a vida se consubstancia num verdadeiro milagre, num dom que me foi dado viver e que eu jamais vou desperdi\u00e7ar. E digo-lhe uma coisa, hoje: gra\u00e7as a Deus que tive aquela doen\u00e7a e que a superei. Porque essa doen\u00e7a e a supera\u00e7\u00e3o dessa doen\u00e7a fez de mim a pessoa que sou hoje, abriu portas para que eu experimentasse e vivesse outras realidades. O sofrimento tamb\u00e9m pode ser uma oportunidade de crescimento, \u00e9 uma oportunidade de crescimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_163742\" aria-describedby=\"caption-attachment-163742\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-163742\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_4-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_4-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_4-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_4-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_4-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_4-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_4-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_4-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_4-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_4.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-163742\" class=\"wp-caption-text\">Fotos: RR\/Miguel Rato<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Ajudou-a a reinventar o sentido da sua vida?<\/em><\/p>\n<p>Ajudou a reinventar o sentido da minha vida, ajudou a perceber que n\u00e3o ia mais para a pol\u00edtica e ia continuar sempre ligada \u00e0 medicina. Fui trabalhar para o Parlamento ingl\u00eas, como coordenadora de defici\u00eancia para o pa\u00eds, na Casa dos Lordes, e percebi que podia, com o meu testemunho, ajudar muitas outras pessoas. E ajudei.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E tornou-se o que \u00e9 hoje, \u2018Patient Advocate\u2019? O que \u00e9 que isto significa?<\/em><\/p>\n<p>Infelizmente, a express\u00e3o n\u00e3o existe em portugu\u00eas. N\u00e3o \u00e9 tanto um advogado do doente, \u00e9 mais o defensor. Quando estava em Londres, sozinha \u2013 porque a minha fam\u00edlia n\u00e3o me podia acompanhar \u2013 era disso que eu tinha precisado, na altura: algu\u00e9m que me dissesse que h\u00e1 o tratamento \u201ca, b ou c\u201d, consequ\u00eancias de um e de outro, fazer aqui ou fazer ali. Algu\u00e9m para acompanhar, tratar de tudo, porque eu de Londres tive de ir a v\u00e1rios pa\u00edses fazer pequenas partes do tratamento que n\u00e3o podiam ser feitos em Inglaterra, tive de fazer uma quimioterapia especial que vinha dos Estados Unidos, era uma grande log\u00edstica. E o \u201cpatient advocate\u201d faz isto, acompanha o doente, p\u00f5e-se no lugar do doente. Eu j\u00e1 l\u00e1 estive e estou agora, duas vezes, infelizmente\u2026 trata deste processo, interpreta.<\/p>\n<p>A linguagem m\u00e9dica \u00e9 complexa e \u00e9 dif\u00edcil traduzir isto para uma linguagem leiga. E \u00e9 preciso faz\u00ea-lo, urge faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 o fez, at\u00e9 hoje, com quantos doentes?<\/em><\/p>\n<p>Mais de 300. E fa\u00e7o-o com os meus amigos, quando querem ir \u00e0s consultas em Lisboa, porque dizem: \u201colha, Raquel, \u00e9 melhor acompanhares-me, porque eu n\u00e3o percebo nada daqueles termos m\u00e9dicos e tu desconstr\u00f3is, sem simplificar, e ajudas-nos a perceber o que est\u00e1 em causa\u201d. Os m\u00e9dicos nem sempre levam a bem, \u00e9 uma pena, mas eu n\u00e3o estou ali para discutir ou para p\u00f4r em causa a compet\u00eancia do m\u00e9dico, estou ali apenas para ajudar esta pessoa a decidir o que \u00e9 melhor para ela.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>J\u00e1 teve muitos casos de sucesso, de supera\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>J\u00e1, j\u00e1 tive, gra\u00e7as a Deus. \u00c9 muito bonito ver, estas pessoas continuam muito ligadas a mim. Este trabalho implica um dom que tem de se desenvolver, a empatia. P\u00f4r-nos no lugar do outro. E a compaix\u00e3o, a humildade, a paci\u00eancia, qualidades que devem estar tamb\u00e9m do lado dos m\u00e9dicos. Por isso \u00e9 que digo que tem de haver humanidade, interesse, temos de olhar o doente nos olhos, temos de tocar. O toque \u00e9 muito terap\u00eautico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esta \u00e9 uma ajuda que toda a gente gostaria de ter, mas n\u00e3o \u00e9 apenas para quem tem dinheiro?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o. Quem quer fazer os tratamentos na Alemanha, por exemplo, e est\u00e1 disposto a pagar \u2013 n\u00e3o s\u00e3o baratos, mas as c\u00e9lulas dendr\u00edticas custam menos do que uma sess\u00e3o de quimioterapia ao Estado, que \u00e9 o que custa ao bolso dos contribuintes\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>S\u00e3o tratamentos que n\u00e3o existem em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o existem em Portugal, mas n\u00e3o s\u00e3o experimentais, est\u00e3o perfeitamente autorizados, financiados e comparticipados pela Uni\u00e3o Europeia. Uma pessoa que decide ir e gasta, fazer este or\u00e7amento, n\u00e3o s\u00e3o mais 5% do valor do meu acompanhamento que n\u00e3o estar\u00e1 ao alcance. Se um doente me telefonar em Lisboa para ir a uma consulta em Lisboa, esse servi\u00e7o \u00e9 bastante simples e n\u00e3o custa uma fortuna. Portanto, eu n\u00e3o considero os meus servi\u00e7os caros, no contexto daquilo que o doente vai fazer; se prestados c\u00e1, ent\u00e3o, s\u00e3o bastante acess\u00edveis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Voltando ao in\u00edcio da nossa conversa, e ao processo legislativo para legalizar a eutan\u00e1sia. Depois da aprova\u00e7\u00e3o na generalidade, no Parlamento, segue-se agora a discuss\u00e3o dos v\u00e1rios projetos, na especialidade. Acredita que se possa encontrar uma lei final equilibrada?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o. Aqui entramos na quest\u00e3o da rampa deslizante: a natureza humana \u00e9 sempre a mesma. Os portugueses n\u00e3o s\u00e3o diferentes dos belgas, dos holandeses\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Passou-se essa ideia de que a nossa lei ia ser muito perfeita e n\u00e3o ia repetir o que de mal aconteceu nos outros pa\u00edses\u2026<\/em><\/p>\n<p>Mas essa ideia \u00e9 errada. Quando eu abro a porta e digo que vou legislar para uma exce\u00e7\u00e3o ou duas, que segundo os deputados acontece duas, tr\u00eas, dez vezes por ano \u2013 um n\u00famero pequeno, mas ainda assim muito grande, porque as vidas humanas s\u00e3o todas muito v\u00e1lidas -, quando eu abro a porta \u00e0 exce\u00e7\u00e3o, rapidamente abro a porta a outras exce\u00e7\u00f5es. E esse \u00e9 o grande problema, n\u00e3o h\u00e1 maneira nenhuma: daqui a cinco ou seis anos, tendo esta lei aprovada, vamos estar a discutir, por exemplo, \u201cagora vamos alargar aos doentes complexos\u201d. S\u00e3o pessoas que nascem e vivem toda a sua vida dependentes de cuidados, que muitas vezes n\u00e3o falam, n\u00e3o comunicam.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia do Benelux demonstra isso mesmo: h\u00e1 20 anos come\u00e7a-se com uma pequena exce\u00e7\u00e3o, hoje estamos a eutanasiar idosos dementes. O que \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o: estamos a mat\u00e1-lo, n\u00e3o estamos a eutanasiar, porque ele n\u00e3o pode pedir para morrer. Est\u00e1 incapaz de decidir por si.<\/p>\n<p>A rampa deslizante \u00e9 um fen\u00f3meno que n\u00e3o vai ser exce\u00e7\u00e3o em Portugal. Porque a natureza humana e as sociedades s\u00e3o as mesmas, n\u00e3o muda nada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Neste processo, faria sentido promover um referendo, at\u00e9 para esclarecer conceitos?<\/em><\/p>\n<p>Eu, por princ\u00edpio, sou contra o referendo, embora tenha assinado a favor, neste momento. Porqu\u00ea? Vou citar outra vez o deputado do PCP (Ant\u00f3nio Filipe), com quem j\u00e1 tinha estado e conversado, sobre este assunto. Ele \u00e9 contra o referendo porque \u201c\u00e9 o Estado que tem de proteger a vida dos seus cidad\u00e3os, na fase final. Essa \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem de ser referendada\u201d. Tamb\u00e9m n\u00e3o vamos referendar o uso do cinto de seguran\u00e7a\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_163741\" aria-describedby=\"caption-attachment-163741\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-163741\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_3-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_3-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_3-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_3-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_3-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_3-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_3-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_3-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_3-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ECCLESIA27fev_3.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-163741\" class=\"wp-caption-text\">Fotos: RR\/Miguel Rato<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Que armas tem nesta altura quem est\u00e1 contra a eutan\u00e1sia?<\/em><\/p>\n<p>Tem a arma do referendo, que \u00e9 a \u00fanica hip\u00f3tese de travar a legaliza\u00e7\u00e3o, mas o referendo \u00e9 uma arma complicada. Podemos todos mobilizar-nos a favor do referendo, mas se s\u00f3 pensarmos nisto, sem combater a distan\u00e1sia, informar as pessoas, ouvir os grupos de doentes e mobilizar a sociedade civil, tudo o que falamos nesta entrevista, ent\u00e3o, n\u00e3o interessa nada. Porque o povo portugu\u00eas, como j\u00e1 vimos, n\u00e3o vai \u00e0s urnas, n\u00e3o vai.<\/p>\n<p>Isto exige um esfor\u00e7o monumental de todos n\u00f3s, da sociedade civil, dos movimentos pr\u00f3-vida, para explicar depois, se chegarmos ao referendo, o que implica a pergunta, que o eleitor vai responder. Porque h\u00e1 de ser uma pergunta muito simplificada, conducente a erro, de certeza.<\/p>\n<p>Para mim, se n\u00e3o h\u00e1 outra arma, vamos para o referendo. Mas temos de travar esta luta em v\u00e1rias frentes, continuar a lutar para que a distan\u00e1sia seja revista \u2013 tem de haver um corpo, cabe aos legisladores pensar, para travar a obstina\u00e7\u00e3o terap\u00eautica e ajudar os m\u00e9dicos a decidir; tem de haver j\u00e1, para ontem, a rede de cuidados paliativos. Por que \u00e9 que ela n\u00e3o foi come\u00e7ada a construir logo em maio de 2018, quando se chumbou a eutan\u00e1sia? Nada foi feito.<\/p>\n<p>O meu medo \u00e9 que, continuando a haver distan\u00e1sia, vai continuar a haver pedidos de eutan\u00e1sia; com cuidados paliativos ou n\u00e3o, vamos estar perante o mesmo problema.<\/p>\n<p>Para podermos avan\u00e7ar com o referendo, temos de fazer uma enorme luta de consciencializa\u00e7\u00e3o da sociedade civil em geral, temos de explicar isto \u00e0s pessoas, bairro a bairro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Que mensagem deixa aos deputados, e ao poder pol\u00edtico em geral?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que os deputados n\u00e3o v\u00e3o mudar a sua inten\u00e7\u00e3o de voto, portanto, na especialidade seguir\u00e3o em frente. Posso apelar para que seja elaborada uma lei o mais restrita poss\u00edvel, mas continuo a dizer: esse mal, essa porta j\u00e1 est\u00e1 aberta. O meu apelo \u00e9 que, com o mesmo zelo, entusiasmo e vontade com que se dedicaram, t\u00e3o prontamente, \u00e0 legaliza\u00e7\u00e3o da morte assistida, se dediquem, j\u00e1, a partir de hoje, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma rede de cuidados paliativos.<\/p>\n<p>Vamos cuidar das pessoas enquanto elas sofrem. E sofrem at\u00e9 ao fim da vida, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 depois de termos decidido se a doen\u00e7a que estamos a tratar tem cura ou n\u00e3o. N\u00e3o podemos desistir dos nossos doentes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma semana depois da aprova\u00e7\u00e3o, no Parlamento, de cinco projetos lei com vista \u00e0 futura legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia, a Ecclesia e a Renascen\u00e7a conversam com Raquel Abreu, que superou uma doen\u00e7a incapacitante, sobre a sua experi\u00eancia pessoal, a eutan\u00e1sia e a distan\u00e1sia, porque \u00e9 preciso parar tratamentos quando n\u00e3o h\u00e1 mais nada a fazer. \u00c9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":163744,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[],"class_list":["post-163738","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/163738","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=163738"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/163738\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/163744"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=163738"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=163738"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=163738"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}