{"id":158357,"date":"2019-12-31T17:00:10","date_gmt":"2019-12-31T17:00:10","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=158357"},"modified":"2019-12-31T16:21:24","modified_gmt":"2019-12-31T16:21:24","slug":"homilia-do-bispo-do-funchal-na-missa-de-acao-de-gracas-e-te-deum-pelo-ano-de-2019","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-funchal-na-missa-de-acao-de-gracas-e-te-deum-pelo-ano-de-2019\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo do Funchal na Missa de A\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as e Te Deum pelo ano de 2019"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>Uma celebra\u00e7\u00e3o de final de ano \u00e9 sempre uma oportunidade para agradecer a Deus, Senhor e Juiz da hist\u00f3ria, o tempo que nos foi dado viver, os acontecimentos de que fomos protagonistas, as gra\u00e7as (quer dizer: os acontecimentos de que Deus foi o principal protagonista) que nos foram concedidas ao longo deste ano que agora termina. E, ao mesmo tempo, \u00e9 tamb\u00e9m uma oportunidade para tomarmos consci\u00eancia daquelas op\u00e7\u00f5es ditadas pela nossa liberdade que ofenderam Deus e o pr\u00f3ximo e, assim, ofenderam tamb\u00e9m a nossa pr\u00f3pria dignidade.<\/p>\n<p>A palavra de Deus vem em nossa ajuda, fazendo-nos confrontar com o admir\u00e1vel Pr\u00f3logo do evangelho de S. Jo\u00e3o (Jo 1, 1-18), onde encontramos resumido o drama da hist\u00f3ria humana e, em particular, o drama do crente: \u201cO Verbo veio para o que era seu, e os seus n\u00e3o O receberam. [\u2026] Fez-se carne e habitou no meio de n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Pr\u00f3logo joanino come\u00e7ava por proclamar o que constitui o fundamento de todo o real: o Verbo que \u00e9 Deus, realidade primeira, inicial, anterior \u00e0 pr\u00f3pria realidade criada.<\/p>\n<p>A palavra \u201cVerbo\u201d constitui a tradu\u00e7\u00e3o latina do grego \u039b\u03cc\u03b3\u03bf\u03c2 , no qual se condensam dois outros conceitos b\u00edblicos: o de \u201cpalavra\u201d (\u05d3\u05b8\u05d1\u05b8\u05e8) e o de \u201csabedoria\u201d (\u05d7\u05b8\u05db\u05b0\u05de\u05b8\u05d4 [chokmah], \u03c3\u03bf\u03c6\u03af\u03b1), ambos usados no Antigo Testamento para referir Deus quando Ele se dirige ao Homem, evitando, deste modo, a pron\u00fancia do \u201cnome\u201d divino.<\/p>\n<p>Assim, ao contemplar a Sabedoria e a sua express\u00e3o na Palavra pronunciada, o evangelista Jo\u00e3o afirma uma das principais caracter\u00edsticas do pr\u00f3prio Deus: a ordem, a raz\u00e3o, que se mostra, se expressa no universo criado e, em particular, no Homem.<\/p>\n<p>Deus nem \u00e9 arbitr\u00e1rio nem guarda para Si os seus tesouros. Pelo contr\u00e1rio: nele se encontra a chave, a ordem, a lei de todo o real; e essa razoabilidade \u00e9 comunicada a todo o criado: \u201cpor Ele [pelo Verbo] tudo aconteceu\u201d. \u00c9 por isso que o cientista pode investigar, procurar as leis pelas quais se rege a ordem da natureza; e \u00e9 por isso que ao ser humano \u00e9 pedido que se comporte de um modo razo\u00e1vel, quer dizer: de um modo correspondente ao \u201clogos\u201d presente na sua natureza, e que \u00e9 imagem, express\u00e3o por excel\u00eancia do pr\u00f3prio Logos divino.<\/p>\n<p>Mas se as leis da natureza se encontram a\u00ed, ao nosso alcance, bastando-nos a raz\u00e3o para as encontrar e conhecer, j\u00e1 o agir humano se encontra maravilhosamente oferecido n\u00e3o a partir do determinismo natural ou do instinto que obriga, mas da lei da liberdade, que nos permite escolher responsavelmente, tornando-nos desse modo, imagem e semelhan\u00e7a divina, criando-nos, assim, como algu\u00e9m que se pode dirigir a Deus, e participar com Ele no maravilhoso di\u00e1logo da salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O evangelista, no entanto, foi mais longe. Porque S. Jo\u00e3o n\u00e3o se limitava a afirmar a razoabilidade do criado e a liberdade humana. Afirmava tamb\u00e9m que \u201co Verbo se fez carne e habitou entre n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>Ao faz\u00ea-lo, S. Jo\u00e3o concretizava e centrava a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o \u2014 que o mesmo \u00e9 dizer: a hist\u00f3ria humana olhada n\u00e3o a partir das gestas vitoriosas e das derrotas sofridas, como encontramos habitualmente nos livros, mas a hist\u00f3ria olhada a partir de Deus e de como a Sua Vida, que \u00e9 vida eterna, se entrela\u00e7a com a nossa exist\u00eancia, com a vida humana que decorre no tempo. Com efeito, quando o Verbo se fez carne e habitou entre n\u00f3s, a hist\u00f3ria humana adquiriu um centro e, ao mesmo tempo, uma qualidade divina, at\u00e9 ent\u00e3o insuspeitada.<\/p>\n<p>Jesus de Nazar\u00e9 tornou-se, deste modo, Aquele para onde conflui todo o existir humano que lhe \u00e9 anterior, e de onde brota a nova exist\u00eancia que lhe sucede. Ao descer \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o carnal, tornou-a divina, quer dizer: express\u00e3o e caminho para Deus. S. Jo\u00e3o Paulo II dizia-o com toda a clareza, ao afirmar que o Homem \u00e9 o caminho da Igreja: \u201cO homem, na plena verdade da sua exist\u00eancia, do seu ser pessoal e, ao mesmo tempo, do seu ser comunit\u00e1rio e social [\u2026] \u00e9 o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer no cumprimento da sua miss\u00e3o: ele \u00e9 a primeira e fundamental via da Igreja, via tra\u00e7ada pelo pr\u00f3prio Cristo e via que imutavelmente conduz atrav\u00e9s do mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o e da Reden\u00e7\u00e3o\u201d (Redemptor hominis, 14).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 pois \u00e0 luz do Verbo feito carne, do Deus feito Homem, que podemos e devemos olhar este ano que nos foi dado viver. Nem outra possibilidade nos \u00e9 permitida, a n\u00f3s, crist\u00e3os. Como poder\u00edamos n\u00f3s olhar a nossa exist\u00eancia e aquela do mundo que nos rodeia, a n\u00e3o ser \u00e0 luz deste Deus que \u00e9 \u201co\u201d Homem, o mesmo \u00e9 dizer: Jesus de Nazar\u00e9? Como poder\u00edamos n\u00f3s conformarmo-nos com outra medida menor, menos exigente porventura, mas tamb\u00e9m menos dignificante do ser humano? A f\u00e9, quer dizer: aquela atitude de vida que nos \u00e9 dada no batismo e que informa, a partir desse momento, toda a nossa vida, exige que esta assuma como medida do humano o Deus que \u00e9 Jesus e, como caminho para a diviniza\u00e7\u00e3o humana, o \u00fanico Homem que pode realmente conduzir a Deus porque \u00e9 Ele pr\u00f3prio Deus: Jesus de Nazar\u00e9.<\/p>\n<p>Deixemos, pois, irm\u00e3os, que seja Jesus Cristo a medir os nossos atos, as nossas op\u00e7\u00f5es, a nossa vida interior, espiritual, e tamb\u00e9m aquela exterior, que, de um modo ou de outro, influi na sociedade, naqueles que nos rodeiam. \u00c9 uma medida grande, exigente, a maior que possamos alguma vez imaginar: \u00e9 a medida da santidade, porque nos confrontamos com o Deus tr\u00eas vezes santo. Mas \u00e9 uma medida de miseric\u00f3rdia e de amor porque Ele n\u00e3o veio para condenar o mundo mas para o salvar (cf. Jo 12,47).<\/p>\n<p>Que significa este confronto? Significa que n\u00e3o podemos deixar de nos interrogar se, como crist\u00e3os que somos, a nossa vida (interior, espiritual ou social, p\u00fablica e mesmo pol\u00edtica) permitiu uma maior e melhor express\u00e3o da dignidade \u00fanica de cada pessoa humana: se respeit\u00e1mos o outro na sua dignidade; se o ajud\u00e1mos a ser mais ou, ao contr\u00e1rio, se fomos obst\u00e1culo ao seu caminho. Significa tamb\u00e9m, necessariamente, interrogarmo-nos acerca da nossa vida como sociedade, como comunidade p\u00fablica e pol\u00edtica: de que modo a nossa vida p\u00fablica (pol\u00edtica, associativa) foi ou n\u00e3o aquele ambiente humano de que todos necessitamos para viver e para ser cada vez mais humanos?<\/p>\n<p>Este confronto significa, ainda, olhar para a nossa vida enquanto comunidade diocesana \u2014 o mesmo \u00e9 dizer, como Igreja local, tendo em conta que, como nos diz o Conc\u00edlio Vaticano II, uma diocese \u00e9 \u201cUma por\u00e7\u00e3o do povo de Deus na qual est\u00e1 presente e atua a Igreja de Cristo, una, santa, cat\u00f3lica e apost\u00f3lica\u201d (cf. CD 11). Ou seja: havemos de nos interrogar acerca da nossa efetiva vida de f\u00e9 e acerca da nossa real presen\u00e7a no mundo enquanto testemunhas da ressurrei\u00e7\u00e3o, anunciadores do Evangelho de Jesus. Havemos de nos interrogar at\u00e9 que ponto, ao longo do ano de 2019, fomos uma comunidade presente, que procura e abre caminhos; que sempre prop\u00f5e, que mostra a felicidade de sermos batizados, membros de Cristo, comunidade eclesial que torna presente, no nosso mundo, a Jesus ressuscitado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o nos contentemos, no entanto, em olhar para tr\u00e1s. O passado, a hist\u00f3ria une-nos ao acontecimento \u00fanico e irrepet\u00edvel da encarna\u00e7\u00e3o do Verbo \u2014 aquele precisamente que celebr\u00e1mos h\u00e1 apenas 7 dias e, por isso, olhar para ele \u00e9-nos indispens\u00e1vel; mas uma diocese que se limitasse a ver o passado e a realizar o seu balan\u00e7o \u2014 que se contentasse em ser mera guardi\u00e3 de patrim\u00f3nio, seria uma comunidade sem esperan\u00e7a, n\u00e3o seria a Igreja de Jesus. Diante de n\u00f3s, urgindo ao caminho, encontra-se o pr\u00f3prio Senhor, fim \u00faltimo do nosso peregrinar.<\/p>\n<p>Estes momentos que os homens consagram como fronteiras, s\u00e3o meras realidades artificiais, que nos permitem tomar consci\u00eancia do que somos: criados pelo amor divino \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a, vivemos no tempo, naquilo que \u00e9 transit\u00f3rio, perec\u00edvel e fr\u00e1gil, mas a caminho da eternidade.<\/p>\n<p>Diante de n\u00f3s surge um novo ano. Diante de n\u00f3s surge uma imensid\u00e3o de momentos de gra\u00e7a que urge aproveitar. Aos crist\u00e3os de Roma, o Ap\u00f3stolo Paulo convidava: \u201cSabeis em que tempo vivemos: j\u00e1 chegou a hora de acordar, pois a salva\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais pr\u00f3xima agora que quando abra\u00e7\u00e1mos a f\u00e9. A noite avan\u00e7ou e o dia aproxima-se. Portanto, deixemos as obras das trevas e revistamo-nos da armadura da luz\u201d (Rom 13,11-12).<\/p>\n<p>Que a f\u00e9 nos d\u00ea a for\u00e7a e a coragem de viver desse modo o ano que est\u00e1 para come\u00e7ar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Catedral do Funchal, 31 de dezembro de 2019<\/p>\n<p><em>D. Nuno Br\u00e1s<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":158365,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[186],"class_list":["post-158357","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-funchal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/158357","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=158357"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/158357\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/158365"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=158357"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=158357"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=158357"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}