{"id":15755,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/espiritanas-no-huambo-com-quem-a-guerra-mutilou\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"espiritanas-no-huambo-com-quem-a-guerra-mutilou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/espiritanas-no-huambo-com-quem-a-guerra-mutilou\/","title":{"rendered":"Espiritanas no Huambo com quem a guerra mutilou"},"content":{"rendered":"<p>A guerra passou por ali durante muito tempo e com muita viol\u00eancia. O Huambo \u00e9 uma das cidades mais marcadas. Os edif\u00edcios e as estradas mostram bem a crueldade dos combates. Mas tamb\u00e9m se notam, em muita gente, os efeitos da crueldade. No Huambo, vemos mutilados no virar de cada esquina. Uma das heran\u00e7as mais pesadas da longa e cruel guerra de Angola. De todas a idades e proveni\u00eancias. Com hist\u00f3rias dram\u00e1ticas do passado para contar, mas sem futuro bom a augurar. Por ali andam, sem apoios, de m\u00e3o estendida. Est\u00e1 esgotado, mesmo em Luanda, um CD de Justino Handanga que, em umbundu, a l\u00edngua-m\u00e3e do Huambo, canta os horrores da guerra. Na can\u00e7\u00e3o \u201cNdetekateka\u201d, fala dos mutilados: \u00abPerdi as pernas, lutei. Agora estou condenado a pedir esmola. Vejo os outros a andar normalmente e eu, que lutei por Angola, n\u00e3o tenho pernas, n\u00e3o tenho que comer\u2026\u00bb. O t\u00edtulo do CD \u00e9 \u201cAlvo atingido\u201d. Triste sorte a daqueles a quem a guerra levou as pernas, os bra\u00e7os, os olhos, os ouvidos\u2026 e, com eles, boa parte do futuro.  <b>O sonho da Irm\u00e3 Marguerite<\/b>  Mas h\u00e1, desde h\u00e1 muito tempo, no Huambo, um espa\u00e7o onde os mutilados t\u00eam direito a acreditar no futuro. Tudo come\u00e7ou em 1986 quando a Irm\u00e3 Marguerite, Espiritana, lan\u00e7ou as bases do Centro de Reabilita\u00e7\u00e3o de Mutilados da Kamussamba. Contou com a ajuda preciosa da fam\u00edlia Praia que aceitou ceder a sua casa para acolher os primeiros mutilados. Eram 25: faziam artesanato, costura, tricot, bordados, trabalhos com missangas, sacos, an\u00e9is, ter\u00e7os e at\u00e9 ali se fundou uma carpintaria e uma sapataria. Tudo muito simples, em pleno bairro perif\u00e9rico da cidade do Huambo. Arranjou-se mesmo um canto para instalar uma fundi\u00e7\u00e3o para fazer imagens de metal. Depressa se percebeu que havia gente de mais para t\u00e3o curto espa\u00e7o. E arranjou-se um espa\u00e7o para a constru\u00e7\u00e3o do Centro, no local onde ainda est\u00e1 a funcionar, no Bairro da Kamussamba, nas periferias do Huambo.   <b>O Centro de Reabilita\u00e7\u00e3o de Mutilados<\/b>  A inaugura\u00e7\u00e3o foi a 1 de Outubro e, por isso mesmo, dedicado a Santa Teresinha do Menino Jesus. O sonho de reabilitar os mutilados e outras pessoas portadoras de defici\u00eancia f\u00edsica ou mental estava a concretizar-se aos poucos. A constru\u00e7\u00e3o come\u00e7ou em 1991 e muita gente ajudou. O padre Quirino Houdjik foi o grande angariador de fundos, na Europa. Tamb\u00e9m ajudaram a C\u00e1ritas, o PAM, a Coopera\u00e7\u00e3o Su\u00ed\u00e7a e at\u00e9 os militares da UNAVEM (capacetes azuis) colaboraram no transporte dos materiais de constru\u00e7\u00e3o. O grupo Amizade, coordenado pela Primeira Dama da Embaixada Portuguesa, ofereceu mesas e bancos. Outros apoios v\u00e3o chegando de todo o mundo e permitem o funcionamento do Centro, dia ap\u00f3s dia. O ano de 1993 foi o ano da Batalha dos 55 Dias, no Huambo. Aumentaram os mutilados e as crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s. A caracter\u00edstica deste Centro \u2013 diz a Irm\u00e3 Aurora, Espiritana de Vieira do Minho, a actual directora \u2013 \u00e9 que todos trabalham. Ali v\u00e3o chegando pessoas que querem comprar o que se produz nestas actividades, o que ajuda a manter o projecto. O Centro n\u00e3o tem ningu\u00e9m l\u00e1 a residir. \u00c9 um local de trabalho e de encontro. Por isso, foram constru\u00eddas tr\u00eas aldeias onde os mutilados vivem. Tudo ali no bairro, porque as desloca\u00e7\u00f5es s\u00e3o muitos dif\u00edceis. Cheguei \u00e0 hora do almo\u00e7o. Grandes panelas tinham o pir\u00e3o (farinha de milho) e o feij\u00e3o que ia sendo distribu\u00eddo, com muita ordem e serenidade, pelos 125 utentes, muitos deles crian\u00e7as. Fiz uma visita a todas as instala\u00e7\u00f5es: a cozinha, o refeit\u00f3rio, a sala das m\u00e1quinas de costura, a carpintaria. Finalmente, a Irm\u00e3 Aurora levou-me at\u00e9 \u00e0 sala onde est\u00e3o expostos os produtos feitos ali. Na hora do regresso ao trabalho, pude acompanhar o trabalho de pessoas invisuais a fazer artesanato, pessoas mutiladas a costurar ou a fazer colares de missangas. Ali h\u00e1 alegria, h\u00e1 festa, h\u00e1 empenho, h\u00e1 refei\u00e7\u00f5es, h\u00e1 casa para morar, h\u00e1 cuidados de sa\u00fade, h\u00e1 esp\u00edrito de fam\u00edlia, h\u00e1 futuro, garantiu a Directora.   <b>N\u00fameros que falam, iniciativas que atraem<\/b>  Os n\u00fameros t\u00eam variado ao longo dos tempos. No per\u00edodo mais quente da guerra, chegaram a ser 400. Hoje s\u00e3o 125, entre adultos e crian\u00e7as. O Centro \u00e9, hoje, muito conhecido e respeitado, a ponto de numerosos jornalistas nacionais e estrangeiros ali fazerem reportagens. Ao longo dos tempos, o voluntariado tem sido incentivado. Em 1997, por exemplo, um grupo de Jovens Sem fronteiras de Portugal, ali fez uma experi\u00eancia mission\u00e1ria durante o m\u00eas de Agosto. Alguns dos actuais utentes ainda se lembram bem. Tamb\u00e9m a D. \u00c2ngela Praia, pilar desde a primeira hora, me perguntou por estes jovens.   <b>Uma Escola dedicada a Santa Teresinha <\/b>  Em 1997, o Centro avan\u00e7ou para a funda\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de uma Escola Prim\u00e1ria, porque eram numerosas as crian\u00e7as filhas dos mutilados ou \u00f3rf\u00e3s que ali chegavam e que nunca encontravam lugar nas escolas oficiais. Assim nasceu a Escola Santa Teresinha. Iniciou actividades em Fevereiro e, at\u00e9 hoje, sempre teve cerca de 700 crian\u00e7as. \u00c9 uma escola aberta a todo o bairro da Kamussamba. \u00c9 \u2014 no dizer da Irm\u00e3 Palmira, natural de Tondela \u2014 \u00abum espa\u00e7o ecum\u00e9nico, em que n\u00e3o se faz qualquer acep\u00e7\u00e3o de pessoas. A \u00fanica lei \u00e9 o regulamento da escola que todos t\u00eam que cumprir\u00bb. Nos espa\u00e7os envolventes da Escola, ali plantada em meio bem rural, h\u00e1 muitas \u00e1rvores de fruto: mangueiras, abacateiros. H\u00e1 ainda bananeiras e mamoeiros. O espa\u00e7o \u00e9 ainda valorizado com uma planta\u00e7\u00e3o de milho e de feij\u00e3o, que em muito ajudam \u00e0 sobreviv\u00eancia da Escola. Numa das salas de aula, encontrei uma pintura mural que resume bem os objectivos desta Escola: \u00abVamos \u00e0 escola construir uma Angola nova\u00bb.   Tony Neves  &#8211; <i>Mission\u00e1rio Espiritano<\/i> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A guerra passou por ali durante muito tempo e com muita viol\u00eancia. O Huambo \u00e9 uma das cidades mais marcadas. Os edif\u00edcios e as estradas mostram bem a crueldade dos combates. Mas tamb\u00e9m se notam, em muita gente, os efeitos da crueldade. No Huambo, vemos mutilados no virar de cada esquina. 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