{"id":160595,"date":"2020-01-24T17:59:45","date_gmt":"2020-01-24T17:59:45","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=160595"},"modified":"2020-01-24T16:39:41","modified_gmt":"2020-01-24T16:39:41","slug":"jornalismo-provavelmente-e-muito-mais-importante-hoje-do-que-era-no-passado-nelson-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/jornalismo-provavelmente-e-muito-mais-importante-hoje-do-que-era-no-passado-nelson-ribeiro\/","title":{"rendered":"\u00abJornalismo provavelmente \u00e9 muito mais importante hoje do que era no passado\u00bb &#8211; Nelson Ribeiro"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->Nelson Ribeiro, diretor da Faculdade de Ci\u00eancias Humanas da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa (UCP), conversa com a ECCLESIA e a Renascen\u00e7a sobre a mensagem do Papa para o pr\u00f3ximo Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais, dedicada ao poder das boas hist\u00f3rias e aos perigos das narrativas falsas.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Fotos: Ricardo Fortunato<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-160599\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-1-400x255.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"255\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-1-400x255.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-1-1024x653.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-1-768x490.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-1-1536x979.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-1-1080x689.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-1-1280x816.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-1-980x625.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-1-480x306.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-1.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Esta mensagem desafia os media a contarem \u201chist\u00f3rias que edifiquem\u201d e n\u00e3o \u201cque destruam\u201d, e renova o alerta para as \u201cnot\u00edcias falsas\u201d e \u201cdevastadoras\u201d, que s\u00f3 contribuem para \u201cdespojar o homem da sua dignidade\u201d. S\u00e3o alertas e desafios importantes para os comunicadores em geral?<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o alertas fundamentais que o Papa traz numa mensagem bastante profunda em que, por um lado, alerta para esta realidade que hoje em dia faz parte da cultura contempor\u00e2nea, que \u00e9 convivermos com informa\u00e7\u00f5es verdadeiras, que simultaneamente s\u00e3o colocadas ao lado de informa\u00e7\u00f5es falsas. Eu propositadamente prefiro sempre dizer &#8216;informa\u00e7\u00f5es verdadeiras e falsas&#8217; e n\u00e3o &#8216;not\u00edcias falsas&#8217;, porque normalmente associamos sempre as \u2018not\u00edcias\u2019 ao jornalismo, e ainda quero acreditar que o jornalismo \u00e9 um reduto no qual ainda prevalecem crit\u00e9rios jornal\u00edsticos, e em que podemos ter um n\u00edvel de confian\u00e7a diferente de muita da informa\u00e7\u00e3o que circula nos media sociais&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 um trabalho de media\u00e7\u00e3o dos profissionais sobre a informa\u00e7\u00e3o propriamente dita.<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 por acaso que hoje muitos l\u00edderes populistas, um pouco por todo o mundo, aquilo que pretendem fazer \u00e9 um bypass a esses mediadores, e serem eles pr\u00f3prios a falar diretamente com o seu p\u00fablico, para n\u00e3o serem escrutinados e porque isso lhes possibilita divulgarem informa\u00e7\u00f5es falsas sem que ningu\u00e9m os contradiga. Portanto, isso faz parte da realidade de hoje, e julgo que com esta mensagem o Papa Francisco mostra que a Igreja est\u00e1 preocupada com o mundo em que vivemos. Isso nota-se em v\u00e1rias passagens desta mensagem, nomeadamente quando o Papa fala, por exemplo, do &#8216;deepfake&#8217;, que n\u00e3o \u00e9 algo que seja novo, mas que tem vindo a ganhar uma visibilidade maior nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Podemos explicar no que consiste&#8230;<\/em><\/p>\n<p>O &#8216;deepfake&#8217; \u00e9 muito importante de ser explicado, at\u00e9 porque muitas vezes podemos estar a consumi-lo sem ter essa consci\u00eancia. Acontece noutros formatos, mas hoje em dia \u00e9 sobretudo no v\u00eddeo, h\u00e1 empresas e pessoas que s\u00e3o especializadas em manipula\u00e7\u00e3o de imagem, atrav\u00e9s da tecnologia. Por exemplo, vemos uma determinada pessoa a fazer um discurso, ou a falar sobre determinado assunto, mas aquela voz n\u00e3o \u00e9 daquela pessoa. Um dos mais famosos que circulou recentemente era do antigo presidente americano Obama, em que \u00e9 de facto ele que aparece nas imagens, e \u00e9 a voz dele para um ouvinte desatento. Se virmos aquele v\u00eddeo no Facebook, ou no Instagram, achamos que \u00e9 verdadeiro, mas efetivamente \u00e9 manipulado artificialmente, tudo aquilo s\u00e3o palavras que ele nunca disse e que s\u00e3o recriadas, o que nos leva a esta situa\u00e7\u00e3o: onde \u00e9 que come\u00e7a a realidade e acaba a fic\u00e7\u00e3o, e vice-versa? Hoje \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil, no nosso dia-a-dia, em que consumimos informa\u00e7\u00e3o a correr&#8230;<\/p>\n<p>E os pr\u00f3prios meios em que \u00e9 partilhada, como as redes sociais, fazem este tipo de mensagens e not\u00edcias circularem a uma velocidade que n\u00e3o conseguimos controlar. E condicionando os pr\u00f3prios meios de comunica\u00e7\u00e3o na forma como depois tratam esse assunto, \u00e0s vezes levados nessa mentira.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma grande preocupa\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s posso dizer que Faculdade de Ci\u00eancias Humanas \u00e9 uma \u00e1rea em que investimos muito, para tentar formar os nossos alunos para esta nova realidade com a qual os jornalistas t\u00eam que efetivamente viver, que \u00e9: os jornalistas eles pr\u00f3prios s\u00e3o inundados por informa\u00e7\u00e3o falsa, portanto,\u00a0 conseguirem ter crit\u00e9rios, ainda mais na rapidez que hoje em dia \u00e9 exigida ao jornalismo, que muitas vezes \u00e9 exagerada e \u00e9 um problema. Muitas vezes o que \u00e9 que vemos? Os pr\u00f3prios meios de comunica\u00e7\u00e3o ditos tradicionais &#8211; e quando digo tradicionais at\u00e9 podem ser digitais -, tradicionais no sentido em que s\u00e3o verdadeiros meios de comunica\u00e7\u00e3o, s\u00e3o profissionais que procuram efetivamente informar as pessoas&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E que cumprem as regras, confirmando e cruzando informa\u00e7\u00f5es&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Cumprem as regras deontol\u00f3gicas. Mas, muitas vezes eles pr\u00f3prios acabam por colocar, ou poder colocar a sua credibilidade em causa, porque com a pressa de dar visibilidade a uma not\u00edcia que j\u00e1 est\u00e1 em todo lado, eles pr\u00f3prios d\u00e3o tamb\u00e9m visibilidade e depois vem-se a verificar que essa informa\u00e7\u00e3o, afinal, era falsa.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um tempo muito desafiante, e para quem j\u00e1 estuda as quest\u00f5es da comunica\u00e7\u00e3o e do jornalismo h\u00e1 v\u00e1rios anos at\u00e9 h\u00e1 aqui uma certa ironia\u2026. \u00c9 que h\u00e1 10 anos n\u00f3s discut\u00edamos se o jornalismo tinha futuro! Uma das quest\u00f5es era: &#8216;bom, mas agora todos temos acesso a not\u00edcias, a informa\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s das redes sociais, porque \u00e9 que o jornalismo ainda \u00e9 relevante?&#8217;. Bom, eu acho que &#8211; por um lado infelizmente &#8211;\u00a0 vemos que o jornalismo provavelmente \u00e9 muito mais importante hoje em dia do que era no passado, n\u00e3o s\u00f3 pela capacidade de dar not\u00edcias, mas sobretudo pela capacidade nos ajudar a descobrir o que \u00e9 que existe, de facto, de not\u00edcia no meio de tanta informa\u00e7\u00e3o que circula, muita dela forjada, manipulada, e que obviamente serve sempre alguns interesses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Uma quest\u00e3o tratada na mensagem do Papa, e que \u00e9 pertinente para esta reflex\u00e3o, \u00e9 que h\u00e1 uma predisposi\u00e7\u00e3o das pessoas para acreditarem naquilo que \u00e0 partida j\u00e1 querem acreditar, independentemente do conte\u00fado que lhes \u00e9 apresentado. H\u00e1 trabalho a fazer nessa quase sensibiliza\u00e7\u00e3o para que se distinga o trigo do joio, e as pessoas n\u00e3o validem um produto que lhes \u00e9 apresentado, apenas porque acreditam piamente que aquilo \u00e9 verdade?<\/em><\/p>\n<p>Acho que esse \u00e9 um trabalho fundamental e que vai ao cerne daquilo que \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o que uma sociedade d\u00e1 \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es. Porque essa quest\u00e3o tamb\u00e9m se cruza com outra, que \u00e9 muito cl\u00e1ssica na \u00e1rea dos estudos da comunica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 percebermos: afinal, quais \u00e9 que s\u00e3o os efeitos dos meios de comunica\u00e7\u00e3o na opini\u00e3o p\u00fablica? Ser\u00e1 que as pessoas alteram o seu comportamento por causa daquilo que ouvem e veem nos meios de comunica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Aquilo que n\u00f3s sabemos \u00e9 que existem muitas vari\u00e1veis que induzem a isso, que esses efeitos podem ser maiores ou menores, mas tamb\u00e9m sabemos outra coisa: \u00e9 muito mais f\u00e1cil as pessoas usarem a informa\u00e7\u00e3o para refor\u00e7ar aquilo que j\u00e1 pensam, do que para alterarem os seus comportamentos. E isso significa que aquilo que precisamos de fazer \u00e9, de facto, formar cidad\u00e3os cr\u00edticos e com capacidade para ler a realidade \u00e0 sua volta.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois momentos da mensagem do Papa que eu acho particularmente interessantes neste aspeto: por um lado a quest\u00e3o da mem\u00f3ria \u2013 que, ali\u00e1s, \u00e9 o t\u00edtulo da mensagem, &#8216;Para que possas contar e fixar na mem\u00f3ria&#8217;. N\u00f3s, como sociedade, tamb\u00e9m somos produto de uma mem\u00f3ria, e de uma mem\u00f3ria coletiva que vamos construindo \u2013 e o Papa, claro, fala do papel do que ele chama &#8216;a Hist\u00f3ria das hist\u00f3rias&#8217; que \u00e9 a Sagrada Escritura, mas tamb\u00e9m se refere a outras narrativas, da vida dos Santos, testemunhos de vida e da literatura, s\u00e3o eles que servem para manter viva na mem\u00f3ria das novas gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 a Hist\u00f3ria, mas o significado real da Hist\u00f3ria, e que nos interpela sobre o que \u00e9 que \u00e9 realmente o valor da vida humana e os valores em que nos acreditamos. Por outro lado, tamb\u00e9m os meios de comunica\u00e7\u00e3o desempenham um papel central na cria\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, porque se pensarmos em alguns eventos, muitos deles que n\u00e3o vivemos, n\u00f3s temos uma mem\u00f3ria desses eventos, mas ela \u00e9 criada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Hoje j\u00e1 muito poucas pessoas se lembrar\u00e3o de ter vivido o holocausto, mas todos temos uma mem\u00f3ria do Holocausto, e essa mem\u00f3ria foi criada &#8211; \u00e9 mem\u00f3ria mediada &#8211; atrav\u00e9s dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, sejam eles meios de comunica\u00e7\u00e3o social, sejam livros, seja literatura. Esse papel da cria\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria \u00e9, de facto, aqui muito importante, pensarmos em como \u00e9 fundamental criarmos uma sociedade que se reconhece em determinados valores, e que partilha determinados valores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-160598 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-2-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-2-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-2-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-2-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-2-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-2-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-2-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-2.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Nos \u00faltimos anos, nomeadamente aqui em Portugal, muitas reda\u00e7\u00f5es t\u00eam sido decapitadas da sua mem\u00f3ria, dos seus jornalistas mais velhos, que fazem essa ponte. Nesta mensagem, o Papa faz um alerta para a import\u00e2ncia da hist\u00f3ria: no jornalismo que fazemos hoje, em geral, essa hist\u00f3ria \u00e9 descuidada?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil generalizar, porque julgo que \u2013 como em todas as \u00e1reas, em todas as profiss\u00f5es \u2013 encontramos excelentes exemplos no jornalismo e tamb\u00e9m encontramos exemplos menos bons. A tend\u00eancia, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 do jornalismo, da voragem, da rapidez em que n\u00f3s vivemos, \u00e9 para o contexto perder espa\u00e7o: as not\u00edcias s\u00e3o-nos transmitidas, mas n\u00e3o temos o contexto. N\u00f3s, sem o contexto, at\u00e9 podemos perguntar-nos para o que \u00e9 que serve determinada not\u00edcia. Porque se n\u00e3o entendemos o contexto em que ela nasce, n\u00f3s, na verdade, vamos criar perce\u00e7\u00f5es que est\u00e3o completamente desligadas da realidade. Isso relaciona-se muito com esta necessidade de ser muito r\u00e1pido, sem espa\u00e7o para esse contexto, e tamb\u00e9m com o que acabou de dizer: precisamos que os contadores de hist\u00f3rias sejam pessoas que tenham mem\u00f3ria e que saibam contar hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Porque isto tamb\u00e9m acontece na nossa vida pessoal. Muitas das hist\u00f3rias que nos marcam para a vida e das quais jamais nos vamos esquecer s\u00e3o hist\u00f3rias que nos foram contadas pelos nossos av\u00f3s, pelos nossos pais, quando \u00e9ramos crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E s\u00e3o as que ficam.<\/em><\/p>\n<p>E s\u00e3o as que ficam, por mais que depois digamos: s\u00e3o hist\u00f3rias infantis. Como se n\u00e3o tivessem uma grande import\u00e2ncia\u2026 Mas esse tipo de hist\u00f3rias e de experi\u00eancias de vida que s\u00e3o narradas pelos av\u00f3s, pelos pais, chega um momento da vida em que nos damos conta de como elas foram e s\u00e3o fundamentais para moldar que somos. Porque n\u00f3s, efetivamente, somos produto desta mem\u00f3ria: de uma mem\u00f3ria que nos \u00e9 transmitida pelas nossas rela\u00e7\u00f5es di\u00e1rias, familiares, mas tamb\u00e9m muito pela mem\u00f3ria que nos \u00e9 transmitida pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Ainda h\u00e1 pouco dei o exemplo do Holocausto, mas outro exemplo que todos n\u00f3s, a partir de uma certa idade, nos lembramos: o atentado do 11 de setembro, nos Estados Unidos. Assim que n\u00f3s pensamos nesse acontecimento, imediatamente estamos a visualizar a mesma imagem, porque essa imagem foi gravada na nossa mem\u00f3ria pela a\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso tem consequ\u00eancias: sempre que n\u00f3s pensamos em terrorismo, em determinados conceitos, essas imagens est\u00e3o presentes e n\u00e3o conseguimos que elas saiam da nossa cabe\u00e7a. Portanto, este papel da mem\u00f3ria \u00e9 fundamental nesta \u00e1rea do jornalismo e da comunica\u00e7\u00e3o, em geral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na mensagem do Papa, diz-se que muitas vezes a forma como determinamos o que \u00e9 certo e errado, bom e mau, tem a ver com as hist\u00f3rias que temos dentro de n\u00f3s, mesmo inconscientemente\u2026 Seria importante que o espa\u00e7o medi\u00e1tico soubesse valorizar mais as hist\u00f3rias boas, em vez de procurar o sensacionalismo e os cliques? <\/em><\/p>\n<p>No espa\u00e7o medi\u00e1tico faltam muitas hist\u00f3rias que edifiquem, o Papa chama a aten\u00e7\u00e3o para isso. N\u00e3o gostaria de colocar apenas o \u00f3nus sobre os meios de comunica\u00e7\u00e3o, porque acho que estes t\u00eam a sua responsabilidade, mas hoje em dia est\u00e3o muito pressionados, por quest\u00f5es financeiras, pela rapidez, pelas medi\u00e7\u00f5es ao minuto\u2026 H\u00e1 um papel que os meios de comunica\u00e7\u00e3o deveriam fazer e que lhes compete \u2013 caso contr\u00e1rio tamb\u00e9m deixam de ser uma institui\u00e7\u00e3o social, com contributo real para uma sociedade democr\u00e1tica e uma sociedade melhor -, mas tamb\u00e9m h\u00e1 um papel que cabe aos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 mais dif\u00edcil, porque no dia a dia todos somos muito ocupados e temos, \u00e0s vezes, pouco tempo para pensar sobre estas coisas. Mas \u00e9 preciso valorizar estas hist\u00f3rias que edificam, como diz o Papa, hist\u00f3rias que acrescentam algo \u00e0 nossa vida e que contribuem para a sociedade. Ali\u00e1s, h\u00e1 uma passagem que destacaria, quando o Papa fala sobre o oposto, as hist\u00f3rias que nos \u201cnarcotizam\u201d, \u201cconvencendo-nos de que, para ser felizes, precisamos continuamente de ter, possuir, consumir\u201d. Este efeito narcotizante dos media \u2013 e a\u00ed vamos ao encontro do sensacionalismo que estava a ser referido \u2013 \u00e9 algo que muitos meios de comunica\u00e7\u00e3o exploram, porque tem efeitos\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E as for\u00e7as do poder tamb\u00e9m o exploram\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, claro. Costumo partilhar estas ideias com os meus alunos, de uma forma mais informal: enquanto estivermos muito entretidos a ver v\u00eddeos e fotografias do que \u00e9 que os nosso amigos almo\u00e7aram ontem, no Instagram e no Facebook, se calhar n\u00e3o estamos a pensar noutras coisas mais importantes, para a nossa felicidade, pessoal e da comunidade. Quando pensamos na realidade dos media sociais, sabemos que a esmagadora maioria dos temas que s\u00e3o discutidos e partilhados t\u00eam a ver com a devassa da vida privada de outras pessoas e com esta veia voyeurista\u2026 As pessoas querem representar-se de determinada maneira, para que os amigos pensem que t\u00eam determinado estilo de vida, mas sabemos que tudo aquilo \u00e9 muito artificial.<\/p>\n<p>O Papa chama-nos a ser mais do que isso e a ir \u00e0 ess\u00eancia do que somos, procurando hist\u00f3rias que nos possam ajudar a ser melhores, enquanto cidad\u00e3os e enquanto comunidade crist\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Um dos cursos da Faculdade de Ci\u00eancias Humanas da Universidade Cat\u00f3lica \u00e9 o curso em Comunica\u00e7\u00e3o Social e Cultural, que nos \u00faltimos anos tem fornecido v\u00e1rios profissionais ao mercado dos media em Portugal. Os alertas sucessivos do Papa j\u00e1 obrigaram a mudar alguma coisa, em termos de forma\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>A resposta r\u00e1pida seria sim. N\u00f3s, de facto, na Cat\u00f3lica, temos um curso em Comunica\u00e7\u00e3o Social e Cultural que procura conjugar coisas que s\u00e3o, de facto, dif\u00edceis. \u00c9 um curso em constru\u00e7\u00e3o \u2013 ali\u00e1s, a nossa reitora habitualmente diz que a Universidade \u00e9 projeto e risco, porque nunca chegamos ao est\u00e1dio final.<\/p>\n<p>Procuramos, por um lado, dar a estes alunos um alicerce, diria, de mem\u00f3ria e de cultura geral, de pensamento cr\u00edtico. Estimular o pensamento cr\u00edtico, que \u00e9 fundamental em qualquer sociedade, sobretudo nas que temos hoje. Ao mesmo tempo, procuramos introduzir no curr\u00edculo quest\u00f5es que h\u00e1 10 anos n\u00e3o eram importantes e que hoje em dia s\u00e3o essenciais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-3.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-160597\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-3-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-3-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-3-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-3-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-3-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-3-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-3-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-3-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-3-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/nelson-ribeiro-3.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Tem de haver essa atualiza\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Sim. H\u00e1 10 anos j\u00e1 discut\u00edamos o papel do jornalismo nas redes sociais, mas era uma l\u00f3gica completamente diferente. A grande discuss\u00e3o era: bom, mas qual \u00e9 que vai ser o papel do jornalista no s\u00e9culo XXI, quanto toda a gente acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Como se o papel fosse apenas trazer informa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o traduzi-la?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, e tentar apetrechar os alunos para estarem atentos a estas tentativas de manipula\u00e7\u00e3o, distor\u00e7\u00e3o, \u00e9 de facto, fundamental. Como tamb\u00e9m j\u00e1 referiram aqui, obviamente toda a informa\u00e7\u00e3o que circula no espa\u00e7o p\u00fablico, as grandes for\u00e7as econ\u00f3micas, politicas, sociais, claro, procuram condicionar a discuss\u00e3o que se faz na opini\u00e3o p\u00fablica e, portanto, os jornalistas em particular n\u00e3o t\u00eam aqui uma fun\u00e7\u00e3o facilitada at\u00e9, porque, muitas vezes, est\u00e3o dependentes dessas for\u00e7as econ\u00f3micas, sociais e politicas para fazer o seu trabalho.<\/p>\n<p>Conseguir esta independ\u00eancia e saber ler onde \u00e9 que v\u00eam estes grandes fen\u00f3menos de manipula\u00e7\u00e3o e distor\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que \u00e9 fundamental quando pensamos na forma\u00e7\u00e3o de novos profissionais de comunica\u00e7\u00e3o quer seja para trabalhar no jornalismo, quer seja para trabalhar noutras \u00e1reas da comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Uma pequena curiosidade, se temos de criar novas profissionais neste setor, quase de mediadores, mas de int\u00e9rpretes, tradutores do que \u00e9 a informa\u00e7\u00e3o e do que \u00e9 real ou n\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Julgo que na verdade j\u00e1 estamos a criar, muitas vezes podemos n\u00e3o nos aperceber disso. Costumo dizer isto tamb\u00e9m, hoje a esmagadora maioria dos alunos de Comunica\u00e7\u00e3o Social e Cultural da Universidade Cat\u00f3lica n\u00e3o v\u00e3o ser jornalistas.<\/p>\n<p>Muitos v\u00e3o trabalhar na gest\u00e3o e m\u00e9dias sociais, muit\u00edssimos v\u00e3o trabalhar para gabinetes de comunica\u00e7\u00e3o e empresas e, mesmo ai, esta quest\u00e3o da valoriza\u00e7\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o \u00e9tica e de perceber que quando sou um profissional de comunica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sou jornalista, n\u00e3o tenho carteira profissional, mas sou um profissional de comunica\u00e7\u00e3o, estou ao servi\u00e7o de uma grande empresa, mas tamb\u00e9m ai, obviamente, h\u00e1 limites \u00e9ticos que a minha consci\u00eancia e minha profiss\u00e3o n\u00e3o me devem permitir ultrapassar.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 muito importante numa altura em que vemos que o mercado de trabalho da comunica\u00e7\u00e3o se est\u00e1 a expandir largamente, mas para profiss\u00f5es que muitas vezes s\u00e3o fora dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, sejam gabinetes de comunica\u00e7\u00e3o de empresas, de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, de institui\u00e7\u00f5es muitas vezes a n\u00edvel internacional, no terceiro setor. Hoje em dia os profissionais de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e3o em todo o lado, e tem de haver regras \u00e9ticas que t\u00eam de come\u00e7ar a ser trabalhadas de uma forma mais profunda para toda essa pan\u00f3plia de profiss\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":160598,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[140],"class_list":["post-160595","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-comunicacoes-sociais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/160595","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=160595"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/160595\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/160598"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=160595"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=160595"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=160595"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}