{"id":16172,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/da-relacao-eros-agape-e-de-uma-omissao-na-enciclica-de-bento-xvi\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"da-relacao-eros-agape-e-de-uma-omissao-na-enciclica-de-bento-xvi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/da-relacao-eros-agape-e-de-uma-omissao-na-enciclica-de-bento-xvi\/","title":{"rendered":"Da rela\u00e7\u00e3o eros\/\u00e1gape e de uma omiss\u00e3o na enc\u00edclica de Bento XVI"},"content":{"rendered":"<p>1. Quem imaginaria que Bento XVI havia de escolher para tema da sua enc\u00edclica program\u00e1tica a quest\u00e3o central do cristianismo, o amor\/caritas, a nota espec\u00edfica da imagem crist\u00e3 de Deus e da imagem crist\u00e3 do homem? Na verdade o que est\u00e1 em causa nesta enc\u00edclica \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre Deus e o homem, o Deus e a alma de Sto. Agostinho, a indica\u00e7\u00e3o das suas condi\u00e7\u00f5es de possibilidade e do caminho a seguir para l\u00e1 chegar, que passa pela disposi\u00e7\u00e3o para a ren\u00fancia, para abnega\u00e7\u00e3o e para o sacrif\u00edcio. Hoje s\u00e3o muitos os que insinuam a ideia de que para amar basta ser-se espont\u00e2neo e natural, deixar-se levar pelas pr\u00f3prias inclina\u00e7\u00f5es ou desejos, numa miragem de felicidade alcan\u00e7\u00e1vel ali, quase ao voltar da esquina. Aqui est\u00e1 a causa da solid\u00e3o, dos traumas e depress\u00f5es, precisamente pela degrada\u00e7\u00e3o do eros e do amor \u00e0 frui\u00e7\u00e3o extes\u00edaca dos sentidos, como se o prazer pudesse representar um ideal de felicidade!&#8230;  2. Aparentemente simples, a linguagem de Bento XVI \u00e9 complexa, e exige do leitor aten\u00e7\u00e3o e disciplina mental, introduzindo-o \u00e0 necess\u00e1ria purifica\u00e7\u00e3o e ascese a que o eros\/amor, n\u00e3o s\u00f3 na sua dimens\u00e3o especulativa, mas tamb\u00e9m pr\u00e1tica obriga. O Santo Padre diz tudo o que h\u00e1 a dizer sobre a delimita\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e teol\u00f3gica da viv\u00eancia existencial para a qual o termo eros\/amor remete. E as suas observa\u00e7\u00f5es acerca da sua aus\u00eancia (do eros) na tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, em contraposi\u00e7\u00e3o com o termo \u00e1gape, praticamente ausente na tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, indiciam a demarca\u00e7\u00e3o cr\u00edtica entre o cristianismo e a filosofia. O cristianismo n\u00e3o rejeita as grandes intui\u00e7\u00f5es da raz\u00e3o filos\u00f3fica. N\u00e3o sendo uma ideologia, mas o seguimento de Jesus Cristo, vivo na Igreja e nos sacramentos, o cristianismo assume a natureza, purificando-a, transformando-a em profundidade. A \u00e1gape que n\u00e3o \u00e9 o eros, antes quase o seu contr\u00e1rio, resulta do eros purificado e redimido, da transfigura\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica possessiva do desejo, na l\u00f3gica oblativa da caritas. O eros precisa de morrer para si para que possa ser \u00e1gape.  3. No momento cristol\u00f3gico da sua reflex\u00e3o, o Papa indica o segredo da transfigura\u00e7\u00e3o redentora do eros em \u00e1gape: a contempla\u00e7\u00e3o do lado aberto de Cristo (Jo 19, 37: Deus caritas est, 12). Aqui est\u00e1 a chave de leitura crist\u00e3 para o entendimento da \u00e1gape, esse morrer de amor por aqueles que se ama. E assim \u00e1gape \u00e9 a resposta a um dom: o crist\u00e3o ama, porque foi amado primeiro.   4. Ao afirmar que o eros precisa de ser redimido segundo a l\u00f3gica da cruz de Cristo, Bento XVI pressup\u00f5e que a din\u00e2mica do desejo \u00e9 contradita n\u00e3o apenas pela infinitude inalcan\u00e7\u00e1vel do seu objecto, mas tamb\u00e9m pelo pecado, ou seja, pela prefer\u00eancia de si, o agostiniano amor sui que leva ao desprezo de Deus e dos outros, e que degrada por conseguinte o eros \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de um prazer desumanizante. N\u00e3o foi o cristianismo que envenenou o eros, mas sim o pecado, no qual todo o homem est\u00e1 envolvido, quer acredite quer n\u00e3o, e que \u00e9 um encurvar-se sobre si mesmo, colocar-se como o centro do mundo, sendo que o eros n\u00e3o se esgota na puls\u00e3o sexual, mas se estende \u00e0 l\u00f3gica do desejo desenfreado na sua ambi\u00e7\u00e3o desmesurada pelo poder ser senhor absoluto de si, a ser como Deus! O pudor a que hoje se n\u00e3o d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o, &#8211; n\u00e3o s\u00f3 no que diz respeito \u00e0 esfera sexual, mas tamb\u00e9m \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o pelo poder -, \u00e9 ainda um rebate de consci\u00eancia que recorda ao homem que est\u00e1 perante um assunto delicado, que exige muito cuidado, sob pena de ferir irremediavelmente o cora\u00e7\u00e3o e lev\u00e1-lo a morrer n\u00e3o de amor, mas da aus\u00eancia dele, na imola\u00e7\u00e3o nos altares do prazer ou da ambi\u00e7\u00e3o.  5. N\u00e3o foi o cristianismo que envenenou o eros, mas as suas contrafac\u00e7\u00f5es, nas suas formas maniqueias, cartesianas, jansenistas ou outras. O cristianismo aut\u00eantico \u00e9 antes o campo da viv\u00eancia em profundidade do amor, do amor purificado, na pr\u00e1tica da disciplina, da ascese e do sacrif\u00edcio. Ao crist\u00e3o tudo \u00e9 permitido, mas nem tudo conv\u00e9m! Por isso \u00e9 urgente que se cultive uma equilibrada est\u00e9tica do corpo, como espa\u00e7o de encontro, de media\u00e7\u00e3o e de transcend\u00eancia! N\u00e3o \u00e9 o corpo templo do Esp\u00edrito Santo? N\u00e3o \u00e9 chamado a participar na glorifica\u00e7\u00e3o de Cristo na ressurrei\u00e7\u00e3o? N\u00e3o \u00e9 pelo corpo que acedemos ao encontro com Deus na ora\u00e7\u00e3o, nos sacramentos, na eucaristia, na fraterna caridade? Uma est\u00e9tica teol\u00f3gica do corpo vai ensinar-nos, como se pode ver na vida dos santos, que o amor \u00e9 tendencialmente casto, pela pacifica\u00e7\u00e3o das paix\u00f5es, pela capacidade de ren\u00fancia e de sacrif\u00edcio, segundo a l\u00f3gica da cruz.   6. Mas h\u00e1 um vazio, uma lacuna ou uma omiss\u00e3o nesta bela enc\u00edclica de Bento XVI: n\u00e3o fala da amizade. Ora este \u00e9 um assunto de extrema import\u00e2ncia hoje, precisamente porque o excesso de eros e de amor levou a que fosse esquecida, quando a amizade \u00e9 fundamental na rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas e na ordem social. Porque o eros\/amor evoca ou mesmo exige um elevado grau de uni\u00e3o e de comunh\u00e3o quase f\u00edsica, tendencialmente s\u00f3 se realizar\u00e1 ou na rela\u00e7\u00e3o homem-mulher, o que no cristianismo s\u00f3 \u00e9 leg\u00edtimo no casamento, ou na experi\u00eancia m\u00edstica, o que se d\u00e1 por\u00e9m em graus de intensidade que n\u00e3o podem cobrir a vida normal na sua quotidiana banalidade, campo que s\u00f3 pode ser preenchido pela s\u00e3 amizade. Bento XVI preferiu centrar a sua reflex\u00e3o sobre a caritas, onde muitos aspectos da amizade est\u00e3o presentes, sobretudo na segunda parte da enc\u00edclica, quando fala da caridade como pr\u00e1tica do amor. Na primeira parte, por\u00e9m, n\u00e3o a menciona, quando se esperaria, tendo-se concentrado na rela\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, dial\u00e9ctica, entre eros e \u00e1gape, na busca de uma reconcilia\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel pela gra\u00e7a. E neste sentido a \u00e1gape crist\u00e3, na sua perfei\u00e7\u00e3o, \u00e9 a transfigura\u00e7\u00e3o total do eros, que assim como que deixa de o ser, porque na sua suma perfei\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 se d\u00e1 na experi\u00eancia m\u00edstica, \u00e9 mais um morrer de amor, um perder-se, mais do que encontrar-se. Ora a normal e banal exist\u00eancia quotidiana n\u00e3o vive nesta tens\u00e3o permanente de um grande amor ou de caridade her\u00f3ica!   7. Encontramo-nos aqui no limiar do mist\u00e9rio, o que Pascal designava como a grandeza e a mis\u00e9ria do homem, dir-se-ia a sua condi\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica, o seu mist\u00e9rio abissal e incompreens\u00edvel. E de um modo muito discreto e quase como sugest\u00e3o Bento XVI diz o essencial sobre o amor\/caridade, convidando os cat\u00f3licos e todos os homens de boa vontade a n\u00e3o se conformarem com o mundo (da moda, da ideologia, do culturalmente correcto!&#8230;) e a descobrirem a beleza daquele amor que \u00e9 o fruto da abnega\u00e7\u00e3o, da ren\u00fancia e do sacrif\u00edcio, porque, como diz o Senhor, se o gr\u00e3o de trigo lan\u00e7ado \u00e0 terra n\u00e3o morrer n\u00e3o frutifica ou quem quiser ganhar a vida h\u00e1-de perd\u00ea-la. Mas para l\u00e1 chegar n\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1rio antes redescobrir o dom da amizade, essa rela\u00e7\u00e3o desprendida e quase indiferente de quem se quer bem para um bem maior? <\/i>Jos\u00e9 Jacinto Ferreira de Farias, scj, Professor de Teologia na UCP<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. Quem imaginaria que Bento XVI havia de escolher para tema da sua enc\u00edclica program\u00e1tica a quest\u00e3o central do cristianismo, o amor\/caritas, a nota espec\u00edfica da imagem crist\u00e3 de Deus e da imagem crist\u00e3 do homem? Na verdade o que est\u00e1 em causa nesta enc\u00edclica \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre Deus e o homem, o Deus [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120,294,321],"class_list":["post-16172","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi","tag-sacramentos","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16172","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16172"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16172\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16172"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16172"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16172"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}