{"id":157864,"date":"2019-12-24T01:16:34","date_gmt":"2019-12-24T01:16:34","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=157864"},"modified":"2019-12-24T01:16:34","modified_gmt":"2019-12-24T01:16:34","slug":"boa-conversa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/boa-conversa\/","title":{"rendered":"Boa Conversa"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>As JMJ em Lisboa no ano 2022 abrem um horizonte interessante na vida da Igreja em rela\u00e7\u00e3o aos jovens e \u00e0 cultura. A palavra-chave em rela\u00e7\u00e3o aos jovens \u00e9 <em>protagonismo<\/em>. E, no que diz respeito \u00e0 cultura, a express\u00e3o que mais leio \u00e9 <em>redes sociais<\/em>. Ambas (protagonismo e redes-sociais) relacionadas com a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o. Acabei de franzir o sobrolho.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/SocialMediaConversation.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-157866\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/SocialMediaConversation.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"564\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/SocialMediaConversation.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/SocialMediaConversation-400x188.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/SocialMediaConversation-1024x481.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/SocialMediaConversation-768x361.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/SocialMediaConversation-1080x508.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/SocialMediaConversation-980x461.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/SocialMediaConversation-480x226.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><\/p>\n<p>S\u00f3 quem n\u00e3o me conhece de todo sabe que n\u00e3o estou contra a tecnologia, mas antes a favor de um uso consciente da mesma. Caso contr\u00e1rio, n\u00e3o usaremos a tecnologia, mas seremos usados por outros atrav\u00e9s dessa. Quando falo com os jovens n\u00e3o os sinto t\u00e3o entusiasmados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s redes sociais como sinto os adultos. Para eles, as mensagens nas redes sociais n\u00e3o s\u00e3o pessoais. Logo, custa-me a crer que o investimento nessas redes sirva o prop\u00f3sito da Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o. Posso estar errado. Mas se n\u00e3o estiver, que caminho seguir?<\/p>\n<h3>Pista #1<\/h3>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o original das redes sociais era a de conectar pessoas. Mas a partir do momento em que os seus criadores perceberam que podem fazer muito, mas muito dinheiro com a captura da nossa aten\u00e7\u00e3o, o que a explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo foi no passado para a cultura humana, \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o no mundo actual. E se hoje sofremos graves consequ\u00eancias ambientais por causa a explora\u00e7\u00e3o petrol\u00edfera, dever\u00edamos estar conscientes da irreversibilidade e consequ\u00eancia que a explora\u00e7\u00e3o da nossa aten\u00e7\u00e3o pode ter para a humanidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou confiante de que o caminho certo para a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o seja o de recorrer \u00e0 explora\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o feita atrav\u00e9s das redes sociais para disseminar a mensagem salv\u00edfica, libertadora e intemporal do Evangelho. Se isso mant\u00e9m os jovens grudados nos \u00e9cr\u00e3s dos seus telem\u00f3veis, ent\u00e3o, acabam por n\u00e3o desenvolver uma qualidade humana fundamental para dar a conhecer a experi\u00eancia de Deus a outros: a <em>empatia.<\/em><\/p>\n<p>Na investiga\u00e7\u00e3o feita por Sherry Turkle, publicada no seu livro <em>\u201dReclaiming Conversation\u201d<\/em>, os telem\u00f3veis s\u00e3o respons\u00e1veis pela diminui\u00e7\u00e3o em 40% da capacidade para a empatia nos jovens, bem como a de manter uma conversa sobre assuntos mais profundos. Eu n\u00e3o tenho qualquer d\u00favida de que a rela\u00e7\u00e3o com Deus \u00e9 algo de profundo e marcante na vida de qualquer pessoa, sobretudo, nos jovens. Por isso, ao investir nas redes sociais, n\u00e3o estaremos a alimentar a perda desta capacidade?<\/p>\n<p>O que conhece um jovem sobre a sua natureza humana e valor transformativo da uni\u00e3o com Deus se atrav\u00e9s das redes sociais estimulamos a desenvolver uma segunda natureza? Essa \u00e9 uma natureza artificial que produz um impacto negativo profundo e desconhecido no modo como os jovens <em>crescem em sabedoria<\/em> (Lc 2, 52).<\/p>\n<p>Uma das experi\u00eancias que Turkle partilha de uma jovem \u00e9 a de que ao deixar a universidade, fez umas \u201cf\u00e9rias\u201d do Facebook. Apagou a App do seu telem\u00f3vel e port\u00e1til. Esteve desligada do Facebook por umas semanas, mas disse a Turkle que a experi\u00eancia a <strong>acalmou<\/strong> &#8211; <em>\u00abestou menos impaciente com as pessoas e, pela primeira vez, sei que posso estar sozinha.\u00bb<\/em> Estar sozinho em solitude n\u00e3o tem nada a ver com viver em solid\u00e3o.<\/p>\n<h3>Pista #2<\/h3>\n<blockquote><p>\u00abTu precisas de desenvolver a capacidade de ser, simplesmente, tu mesmo e n\u00e3o ser o que faz seja o que for. \u00c9 isso que os telem\u00f3veis nos est\u00e3o a tirar. A capacidade de estar, simplesmente, [\u2026] de ser uma pessoa.\u00bb (Louis CK, comediante americano)<\/p><\/blockquote>\n<p>O que vive a solid\u00e3o isola-se do mundo. O que vive a solitude aprende a estar consigo pr\u00f3prio para melhor se ligar aos outros. Se n\u00e3o estamos confort\u00e1veis connosco pr\u00f3prios significa que n\u00e3o desenvolvemos, suficientemente, a <em>capacidade para a solitude.<\/em><\/p>\n<p>A capacidade para a solitude \u00e9 essencial para o desenvolvimento da empatia, isto \u00e9, sabermo-nos colocar no lugar e pele do outro, uma qualidade relacional que nos torna cada vez mais humanos. \u00c9 quando estamos junto com os nossos pensamentos, em vez de sistematicamente reagirmos aos pensamentos dos outros (como acontece nas redes sociais) que deixamos a mente vaguear, criar e possibilitar a escuta d\u2019Aquela Voz, em vez de ser capturada e dividida.<\/p>\n<p>A solitude desafia o h\u00e1bito actual de nos voltarmos para o \u00e9cr\u00e3 e, em vez disso, voltarmo-nos para o nosso interior.<\/p>\n<blockquote><p>\u00abTodos os pensamentos, estritamente falando, s\u00e3o tidos na solitude e no di\u00e1logo entre mim e eu pr\u00f3pria; mas este di\u00e1logo dos dois-em-um n\u00e3o perde o contacto com o mundo e os que nele vivem porque est\u00e3o representados naquele com quem tenho o di\u00e1logo do pensamento.\u00bb (Hanna Arendt, fil\u00f3sofa)<\/p><\/blockquote>\n<p>O te\u00f3logo Paul Tillich dizia que a <em>linguagem<\/em> criou a palavra <em>solid\u00e3o<\/em> para expressar a dor de estar s\u00f3, enquanto a palavra <em>solitude<\/em> foi criada para expressar a gl\u00f3ria de estar a s\u00f3s. O voltar sistem\u00e1tico do olhar para o ecr\u00e3 que permite jovens e adultos estarem conectados on-line, impede os momentos de solitude quando estes aparecem inesperadamente. E se n\u00e3o temos qualquer experi\u00eancia de solitude, come\u00e7amos a equacionar solitude com solid\u00e3o. Ou seja, em vez de reconhecermos nos momentos de t\u00e9dio o chamamento da <em>imagina\u00e7\u00e3o<\/em>, negamo-nos a oportunidade de conectar com a interioridade real a favor da conectividade exterior digital.<\/p>\n<h3>Pista #3<\/h3>\n<blockquote><p>\u00abOs adolescentes \u00e9 que est\u00e3o mais expostos \u00e0 ilus\u00e3o de que a <em>social web<\/em> possa satisfaz\u00ea-los completamente a n\u00edvel relacional, at\u00e9 se chegar ao perigoso fen\u00f3meno dos jovens \u201ceremitas sociais\u201d, que correm o risco de se alhear totalmente da sociedade. Esta din\u00e2mica dram\u00e1tica manifesta uma grave ruptura no tecido relacional da sociedade, uma lacera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o podemos ignorar.\u00bb (Papa Francisco na sua Mensagem para do LIII Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais, 24 de janeiro 2019)<\/p><\/blockquote>\n<p>Vale a pena ler toda a <a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/messages\/communications\/documents\/papa-francesco_20190124_messaggio-comunicazioni-sociali.html\">mensagem<\/a>; do Papa a este respeito para encontrar mais pistas. Mas h\u00e1 uma que me salta \u00e0 vista &#8211; a <em>comunidade<\/em> &#8211; como verdadeira rede social, onde nos reconhecemos como seres-em-rela\u00e7\u00e3o, membros uns dos outros.<\/p>\n<blockquote><p>\u00aba verdade revela-se na comunh\u00e3o\u00bb (Papa Francisco, ibidem.)<\/p><\/blockquote>\n<p>Como afirma o Papa, <em>\u00abDeus n\u00e3o \u00e9 Solid\u00e3o, mas Comunh\u00e3o; \u00e9 Amor e, consequentemente, comunica\u00e7\u00e3o, porque o amor sempre comunica; antes, comunica-se a si mesmo para encontrar o outro. Para comunicar connosco e Se comunicar a n\u00f3s, Deus adapta-Se \u00e0 nossa linguagem, estabelecendo na hist\u00f3ria um verdadeiro e pr\u00f3prio di\u00e1logo com a humanidade.\u00bb<\/em> O melhor modo de avaliar como podem as novas tecnologias servir uma Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o, sobretudo dos jovens, creio estar na capacidade de gerar, ou n\u00e3o, relacionamentos assentes na profunda comunh\u00e3o de vida que gera uma comunidade capaz de acolher todos, independentemente das suas convic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>S\u00f3 o que possui a capacidade de estar consigo pr\u00f3prio, com a sua interioridade, pode, livremente, estar plenamente com os outros, sem se distrair, e totalmente presente atrav\u00e9s de uma escuta atenta e sincera. Uma escuta emp\u00e1tica. O telem\u00f3vel n\u00e3o \u00e9 um mal enquanto for um meio. Pois, o fim de levar a presen\u00e7a de Deus aos outros acontece no encontro face-a-face e atrav\u00e9s de uma boa conversa. Que tal come\u00e7ar por aqui?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":92442,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-157864","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/157864","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=157864"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/157864\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92442"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=157864"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=157864"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=157864"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}