{"id":15694,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-paz-nasce-e-caminha-na-verdade\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-paz-nasce-e-caminha-na-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-paz-nasce-e-caminha-na-verdade\/","title":{"rendered":"\u00abA paz nasce e caminha na verdade\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Homilia da Paz do Bispo de Viseu <!--more--> \u201cUm s\u00f3 gesto de amor \u00e9 capaz de fazer mais pela paz do que todas as armas do mundo. O amor \u00e9 sempre a vit\u00f3ria sobre a mentira e o mal!\u201d  1. O Senhor nos conceda a paz Neste primeiro dia do ano civil de 2006, \u00e9 belo que a pr\u00f3pria liturgia nos formule os votos de paz e felicidade, atrav\u00e9s dos textos da primeira leitura, do salmo responsorial e da evoca\u00e7\u00e3o paulina da nossa dignidade: somos filhos de Deus pela gra\u00e7a!  Por isso, no limiar do Ano Novo, ao abra\u00e7ar cada um e a todos v\u00f3s aqui reunidos, neste sacrif\u00edcio eucar\u00edstico,  em comunh\u00e3o de f\u00e9 e amor, invoco com as palavras da liturgia:  \u201cO Senhor nos aben\u00e7oe e proteja! O Senhor fa\u00e7a resplandecer a luz do Seu rosto sobre n\u00f3s E nos conceda a paz!\u201d Esta b\u00ean\u00e7\u00e3o encontrou o seu fruto mais completo e irradiante no nascimento do Filho de Deus, em Bel\u00e9m. Em Jesus, Deus fez resplandecer o seu rosto sobre o mundo inteiro, inclinou-se sobre a humanidade pecadora para lhe trazer a paz. E Maria, M\u00e3e de Jesus est\u00e1 a seu lado como M\u00e3e da nova humanidade em Cristo, mulher humilde de paz e, por isso, Rainha da paz.  2. A paz nasce da verdade Olhando o actual contexto mundial, o Santo Padre enviou-nos uma mensagem para o dia de hoje, onde nos convida a meditar sobre a paz \u00e0 luz da verdade e \u00e0 qual deu o t\u00edtulo: \u201cNa verdade, a Paz\u201d. Desta mensagem, desejaria oferecer apenas alguns pontos \u00e0 vossa medita\u00e7\u00e3o. Falando de paz, no actual contexto da vida social, civil e pol\u00edtica entre as na\u00e7\u00f5es, tendemos espontaneamente a p\u00f4r-nos de fora com um sentimento de impot\u00eancia e de frustra\u00e7\u00e3o, dizendo: os que podem trabalhar pela paz no mundo s\u00e3o as grandes pot\u00eancias, os governos, os ex\u00e9rcitos, os pol\u00edticos, as diplomacias. N\u00f3s, os pequenos, que mais podemos fazer para al\u00e9m da ora\u00e7\u00e3o? Bento XVI, ao contr\u00e1rio, afirma que a paz n\u00e3o se reduz a um mero produto de acordos pol\u00edticos. Ela nasce e caminha na verdade. Quando cada um de n\u00f3s respeita a verdade, constr\u00f3i a paz. E sem tal respeito profundo, n\u00e3o se pode falar de paz. O discurso sobre a paz mediante a verdade alcan\u00e7a, antes de mais, o \u00edntimo de cada um e, ao mesmo tempo, torna-nos solidariamente respons\u00e1veis na constru\u00e7\u00e3o da paz na sociedade e no mundo. A verdade engrandece o homem e as suas rela\u00e7\u00f5es; a mentira destr\u00f3i-o. \u201cA verdade da paz chama todos a cultivar rela\u00e7\u00f5es fecundas e sinceras, estimula a procurar e a percorrer os caminhos do perd\u00e3o e da reconcilia\u00e7\u00e3o, a ser transparentes nas conversa\u00e7\u00f5es e fi\u00e9is \u00e0 palavra dada\u201d(n. 6).  3. A verdade e a m\u00e1scara A perspectiva da verdade que o Papa escolheu para analisar e sustentar um processo de mais justi\u00e7a, lealdade e paz entre os povos, \u00e9 de uma actualidade premente na cultura actual. Uma conhecida f\u00e1bula conta que a verdade e a mentira foram tomar banho juntas ao mesmo rio. A mentira saiu do rio antes da verdade e, ao ver a roupa limpa e bela desta, vestiu-a. Quando a verdade saiu do rio, n\u00e3o teve outro rem\u00e9dio sen\u00e3o vestir a roupa feia da mentira. E assim a mentira anda mascarada de verdade. A f\u00e1bula serve-nos para compreender a chamada \u201cciviliza\u00e7\u00e3o da m\u00e1scara\u201d, isto \u00e9, do engano e da mentira, que est\u00e1 subjacente a muitas situa\u00e7\u00f5es de crise, de conflito, de viol\u00eancia e de guerra. J\u00e1 Santo Agostinho, cujo pensamento \u00e9 t\u00e3o inspirador do actual Pont\u00edfice, apresentava como causa profunda da crise de decad\u00eancia do seu tempo a tend\u00eancia &#8211; espalhada desde os v\u00e9rtices do poder at\u00e9 \u00e0 mentalidade comum do povo \u2013 a preferir a vaidade (a m\u00e1scara) \u00e0 verdade. A vaidade \u00e9 a l\u00f3gica das apar\u00eancias, o triunfo da m\u00e1scara, que oculta interesses ego\u00edstas e perspectivas de pouco valor por detr\u00e1s da proclama\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es altissonantes. A verdade \u00e9 a l\u00f3gica que afere as op\u00e7\u00f5es por valores \u00e9ticos permanentes, pela verdade e dignidade da pessoa humana. A verdade e a mentira n\u00e3o s\u00e3o temas de especula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Est\u00e3o profundamente ligadas a acontecimentos da hist\u00f3ria humana, dos quais depende a paz verdadeira ou o seu falhan\u00e7o, a felicidade ou infelicidade dos homens e, portanto, o futuro do mundo. A mentira, nas suas v\u00e1rias formas, entra na categoria de pecado de consequ\u00eancias devastadoras na vida dos indiv\u00edduos e das na\u00e7\u00f5es como provam os acontecimentos mais tr\u00e1gicos do s\u00e9culo passado. Por isso, o grande drama cultural, espiritual e religioso do nosso tempo \u00e9 o drama do niilismo e do relativismo de quem n\u00e3o tem confian\u00e7a alguma na for\u00e7a da verdade e dos valores universais e os nega e despreza. \u201cN\u00e3o havendo nada de duradoiro, cai por terra o fundamento da vida hist\u00f3rica, isto \u00e9, a confian\u00e7a, em todas as suas formas. E visto que n\u00e3o se tem confian\u00e7a na verdade, substitui-se com sofismas de propaganda. Faltando a confian\u00e7a na justi\u00e7a, declara-se justo o que conv\u00e9m\u2026! Tal \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o singular\u00edssima do nosso tempo de verdadeira e pr\u00f3pria decad\u00eancia\u201d(Bonhoeffer). Frente a uma \u201cciviliza\u00e7\u00e3o da m\u00e1scara\u201d, das apar\u00eancias e do ef\u00e9mero, \u00e9 preciso propor uma vis\u00e3o alternativa constru\u00edda sobra a verdade das coisas, sobre o primado dos valores fundados na dignidade transcendente da pessoa humana, na humanidade comum a todos e, por conseguinte, no bem comum. Esta \u00e9 a gram\u00e1tica da lei moral universal e do di\u00e1logo entre os homens e entre as na\u00e7\u00f5es. Sem esta inst\u00e2ncia moral transcendente ser\u00e3o a mentira e a barb\u00e1rie a triunfar sobre tudo e sobre todos.  4. Dialogar na verdade para al\u00e9m do relativismo e do fanatismo A verdade busca-se e cresce no di\u00e1logo que hoje \u00e9 multicultural e inter-religioso. O Papa, na sua mensagem coloca esta quest\u00e3o crucial, \u00e0 qual a gente nem sempre d\u00e1 uma resposta justa. Por vezes, fecha-se na intoler\u00e2ncia do fanatismo; ou ent\u00e3o fica-se na mera indiferen\u00e7a pensando que n\u00e3o h\u00e1 verdade nem falsidade, que cada um pode conceber a verdade a seu modo. Estas atitudes levam a um perigoso desprezo do homem e da sua vida e est\u00e3o na origem da cultura da viol\u00eancia e do terrorismo. Mas entre a intoler\u00e2ncia e a indiferen\u00e7a est\u00e1 o di\u00e1logo na verdade, no respeito, na escuta e na estima rec\u00edprocas. A f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 fonte de um universalismo, de um cora\u00e7\u00e3o universal que leva a ver as diferen\u00e7as hist\u00f3ricas e culturais como uma riqueza em ordem \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o das pessoas e dos povos. Da\u00ed a necessidade de evitar toda a intoler\u00e2ncia, todos os preconceitos, todo o ju\u00edzo \u00e1spero e apressado sobre o outro, a necessidade de uma melhor compreens\u00e3o entre n\u00f3s e entre os povos. Ser\u00e1 o di\u00e1logo inter-cultural e inter-religioso que evitar\u00e1 o \u201cconfronto de civiliza\u00e7\u00f5es\u201d que alguns consideram inevit\u00e1vel.  5. O primado da verdade na pol\u00edtica O tema da \u201cpaz na verdade\u201d tem tamb\u00e9m repercuss\u00f5es no \u00e2mbito pol\u00edtico. O elevado n\u00edvel de conflituosidade a que se assiste \u00e9, muitas vezes, fruto de um modo de conceber a governa\u00e7\u00e3o que separou a autoridade formal da autoridade efectiva dos comportamentos; e a representa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica da representatividade real das necessidades e dos interesses dos cidad\u00e3os. Onde o pol\u00edtico ou o administrador buscam unicamente o seu pr\u00f3prio interesse ou os interesses de alguma parte, apostando na imagem ou na busca do consenso atrav\u00e9s de favoritismos ou lucros ligados a grupos de poder, a\u00ed triunfa a m\u00e1scara, a mentira. Mas tamb\u00e9m na pol\u00edtica, a mentira, o engano, o equ\u00edvoco n\u00e3o t\u00eam consist\u00eancia (n\u00e3o duram); antes, s\u00e3o fonte de males sociais. O primado da verdade exige uma praxis pol\u00edtica e administrativa inspirada na busca desinteressada do bem comum, capaz de escutar e envolver solidariamente todos os cidad\u00e3os enquanto portadores de necessidades, de direitos e deveres, de propostas e possibilidades reais e realistas. Dizer a verdade, educar a opini\u00e3o p\u00fablica para a verdade \u00e9 o primeiro dever de um governo que se respeite e queira ser respeitado. As democracias vencem com a verdade e n\u00e3o com a mentira. N\u00e3o chegou, porventura, para n\u00f3s portugueses, governantes e governados, a hora de abandonar a m\u00e1scara e olharmos todos com verdade a situa\u00e7\u00e3o actual que vivemos?  6. Espiritualidade da paz Todas estas perspectivas sobre \u201ca paz na verdade\u201d que a mensagem do Papa nos inspirou, n\u00e3o se realizam sem uma espiritualidade que anime a partir de dentro o cora\u00e7\u00e3o de cada um e que, a meu ver, o Santo Padre sintetiza numa frase: \u201caprender a fundar a paz sobre a verdade de uma exist\u00eancia quotidiana inspirada no mandamento do amor\u201d. De facto, um s\u00f3 gesto de amor \u00e9 capaz de fazer mais pela paz do que todas as armas do mundo. O amor \u00e9 sempre a vit\u00f3ria sobre a mentira e o mal! Senhor Jesus, por intercess\u00e3o de Maria, Tua M\u00e3e e Rainha da paz, d\u00e1-nos a paz, a tua paz, a paz na verdade! \u00c1men!     S\u00e9 de Viseu, 1 de Janeiro de 2006 <i>+Ant\u00f3nio Marto, Bispo de Viseu<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia da Paz do Bispo de Viseu<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,184,199,246],"class_list":["post-15694","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-diocese-de-viseu","tag-espiritualidade","tag-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15694","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15694"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15694\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15694"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15694"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15694"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}