{"id":16031,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-igreja-e-a-humanizacao-da-cidade\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-igreja-e-a-humanizacao-da-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-igreja-e-a-humanizacao-da-cidade\/","title":{"rendered":"A Igreja e a humaniza\u00e7\u00e3o da Cidade"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal-Patriarca na Solenidade de S\u00e3o Vicente <!--more--> 1. A Diocese de Lisboa celebra hoje S\u00e3o Vicente, seu Padroeiro principal. A cidade de Lisboa, sede da diocese, sempre reconheceu no Santo M\u00e1rtir o seu protector. Este facto \u00e9 mais uma express\u00e3o daquela dimens\u00e3o espiritual constitutiva da \u201calma\u201d de Lisboa, que sempre identificou na Igreja e na f\u00e9 crist\u00e3 a fonte dos valores \u00e9ticos e culturais que inspiram a constru\u00e7\u00e3o da cidade. A Solenidade do seu Padroeiro \u00e9 ocasi\u00e3o, para a Igreja e para a cidade, de consciencializar a sua prece: o que \u00e9 que uma e outra, Igreja e cidade, pedem a S\u00e3o Vicente, seu Padroeiro? A Igreja de Lisboa, dois meses depois do Congresso Internacional para a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o, em que nos propusemos, em di\u00e1logo com a cidade, anunciar Jesus Cristo e aprofundar a matriz crist\u00e3 da nossa cultura, s\u00f3 lhe pode pedir que a guie e fortale\u00e7a, para continuar este di\u00e1logo evangelizador. Sabemos que a Igreja pode exercer um papel importante no esfor\u00e7o cont\u00ednuo de fazer da nossa cidade um lugar de conviv\u00eancia, de harmonia e de respeito pela dignidade de cada um. Talvez seja poss\u00edvel, depois do Congresso, que a Igreja e a cidade, possam convergir na mesma prece: pedir a S\u00e3o Vicente que nos ilumine e nos fortale\u00e7a, para, em conjunto, fazermos de Lisboa uma cidade mais humana. Quando o Senhor Presidente da C\u00e2mara teve a amabilidade de receber os congressistas, nas palavras que lhe dirigi, afirmei: \u201cN\u00e3o \u00e9 objectivo da Igreja dominar a cidade, mas humanizar a cidade\u201d. Essa pode ser, hoje, a nossa prece comum.  2. Isto s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel se todos aceitarem que a Igreja faz parte da cidade, e se os crist\u00e3os perceberem que n\u00e3o est\u00e3o sozinhos na cidade e que n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos a lutar pela sua humaniza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o querer dominar a cidade \u00e9 tamb\u00e9m aprender a respeitar as diferen\u00e7as, a reconhecer as converg\u00eancias, embora propondo sempre com clareza a sua especificidade. A humaniza\u00e7\u00e3o da cidade \u00e9 obra de cultura, pois s\u00f3 esta garante aqueles valores fundamentais que inspiram a constru\u00e7\u00e3o da comunidade. Na sociedade portuguesa, ao longo dos s\u00e9culos, a f\u00e9 crist\u00e3 tornou-se cultura, e a Igreja deseja continuar o di\u00e1logo cultural para que a nossa cultura transmita, espontaneamente, os valores que inspiram uma sociedade de rosto humano. S\u00f3 a cultura torna poss\u00edvel que uma grande parte dos cidad\u00e3os, mesmo n\u00e3o praticantes ou at\u00e9 descrentes, se encontrem com os crist\u00e3os na proposta e defesa de valores fundamentais. E estes, para al\u00e9m do reconhecimento, pr\u00f3prio da f\u00e9, da rela\u00e7\u00e3o de todas as coisas com Deus criador e com Cristo redentor, resumem-se ao respeito pela dignidade da pessoa humana e pelo car\u00e1cter sagrado da vida, \u00e0 defesa da sua liberdade e do direito \u00e0 autenticidade, e \u00e0 descoberta da inter-ajuda solid\u00e1ria, que encontra no amor fraterno a sua mais elevada express\u00e3o. \u00c9 \u00e0 volta da defesa e promo\u00e7\u00e3o destes valores \u00e9ticos que se esclarece a converg\u00eancia ou tens\u00e3o da presen\u00e7a dos crist\u00e3os na cidade, procurando, com todos os outros, a sua humaniza\u00e7\u00e3o. Os crist\u00e3os, na medida da sua fidelidade a Jesus Cristo, est\u00e3o em todas as coisas iluminados pela luz de Cristo e motivados pelo amor. Esta sua presen\u00e7a na cidade \u00e9 a primeira express\u00e3o da evangeliza\u00e7\u00e3o. Eles aprendem a identificar as converg\u00eancias de perspectivas, mas em todas as circunst\u00e2ncias eles t\u00eam de afirmar, com fidelidade, os valores do Evangelho. E todos sabemos que hoje, no \u00e2mago da cidade, neste campo dos valores a propor, h\u00e1 converg\u00eancias, mas tamb\u00e9m diverg\u00eancias e confrontos. Aceit\u00e1-los com realismo e verdade n\u00e3o impede o empenhamento na constru\u00e7\u00e3o da cidade, na certeza de que esta s\u00f3 ser\u00e1 mais humana se n\u00e3o transigirmos, nunca e em nada, na defesa da misteriosa dignidade da pessoa humana.  3. Neste contributo da Igreja para a humaniza\u00e7\u00e3o da cidade h\u00e1 express\u00f5es privilegiadas, pelo que significam de generosidade do amor fraterno, que queremos claramente assumir, como exig\u00eancia do Evangelho e express\u00e3o da Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o. Refiro-me \u00e0 ajuda fraterna a prestar aos que mais dela necessitam: os doentes, os solit\u00e1rios, os pobres e desempregados, os sem abrigo, os presos. \u00c9 a cidade silenciosa, ao encontro da qual ou se vai ou n\u00e3o se vai, sofrimento silencioso e escondido que nenhum processo de desenvolvimento consegue evitar. A primeira leitura que escut\u00e1mos nesta celebra\u00e7\u00e3o, do Livro de Ben-Sir\u00e1, narra-nos uma experi\u00eancia de morte vivida por quem ainda est\u00e1 vivo e s\u00f3 encontra resposta na f\u00e9 e na certeza do amor de Deus. Mas o amor de Deus exprime-se atrav\u00e9s do nosso amor. H\u00e1 nesta cidade muitas experi\u00eancias de morte, a que o nosso amor pode dar resposta, ajudando as pessoas a transform\u00e1-las em experi\u00eancia de vida. E isso \u00e9 poss\u00edvel, porque no nosso amor de crist\u00e3os, exprime-se o amor de Deus, em Jesus Cristo, como escreve o Ap\u00f3stolo Paulo aos Cor\u00edntios: \u201c\u00c9 Deus que nos consola em todas as nossas tribula\u00e7\u00f5es, para podermos consolar aqueles que sofrem qualquer tribula\u00e7\u00e3o, por meio da consola\u00e7\u00e3o que n\u00f3s pr\u00f3prios recebemos de Deus\u201d (2Cor. 1,4). S\u00e3o Vicente era um di\u00e1cono e esta predilec\u00e7\u00e3o pelos que sofrem \u00e9 a ess\u00eancia do minist\u00e9rio diaconal. Sa\u00fado, neste dia, todos os di\u00e1conos da nossa Diocese e repito-lhes que espero que eles sejam, em nome do minist\u00e9rio que receberam, a linha avan\u00e7ada e dinamizadora desta prioridade que a Igreja de Lisboa quer dar aos irm\u00e3os que mais sofrem.  4. H\u00e1 um outro contributo importante para a humaniza\u00e7\u00e3o da cidade, que a Igreja pode dar: a ora\u00e7\u00e3o. Nunca, como quando reza, o homem se humaniza t\u00e3o profundamente. Na ora\u00e7\u00e3o, ele faz desabrochar aquela profundidade do seu ser, onde encontra a paz, a confian\u00e7a, a for\u00e7a de viver. Exprime a sua rela\u00e7\u00e3o com Deus, \u00faltima fonte do sentido de toda a exist\u00eancia, sai de si e abre-se ao amor dos irm\u00e3os; a\u00ed se vence a solid\u00e3o, se ultrapassam as dificuldades da comunh\u00e3o, se desabrocha para a solidariedade e para o sentido da comunidade. A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a silenciosa de humaniza\u00e7\u00e3o da cidade. H\u00e1 problemas da cidade para cuja solu\u00e7\u00e3o muitas vezes sentimos que pouco ou nada podemos fazer. Mas rezar, todos podemos, na certeza de que quando rezamos nos libertamos, e nos tornamos capazes de enfrentar com serenidade, mesmo as situa\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis. Onde faltam as for\u00e7as humanas, a ora\u00e7\u00e3o abre-nos \u00e0 misteriosa for\u00e7a de Deus. Ajudar a Igreja de Lisboa a ser um povo orante \u00e9, certamente, uma das interpela\u00e7\u00f5es que o Esp\u00edrito nos lan\u00e7ou atrav\u00e9s do Congresso. A ora\u00e7\u00e3o e o amor dos irm\u00e3os cruzam-se na mesma experi\u00eancia, abrem-nos ao mist\u00e9rio da comunh\u00e3o, ou seja, ajudam-nos a perceber que a cidade tem de ser comunidade, onde se corrigem ego\u00edsmos, se desenvolve a dimens\u00e3o do bem comum, onde a compet\u00eancia se alia \u00e0 generosidade para construir a casa comum. S\u00f3 na experi\u00eancia da co-responsabilidade comunit\u00e1ria a cidade ser\u00e1 mais humana. Essa \u00e9 a principal responsabilidade da Igreja na cidade: ser a \u201ccasa da comunh\u00e3o\u201d.  S\u00e9 Patriarcal, 22 de Janeiro de 2006 <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal-Patriarca na Solenidade de S\u00e3o Vicente<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[223,268,314],"class_list":["post-16031","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-igreja-na-cidade","tag-nova-evangelizacao","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16031","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16031"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16031\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16031"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16031"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16031"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}