{"id":161908,"date":"2020-02-08T10:35:25","date_gmt":"2020-02-08T10:35:25","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=161908"},"modified":"2020-02-08T14:20:19","modified_gmt":"2020-02-08T14:20:19","slug":"a-humanizacao-do-olhar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-humanizacao-do-olhar\/","title":{"rendered":"A humaniza\u00e7\u00e3o do olhar"},"content":{"rendered":"<p><em>Oct\u00e1vio Carmo,\u00a0Ag\u00eancia ECCLESIA<\/em><!--more--><\/p>\n<p>&#8220;Soltou um grito de morte,<\/p>\n<p>O mundo calou.<\/p>\n<p>Duas feridas nasceram nas palmas das m\u00e3os.<\/p>\n<p>Um fiel esconjurou,<\/p>\n<p>Um outro perdeu a f\u00e9,<\/p>\n<p>Mas um terceiro chorou de compaix\u00e3o&#8221;<\/p>\n<p><em>(Kiko Dinucci)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quem me conhece, sabe quanto gosto de m\u00fasica brasileira. Este ano fui convidado para falar no XV Encontro Nacional da Pastoral Penitenci\u00e1ria e, enquanto pensava no que havia de dizer, esta m\u00fasica do disco \u201cRastilho\u201d \u2013 aparentemente t\u00e3o distante da minha constru\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica &#8211; tomou conta do meu pensamento.<\/p>\n<p>Podemos perguntar-nos: o que \u00e9 que chorar de compaix\u00e3o resolve na pr\u00e1tica? Temos muito a tend\u00eancia de quantificar a vida, divinizar os n\u00fameros, saber o que se ganha com isso.<\/p>\n<p>A palavra compaix\u00e3o aponta para um conceito central do atual pontificado, que \u00e9 a Miseric\u00f3rdia. Ser movido pelo cora\u00e7\u00e3o diante do outro. N\u00e3o com as nossas ideias, com os nossos preconceitos, os nossos medos, mas pelo amor.<\/p>\n<p>Reconhecer o outro como pessoa: \u00e9 isto que comove quem v\u00ea no outro o seu pr\u00f3ximo, como ensina a par\u00e1bola do Bom Samaritano. \u00c9 o que o Papa diz quando pede o fim da \u201ccultura do adjetivo\u201d, considerando necess\u00e1rio \u201cir ao nome da pessoa\u201d e conhecer o que cada um carrega no seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos a ver uma pessoa que est\u00e1 doente e n\u00e3o apenas a sua doen\u00e7a; a pessoa que est\u00e1 presa e n\u00e3o apenas o seu eventual crime; deixamos de olhar para a pessoa a partir de uma perspetiva de falha, de dificuldade.\u00a0O que o Papa nos ensina \u00e9 que \u00e9 preciso respeitar a pessoa,\u00a0 na sua circunst\u00e2ncia. \u00c9 impressionante ouvir Francisco dizer que quando vai a uma pris\u00e3o ou se encontra com reclusos, pensa: \u201cPor que eles e n\u00e3o eu?\u201d.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei se todos fazemos este exerc\u00edcio de nos questionarmos: \u201cPor que eles e n\u00e3o eu?\u201d.\u00a0No fundo, achamo-nos distantes desta realidade: se as pessoas est\u00e3o presas \u00e9 porque mereceram, alguma coisa fizeram e t\u00eam de ser afastadas. \u00c9 a desumaniza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>A grande li\u00e7\u00e3o do pontificado, nesta \u00e1rea, como em tantas outras, \u00e9 a humaniza\u00e7\u00e3o do olhar: nunca deixarmos de ver o outro como nosso semelhante. E, do ponto de vista da f\u00e9, ainda \u00e9 mais profundo do que isso: \u00e9 a imagem e semelhan\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p>Isso remete-nos para um texto central no pontificado, o cap\u00edtulo 25: \u201cQuando \u00e9 que te vimos doente ou na pris\u00e3o e fomos ter contigo?&#8221;. A resposta \u00e9 clara e inegoci\u00e1vel: \u201cQuantas vezes o fizestes a um destes meus irm\u00e3os mais pequenos, a mim o fizestes&#8221;.<\/p>\n<p>S\u00e3o estes os crit\u00e9rios do julgamento divino sobre a nossa vida. Talvez sejam surpreendentes pela sua simplicidade e pelo quanto despem a viv\u00eancia da f\u00e9 de tantas regras e prescri\u00e7\u00f5es que parecem acompanhar todo e qualquer gesto do quotidiano. Os benditos do Pai s\u00e3o aqueles que visitam presos e doentes, d\u00e3o de comer a quem tem fome, acolhem o estrangeiro \u2013 essa \u00e9 a carta magna do Cristianismo.<\/p>\n<blockquote><p>Duas feridas nasceram nas palmas das m\u00e3os\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Estes dois sinais, que geram medo, rep\u00fadio, mas tamb\u00e9m compaix\u00e3o, remetem para uma configura\u00e7\u00e3o particular com Cristo, com as chagas da sua crucifix\u00e3o. Jesus foi preso, julgado e condenado \u00e0 morte pelos poderes leg\u00edtimos do seu tempo. Foi executado, numa cruz, segundo a Justi\u00e7a da altura, por ser considerado um criminoso.<\/p>\n<p>Na pris\u00e3o, h\u00e1 uma configura\u00e7\u00e3o objetiva com o sofrimento de Cristo. \u00c9 um conceito espiritual e teol\u00f3gico muito importante. Tamb\u00e9m aqui \u00e9 precisa uma educa\u00e7\u00e3o do olhar da f\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oct\u00e1vio Carmo,\u00a0Ag\u00eancia ECCLESIA<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":91378,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[278],"class_list":["post-161908","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-pastoral-das-prisoes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/161908","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=161908"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/161908\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/91378"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=161908"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=161908"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=161908"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}