{"id":157960,"date":"2019-12-25T11:01:14","date_gmt":"2019-12-25T11:01:14","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=157960"},"modified":"2019-12-25T22:04:47","modified_gmt":"2019-12-25T22:04:47","slug":"tocar-o-misterio-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/tocar-o-misterio-de-deus\/","title":{"rendered":"Tocar o mist\u00e9rio de Deus"},"content":{"rendered":"<p><em>Homilia do cardeal D. Jos\u00e9 Tolentino de Mendon\u00e7a na Solenidade do Natal<\/em><!--more--><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Queridos irm\u00e3s e irm\u00e3os,<\/p>\n<p>\u201cO Verbo fez-Se carne e habitou entre n\u00f3s. E n\u00f3s vimos a sua gl\u00f3ria\u201d. Com palavras como estas, as leituras deste dia de Natal insistem admiravelmente na dimens\u00e3o da visualidade. \u00c9 verdade que se no pr\u00f3logo do Evangelho de Jo\u00e3o ainda nos \u00e9 recordado que \u201ca Deus, nunca ningu\u00e9m O viu\u201d, imediatamente essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 reconfigurada, \u00e9 reinterpretada porque se diz que \u201co Filho Unig\u00e9nito\u201d nos deu a conhecer o Pai. No mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o d\u00e1-se, de facto, esta espantosa reviravolta: n\u00f3s vemos o pr\u00f3prio Deus, o Deus intang\u00edvel pode-se tocar, o Deus invis\u00edvel pode-se ver, o Deus transcendente torna-se pr\u00f3ximo, vizinho da nossa vida. O motivo da alegria \u00e9 portanto este: n\u00f3s vimos! \u201cO Verbo fez-Se carne e habitou entre n\u00f3s. E n\u00f3s vimos a sua gl\u00f3ria\u201d. J\u00e1 o havia pr\u00e9-anunciado o profeta Isa\u00edas que nesta liturgia tamb\u00e9m recordamos: \u201cEis o grito das tuas sentinelas que levantam a voz. Todas juntas soltam brados de alegria, porque veem com os pr\u00f3prios olhos o Senhor que volta para Si\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Na Carta que escreveu aos crist\u00e3os, neste Advento, a prop\u00f3sito do valor do pres\u00e9pio, o Santo Padre recordou-nos o desejo de S\u00e3o Francisco de representar o Natal, n\u00e3o apenas com palavras e s\u00edmbolos, com ornamentos e conceitos teol\u00f3gicos, mas com pessoas vivas. E por uma raz\u00e3o que Francisco de Assis explicava assim: \u201cQuero representar o Menino nascido em Bel\u00e9m, para de algum modo ver com os olhos do corpo\u201d. Foi a partir deste desejo de \u201cver\u201d que na cidade de Gr\u00e9ccio, se deu in\u00edcio \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o de construir o Pres\u00e9pio. O pres\u00e9pio oferece plasticamente aos nossos olhos do corpo a possibilidade de ver, mesmo se sabemos que n\u00e3o \u00e9 suficiente que Jesus nas\u00e7a fora de n\u00f3s, numa vis\u00e3o apenas exterior. Sobre isso, o m\u00edstico Angelus Silesius cunhou este desassombrado d\u00edstico: \u201cSe mil vezes nascesse Cristo em Bel\u00e9m, mas n\u00e3o em ti, n\u00e3o aconteceria Natal\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Queridos irm\u00e3s e irm\u00e3os, o Natal fica incompleto se cada um de n\u00f3s n\u00e3o puder ver com os seus pr\u00f3prios olhos e n\u00e3o puder tocar o mist\u00e9rio de Deus. O Natal \u00e9 a anti abstra\u00e7\u00e3o. O Natal possui a concreta objetividade de um acontecimento que se d\u00e1 diante de n\u00f3s e em n\u00f3s. Cada um com as perguntas que traz, com as experi\u00eancias que transporta, com a situa\u00e7\u00e3o real que vive \u00e9 chamado a ver Deus. A ver Deus naquele Menino de carne e osso, naquela crian\u00e7a, naquele Filho que nos foi dado. Ao mesmo tempo, que somos igualmente chamados a nos deixarmos ver por Ele. A esse prop\u00f3sito escreveu Santo John Henry Newman: \u201cQuem quer que tu sejas, Deus olha-te de um modo \u00fanico e particular; Ele chama-te pelo nome; Ele te v\u00ea e compreende porque \u00e9 Ele que te criou. Ele conhece tudo aquilo que existe em ti, cada uma das tuas emo\u00e7\u00f5es e dos teus pensamentos, a tua for\u00e7a e a tua fraqueza\u201d. Jesus n\u00e3o vem apenas ao encontro da Humanidade, vem ao encontro de mim, de ti, de cada um de n\u00f3s. E o verdadeiro ver aplicado a Jesus implica a compreens\u00e3o profunda de quanto somos vistos, quer dizer, de quanto somos olhados, amados e conhecidos. Como mais tarde, Jesus viu Pedro e os disc\u00edpulos \u00e0 beira do lago, como viu a mulher hemorro\u00edssa no meio da multid\u00e3o ou Zaqueu no cimo do sic\u00f3moro, assim Ele nos v\u00ea, porque o Filho do Homem vem para nos procurar e salvar.<\/p>\n<p>O acento na dimens\u00e3o da visualidade que os textos b\u00edblicos hoje apresentam \u00e9 ent\u00e3o absolutamente certeira. E porqu\u00ea? Porque \u201co Verbo Se fez carne e habitou entre n\u00f3s\u201d. O centro e o n\u00f3, o eixo e o fulcro do cristianismo \u00e9 esta realidade da encarna\u00e7\u00e3o de Deus. Deus faz-Se Homem em Jesus, humano at\u00e9 \u00e0 medula e ao fundo, n\u00e3o separado do mundo, mas <em>in carnem<\/em>, <em>in corpus<\/em>, incorporado neste mundo. A eternidade torna-se assim tempo. O espiritual torna-se uma express\u00e3o comprometida com o mundo, com a vida tal como n\u00f3s a conhecemos. A nossa exist\u00eancia torna-se a tenda de Deus.<\/p>\n<p>Perguntemo-nos que desafios nos lan\u00e7a a encarna\u00e7\u00e3o de Jesus. A n\u00f3s crist\u00e3os, que hoje celebramos o nascimento de Jesus segundo a carne, que desafios concretos nos faz a encarna\u00e7\u00e3o do Senhor? Muito brevemente gostaria de elencar quatro, que s\u00e3o quatro pistas para o nosso caminho interior e eclesial, e representam outras tantas portas de ingresso numa vis\u00e3o comprometida do Pres\u00e9pio.<\/p>\n<ul>\n<li>Primeiro: temos de sentir que a encarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus representa um sim oferecido \u00e0 nossa humanidade. Deus ama-nos com um amor incondicional. E n\u00e3o ama uma idealiza\u00e7\u00e3o, mas a vida de cada pessoa tal qual ela se apresenta. Num natal como este que estamos a celebrar, o grande te\u00f3logo Dietrich Bonhoeffer escreveu: \u201cDeus faz-se homem por amor aos homens. N\u00e3o procura o mais perfeito dos homens para habitar nele, mas assume a natureza humana assim como ela \u00e9. Jesus Cristo n\u00e3o \u00e9 uma humanidade excelsa transfigurada, mas o \u201csim\u201d de Deus ao homem real; n\u00e3o o \u201csim\u201d neutro que d\u00e1 um juiz, mas o \u201csim\u201d misericordioso do companheiro de sofrimento. Neste \u201csim\u201d est\u00e1 contida a vida inteira e a esperan\u00e7a do mundo\u201d. Sintamos no Natal o sim de Deus. Podemos confiar neste amor. Muitas vezes pensamos que a f\u00e9 \u00e9 apenas o movimento do cora\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a Deus e esquecemo-nos que a f\u00e9 mais importante \u00e9 aquela que Deus tem por n\u00f3s. Deus tem f\u00e9, tem confian\u00e7a na mulher ou no homem que n\u00f3s somos.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>Somos em segundo lugar chamados a descobrir que em Jesus come\u00e7a um tempo qualitativamente novo, ao qual n\u00e3o podemos permanecer estranhos. Antes de Jesus, Deus j\u00e1 principiara a obra da Sua revela\u00e7\u00e3o. Exatamente como escutamos hoje na Carta aos Hebreus: \u201cMuitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas\u201d. Mas tamb\u00e9m ali se diz: \u201cNestes dias, que s\u00e3o os \u00faltimos, falou-nos por seu Filho\u201d. Com a encarna\u00e7\u00e3o do Verbo de Deus entramos num tempo novo, e que pede de n\u00f3s uma nova medida, uma nova compreens\u00e3o do que \u00e9 o sentido da vida. O Natal n\u00e3o pode ser, por isso, a perpetua\u00e7\u00e3o do velho mundo e das suas l\u00f3gicas. O Natal implica, sim, a emerg\u00eancia do novo: pede-nos uma renovada aud\u00e1cia de ser. Esta novidade que Jesus representa traduz-se em percursos de esperan\u00e7a em vez do desalento; percursos de aud\u00e1cia desmentindo o conformismo; percursos de integra\u00e7\u00e3o ultrapassando a l\u00f3gica do individualismo; percursos de investimento no humano contrariando o fatalismo dos que pensam que nada se pode fazer. Na verdade, Jesus vem dizer que se pode sempre fazer alguma coisa.<\/li>\n<li>Em terceiro lugar, o Natal prop\u00f5e um paradigma para entender a vida. Frequentemente ca\u00edmos na tenta\u00e7\u00e3o de julgar que nascemos apenas uma vez, que o nascer foi um ato pontual e \u00fanico que ocorreu na nossa vida e que agora a \u00fanica coisa que temos por certa \u00e9 a nossa morte. Ora o Natal mostra que isso n\u00e3o \u00e9 verdade. A vida pode ser muitas vezes, e todas as vezes que forem necess\u00e1rias, um parto. O poeta e.e.cummings dizia com raz\u00e3o que \u201cnunca nascemos o suficiente\u201d. N\u00f3s ainda n\u00e3o nascemos o suficiente. O nascimento de Jesus, Mestre da arte de nascer, potencia assim todos os nossos nascimentos, sobretudo aqueles que nos parecem mais dif\u00edceis para n\u00e3o dizer imposs\u00edveis de acontecer. O evangelista S\u00e3o Jo\u00e3o diz-nos hoje: \u201cA todos os que acreditam em Jesus Ele deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.\u201d E \u00e9 isto, queridos irm\u00e3s e irm\u00e3os, o mist\u00e9rio do Natal. A possibilidade que Deus d\u00e1 a mulheres e homens fr\u00e1geis, imperfeitos e inacabados como n\u00f3s, a possibilidade, em Jesus, de nos tornarmos filhos de Deus. A possibilidade efetiva de vivermos uma vida divina, de vivermos uma vida que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a express\u00e3o da nossa carne e do nosso sangue, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o nosso bem ou o nosso mal, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isto que somos e trazemos e repetimos. Agora \u00e9-nos concedida a faculdade de nos tornarmos filhos de Deus. Est\u00e1, desta forma declarada a possibilidade de renascermos.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li>Por fim: se a humanidade se torna a narra\u00e7\u00e3o de Deus ent\u00e3o a responsabilidade pela humanidade dos nossos irm\u00e3os cresce. E o quarto desafio \u00e9 precisamente a compreens\u00e3o de que o Natal de Jesus nos compromete na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa e mais fraterna, com menos desigualdade, menos indiferen\u00e7a e menos solid\u00e3o. Contra o descarte que mata, o Natal inicia-nos na arte da inclus\u00e3o. Contra o esbanjamento ego\u00edsta, o Natal pede-nos sobriedade e partilha. Contra aquilo que o Papa Francisco chama \u201co terrorismo da indiferen\u00e7a\u201d o Natal pede-nos a clareza de uma cultura do encontro. N\u00f3s que contemplamos o pres\u00e9pio, n\u00f3s que vimos a Sua gl\u00f3ria temos de sair ao encontro da humanidade que sofre. A humanidade dos nossos semelhantes \u00e9 o lugar onde podemos encontrar a Deus.<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Que Maria, a M\u00e3e do Pres\u00e9pio, seja a nossa mestra na disponibilidade para acolher com realismo e compromisso a encarna\u00e7\u00e3o de Jesus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e9 do Funchal, 25 de dezembro de 2019<\/p>\n<p>Cardeal D. Jos\u00e9 Tolentino de Mendon\u00e7a<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do cardeal D. 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