{"id":157993,"date":"2019-12-25T19:24:56","date_gmt":"2019-12-25T19:24:56","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=157993"},"modified":"2019-12-26T12:38:47","modified_gmt":"2019-12-26T12:38:47","slug":"para-que-o-natal-de-cristo-continue-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/para-que-o-natal-de-cristo-continue-no-mundo\/","title":{"rendered":"Lisboa: Para que o Natal de Cristo continue no mundo"},"content":{"rendered":"<p><em>Homilia do cardeal-patriarca de Lisboa na Solenidade do Natal do Senhor<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_157996\" aria-describedby=\"caption-attachment-157996\" style=\"width: 368px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-157996\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/11-368x260.jpg\" alt=\"\" width=\"368\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/11-368x260.jpg 368w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/11-1024x724.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/11-768x543.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/11-1536x1086.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/11-400x284.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/11-1080x764.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/11-1280x905.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/11-980x693.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/11-480x340.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/11.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 368px) 100vw, 368px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-157996\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Arlindo Homem<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u00abMuitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais pelos Profetas. Nestes dias, que s\u00e3o os \u00faltimos, falou-nos por seu Filho, a quem fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual tamb\u00e9m criou o universo\u00bb, assim ouvimos h\u00e1 pouco, na Carta aos Hebreus. E impressiona sempre o facto de, nas primeiras gera\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, j\u00e1 se resumir o que a teologia tem de essencial para nos dizer e quase o Credo que nos define.<\/p>\n<p>A palavra ativa \u00e9 \u201cfalou\u201d: Falou Deus pelos profetas, falou-nos Deus por seu Filho. Da cria\u00e7\u00e3o \u00e0 finaliza\u00e7\u00e3o deste mundo, tudo \u00e9 cria\u00e7\u00e3o divina, absolutamente dita e feita. E, assim como a primeira cria\u00e7\u00e3o culminou no ser humano, a nova cria\u00e7\u00e3o culmina na humaniza\u00e7\u00e3o do ser divino, para que toda a promessa se cumpra pelo \u00fanico poder que a sustenta.<\/p>\n<p>A esta luz, plenamente natal\u00edcia, podemos entender muita coisa. Podemos entender-nos sobretudo a n\u00f3s, tanto no que sempre nos move, como no estarmos hoje aqui. Move-nos, como seres humanos, o desejo de mais e melhor, a esperan\u00e7a de que possa ser assim. Fere-nos o contr\u00e1rio, em n\u00f3s e \u00e0 nossa volta, na contradi\u00e7\u00e3o repetida disso mesmo que almejamos. D\u00f3i-nos, por n\u00f3s e pelos outros, o despiste do desejo, a frustra\u00e7\u00e3o do projeto, o esvaimento da esperan\u00e7a.<br \/>\nO aparente retorno de factos e circunst\u00e2ncias n\u00e3o nos apazigua a mente e o cora\u00e7\u00e3o. Nem o conseguem o alheamento de si ou a dispensa de sentido. Porque a humanidade como um todo, e o melhor dela em cada um dos seus membros, algo avan\u00e7ou de facto, embora nem sempre como devia. Sobrou ao menos a experi\u00eancia, ainda que as chamadas \u201cli\u00e7\u00f5es da Hist\u00f3ria\u201d nunca tenham alunos bastantes.<\/p>\n<p>Foi assim at\u00e9 h\u00e1 dois mil anos e continua a s\u00ea-lo em quem ainda n\u00e3o chegou ao Natal de Cristo. Num tempo que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 cronol\u00f3gico, antes ultimado da parte de Deus, que em Cristo nos diz tudo quanto finalmente nos resolve. Lembro, de modo um tanto prosaico, a resposta que uma vez ouvi a algu\u00e9m a quem perguntara porque continuava crist\u00e3o e praticante. Respondeu-me simplesmente: \u00abPorque com Cristo a conversa nunca mais acaba!\u00bb<\/p>\n<p>Creio que podemos dizer todos o mesmo, os que aqui estamos a celebrar o Natal. Reconhecemos em Cristo, da gl\u00f3ria do Pres\u00e9pio \u00e0 gl\u00f3ria da Cruz, a resposta divina a tudo quanto o mesmo Deus nos p\u00f4s no peito, no desejo profundo s\u00f3 assim preenchido, sem mais adiamento ou desvio.<\/p>\n<p>Pedro disse-o um dia, por todos n\u00f3s, os de antes, durante ou depois: \u00abA quem iremos n\u00f3s, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso n\u00f3s cremos e sabemos que Tu \u00e9s o Santo de Deus\u00bb (<em>Jo<\/em>\u00a06, 68-69). Outro autor, pelo fim do s\u00e9culo segundo, explica-nos o porqu\u00ea de acontecer s\u00f3 ent\u00e3o: \u00ab[Deus] preparava o tempo atual da justi\u00e7a, a fim de que, tendo-nos convencido, naquele tempo [de iniquidade], de que pelas nossas pr\u00f3prias obras \u00e9ramos indignos da vida, nos torn\u00e1ssemos dignos dela pela benignidade divina e, reconhecendo claramente a nossa impossibilidade de entrar pelas pr\u00f3prias for\u00e7as no reino de Deus, pud\u00e9ssemos ter acesso a ele mediante o poder de Deus\u00bb (Ep\u00edstola a Diogneto, Of\u00edcio de Leitura, 18 de dezembro).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Jesus o dissera: \u00abSem mim, nada podeis fazer\u00bb (<em>Jo<\/em>\u00a015, 5). Isto mesmo e no cora\u00e7\u00e3o de cada um, que Deus alargou a confins que s\u00f3 Ele pode alcan\u00e7ar. Ao seu modo singular e espantoso, na paradoxal pequenez do \u00abeterno nascido de ainda agora\u00bb, como um dos nossos cl\u00e1ssicos se referia ao Menino do Pres\u00e9pio (Padre Manuel Bernardes).<\/p>\n<p>Assim \u00abo Verbo fez-Se carne e habitou entre n\u00f3s. N\u00f3s vimos a sua gl\u00f3ria, gl\u00f3ria que Lhe vem do Pai como Filho Unig\u00e9nito, cheio de gra\u00e7a e de verdade\u00bb: \u2013 Qu\u00e3o magn\u00edfico \u00e9 contemplar hoje este mist\u00e9rio e que importante \u00e9 dar-lhe a consequ\u00eancia!<\/p>\n<p>Para o contemplarmos, aqui estamos hoje, como o guardaremos na mem\u00f3ria agradecida e orante. Na ora\u00e7\u00e3o quotidiana do Ros\u00e1rio, os mist\u00e9rios gozosos reenviam-nos ao Pres\u00e9pio de Bel\u00e9m, como a tudo o mais da inf\u00e2ncia de Jesus. \u00c9 uma contempla\u00e7\u00e3o inesgot\u00e1vel, que fazemos com os olhos e o cora\u00e7\u00e3o da M\u00e3e de Cristo e certamente acompanhados por Jos\u00e9. Depois, sim, podemos partir, como os pastores e os magos, a testemunhar o que vimos. Para regressar sempre e partir melhor.<\/p>\n<p>Para ser vis\u00edvel e aud\u00edvel, o Verbo fez-se carne e habitou entre n\u00f3s. \u00c9 iniludivelmente o facto crist\u00e3o. Tamb\u00e9m isto aqui nos traz, por se tratar dum acontecimento concreto e preciso, hoje como ent\u00e3o, em Cristo e nos seus, verdadeiramente seus.<\/p>\n<p>O sentimento religioso \u00e9 universal e configurou-se em v\u00e1rias tradi\u00e7\u00f5es e cultos, como no cristianismo sociocultural tamb\u00e9m. Manifestando a condi\u00e7\u00e3o humana, tanto no que a sua fragilidade requer como no que a sua transcend\u00eancia vislumbra, \u00e9 absolutamente respeit\u00e1vel e deve ser juridicamente garantido. Lamentamos que nem sempre seja assim e tanta gente sofra hoje em dia, crist\u00e3os e n\u00e3o crist\u00e3os, por falta de liberdade religiosa. Trist\u00edssimas not\u00edcias nos d\u00e3o conta disso em muitas partes do mundo, ostensivamente por vezes, disfar\u00e7adamente outras tantas.<\/p>\n<p>Com Cristo, por\u00e9m, n\u00e3o se trata meramente de ideia, sentimento, ou costume. Trata-se duma pessoa, dum facto concreto e situado, que ganhou dimens\u00e3o universal a partir do que viveu, do que disse e do que fez &#8211; do pres\u00e9pio \u00e0 cruz e da cruz \u00e0 gl\u00f3ria, porque a luz de Bel\u00e9m resplendeu na P\u00e1scoa.<\/p>\n<p>Impregnou t\u00e3o divinamente o seu pres\u00e9pio, que o alastrou a todos pres\u00e9pios do mundo, ou seja, aonde a vida nasce e requer o nosso envolvimento e cuidado \u2013 e da conce\u00e7\u00e3o \u00e0 morte natural, conv\u00e9m repetir. Habitou e trabalhou em Nazar\u00e9 da Galileia, mas f\u00ea-lo t\u00e3o totalmente que conferiu \u00e0 atividade humana uma dignidade imensa e irrecus\u00e1vel. Trilhou os caminhos do Israel da altura, assumindo e refor\u00e7ando todo o bem que se realize, quando e onde for. Sofreu por todos n\u00f3s aquela morte, para a\u00ed mesmo nos acompanhar na nossa, preenchendo-a com a ressurrei\u00e7\u00e3o que nos ganhou. Celebrar coerentemente o Natal interroga-nos sobre o real cumprimento destes itens e empenha-nos a todos na sua efetiva\u00e7\u00e3o.<br \/>\nVerbo encarnado, assim foi Jesus e de algum modo havemos de ser tamb\u00e9m n\u00f3s. N\u00e3o teve grande repercuss\u00e3o e alarido na altura, naquele vasto Imp\u00e9rio em que viveu. Mas foi t\u00e3o absoluta a sua vida, traduzindo em humanidade a divindade, que alastrou depois, como alastra agora, irredut\u00edvel na verdade, bondade e beleza que s\u00e3o inteiramente suas e se imp\u00f5em por si, hoje como ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Na sociocultura de hoje em dia, t\u00e3o espessa como contradit\u00f3ria em si mesma, t\u00e3o descrente de formas e de f\u00f3rmulas, sejam estas quais forem, s\u00f3 nos resta o caminho estreito da coer\u00eancia evang\u00e9lica. Coer\u00eancia que, por ser divinamente impulsionada, prolongar\u00e1 em n\u00f3s a encarna\u00e7\u00e3o do Verbo. Como tamb\u00e9m ouvimos e convictamente agradecemos: \u00ab\u00c0queles que O receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente assim, s\u00f3 assim, que o Natal de Cristo continuar\u00e1 no mundo.<\/p>\n<p>S\u00e9 de Lisboa, 25 de dezembro de 2019<\/p>\n<p><em>D. Manuel Clemente, Cardeal-Patriarca<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do cardeal-patriarca de Lisboa na Solenidade do Natal do Senhor<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":157994,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[682,343,267],"class_list":["post-157993","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-natal-2019","tag-diocese-de-lisboa","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/157993","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=157993"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/157993\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/157994"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=157993"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=157993"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=157993"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}