{"id":16076,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/deus-caritas-est\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"deus-caritas-est","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/deus-caritas-est\/","title":{"rendered":"\u00abDeus Caritas Est\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Carta Enc\u00edclica do Sumo Pont\u00edfice Bento XVI, aos bispos, aos presb\u00edteros e aos di\u00e1conos, \u00e0s pessoas consagradas e a todos os fi\u00e9is leigos, sobre o amor crist\u00e3o <!--more--> Carta Enc\u00edclica \u201cDeus caritas est\u201d, do Sumo Pont\u00edfice Bento XVI, aos bispos, aos presb\u00edteros e aos di\u00e1conos, \u00e0s pessoas consagradas e a todos os fi\u00e9is leigos, sobre o amor crist\u00e3o  INTRODU\u00c7\u00c3O 1. \u00ab Deus \u00e9 amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele \u00bb (1 Jo 4, 16). Estas palavras da I Carta de Jo\u00e3o exprimem, com singular clareza, o centro da f\u00e9 crist\u00e3: a imagem crist\u00e3 de Deus e tamb\u00e9m a consequente imagem do homem e do seu caminho. Al\u00e9m disso, no mesmo vers\u00edculo, Jo\u00e3o oferece-nos, por assim dizer, uma f\u00f3rmula sint\u00e9tica da exist\u00eancia crist\u00e3: \u00ab N\u00f3s conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem \u00bb. N\u00f3s cremos no amor de Deus \u2014 deste modo pode o crist\u00e3o exprimir a op\u00e7\u00e3o fundamental da sua vida. Ao in\u00edcio do ser crist\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 uma decis\u00e3o \u00e9tica ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que d\u00e1 \u00e0 vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. No seu Evangelho, Jo\u00e3o tinha expressado este acontecimento com as palavras seguintes: \u00ab Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho \u00fanico para que todo o que n&#8217;Ele crer (&#8230;) tenha a vida eterna \u00bb (3, 16). Com a centralidade do amor, a f\u00e9 crist\u00e3 acolheu o n\u00facleo da f\u00e9 de Israel e, ao mesmo tempo, deu a este n\u00facleo uma nova profundidade e amplitude. O crente israelita, de facto, reza todos os dias com as palavras do Livro do Deuteron\u00f3mio, nas quais sabe que est\u00e1 contido o centro da sua exist\u00eancia: \u00ab Escuta, \u00f3 Israel! O Senhor, nosso Deus, \u00e9 o \u00fanico Senhor! Amar\u00e1s ao Senhor, teu Deus, com todo o teu cora\u00e7\u00e3o, com toda a tua alma e com todas as tuas for\u00e7as \u00bb (6, 4-5). Jesus uniu \u2014 fazendo deles um \u00fanico preceito \u2014 o mandamento do amor a Deus com o do amor ao pr\u00f3ximo, contido no Livro do Lev\u00edtico: \u00ab Amar\u00e1s o teu pr\u00f3ximo como a ti mesmo \u00bb (19, 18; cf. Mc 12, 29-31). Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas um \u00ab mandamento \u00bb, mas \u00e9 a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro. Num mundo em que ao nome de Deus se associa \u00e0s vezes a vingan\u00e7a ou mesmo o dever do \u00f3dio e da viol\u00eancia, esta \u00e9 uma mensagem de grande actualidade e de significado muito concreto. Por isso, na minha primeira Enc\u00edclica, desejo falar do amor com que Deus nos cumula e que deve ser comunicado aos outros por n\u00f3s. Est\u00e3o assim indicadas as duas grandes partes que comp\u00f5em esta Carta, profundamente conexas entre elas. A primeira ter\u00e1 uma \u00edndole mais especulativa, pois desejo \u2014 ao in\u00edcio do meu Pontificado \u2014 especificar nela alguns dados essenciais sobre o amor que Deus oferece de modo misterioso e gratuito ao homem, juntamente com o nexo intr\u00ednseco daquele Amor com a realidade do amor humano. A segunda parte ter\u00e1 um car\u00e1cter mais concreto, porque tratar\u00e1 da pr\u00e1tica eclesial do mandamento do amor ao pr\u00f3ximo. O argumento aparece demasiado amplo; uma longa explana\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o entra no objectivo da presente Enc\u00edclica. O meu desejo \u00e9 insistir sobre alguns elementos fundamentais, para deste modo suscitar no mundo um renovado dinamismo de empenhamento na resposta humana ao amor divino.  I PARTE A UNIDADE DO AMOR NA CRIA\u00c7\u00c3O E NA HIST\u00d3RIA DA SALVA\u00c7\u00c3O  Um problema de linguagem 2. O amor de Deus por n\u00f3s \u00e9 quest\u00e3o fundamental para a vida e coloca quest\u00f5es decisivas sobre quem \u00e9 Deus e quem somos n\u00f3s. A tal prop\u00f3sito, o primeiro obst\u00e1culo que encontramos \u00e9 um problema de linguagem. O termo \u00ab amor \u00bb tornou-se hoje uma das palavras mais usadas e mesmo abusadas, \u00e0 qual associamos significados completamente diferentes. Embora o tema desta Enc\u00edclica se concentre sobre a quest\u00e3o da compreens\u00e3o e da pr\u00e1tica do amor na Sagrada Escritura e na Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja, n\u00e3o podemos prescindir pura e simplesmente do significado que esta palavra tem nas v\u00e1rias culturas e na linguagem actual. Em primeiro lugar, recordemos o vasto campo sem\u00e2ntico da palavra \u00ab amor \u00bb: fala-se de amor da p\u00e1tria, amor \u00e0 profiss\u00e3o, amor entre amigos, amor ao trabalho, amor entre pais e filhos, entre irm\u00e3os e familiares, amor ao pr\u00f3ximo e amor a Deus. Em toda esta gama de significados, por\u00e9m, o amor entre o homem e a mulher, no qual concorrem indivisivelmente corpo e alma e se abre ao ser humano uma promessa de felicidade que parece irresist\u00edvel, sobressai como arqu\u00e9tipo de amor por excel\u00eancia, de tal modo que, comparados com ele, \u00e0 primeira vista todos os demais tipos de amor se ofuscam. Surge ent\u00e3o a quest\u00e3o: todas estas formas de amor no fim de contas unificam-se sendo o amor, apesar de toda a diversidade das suas manifesta\u00e7\u00f5es, em \u00faltima inst\u00e2ncia um s\u00f3, ou, ao contr\u00e1rio, utilizamos uma mesma palavra para indicar realidades totalmente diferentes?  \u00ab Eros \u00bb e \u00ab agape \u00bb \u2013 diferen\u00e7a e unidade 3. Ao amor entre homem e mulher, que n\u00e3o nasce da intelig\u00eancia e da vontade mas de certa forma imp\u00f5e-se ao ser humano, a Gr\u00e9cia antiga deu o nome de eros. Diga-se desde j\u00e1 que o Antigo Testamento grego usa s\u00f3 duas vezes a palavra eros, enquanto o Novo Testamento nunca a usa: das tr\u00eas palavras gregas relacionadas com o amor \u2014 eros, philia (amor de amizade) e agape \u2014 os escritos neo-testament\u00e1rios privilegiam a \u00faltima, que, na linguagem grega, era quase posta de lado. Quanto ao amor de amizade (philia), este \u00e9 retomado com um significado mais profundo no Evangelho de Jo\u00e3o para exprimir a rela\u00e7\u00e3o entre Jesus e os seus disc\u00edpulos. A marginaliza\u00e7\u00e3o da palavra eros, juntamente com a nova vis\u00e3o do amor que se exprime atrav\u00e9s da palavra agape, denota sem d\u00favida, na novidade do cristianismo, algo de essencial e pr\u00f3prio relativamente \u00e0 compreens\u00e3o do amor. Na cr\u00edtica ao cristianismo que se foi desenvolvendo com radicalismo crescente a partir do iluminismo, esta novidade foi avaliada de forma absolutamente negativa. Segundo Friedrich Nietzsche, o cristianismo teria dado veneno a beber ao eros, que, embora n\u00e3o tivesse morrido, da\u00ed teria recebido o impulso para degenerar em v\u00edcio. [1] Este fil\u00f3sofo alem\u00e3o exprimia assim uma sensa\u00e7\u00e3o muito generalizada: com os seus mandamentos e proibi\u00e7\u00f5es, a Igreja n\u00e3o nos torna porventura amarga a coisa mais bela da vida? Porventura n\u00e3o assinala ela proibi\u00e7\u00f5es precisamente onde a alegria, preparada para n\u00f3s pelo Criador, nos oferece uma felicidade que nos faz pressentir algo do Divino?  4. Mas, ser\u00e1 mesmo assim? O cristianismo destruiu verdadeiramente o eros? Vejamos o mundo pr\u00e9-crist\u00e3o. Os gregos \u2014 ali\u00e1s de forma an\u00e1loga a outras culturas \u2014 viram no eros sobretudo o inebriamento, a subjuga\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o por parte duma \u00ab loucura divina \u00bb que arranca o homem das limita\u00e7\u00f5es da sua exist\u00eancia e, neste estado de transtorno por uma for\u00e7a divina, faz-lhe experimentar a mais alta beatitude. Deste modo, todas as outras for\u00e7as quer no c\u00e9u quer na terra resultam de import\u00e2ncia secund\u00e1ria: \u00ab Omnia vincit amor \u2014 o amor tudo vence \u00bb, afirma Virg\u00edlio nas Buc\u00f3licas e acrescenta: \u00ab et nos cedamus amori \u2014 rendamo-nos tamb\u00e9m n\u00f3s ao amor \u00bb. [2] Nas religi\u00f5es, esta posi\u00e7\u00e3o traduziu-se nos cultos da fertilidade, aos quais pertence a prostitui\u00e7\u00e3o \u00ab sagrada \u00bb que prosperava em muitos templos. O eros foi, pois, celebrado como for\u00e7a divina, como comunh\u00e3o com o Divino. A esta forma de religi\u00e3o, que contrasta como uma fort\u00edssima tenta\u00e7\u00e3o com a f\u00e9 no \u00fanico Deus, o Antigo Testamento op\u00f4s-se com a maior firmeza, combatendo-a como pervers\u00e3o da religiosidade. Ao faz\u00ea-lo, por\u00e9m, n\u00e3o rejeitou de modo algum o eros enquanto tal, mas declarou guerra \u00e0 sua subvers\u00e3o devastadora, porque a falsa diviniza\u00e7\u00e3o do eros, como a\u00ed se verifica, priva-o da sua dignidade, desumaniza-o. De facto, no templo, as prostitutas, que devem dar o inebriamento do Divino, n\u00e3o s\u00e3o tratadas como seres humanos e pessoas, mas servem apenas como instrumentos para suscitar a \u00ab loucura divina \u00bb: na realidade, n\u00e3o s\u00e3o deusas, mas pessoas humanas de quem se abusa. Por isso, o eros inebriante e descontrolado n\u00e3o \u00e9 subida, \u00ab \u00eaxtase \u00bb at\u00e9 ao Divino, mas queda, degrada\u00e7\u00e3o do homem. Fica assim claro que o eros necessita de disciplina, de purifica\u00e7\u00e3o para dar ao homem, n\u00e3o o prazer de um instante, mas uma certa amostra do v\u00e9rtice da exist\u00eancia, daquela beatitude para que tende todo o nosso ser.  5. Dois dados resultam claramente desta r\u00e1pida vis\u00e3o sobre a concep\u00e7\u00e3o do eros na hist\u00f3ria e na actualidade. O primeiro \u00e9 que entre o amor e o Divino existe qualquer rela\u00e7\u00e3o: o amor promete infinito, eternidade \u2014 uma realidade maior e totalmente diferente do dia-a-dia da nossa exist\u00eancia. E o segundo \u00e9 que o caminho para tal meta n\u00e3o consiste em deixar-se simplesmente subjugar pelo instinto. S\u00e3o necess\u00e1rias purifica\u00e7\u00f5es e amadurecimentos, que passam tamb\u00e9m pela estrada da ren\u00fancia. Isto n\u00e3o \u00e9 rejei\u00e7\u00e3o do eros, n\u00e3o \u00e9 o seu \u00ab envenenamento \u00bb, mas a cura em ordem \u00e0 sua verdadeira grandeza. Isto depende primariamente da constitui\u00e7\u00e3o do ser humano, que \u00e9 composto de corpo e alma. O homem torna-se realmente ele mesmo, quando corpo e alma se encontram em \u00edntima unidade; o desafio do eros pode considerar-se verdadeiramente superado, quando se consegue esta unifica\u00e7\u00e3o. Se o homem aspira a ser somente esp\u00edrito e quer rejeitar a carne como uma heran\u00e7a apenas animalesca, ent\u00e3o esp\u00edrito e corpo perdem a sua dignidade. E se ele, por outro lado, renega o esp\u00edrito e consequentemente considera a mat\u00e9ria, o corpo, como realidade exclusiva, perde igualmente a sua grandeza. O epicurista Gassendi, gracejando, cumprimentava Descartes com a sauda\u00e7\u00e3o: \u00ab \u00d3 Alma! \u00bb. E Descartes replicava dizendo: \u00ab \u00d3 Carne! \u00bb. [3] Mas, nem o esp\u00edrito ama sozinho, nem o corpo: \u00e9 o homem, a pessoa, que ama como criatura unit\u00e1ria, de que fazem parte o corpo e a alma. Somente quando ambos se fundem verdadeiramente numa unidade, \u00e9 que o homem se torna plenamente ele pr\u00f3prio. S\u00f3 deste modo \u00e9 que o amor \u2014 o eros \u2014 pode amadurecer at\u00e9 \u00e0 sua verdadeira grandeza. Hoje n\u00e3o \u00e9 raro ouvir censurar o cristianismo do passado por ter sido advers\u00e1rio da corporeidade; a realidade \u00e9 que sempre houve tend\u00eancias neste sentido. Mas o modo de exaltar o corpo, a que assistimos hoje, \u00e9 enganador. O eros degradado a puro \u00ab sexo \u00bb torna-se mercadoria, torna-se simplesmente uma \u00ab coisa \u00bb que se pode comprar e vender; antes, o pr\u00f3prio homem torna-se mercadoria. Na realidade, para o homem, isto n\u00e3o constitui propriamente uma grande afirma\u00e7\u00e3o do seu corpo. Pelo contr\u00e1rio, agora considera o corpo e a sexualidade como a parte meramente material de si mesmo a usar e explorar com proveito. Uma parte, ali\u00e1s, que ele n\u00e3o v\u00ea como um \u00e2mbito da sua liberdade, mas antes como algo que, a seu modo, procura tornar simultaneamente agrad\u00e1vel e in\u00f3cuo. Na verdade, encontramo-nos diante duma degrada\u00e7\u00e3o do corpo humano, que deixa de estar integrado no conjunto da liberdade da nossa exist\u00eancia, deixa de ser express\u00e3o viva da totalidade do nosso ser, acabando como que relegado para o campo puramente biol\u00f3gico. A aparente exalta\u00e7\u00e3o do corpo pode bem depressa converter-se em \u00f3dio \u00e0 corporeidade. Ao contr\u00e1rio, a f\u00e9 crist\u00e3 sempre considerou o homem como um ser uni-dual, em que esp\u00edrito e mat\u00e9ria se compenetram mutuamente, experimentando ambos precisamente desta forma uma nova nobreza. Sim, o eros quer-nos elevar \u00ab em \u00eaxtase \u00bb para o Divino, conduzir-nos para al\u00e9m de n\u00f3s pr\u00f3prios, mas por isso mesmo requer um caminho de ascese, ren\u00fancias, purifica\u00e7\u00f5es e saneamentos.  6. Concretamente, como se deve configurar este caminho de ascese e purifica\u00e7\u00e3o? Como deve ser vivido o amor, para que se realize plenamente a sua promessa humana e divina? Uma primeira indica\u00e7\u00e3o importante, podemos encontr\u00e1-la no C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, um dos livros do Antigo Testamento bem conhecido dos m\u00edsticos. Segundo a interpreta\u00e7\u00e3o hoje predominante, as poesias contidas neste livro s\u00e3o originalmente c\u00e2nticos de amor, talvez previstos para uma festa israelita de n\u00fapcias, na qual deviam exaltar o amor conjugal. Neste contexto, \u00e9 muito elucidativo o facto de, ao longo do livro, se encontrarem duas palavras distintas para designar o \u00ab amor \u00bb. Primeiro, aparece a palavra \u00ab dodim \u00bb, um plural que exprime o amor ainda inseguro, numa situa\u00e7\u00e3o de procura indeterminada. Depois, esta palavra \u00e9 substitu\u00edda por \u00ab ahab\u00e0 \u00bb, que, na vers\u00e3o grega do Antigo Testamento, \u00e9 traduzida pelo termo de som semelhante \u00ab agape \u00bb, que se tornou, como vimos, o termo caracter\u00edstico para a concep\u00e7\u00e3o b\u00edblica do amor. Em contraposi\u00e7\u00e3o ao amor indeterminado e ainda em fase de procura, este voc\u00e1bulo exprime a experi\u00eancia do amor que agora se torna verdadeiramente descoberta do outro, superando assim o car\u00e1cter ego\u00edsta que antes claramente prevalecia. Agora o amor torna-se cuidado do outro e pelo outro. J\u00e1 n\u00e3o se busca a si pr\u00f3prio, n\u00e3o busca a imers\u00e3o no inebriamento da felicidade; procura, ao inv\u00e9s, o bem do amado: torna-se ren\u00fancia, est\u00e1 disposto ao sacrif\u00edcio, antes procura-o. Faz parte da evolu\u00e7\u00e3o do amor para n\u00edveis mais altos, para as suas \u00edntimas purifica\u00e7\u00f5es, que ele procure agora o car\u00e1cter definitivo, e isto num duplo sentido: no sentido da exclusividade \u2014 \u00ab apenas esta \u00fanica pessoa \u00bb \u2014 e no sentido de ser \u00ab para sempre \u00bb. O amor compreende a totalidade da exist\u00eancia em toda a sua dimens\u00e3o, inclusive a temporal. Nem poderia ser de outro modo, porque a sua promessa visa o definitivo: o amor visa a eternidade. Sim, o amor \u00e9 \u00ab \u00eaxtase \u00bb; \u00eaxtase, n\u00e3o no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como \u00eaxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua liberta\u00e7\u00e3o no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus: \u00ab Quem procurar salvaguardar a vida, perd\u00ea-la-\u00e1, e quem a perder, conserv\u00e1-la-\u00e1 \u00bb (Lc 17, 33) \u2014 disse Jesus; afirma\u00e7\u00e3o esta que se encontra nos Evangelhos com diversas variantes (cf. Mt 10, 39; 16, 25; Mc 8, 35; Lc 9, 24; Jo 12, 25). Assim descreve Jesus o seu caminho pessoal, que O conduz, atrav\u00e9s da cruz, \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o: o caminho do gr\u00e3o de trigo que cai na terra e morre e assim d\u00e1 muito fruto. Partindo do centro do seu sacrif\u00edcio pessoal e do amor que a\u00ed alcan\u00e7a a sua plenitude, Ele, com tais palavras, descreve tamb\u00e9m a ess\u00eancia do amor e da exist\u00eancia humana em geral.  7. Inicialmente mais filos\u00f3ficas, as nossas reflex\u00f5es sobre a ess\u00eancia do amor conduziram-nos agora, pela sua din\u00e2mica interior, \u00e0 f\u00e9 b\u00edblica. Ao princ\u00edpio, colocou-se o problema de saber se os v\u00e1rios, ou melhor opostos, significados da palavra amor subentenderiam no fundo uma certa unidade entre eles ou se deveriam ficar desligados um ao lado do outro. Mas, acima de tudo, surgiu a quest\u00e3o seguinte: se a mensagem sobre o amor, que nos \u00e9 anunciada pela B\u00edblia e pela Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja, teria algo a ver com a experi\u00eancia humana comum do amor ou se, pelo contr\u00e1rio, se opusesse a ela. A este respeito, fomos dar com duas palavras fundamentais: eros como termo para significar o amor \u00ab mundano \u00bb e agape como express\u00e3o do amor fundado sobre a f\u00e9 e por ela plasmado. As duas concep\u00e7\u00f5es aparecem frequentemente contrapostas como amor \u00ab ascendente \u00bb e amor \u00ab descendente \u00bb. Existem outras classifica\u00e7\u00f5es afins como, por exemplo, a distin\u00e7\u00e3o entre amor possessivo e amor oblativo (amor concupiscenti\u00e6 \u2013 amor benevolenti\u00e6), \u00e0 qual, \u00e0s vezes, se acrescenta ainda o amor que procura o pr\u00f3prio interesse. No debate filos\u00f3fico e teol\u00f3gico, estas distin\u00e7\u00f5es foram muitas vezes radicalizadas at\u00e9 ao ponto de as colocar em contraposi\u00e7\u00e3o: tipicamente crist\u00e3o seria o amor descendente, oblativo, ou seja, a agape; ao inv\u00e9s, a cultura n\u00e3o crist\u00e3, especialmente a grega, caracterizar-se-ia pelo amor ascendente, ambicioso e possessivo, ou seja, pelo eros. Se se quisesse levar ao extremo esta ant\u00edtese, a ess\u00eancia do cristianismo terminaria desarticulada das rela\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas e vitais da exist\u00eancia humana e constituiria um mundo independente, considerado talvez admir\u00e1vel, mas decididamente separado do conjunto da exist\u00eancia humana. Na realidade, eros e agape \u2014 amor ascendente e amor descendente \u2014 nunca se deixam separar completamente um do outro. Quanto mais os dois encontrarem a justa unidade, embora em distintas dimens\u00f5es, na \u00fanica realidade do amor, tanto mais se realiza a verdadeira natureza do amor em geral. Embora o eros seja inicialmente sobretudo ambicioso, ascendente \u2014 fascina\u00e7\u00e3o pela grande promessa de felicidade \u2014 depois, \u00e0 medida que se aproxima do outro, far-se-\u00e1 cada vez menos perguntas sobre si pr\u00f3prio, procurar\u00e1 sempre mais a felicidade do outro, preocupar-se-\u00e1 cada vez mais dele, doar-se-\u00e1 e desejar\u00e1 \u00ab existir para \u00bb o outro. Assim se insere nele o momento da agape; caso contr\u00e1rio, o eros decai e perde mesmo a sua pr\u00f3pria natureza. Por outro lado, o homem tamb\u00e9m n\u00e3o pode viver exclusivamente no amor oblativo, descendente. N\u00e3o pode limitar-se sempre a dar, deve tamb\u00e9m receber. Quem quer dar amor, deve ele mesmo receb\u00ea-lo em dom. Certamente, o homem pode \u2014 como nos diz o Senhor \u2014 tornar-se uma fonte donde correm rios de \u00e1gua viva (cf. Jo 7, 37-38); mas, para se tornar semelhante fonte, deve ele mesmo beber incessantemente da fonte primeira e origin\u00e1ria que \u00e9 Jesus Cristo, de cujo cora\u00e7\u00e3o trespassado brota o amor de Deus (cf. Jo 19, 34). Os Padres viram simbolizada de v\u00e1rias maneiras, na narra\u00e7\u00e3o da escada de Jacob, esta conex\u00e3o indivis\u00edvel entre subida e descida, entre o eros que procura Deus e a agape que transmite o dom recebido. Naquele texto b\u00edblico refere-se que o patriarca Jacob num sonho viu, assente na pedra que lhe servia de travesseiro, uma escada que chegava at\u00e9 ao c\u00e9u, pela qual subiam e desciam os anjos de Deus (cf. Gn 28, 12; Jo 1, 51). Particularmente interessante \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o que d\u00e1 o Papa Greg\u00f3rio Magno desta vis\u00e3o, na sua Regra pastoral. O bom pastor \u2014 diz ele \u2014 deve estar radicado na contempla\u00e7\u00e3o. De facto, s\u00f3 assim lhe ser\u00e1 poss\u00edvel acolher de tal modo no seu \u00edntimo as necessidades dos outros, que estas se tornem suas: \u00ab per pietatis viscera in se infirmitatem c\u00e6terorum transferat \u00bb. [4] Neste contexto, S\u00e3o Greg\u00f3rio alude a S\u00e3o Paulo que foi arrebatado para as alturas at\u00e9 aos maiores mist\u00e9rios de Deus e precisamente desta forma, quando desce, \u00e9 capaz de fazer-se tudo para todos (cf. 2 Cor 12, 2-4; 1 Cor 9, 22). Al\u00e9m disso, indica o exemplo de Mois\u00e9s que repetidamente entra na tenda sagrada, permanecendo em di\u00e1logo com Deus para poder assim, a partir de Deus, estar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do seu povo. \u00ab Dentro [da tenda] arrebatado at\u00e9 \u00e0s alturas mediante a contempla\u00e7\u00e3o, fora [da tenda] deixa-se encal\u00e7ar pelo peso dos que sofrem: Intus in contemplationem rapitur, foris infirmantium negotiis urgetur \u00bb. [5]  8. Encontramos, assim, uma primeira resposta, ainda bastante gen\u00e9rica, para as duas quest\u00f5es atr\u00e1s expostas: no fundo, o \u00ab amor \u00bb \u00e9 uma \u00fanica realidade, embora com distintas dimens\u00f5es; caso a caso, pode uma ou outra dimens\u00e3o sobressair mais. Mas, quando as duas dimens\u00f5es se separam completamente uma da outra, surge uma caricatura ou, de qualquer modo, uma forma redutiva do amor. E vimos sinteticamente tamb\u00e9m que a f\u00e9 b\u00edblica n\u00e3o constr\u00f3i um mundo paralelo ou um mundo contraposto \u00e0quele fen\u00f3meno humano origin\u00e1rio que \u00e9 o amor, mas aceita o homem por inteiro intervindo na sua busca de amor para purific\u00e1-la, desvendando-lhe ao mesmo tempo novas dimens\u00f5es. Esta novidade da f\u00e9 b\u00edblica manifesta-se sobretudo em dois pontos que merecem ser sublinhados: a imagem de Deus e a imagem do homem.  A novidade da f\u00e9 b\u00edblica 9. Antes de mais nada, temos a nova imagem de Deus. Nas culturas que circundam o mundo da B\u00edblia, a imagem de deus e dos deuses permanece, tudo somado, pouco clara e em si mesma contradit\u00f3ria. No itiner\u00e1rio da f\u00e9 b\u00edblica, ao inv\u00e9s, vai-se tornando cada vez mais claro e un\u00edvoco aquilo que a ora\u00e7\u00e3o fundamental de Israel, o Shema, resume nestas palavras: \u00ab Escuta, \u00f3 Israel! O Senhor, nosso Deus, \u00e9 o \u00fanico Senhor! \u00bb (Dt 6, 4). Existe um \u00fanico Deus, que \u00e9 o Criador do c\u00e9u e da terra, e por isso \u00e9 tamb\u00e9m o Deus de todos os homens. Dois factos se singularizam neste esclarecimento: que verdadeiramente todos os outros deuses n\u00e3o s\u00e3o Deus e que toda a realidade onde vivemos se deve a Deus, \u00e9 criada por Ele. Certamente a ideia de uma cria\u00e7\u00e3o existe tamb\u00e9m alhures, mas s\u00f3 aqui aparece perfeitamente claro que n\u00e3o um deus qualquer, mas o \u00fanico Deus verdadeiro, Ele mesmo, \u00e9 o autor de toda a realidade; esta prov\u00e9m da for\u00e7a da sua Palavra criadora. Isto significa que esta sua criatura Lhe \u00e9 querida, precisamente porque foi desejada por Ele mesmo, foi \u00ab feita \u00bb por Ele. E assim aparece agora o segundo elemento importante: este Deus ama o homem. A for\u00e7a divina que Arist\u00f3teles, no auge da filosofia grega, procurou individuar mediante a reflex\u00e3o, \u00e9 certamente para cada ser objecto do desejo e do amor \u2014 como realidade amada esta divindade move o mundo [6] \u2014, mas ela mesma n\u00e3o necessita de nada e n\u00e3o ama, \u00e9 somente amada. Ao contr\u00e1rio, o \u00fanico Deus em que Israel cr\u00ea, ama pessoalmente. Al\u00e9m disso, o seu amor \u00e9 um amor de elei\u00e7\u00e3o: entre todos os povos, Ele escolhe Israel e ama-o \u2014 mas com a finalidade de curar, precisamente deste modo, a humanidade inteira. Ele ama, e este seu amor pode ser qualificado sem d\u00favida como eros, que no entanto \u00e9 totalmente agape tamb\u00e9m. [7] Sobretudo os profetas Oseias e Ezequiel descreveram esta paix\u00e3o de Deus pelo seu povo, com arrojadas imagens er\u00f3ticas. A rela\u00e7\u00e3o de Deus com Israel \u00e9 ilustrada atrav\u00e9s das met\u00e1foras do noivado e do matrim\u00f3nio; consequentemente, a idolatria \u00e9 adult\u00e9rio e prostitui\u00e7\u00e3o. Assim, se alude concretamente \u2014 como vimos \u2014 aos cultos da fertilidade com o seu abuso do eros, mas ao mesmo tempo \u00e9 descrita tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o de fidelidade entre Israel e o seu Deus. A hist\u00f3ria de amor de Deus com Israel consiste, na sua profundidade, no facto de que Ele d\u00e1 a Torah, isto \u00e9, abre os olhos a Israel sobre a verdadeira natureza do homem e indica-lhe a estrada do verdadeiro humanismo. Por seu lado, o homem, vivendo na fidelidade ao \u00fanico Deus, sente-se a si pr\u00f3prio como aquele que \u00e9 amado por Deus e descobre a alegria na verdade, na justi\u00e7a \u2014 a alegria em Deus que Se torna a sua felicidade essencial: \u00ab Quem terei eu nos c\u00e9us? Al\u00e9m de V\u00f3s, nada mais anseio sobre a terra (&#8230;). O meu bem \u00e9 estar perto de Deus \u00bb (Sal 73\/72, 25.28).  10. O eros de Deus pelo homem \u2014 como dissemos \u2014 \u00e9 ao mesmo tempo totalmente agape. E n\u00e3o s\u00f3 porque \u00e9 dado de maneira totalmente gratuita, sem m\u00e9rito algum precedente, mas tamb\u00e9m porque \u00e9 amor que perdoa. Sobretudo Oseias mostra-nos a dimens\u00e3o da agape no amor de Deus pelo homem, que supera largamente o aspecto da gratuidade. Israel cometeu \u00ab adult\u00e9rio \u00bb, rompeu a Alian\u00e7a; Deus deveria julg\u00e1-lo e repudi\u00e1-lo. Mas precisamente aqui se revela que Deus \u00e9 Deus, e n\u00e3o homem: \u00ab Como te abandonarei, \u00f3 Efraim? Entregar-te-ei, \u00f3 Israel? O meu cora\u00e7\u00e3o d\u00e1 voltas dentro de mim, comove-se a minha compaix\u00e3o. N\u00e3o desafogarei o furor da minha c\u00f3lera, n\u00e3o destruirei Efraim; porque sou Deus e n\u00e3o um homem, sou Santo no meio de ti \u00bb (Os 11, 8-9). O amor apaixonado de Deus pelo seu povo \u2014 pelo homem \u2014 \u00e9 ao mesmo tempo um amor que perdoa. E \u00e9 t\u00e3o grande, que chega a virar Deus contra Si pr\u00f3prio, o seu amor contra a sua justi\u00e7a. Nisto, o crist\u00e3o v\u00ea j\u00e1 esbo\u00e7ar-se veladamente o mist\u00e9rio da Cruz: Deus ama tanto o homem que, tendo-Se feito Ele pr\u00f3prio homem, segue-o at\u00e9 \u00e0 morte e, deste modo, reconcilia justi\u00e7a e amor. O aspecto filos\u00f3fico e hist\u00f3rico-religioso saliente nesta vis\u00e3o da B\u00edblia \u00e9 o facto de, por um lado, nos encontrarmos diante de uma imagem estritamente metaf\u00edsica de Deus: Deus \u00e9 absolutamente a fonte origin\u00e1ria de todo o ser; mas este princ\u00edpio criador de todas as coisas \u2014 o Logos, a raz\u00e3o primordial \u2014 \u00e9, ao mesmo tempo, um amante com toda a paix\u00e3o de um verdadeiro amor. Deste modo, o eros \u00e9 enobrecido ao m\u00e1ximo, mas simultaneamente t\u00e3o purificado que se funde com a agape. Daqui podemos compreender por que a recep\u00e7\u00e3o do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos no c\u00e2none da Sagrada Escritura tenha sido bem cedo explicada no sentido de que aqueles c\u00e2nticos de amor, no fundo, descreviam a rela\u00e7\u00e3o de Deus com o homem e do homem com Deus. E, assim, o referido livro tornou-se, tanto na literatura crist\u00e3 como na judaica, uma fonte de conhecimento e de experi\u00eancia m\u00edstica em que se exprime a ess\u00eancia da f\u00e9 b\u00edblica: na verdade, existe uma unifica\u00e7\u00e3o do homem com Deus \u2014 o sonho origin\u00e1rio do homem \u2014, mas esta unifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 confundir-se, um afundar no oceano an\u00f3nimo do Divino; \u00e9 unidade que cria amor, na qual ambos \u2014 Deus e o homem \u2014 permanecem eles mesmos mas tornando-se plenamente uma coisa s\u00f3: \u00ab Aquele, por\u00e9m, que se une ao Senhor constitui, com Ele, um s\u00f3 esp\u00edrito \u00bb \u2014 diz S\u00e3o Paulo (1 Cor 6, 17).  11. Como vimos, a primeira novidade da f\u00e9 b\u00edblica consiste na imagem de Deus; a segunda, essencialmente ligada a ela, encontramo-la na imagem do homem. A narra\u00e7\u00e3o b\u00edblica da cria\u00e7\u00e3o fala da solid\u00e3o do primeiro homem, Ad\u00e3o, querendo Deus p\u00f4r a seu lado um aux\u00edlio. Dentre todas as criaturas, nenhuma p\u00f4de ser para o homem aquela ajuda de que necessita, apesar de ter dado um nome a todos os animais selvagens e a todas as aves, integrando-os assim no contexto da sua vida. Ent\u00e3o, de uma costela do homem, Deus plasma a mulher. Agora Ad\u00e3o encontra a ajuda de que necessita: \u00ab Esta \u00e9, realmente, osso dos meus ossos e carne da minha carne \u00bb (Gn 2, 23). Na base desta narra\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel entrever concep\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s que aparecem, por exemplo, no mito referido por Plat\u00e3o, segundo o qual o homem originariamente era esf\u00e9rico, porque completo em si mesmo e auto-suficiente. Mas, como puni\u00e7\u00e3o pela sua soberba, foi dividido ao meio por Zeus, de tal modo que agora sempre anseia pela outra sua metade e caminha para ela a fim de reencontrar a sua globalidade. [8] Na narra\u00e7\u00e3o b\u00edblica, n\u00e3o se fala de puni\u00e7\u00e3o; por\u00e9m, a ideia de que o homem de algum modo esteja incompleto, constitutivamente a caminho a fim de encontrar no outro a parte que falta para a sua totalidade, isto \u00e9, a ideia de que, s\u00f3 na comunh\u00e3o com o outro sexo, possa tornar-se \u00ab completo \u00bb, est\u00e1 sem d\u00favida presente. E, deste modo, a narra\u00e7\u00e3o b\u00edblica conclui com uma profecia sobre Ad\u00e3o: \u00ab Por este motivo, o homem deixar\u00e1 o pai e a m\u00e3e para se unir \u00e0 sua mulher; e os dois ser\u00e3o uma s\u00f3 carne \u00bb (Gn 2, 24). Aqui h\u00e1 dois aspectos importantes: primeiro, o eros est\u00e1 de certo modo enraizado na pr\u00f3pria natureza do homem; Ad\u00e3o anda \u00e0 procura e \u00ab deixa o pai e a m\u00e3e \u00bb para encontrar a mulher; s\u00f3 no seu conjunto \u00e9 que representam a totalidade humana, tornam-se \u00ab uma s\u00f3 carne \u00bb. N\u00e3o menos importante \u00e9 o segundo aspecto: numa orienta\u00e7\u00e3o baseada na cria\u00e7\u00e3o, o eros impele o homem ao matrim\u00f3nio, a uma liga\u00e7\u00e3o caracterizada pela unicidade e para sempre; deste modo, e somente assim, \u00e9 que se realiza a sua finalidade \u00edntima. \u00c0 imagem do Deus monote\u00edsta corresponde o matrim\u00f3nio monog\u00e2mico. O matrim\u00f3nio baseado num amor exclusivo e definitivo torna-se o \u00edcone do relacionamento de Deus com o seu povo e, vice-versa, o modo de Deus amar torna-se a medida do amor humano. Esta estreita liga\u00e7\u00e3o entre eros e matrim\u00f3nio na B\u00edblia quase n\u00e3o encontra paralelos liter\u00e1rios fora da mesma.  Jesus Cristo \u2013 o amor encarnado de Deus 12. Apesar de termos falado at\u00e9 agora prevalentemente do Antigo Testamento, j\u00e1 se deixou clara a \u00edntima compenetra\u00e7\u00e3o dos dois Testamentos como \u00fanica Escritura da f\u00e9 crist\u00e3. A verdadeira novidade do Novo Testamento n\u00e3o reside em novas ideias, mas na pr\u00f3pria figura de Cristo, que d\u00e1 carne e sangue aos conceitos \u2014 um incr\u00edvel realismo. J\u00e1 no Antigo Testamento a novidade b\u00edblica n\u00e3o consistia simplesmente em no\u00e7\u00f5es abstractas, mas na ac\u00e7\u00e3o imprevis\u00edvel e, de certa forma, inaudita de Deus. Esta ac\u00e7\u00e3o de Deus ganha agora a sua forma dram\u00e1tica devido ao facto de que, em Jesus Cristo, o pr\u00f3prio Deus vai atr\u00e1s da \u00ab ovelha perdida \u00bb, a humanidade sofredora e transviada. Quando Jesus fala, nas suas par\u00e1bolas, do pastor que vai atr\u00e1s da ovelha perdida, da mulher que procura a dracma, do pai que sai ao encontro do filho pr\u00f3digo e o abra\u00e7a, n\u00e3o se trata apenas de palavras, mas constituem a explica\u00e7\u00e3o do seu pr\u00f3prio ser e agir. Na sua morte de cruz, cumpre-se aquele virar-se de Deus contra Si pr\u00f3prio, com o qual Ele Se entrega para levantar o homem e salv\u00e1-lo \u2014 o amor na sua forma mais radical. O olhar fixo no lado trespassado de Cristo, de que fala Jo\u00e3o (cf. 19, 37), compreende o que serviu de ponto de partida a esta Carta Enc\u00edclica: \u00ab Deus \u00e9 amor \u00bb (1 Jo 4, 8). \u00c9 l\u00e1 que esta verdade pode ser contemplada. E come\u00e7ando de l\u00e1, pretende-se agora definir em que consiste o amor. A partir daquele olhar, o crist\u00e3o encontra o caminho do seu viver e amar.  13. Jesus deu a este acto de oferta uma presen\u00e7a duradoura atrav\u00e9s da institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia durante a \u00daltima Ceia. Antecipa a sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o entregando-Se j\u00e1 naquela hora aos seus disc\u00edpulos, no p\u00e3o e no vinho, a Si pr\u00f3prio, ao seu corpo e sangue como novo man\u00e1 (cf. Jo 6, 31-33). Se o mundo antigo tinha sonhado que, no fundo, o verdadeiro alimento do homem \u2014 aquilo de que este vive enquanto homem \u2014 era o Logos, a sabedoria eterna, agora este Logos tornou-Se verdadeiramente alimento para n\u00f3s \u2014 como amor. A Eucaristia arrasta-nos no acto oblativo de Jesus. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de modo est\u00e1tico que recebemos o Logos encarnado, mas ficamos envolvidos na din\u00e2mica da sua doa\u00e7\u00e3o. A imagem do matrim\u00f3nio entre Deus e Israel torna-se realidade de um modo anteriormente inconceb\u00edvel: o que era um estar na presen\u00e7a de Deus torna-se agora, atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o na doa\u00e7\u00e3o de Jesus, comunh\u00e3o no seu corpo e sangue, torna-se uni\u00e3o. A \u00ab m\u00edstica \u00bb do Sacramento, que se funda no abaixamento de Deus at\u00e9 n\u00f3s, \u00e9 de um alcance muito diverso e conduz muito mais alto do que qualquer m\u00edstica eleva\u00e7\u00e3o do homem poderia realizar.  14. Temos agora de prestar aten\u00e7\u00e3o a outro aspecto: a \u00ab m\u00edstica \u00bb do Sacramento tem um car\u00e1cter social, porque, na comunh\u00e3o sacramental, eu fico unido ao Senhor como todos os demais comungantes: \u00ab Uma vez que h\u00e1 um s\u00f3 p\u00e3o, n\u00f3s, embora sendo muitos, formamos um s\u00f3 corpo, porque todos participamos do mesmo p\u00e3o \u00bb \u2014 diz S\u00e3o Paulo (1 Cor 10, 17). A uni\u00e3o com Cristo \u00e9, ao mesmo tempo, uni\u00e3o com todos os outros aos quais Ele Se entrega. Eu n\u00e3o posso ter Cristo s\u00f3 para mim; posso pertencer-Lhe somente unido a todos aqueles que se tornaram ou tornar\u00e3o Seus. A comunh\u00e3o tira-me para fora de mim mesmo projectando-me para Ele e, deste modo, tamb\u00e9m para a uni\u00e3o com todos os crist\u00e3os. Tornamo-nos \u00ab um s\u00f3 corpo \u00bb, fundidos todos numa \u00fanica exist\u00eancia. O amor a Deus e o amor ao pr\u00f3ximo est\u00e3o agora verdadeiramente juntos: o Deus encarnado atrai-nos todos a Si. Assim se compreende por que o termo agape se tenha tornado tamb\u00e9m um nome da Eucaristia: nesta a agape de Deus vem corporalmente a n\u00f3s, para continuar a sua ac\u00e7\u00e3o em n\u00f3s e atrav\u00e9s de n\u00f3s. S\u00f3 a partir desta fundamenta\u00e7\u00e3o cristol\u00f3gico-sacramental \u00e9 que se pode entender correctamente o ensinamento de Jesus sobre o amor. A passagem que Ele faz realizar da Lei e dos Profetas ao duplo mandamento do amor a Deus e ao pr\u00f3ximo, a deriva\u00e7\u00e3o de toda a vida de f\u00e9 da centralidade deste preceito n\u00e3o \u00e9 uma simples moral que possa, depois, subsistir autonomamente ao lado da f\u00e9 em Cristo e da sua re-actualiza\u00e7\u00e3o no Sacramento: f\u00e9, culto e ethos compenetram-se mutuamente como uma \u00fanica realidade que se configura no encontro com a agape de Deus. Aqui, a habitual contraposi\u00e7\u00e3o entre culto e \u00e9tica simplesmente desaparece. No pr\u00f3prio \u00ab culto \u00bb, na comunh\u00e3o eucar\u00edstica, est\u00e1 contido o ser amado e o amar, por sua vez, os outros. Uma Eucaristia que n\u00e3o se traduza em amor concretamente vivido, \u00e9 em si mesma fragment\u00e1ria. Por outro lado \u2014 como adiante havemos de considerar de modo mais detalhado \u2014 o \u00ab mandamento \u00bb do amor s\u00f3 se torna poss\u00edvel porque n\u00e3o \u00e9 mera exig\u00eancia: o amor pode ser \u00ab mandado \u00bb, porque antes nos \u00e9 dado.  15. \u00c9 a partir deste princ\u00edpio que devem ser entendidas tamb\u00e9m as grandes par\u00e1bolas de Jesus. O rico avarento (cf. Lc 16, 19-31) implora, do lugar do supl\u00edcio, que os seus irm\u00e3os sejam informados sobre o que acontece a quem levianamente ignorou o pobre que passava necessidade. Jesus recolhe, por assim dizer, aquele grito de socorro e repete-o para nos acautelar e reconduzir ao bom caminho. A par\u00e1bola do bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37) leva a dois esclarecimentos importantes. Enquanto o conceito de \u00ab pr\u00f3ximo \u00bb, at\u00e9 ent\u00e3o, se referia essencialmente aos concidad\u00e3os e aos estrangeiros que se tinham estabelecido na terra de Israel, ou seja, \u00e0 comunidade solid\u00e1ria de um pa\u00eds e de um povo, agora este limite \u00e9 abolido. Qualquer um que necessite de mim e eu possa ajud\u00e1-lo, \u00e9 o meu pr\u00f3ximo. O conceito de pr\u00f3ximo fica universalizado, sem deixar todavia de ser concreto. Apesar da sua extens\u00e3o a todos os homens, n\u00e3o se reduz \u00e0 express\u00e3o de um amor gen\u00e9rico e abstracto, em si mesmo pouco comprometedor, mas requer o meu empenho pr\u00e1tico aqui e agora. Continua a ser tarefa da Igreja interpretar sempre de novo esta liga\u00e7\u00e3o entre distante e pr\u00f3ximo na vida pr\u00e1tica dos seus membros. \u00c9 preciso, enfim, recordar de modo particular a grande par\u00e1bola do Ju\u00edzo final (cf. Mt 25, 31-46), onde o amor se torna o crit\u00e9rio para a decis\u00e3o definitiva sobre o valor ou a inutilidade duma vida humana. Jesus identifica-Se com os necessitados: famintos, sedentos, forasteiros, nus, enfermos, encarcerados. \u00ab Sempre que fizestes isto a um destes meus irm\u00e3os mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes \u00bb (Mt 25, 40). Amor a Deus e amor ao pr\u00f3ximo fundem-se num todo: no mais pequenino, encontramos o pr\u00f3prio Jesus e, em Jesus, encontramos Deus.  Amor a Deus e amor ao pr\u00f3ximo 16. Depois de termos reflectido sobre a ess\u00eancia do amor e o seu significado na f\u00e9 b\u00edblica, resta uma dupla pergunta a prop\u00f3sito do nosso comportamento. A primeira: \u00e9 realmente poss\u00edvel amar a Deus, mesmo sem O ver? E a outra: o amor pode ser mandado? Contra o duplo mandamento do amor, existe uma dupla objec\u00e7\u00e3o que se faz sentir nestas perguntas: ningu\u00e9m jamais viu a Deus \u2014 como poderemos am\u00e1-Lo? Mais: o amor n\u00e3o pode ser mandado; \u00e9, em definitivo, um sentimento que pode existir ou n\u00e3o, mas n\u00e3o pode ser criado pela vontade. A Escritura parece dar o seu aval \u00e0 primeira objec\u00e7\u00e3o, quando afirma: \u00ab Se algu\u00e9m disser: &#8220;Eu amo a Deus&#8221;, mas odiar a seu irm\u00e3o, \u00e9 mentiroso, pois quem n\u00e3o ama a seu irm\u00e3o ao qual v\u00ea, como pode amar a Deus, que n\u00e3o v\u00ea? \u00bb (1 Jo 4, 20). Este texto, por\u00e9m, n\u00e3o exclui de modo algum o amor de Deus como algo imposs\u00edvel; pelo contr\u00e1rio, em todo o contexto da I Carta de Jo\u00e3o agora citada, tal amor \u00e9 explicitamente requerido. Nela se destaca o nexo indivis\u00edvel entre o amor a Deus e o amor ao pr\u00f3ximo: um exige t\u00e3o estreitamente o outro que a afirma\u00e7\u00e3o do amor a Deus se torna uma mentira, se o homem se fechar ao pr\u00f3ximo ou, inclusive, o odiar. O citado vers\u00edculo joanino deve, antes, ser interpretado no sentido de que o amor ao pr\u00f3ximo \u00e9 uma estrada para encontrar tamb\u00e9m a Deus, e que o fechar os olhos diante do pr\u00f3ximo torna cegos tamb\u00e9m diante de Deus.  17. Com efeito, ningu\u00e9m jamais viu a Deus tal como Ele \u00e9 em Si mesmo. E, contudo, Deus n\u00e3o nos \u00e9 totalmente invis\u00edvel, n\u00e3o se deixou ficar pura e simplesmente inacess\u00edvel a n\u00f3s. Deus amou-nos primeiro \u2014 diz a Carta de Jo\u00e3o citada (cf. 4, 10) \u2014 e este amor de Deus apareceu no meio de n\u00f3s, fez-se vis\u00edvel quando Ele \u00ab enviou o seu Filho unig\u00e9nito ao mundo, para que, por Ele, vivamos \u00bb (1 Jo 4, 9). Deus fez-Se vis\u00edvel: em Jesus, podemos ver o Pai (cf. Jo 14, 9). Existe, com efeito, uma m\u00faltipla visibilidade de Deus. Na hist\u00f3ria de amor que a B\u00edblia nos narra, Ele vem ao nosso encontro, procura conquistar-nos \u2014 at\u00e9 \u00e0 \u00daltima Ceia, at\u00e9 ao Cora\u00e7\u00e3o trespassado na cruz, at\u00e9 \u00e0s apari\u00e7\u00f5es do Ressuscitado e \u00e0s grandes obras pelas quais Ele, atrav\u00e9s da ac\u00e7\u00e3o dos Ap\u00f3stolos, guiou o caminho da Igreja nascente. Tamb\u00e9m na sucessiva hist\u00f3ria da Igreja, o Senhor n\u00e3o esteve ausente: incessantemente vem ao nosso encontro, atrav\u00e9s de homens nos quais Ele Se revela; atrav\u00e9s da sua Palavra, nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia. Na liturgia da Igreja, na sua ora\u00e7\u00e3o, na comunidade viva dos crentes, n\u00f3s experimentamos o amor de Deus, sentimos a sua presen\u00e7a e aprendemos deste modo tamb\u00e9m a reconhec\u00ea-la na nossa vida quotidiana. Ele amou-nos primeiro, e continua a ser o primeiro a amar-nos; por isso, tamb\u00e9m n\u00f3s podemos responder com o amor. Deus n\u00e3o nos ordena um sentimento que n\u00e3o possamos suscitar em n\u00f3s pr\u00f3prios. Ele ama-nos, faz-nos ver e experimentar o seu amor, e desta \u00ab antecipa\u00e7\u00e3o \u00bb de Deus pode, como resposta, despontar tamb\u00e9m em n\u00f3s o amor. No desenrolar deste encontro, revela-se com clareza que o amor n\u00e3o \u00e9 apenas um sentimento. Os sentimentos v\u00e3o e v\u00eam. O sentimento pode ser uma maravilhosa centelha inicial, mas n\u00e3o \u00e9 a totalidade do amor. Ao in\u00edcio, fal\u00e1mos do processo das purifica\u00e7\u00f5es e amadurecimentos, pelos quais o eros se torna plenamente ele mesmo, se torna amor no significado cabal da palavra. \u00c9 pr\u00f3prio da maturidade do amor abranger todas as potencialidades do homem e incluir, por assim dizer, o homem na sua totalidade. O encontro com as manifesta\u00e7\u00f5es vis\u00edveis do amor de Deus pode suscitar em n\u00f3s o sentimento da alegria, que nasce da experi\u00eancia de ser amados. Tal encontro, por\u00e9m, chama em causa tamb\u00e9m a nossa vontade e o nosso intelecto. O reconhecimento do Deus vivo \u00e9 um caminho para o amor, e o sim da nossa vontade \u00e0 d&#8217;Ele une intelecto, vontade e sentimento no acto globalizante do amor. Mas isto \u00e9 um processo que permanece continuamente em caminho: o amor nunca est\u00e1 \u00ab conclu\u00eddo \u00bb e completado; transforma-se ao longo da vida, amadurece e, por isso mesmo, permanece fiel a si pr\u00f3prio. Idem velle atque idem nolle [9] \u2014 querer a mesma coisa e rejeitar a mesma coisa \u00e9, segundo os antigos, o aut\u00eantico conte\u00fado do amor: um tornar-se semelhante ao outro, que leva \u00e0 uni\u00e3o do querer e do pensar. A hist\u00f3ria do amor entre Deus e o homem consiste precisamente no facto de que esta comunh\u00e3o de vontade cresce em comunh\u00e3o de pensamento e de sentimento e, assim, o nosso querer e a vontade de Deus coincidem cada vez mais: a vontade de Deus deixa de ser para mim uma vontade estranha que me imp\u00f5em de fora os mandamentos, mas \u00e9 a minha pr\u00f3pria vontade, baseada na experi\u00eancia de que realmente Deus \u00e9 mais \u00edntimo a mim mesmo de quanto o seja eu pr\u00f3prio. [10] Cresce ent\u00e3o o abandono em Deus, e Deus torna-Se a nossa alegria (cf. Sal 73\/72, 23-28).  18. Revela-se, assim, como poss\u00edvel o amor ao pr\u00f3ximo no sentido enunciado por Jesus, na B\u00edblia. Consiste precisamente no facto de que eu amo, em Deus e com Deus, a pessoa que n\u00e3o me agrada ou que nem conhe\u00e7o sequer. Isto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel realizar-se a partir do encontro \u00edntimo com Deus, um encontro que se tornou comunh\u00e3o de vontade, chegando mesmo a tocar o sentimento. Ent\u00e3o aprendo a ver aquela pessoa j\u00e1 n\u00e3o somente com os meus olhos e sentimentos, mas segundo a perspectiva de Jesus Cristo. O seu amigo \u00e9 meu amigo. Para al\u00e9m do aspecto exterior do outro, dou-me conta da sua expectativa interior de um gesto de amor, de aten\u00e7\u00e3o, que eu n\u00e3o lhe fa\u00e7o chegar somente atrav\u00e9s das organiza\u00e7\u00f5es que disso se ocupam, aceitando-o talvez por necessidade pol\u00edtica. Eu vejo com os olhos de Cristo e posso dar ao outro muito mais do que as coisas externamente necess\u00e1rias: posso dar-lhe o olhar de amor de que ele precisa. Aqui se v\u00ea a interac\u00e7\u00e3o que \u00e9 necess\u00e1ria entre o amor a Deus e o amor ao pr\u00f3ximo, de que fala com tanta insist\u00eancia a I Carta de Jo\u00e3o. Se na minha vida falta totalmente o contacto com Deus, posso ver no outro sempre e apenas o outro e n\u00e3o consigo reconhecer nele a imagem divina. Mas, se na minha vida negligencio completamente a aten\u00e7\u00e3o ao outro, importando-me apenas com ser \u00ab piedoso \u00bb e cumprir os meus \u00ab deveres religiosos \u00bb, ent\u00e3o definha tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o com Deus. Neste caso, trata-se duma rela\u00e7\u00e3o \u00ab correcta \u00bb, mas sem amor. S\u00f3 a minha disponibilidade para ir ao encontro do pr\u00f3ximo e demonstrar-lhe amor \u00e9 que me torna sens\u00edvel tamb\u00e9m diante de Deus. S\u00f3 o servi\u00e7o ao pr\u00f3ximo \u00e9 que abre os meus olhos para aquilo que Deus faz por mim e para o modo como Ele me ama. Os Santos \u2014 pensemos, por exemplo, na Beata Teresa de Calcut\u00e1 \u2014 hauriram a sua capacidade de amar o pr\u00f3ximo, de modo sempre renovado, do seu encontro com o Senhor eucar\u00edstico e, vice-versa, este encontro ganhou o seu realismo e profundidade precisamente no servi\u00e7o deles aos outros. Amor a Deus e amor ao pr\u00f3ximo s\u00e3o insepar\u00e1veis, constituem um \u00fanico mandamento. Mas, ambos vivem do amor preveniente com que Deus nos amou primeiro. Deste modo, j\u00e1 n\u00e3o se trata de um \u00ab mandamento \u00bb que do exterior nos imp\u00f5e o imposs\u00edvel, mas de uma experi\u00eancia do amor proporcionada do interior, um amor que, por sua natureza, deve ser ulteriormente comunicado aos outros. O amor cresce atrav\u00e9s do amor. O amor \u00e9 \u00ab divino \u00bb, porque vem de Deus e nos une a Deus, e, atrav\u00e9s deste processo unificador, transforma-nos em um N\u00f3s, que supera as nossas divis\u00f5es e nos faz ser um s\u00f3, at\u00e9 que, no fim, Deus seja \u00ab tudo em todos \u00bb (1 Cor 15, 28).  II PARTE CARITAS \u2013 A PR\u00c1TICA DO AMOR PELA IGREJA ENQUANTO \u00abCOMUNIDADE DE AMOR \u00bb  A caridade da Igreja como manifesta\u00e7\u00e3o do amor trinit\u00e1rio 19. \u00ab Se v\u00eas a caridade, v\u00eas a Trindade \u00bb \u2014 escrevia Santo Agostinho. [11] Ao longo das reflex\u00f5es anteriores, pudemos fixar o nosso olhar no Trespassado (cf. Jo 19, 37; Zc 12, 10), reconhecendo o des\u00edgnio do Pai que, movido pelo amor (cf. Jo 3, 16), enviou o Filho unig\u00e9nito ao mundo para redimir o homem. Quando morreu na cruz, Jesus \u2014 como indica o evangelista \u2014 \u00ab entregou o Esp\u00edrito \u00bb (cf. Jo 19, 30), prel\u00fadio daquele dom do Esp\u00edrito Santo que Ele havia de realizar depois da ressurrei\u00e7\u00e3o (cf. Jo 20, 22). Desde modo, se actuaria a promessa dos \u00ab rios de \u00e1gua viva \u00bb que, gra\u00e7as \u00e0 efus\u00e3o do Esp\u00edrito, haviam de emanar do cora\u00e7\u00e3o dos crentes (cf. Jo 7, 38-39). De facto, o Esp\u00edrito \u00e9 aquela for\u00e7a interior que harmoniza seus cora\u00e7\u00f5es com o cora\u00e7\u00e3o de Cristo e leva-os a amar os irm\u00e3os como Ele os amou, quando Se inclinou para lavar os p\u00e9s dos disc\u00edpulos (cf. Jo 13, 1-13) e sobretudo quando deu a sua vida por todos (cf. Jo 13, 1; 15, 13). O Esp\u00edrito \u00e9 tamb\u00e9m for\u00e7a que transforma o cora\u00e7\u00e3o da comunidade eclesial, para ser, no mundo, testemunha do amor do Pai, que quer fazer da humanidade uma \u00fanica fam\u00edlia, em seu Filho. Toda a actividade da Igreja \u00e9 manifesta\u00e7\u00e3o dum amor que procura o bem integral do homem: procura a sua evangeliza\u00e7\u00e3o por meio da Palavra e dos Sacramentos, empreendimento este muitas vezes her\u00f3ico nas suas realiza\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas; e procura a sua promo\u00e7\u00e3o nos v\u00e1rios \u00e2mbitos da vida e da actividade humana. Portanto, \u00e9 amor o servi\u00e7o que a Igreja exerce para acorrer constantemente aos sofrimentos e \u00e0s necessidades, mesmo materiais, dos homens. \u00c9 sobre este aspecto, sobre este servi\u00e7o da caridade, que desejo deter-me nesta segunda parte da Enc\u00edclica.  A caridade como dever da Igreja 20. O amor do pr\u00f3ximo, radicado no amor de Deus, \u00e9 um dever antes de mais para cada um dos fi\u00e9is, mas \u00e9-o tamb\u00e9m para a comunidade eclesial inteira, e isto a todos os seus n\u00edveis: desde a comunidade local passando pela Igreja particular at\u00e9 \u00e0 Igreja universal na sua globalidade. A Igreja tamb\u00e9m enquanto comunidade deve praticar o amor. Consequ\u00eancia disto \u00e9 que o amor tem necessidade tamb\u00e9m de organiza\u00e7\u00e3o enquanto pressuposto para um servi\u00e7o comunit\u00e1rio ordenado. A consci\u00eancia de tal dever teve relev\u00e2ncia constitutiva na Igreja desde os seus in\u00edcios: \u00ab Todos os crentes viviam unidos e possu\u00edam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribu\u00edam o dinheiro por todos de acordo com as necessidades de cada um \u00bb (Act 2, 44-45). Lucas conta-nos isto no quadro duma esp\u00e9cie de defini\u00e7\u00e3o da Igreja, entre cujos elementos constitutivos enumera a ades\u00e3o ao \u00ab ensino dos Ap\u00f3stolos \u00bb, \u00e0 \u00ab comunh\u00e3o \u00bb (koinonia), \u00e0 \u00ab frac\u00e7\u00e3o do p\u00e3o \u00bb e \u00e0s \u00ab ora\u00e7\u00f5es \u00bb (cf. Act 2, 42). O elemento da \u00ab comunh\u00e3o \u00bb (koinonia), que aqui ao in\u00edcio n\u00e3o \u00e9 especificado, aparece depois concretizado nos vers\u00edculos anteriormente citados: consiste precisamente no facto de os crentes terem tudo em comum, pelo que, no seu meio, j\u00e1 n\u00e3o subsiste a diferen\u00e7a entre ricos e pobres (cf. tamb\u00e9m Act 4, 32-37). Com o crescimento da Igreja, esta forma radical de comunh\u00e3o material \u2014 verdade se diga \u2014 n\u00e3o p\u00f4de ser mantida. Mas o n\u00facleo essencial ficou: no seio da comunidade dos crentes n\u00e3o deve haver uma forma de pobreza tal que sejam negados a algu\u00e9m os bens necess\u00e1rios para uma vida condigna.  21. Um passo decisivo na dif\u00edcil busca de solu\u00e7\u00f5es para realizar este princ\u00edpio eclesial fundamental torna-se patente naquela escolha de sete homens que foi o in\u00edcio do of\u00edcio diaconal (cf. Act 6, 5-6). De facto, na Igreja primitiva tinha-se gerado, na distribui\u00e7\u00e3o quotidiana \u00e0s vi\u00favas, uma disparidade entre a parte de l\u00edngua hebraica e a de l\u00edngua grega. Os Ap\u00f3stolos, a quem estavam confiados antes de mais a \u00ab ora\u00e7\u00e3o \u00bb (Eucaristia e Liturgia) e o \u00ab servi\u00e7o da Palavra \u00bb, sentiram-se excessivamente carregados pelo \u00ab servi\u00e7o das mesas \u00bb; decidiram, por isso, reservar para eles o minist\u00e9rio principal e criar para a outra mans\u00e3o, tamb\u00e9m ela necess\u00e1ria na Igreja, um organismo de sete pessoas. Mas este grupo n\u00e3o devia realizar um servi\u00e7o meramente t\u00e9cnico de distribui\u00e7\u00e3o: deviam ser homens \u00ab cheios do Esp\u00edrito Santo e de sabedoria \u00bb (cf. Act 6, 1-6). Quer dizer que o servi\u00e7o social que tinham de cumprir era concreto sem d\u00favida alguma, mas ao mesmo tempo era tamb\u00e9m um servi\u00e7o espiritual; tratava-se, na verdade, de um of\u00edcio verdadeiramente espiritual, que realizava um dever essencial da Igreja, o do amor bem ordenado ao pr\u00f3ximo. Com a forma\u00e7\u00e3o deste organismo dos Sete, a \u00ab diaconia \u00bb \u2014 o servi\u00e7o do amor ao pr\u00f3ximo exercido comunitariamente e de modo ordenado \u2014 ficara instaurada na estrutura fundamental da pr\u00f3pria Igreja.  22. Com o passar dos anos e a progressiva difus\u00e3o da Igreja, a pr\u00e1tica da caridade confirmou-se como um dos seus \u00e2mbitos essenciais, juntamente com a administra\u00e7\u00e3o dos Sacramentos e o an\u00fancio da Palavra: praticar o amor para com as vi\u00favas e os \u00f3rf\u00e3os, os presos, os doentes e necessitados de qualquer g\u00e9nero pertence tanto \u00e0 sua ess\u00eancia como o servi\u00e7o dos Sacramentos e o an\u00fancio do Evangelho. A Igreja n\u00e3o pode descurar o servi\u00e7o da caridade, tal como n\u00e3o pode negligenciar os Sacramentos nem a Palavra. Para o demonstrar, bastam alguns exemplos. O m\u00e1rtir Justino (\u2020 por 155), no contexto da celebra\u00e7\u00e3o dominical dos crist\u00e3os, descreve tamb\u00e9m a sua actividade caritativa relacionada com a Eucaristia enquanto tal. As pessoas abastadas fazem a sua oferta na medida das suas possibilidades, cada uma o que quer; o Bispo serve-se disso para sustentar os \u00f3rf\u00e3os, as vi\u00favas e aqueles que por doen\u00e7a ou outros motivos passam necessidade, e tamb\u00e9m os presos e os forasteiros. [12] O grande escritor crist\u00e3o Tertuliano (\u2020 depois de 220) conta como a solicitude dos crist\u00e3os pelos necessitados de qualquer g\u00e9nero suscitava a admira\u00e7\u00e3o dos pag\u00e3os. [13] E, quando In\u00e1cio de Antioquia (\u2020 por 117) designa a Igreja de Roma como aquela que \u00ab preside \u00e0 caridade (agape) \u00bb, [14] pode-se supor que ele quisesse, com tal defini\u00e7\u00e3o, exprimir de qualquer modo tamb\u00e9m a sua actividade caritativa concreta.  23. Neste contexto, pode revelar-se \u00fatil uma refer\u00eancia \u00e0s estruturas jur\u00eddicas primitivas que tinham a ver com o servi\u00e7o da caridade na Igreja. A meados do s\u00e9culo IV ganha forma no Egipto a chamada \u00ab diaconia \u00bb, que \u00e9, nos diversos mosteiros, a institui\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel pelo conjunto das actividades assistenciais, pelo servi\u00e7o precisamente da caridade. A partir destes in\u00edcios, desenvolve-se at\u00e9 ao s\u00e9culo VI no Egipto uma corpora\u00e7\u00e3o com plena capacidade jur\u00eddica, \u00e0 qual as autoridades civis confiam mesmo uma parte do trigo para a distribui\u00e7\u00e3o p\u00fablica. No Egipto, n\u00e3o s\u00f3 cada mosteiro mas tamb\u00e9m cada diocese acabou por ter a sua diaconia \u2014 uma institui\u00e7\u00e3o que se expande depois quer no Oriente quer no Ocidente. O Papa Greg\u00f3rio Magno (\u2020 604) fala da diaconia de N\u00e1poles. Relativamente a Roma, as diaconias s\u00e3o documentadas a partir dos s\u00e9culos VII e VIII; mas naturalmente j\u00e1 antes, e logo desde os prim\u00f3rdios, a actividade assistencial aos pobres e doentes, segundo os princ\u00edpios da vida crist\u00e3 expostos nos Actos dos Ap\u00f3stolos, era parte essencial da Igreja de Roma. Este dever encontra uma sua viva express\u00e3o na figura do di\u00e1cono Louren\u00e7o (\u2020 258). A dram\u00e1tica descri\u00e7\u00e3o do seu mart\u00edrio era j\u00e1 conhecida por Santo Ambr\u00f3sio (\u2020 397) e, no seu n\u00facleo, mostra-nos seguramente a figura aut\u00eantica do Santo. Ap\u00f3s a pris\u00e3o dos seus irm\u00e3os na f\u00e9 e do Papa, a ele, como respons\u00e1vel pelo cuidado dos pobres de Roma, fora concedido mais algum tempo de liberdade, para recolher os tesouros da Igreja e entreg\u00e1-los \u00e0s autoridades civis. Louren\u00e7o distribuiu o dinheiro dispon\u00edvel pelos pobres e, depois, apresentou estes \u00e0s autoridades como sendo o verdadeiro tesouro da Igreja. [15] Independentemente da credibilidade hist\u00f3rica que se queira atribuir a tais particulares, Louren\u00e7o ficou presente na mem\u00f3ria da Igreja como grande expoente da caridade eclesial.  24. Uma alus\u00e3o merece a figura do imperador Juliano o Ap\u00f3stata (\u2020 363), porque demonstra uma vez mais qu\u00e3o essencial era para a Igreja dos primeiros s\u00e9culos a caridade organizada e praticada. Crian\u00e7a de seis anos, Juliano assistira ao assass\u00ednio de seu pai, de seu irm\u00e3o e doutros familiares pelas guardas do pal\u00e1cio imperial; esta brutalidade atribuiu-a ele \u2014 com raz\u00e3o ou sem ela \u2014 ao imperador Const\u00e2ncio, que se fazia passar por um grande crist\u00e3o. Em consequ\u00eancia disso, a f\u00e9 crist\u00e3 acabou desacreditada a seus olhos uma vez por todas. Feito imperador, decide restaurar o paganismo, a antiga religi\u00e3o romana, mas ao mesmo tempo reform\u00e1-lo para se tornar realmente a for\u00e7a propulsora do imp\u00e9rio. Para isso, inspirou-se largamente no cristianismo. Instaurou uma hierarquia de metropolitas e sacerdotes. Estes deviam promover o amor a Deus e ao pr\u00f3ximo. Numa das suas cartas, [16] escrevera que o \u00fanico aspecto do cristianismo que o maravilhava era a actividade caritativa da Igreja. Por isso, considerou determinante para o seu novo paganismo fazer surgir, a par do sistema de caridade da Igreja, uma actividade equivalente na sua religi\u00e3o. Os \u00ab Galileus \u00bb \u2014 dizia ele \u2014 tinham conquistado assim a sua popularidade. Havia que imit\u00e1-los, sen\u00e3o mesmo super\u00e1-los. Deste modo, o imperador confirmava que a caridade era uma caracter\u00edstica decisiva da comunidade crist\u00e3, da Igreja.  25. Chegados aqui, registemos dois dados essenciais tirados das reflex\u00f5es feitas: a) A natureza \u00edntima da Igreja exprime-se num tr\u00edplice dever: an\u00fancio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebra\u00e7\u00e3o dos Sacramentos (leiturgia), servi\u00e7o da caridade (diakonia). S\u00e3o deveres que se reclamam mutuamente, n\u00e3o podendo um ser separado dos outros. Para a Igreja, a caridade n\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de actividade de assist\u00eancia social que se poderia mesmo deixar a outros, mas pertence \u00e0 sua natureza, \u00e9 express\u00e3o irrenunci\u00e1vel da sua pr\u00f3pria ess\u00eancia. [17] b) A Igreja \u00e9 a fam\u00edlia de Deus no mundo. Nesta fam\u00edlia, n\u00e3o deve haver ningu\u00e9m que sofra por falta do necess\u00e1rio. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, a caritas-agape estende-se para al\u00e9m das fronteiras da Igreja; a par\u00e1bola do bom Samaritano permanece como crit\u00e9rio de medida, impondo a universalidade do amor que se inclina para o necessitado encontrado \u00ab por acaso \u00bb (cf. Lc 10, 31), seja ele quem for. Mas, ressalvada esta universalidade do mandamento do amor, existe tamb\u00e9m uma exig\u00eancia especificamente eclesial \u2014 precisamente a exig\u00eancia de que, na pr\u00f3pria Igreja enquanto fam\u00edlia, nenhum membro sofra porque passa necessidade. Neste sentido se pronuncia a Carta aos G\u00e1latas: \u00ab Portanto, enquanto temos tempo, pratiquemos o bem para com todos, mas principalmente para com os irm\u00e3os na f\u00e9 \u00bb (6, 10).  Justi\u00e7a e caridade 26. Desde o Oitocentos, vemos levantar-se contra a actividade caritativa da Igreja uma objec\u00e7\u00e3o, explanada depois com insist\u00eancia sobretudo pelo pensamento marxista. Os pobres \u2014 diz-se \u2014 n\u00e3o teriam necessidade de obras de caridade, mas de justi\u00e7a. As obras de caridade \u2014 as esmolas \u2014 seriam na realidade, para os ricos, uma forma de subtra\u00edrem-se \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e tranquilizarem a consci\u00eancia, mantendo as suas posi\u00e7\u00f5es e defraudando os pobres nos seus direitos. Em vez de contribuir com as diversas obras de caridade para a manuten\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es existentes, seria necess\u00e1rio criar uma ordem justa, na qual todos receberiam a sua respectiva parte de bens da terra e, por conseguinte, j\u00e1 n\u00e3o teriam necessidade das obras de caridade. Algo de verdade existe \u2014 devemos reconhec\u00ea-lo \u2014 nesta argumenta\u00e7\u00e3o, mas h\u00e1 tamb\u00e9m, e n\u00e3o pouco, de errado. \u00c9 verdade que a norma fundamental do Estado deve ser a prossecu\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e que a finalidade de uma justa ordem social \u00e9 garantir a cada um, no respeito do princ\u00edpio da subsidiariedade, a pr\u00f3pria parte nos bens comuns. Isto mesmo sempre o t\u00eam sublinhado a doutrina crist\u00e3 sobre o Estado e a doutrina social da Igreja. Do ponto de vista hist\u00f3rico, a quest\u00e3o da justa ordem da colectividade entrou numa nova situa\u00e7\u00e3o com a forma\u00e7\u00e3o da sociedade industrial no Oitocentos. A apari\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria moderna dissolveu as antigas estruturas sociais e provocou, com a massa dos assalariados, uma mudan\u00e7a radical na composi\u00e7\u00e3o da sociedade, no seio da qual a rela\u00e7\u00e3o entre capital e trabalho se tornou a quest\u00e3o decisiva \u2014 quest\u00e3o que, sob esta forma, era desconhecida antes. As estruturas de produ\u00e7\u00e3o e o capital tornaram-se o novo poder que, colocado nas m\u00e3os de poucos, comportava para as massas oper\u00e1rias uma priva\u00e7\u00e3o de direitos, contra a qual era preciso revoltar-se.  27. For\u00e7oso \u00e9 admitir que os representantes da Igreja s\u00f3 lentamente se foram dando conta de que se colocava em moldes novos o problema da justa estrutura da sociedade. N\u00e3o faltaram pioneiros: um deles, por exemplo, foi o Bispo Ketteler de Mog\u00fancia (\u2020 1877). Como resposta \u00e0s necessidades concretas, surgiram tamb\u00e9m c\u00edrculos, associa\u00e7\u00f5es, uni\u00f5es, federa\u00e7\u00f5es e sobretudo novas congrega\u00e7\u00f5es religiosas que, no Oitocentos, desceram em campo contra a pobreza, as doen\u00e7as e as situa\u00e7\u00f5es de car\u00eancia no sector educativo. Em 1891, entrou em cena o magist\u00e9rio pontif\u00edcio com a Enc\u00edclica Rerum novarum de Le\u00e3o XIII. Seguiu-se-lhe a Enc\u00edclica de Pio XI Quadragesimo anno, em 1931. O Beato Papa Jo\u00e3o XXIII publicou, em 1961, a Enc\u00edclica Mater et Magistra, enquanto Paulo VI, na Enc\u00edclica Populorum progressio (1967) e na Carta Apost\u00f3lica Octogesima adveniens (1971), analisou com afinco a problem\u00e1tica social, que entretanto se tinha agravado sobretudo na Am\u00e9rica Latina. O meu grande predecessor Jo\u00e3o Paulo II deixou-nos uma trilogia de Enc\u00edclicas sociais: Laborem exercens (1981), Sollicitudo rei socialis (1987) e, por \u00faltimo, Centesimus annus (1991). Deste modo, ao enfrentar situa\u00e7\u00f5es e problemas sempre novos, foi-se desenvolvendo uma doutrina social cat\u00f3lica, que em 2004 foi apresentada de modo org\u00e2nico no Comp\u00eandio da doutrina social da Igreja, redigido pelo Pontif\u00edcio Conselho \u00ab Justi\u00e7a e Paz \u00bb. O marxismo tinha indicado, na revolu\u00e7\u00e3o mundial e na sua prepara\u00e7\u00e3o, a panaceia para a problem\u00e1tica social: atrav\u00e9s da revolu\u00e7\u00e3o e consequente colectiviza\u00e7\u00e3o dos meios de produ\u00e7\u00e3o \u2014 asseverava-se em tal doutrina \u2014 devia dum momento para o outro caminhar tudo de modo diverso e melhor. Este sonho desvaneceu-se. Na dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o em que hoje nos encontramos por causa tamb\u00e9m da globaliza\u00e7\u00e3o da economia, a doutrina social da Igreja tornou-se uma indica\u00e7\u00e3o fundamental, que prop\u00f5e v\u00e1lidas orienta\u00e7\u00f5es muito para al\u00e9m das fronteiras eclesiais: tais orienta\u00e7\u00f5es \u2014 face ao progresso em acto \u2014 devem ser analisadas em di\u00e1logo com todos aqueles que se preocupam seriamente do homem e do seu mundo.  28. Para definir com maior cuidado a rela\u00e7\u00e3o entre o necess\u00e1rio empenho em prol da justi\u00e7a e o servi\u00e7o da caridade, \u00e9 preciso anotar duas situa\u00e7\u00f5es de facto que s\u00e3o fundamentais: a) A justa ordem da sociedade e do Estado \u00e9 dever central da pol\u00edtica. Um Estado, que n\u00e3o se regesse segundo a justi\u00e7a, reduzir-se-ia a uma grande banda de ladr\u00f5es, como disse Agostinho uma vez: \u00ab Remota itaque iustitia quid sunt regna nisi magna latrocinia? \u00bb. [18] Pertence \u00e0 estrutura fundamental do cristianismo a distin\u00e7\u00e3o entre o que \u00e9 de C\u00e9sar e o que \u00e9 de Deus (cf. Mt 22, 21), isto \u00e9, a distin\u00e7\u00e3o entre Estado e Igreja ou, como diz o Conc\u00edlio Vaticano II, a autonomia das realidades temporais. [19] O Estado n\u00e3o pode impor a religi\u00e3o, mas deve garantir a liberdade da mesma e a paz entre os aderentes das diversas religi\u00f5es; por sua vez, a Igreja como express\u00e3o social da f\u00e9 crist\u00e3 tem a sua independ\u00eancia e vive, assente na f\u00e9, a sua forma comunit\u00e1ria, que o Estado deve respeitar. As duas esferas s\u00e3o distintas, mas sempre em rec\u00edproca rela\u00e7\u00e3o. A justi\u00e7a \u00e9 o objectivo e, consequentemente, tamb\u00e9m a medida intr\u00ednseca de toda a pol\u00edtica. A pol\u00edtica \u00e9 mais do que uma simples t\u00e9cnica para a defini\u00e7\u00e3o dos ordenamentos p\u00fablicos: a sua origem e o seu objectivo est\u00e3o precisamente na justi\u00e7a, e esta \u00e9 de natureza \u00e9tica. Assim, o Estado defronta-se inevitavelmente com a quest\u00e3o: como realizar a justi\u00e7a aqui e agora? Mas esta pergunta pressup\u00f5e outra mais radical: o que \u00e9 a justi\u00e7a? Isto \u00e9 um problema que diz respeito \u00e0 raz\u00e3o pr\u00e1tica; mas, para poder operar rectamente, a raz\u00e3o deve ser continuamente purificada porque a sua cegueira \u00e9tica, derivada da preval\u00eancia do interesse e do poder que a deslumbram, \u00e9 um perigo nunca totalmente eliminado.  Neste ponto, pol\u00edtica e f\u00e9 tocam-se. A f\u00e9 tem, sem d\u00favida, a sua natureza espec\u00edfica de encontro com o Deus vivo \u2014 um encontro que nos abre novos horizontes muito para al\u00e9m do \u00e2mbito pr\u00f3prio da raz\u00e3o. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, ela serve de for\u00e7a purificadora para a pr\u00f3pria raz\u00e3o. Partindo da perspectiva de Deus, liberta-a de suas cegueiras e, consequentemente, ajuda-a a ser mais ela mesma. A f\u00e9 consente \u00e0 raz\u00e3o de realizar melhor a sua miss\u00e3o e ver mais claramente o que lhe \u00e9 pr\u00f3prio. \u00c9 aqui que se coloca a doutrina social cat\u00f3lica: esta n\u00e3o pretende conferir \u00e0 Igreja poder sobre o Estado; nem quer impor, \u00e0queles que n\u00e3o compartilham a f\u00e9, perspectivas e formas de comportamento que pertencem a esta. Deseja simplesmente contribuir para a purifica\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o e prestar a pr\u00f3pria ajuda para fazer com que aquilo que \u00e9 justo possa, aqui e agora, ser reconhecido e, depois, tamb\u00e9m realizado. A doutrina social da Igreja discorre a partir da raz\u00e3o e do direito natural, isto \u00e9, a partir daquilo que \u00e9 conforme \u00e0 natureza de todo o ser humano. E sabe que n\u00e3o \u00e9 tarefa da Igreja fazer ela pr\u00f3pria valer politicamente esta doutrina: quer servir a forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia na pol\u00edtica e ajudar a crescer a percep\u00e7\u00e3o das verdadeiras exig\u00eancias da justi\u00e7a e, simultaneamente, a disponibilidade para agir com base nas mesmas, ainda que tal colidisse com situa\u00e7\u00f5es de interesse pessoal. Isto significa que a constru\u00e7\u00e3o de um ordenamento social e estatal justo, pelo qual seja dado a cada um o que lhe compete, \u00e9 um dever fundamental que deve enfrentar de novo cada gera\u00e7\u00e3o. Tratando-se de uma tarefa pol\u00edtica, n\u00e3o pode ser encargo imediato da Igreja. Mas, como ao mesmo tempo \u00e9 uma tarefa humana prim\u00e1ria, a Igreja tem o dever de oferecer, por meio da purifica\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o e atrav\u00e9s da forma\u00e7\u00e3o \u00e9tica, a sua contribui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para que as exig\u00eancias da justi\u00e7a se tornem compreens\u00edveis e politicamente realiz\u00e1veis. A Igreja n\u00e3o pode nem deve tomar nas suas pr\u00f3prias m\u00e3os a batalha pol\u00edtica para realizar a sociedade mais justa poss\u00edvel. N\u00e3o pode nem deve colocar-se no lugar do Estado. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode nem deve ficar \u00e0 margem na luta pela justi\u00e7a. Deve inserir-se nela pela via da argumenta\u00e7\u00e3o racional e deve despertar as for\u00e7as espirituais, sem as quais a justi\u00e7a, que sempre requer ren\u00fancias tamb\u00e9m, n\u00e3o poder\u00e1 afirmar-se nem prosperar. A sociedade justa n\u00e3o pode ser obra da Igreja; deve ser realizada pela pol\u00edtica. Mas toca \u00e0 Igreja, e profundamente, o empenhar-se pela justi\u00e7a trabalhando para a abertura da intelig\u00eancia e da vontade \u00e0s exig\u00eancias do bem. b) O amor \u2014 caritas \u2014 ser\u00e1 sempre necess\u00e1rio, mesmo na sociedade mais justa. N\u00e3o h\u00e1 qualquer ordenamento estatal justo que possa tornar sup\u00e9rfluo o servi\u00e7o do amor. Quem quer desfazer-se do amor, prepara-se para se desfazer do homem enquanto homem. Sempre haver\u00e1 sofrimento que necessita de consola\u00e7\u00e3o e ajuda. Haver\u00e1 sempre solid\u00e3o. Existir\u00e3o sempre tamb\u00e9m situa\u00e7\u00f5es de necessidade material, para as quais \u00e9 indispens\u00e1vel uma ajuda na linha de um amor concreto ao pr\u00f3ximo. [20] Um Estado, que queira prover a tudo e tudo a\u00e7ambarque, torna-se no fim de contas uma inst\u00e2ncia burocr\u00e1tica, que n\u00e3o pode assegurar o essencial de que o homem sofredor \u2014 todo o homem \u2014 tem necessidade: a amorosa dedica\u00e7\u00e3o pessoal. N\u00e3o precisamos de um Estado que regule e domine tudo, mas de um Estado que generosamente reconhe\u00e7a e apoie, segundo o princ\u00edpio de subsidiariedade, as iniciativas que nascem das diversas for\u00e7as sociais e conjugam espontaneidade e proximidade aos homens carecidos de ajuda. A Igreja \u00e9 uma destas for\u00e7as vivas: nela pulsa a din\u00e2mica do amor suscitado pelo Esp\u00edrito de Cristo. Este amor n\u00e3o oferece aos homens apenas uma ajuda material, mas tamb\u00e9m refrig\u00e9rio e cuidado para a alma \u2014 ajuda esta muitas vezes mais necess\u00e1ria que o apoio material. A afirma\u00e7\u00e3o de que as estruturas justas tornariam sup\u00e9rfluas as obras de caridade esconde, de facto, uma concep\u00e7\u00e3o materialista do homem: o preconceito segundo o qual o homem viveria \u00ab s\u00f3 de p\u00e3o \u00bb (Mt 4, 4; cf. Dt 8, 3) \u2014 convic\u00e7\u00e3o que humilha o homem e ignora precisamente aquilo que \u00e9 mais especificamente humano.  29. Deste modo, podemos determinar agora mais concretamente, na vida da Igreja, a rela\u00e7\u00e3o entre o empenho por um justo ordenamento do Estado e da sociedade, por um lado, e a actividade caritativa organizada, por outro. Viu-se que a forma\u00e7\u00e3o de estruturas justas n\u00e3o \u00e9 imediatamente um dever da Igreja, mas pertence \u00e0 esfera da pol\u00edtica, isto \u00e9, ao \u00e2mbito da raz\u00e3o auto-respons\u00e1vel. Nisto, o dever da Igreja \u00e9 mediato, enquanto lhe compete contribuir para a purifica\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o e o despertar das for\u00e7as morais, sem as quais n\u00e3o se constroem estruturas justas, nem estas permanecem operativas por muito tempo. Entretanto, o dever imediato de trabalhar por uma ordem justa na sociedade \u00e9 pr\u00f3prio dos fi\u00e9is leigos. Estes, como cidad\u00e3os do Estado, s\u00e3o chamados a participar pessoalmente na vida p\u00fablica. N\u00e3o podem, pois, abdicar \u00ab da m\u00faltipla e variada ac\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, social, legislativa, administrativa e cultural, destinada a promover org\u00e2nica e institucionalmente o bem comum \u00bb. [21] Por conseguinte, \u00e9 miss\u00e3o dos fi\u00e9is leigos configurar rectamente a vida social, respeitando a sua leg\u00edtima autonomia e cooperando, segundo a respectiva compet\u00eancia e sob pr\u00f3pria responsabilidade, com os outros cidad\u00e3os. [22] Embora as manifesta\u00e7\u00f5es espec\u00edficas da caridade eclesial nunca possam confundir-se com a actividade do Estado, no entanto a verdade \u00e9 que a caridade deve animar a exist\u00eancia inteira dos fi\u00e9is leigos e, consequentemente, tamb\u00e9m a sua actividade pol\u00edtica vivida como \u00ab caridade social \u00bb. [23] Caso diverso s\u00e3o as organiza\u00e7\u00f5es caritativas da Igreja, que constituem um seu opus proprium, um dever que lhe \u00e9 cong\u00e9nito, no qual ela n\u00e3o se limita a colaborar colateralmente, mas actua como sujeito directamente respons\u00e1vel, realizando o que corresponde \u00e0 sua natureza. A Igreja nunca poder\u00e1 ser dispensada da pr\u00e1tica da caridade enquanto actividade organizada dos crentes, como ali\u00e1s nunca haver\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o onde n\u00e3o seja precisa a caridade de cada um dos indiv\u00edduos crist\u00e3os, porque o homem, al\u00e9m da justi\u00e7a, tem e ter\u00e1 sempre necessidade do amor. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carta Enc\u00edclica do Sumo Pont\u00edfice Bento XVI, aos bispos, aos presb\u00edteros e aos di\u00e1conos, \u00e0s pessoas consagradas e a todos os fi\u00e9is leigos, sobre o amor crist\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center 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