{"id":15686,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-verdade-e-alicerce-indispensavel-para-se-construir-a-paz\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-verdade-e-alicerce-indispensavel-para-se-construir-a-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-verdade-e-alicerce-indispensavel-para-se-construir-a-paz\/","title":{"rendered":"\u00abA verdade \u00e9 alicerce indispens\u00e1vel para se construir a Paz\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal-Patriarca no Dia Mundial da Paz <!--more--> 1. Neste primeiro dia do ano, os crist\u00e3os s\u00e3o interpelados por uma dupla celebra\u00e7\u00e3o: a festa lit\u00fargica de Santa Maria, M\u00e3e de Deus, e o \u201cDia Mundial da Paz\u201d, em que somos convidados a aprofundar a rela\u00e7\u00e3o entre o mist\u00e9rio que celebramos e a constru\u00e7\u00e3o da paz. Estas duas celebra\u00e7\u00f5es n\u00e3o geram dispers\u00e3o, antes afirmam que Jesus Cristo e o Esp\u00edrito Santo que infunde em n\u00f3s s\u00e3o o verdadeiro fundamento da paz. Para nos ajudar nesta medita\u00e7\u00e3o, os Papas t\u00eam dirigido \u00e0 Igreja, neste dia, uma Mensagem, sempre centrada num aspecto da constru\u00e7\u00e3o da paz a partir de Jesus Cristo e da exig\u00eancia, inerente \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3, de construir um mundo novo. Bento XVI, no primeiro ano do seu pontificado, n\u00e3o interrompeu esta tradi\u00e7\u00e3o e centrou a sua mensagem para este dia, na rela\u00e7\u00e3o que h\u00e1 entre a verdade e a paz. E explica porqu\u00ea: este tema \u201cna verdade, a paz\u201d, \u201cexprime esta convic\u00e7\u00e3o: sempre que o homem se deixa iluminar pelo esplendor da verdade, empreende quase naturalmente o caminho da paz\u201d (Bento XVI, \u201cNa Verdade, a Paz\u201d, n\u00ba 3). Esta afirma\u00e7\u00e3o aponta, tamb\u00e9m, a mentira como um dos principais obst\u00e1culos \u00e0 paz. Escutemos o Santo Padre: \u201cA busca aut\u00eantica da paz deve partir da consci\u00eancia de que o problema da verdade e da mentira diz respeito a cada homem e mulher e aparece como decisivo para um futuro pac\u00edfico do nosso Planeta\u201d (Ibidem, n\u00ba 5).  2. Estas afirma\u00e7\u00f5es convidam-nos a aprofundar a no\u00e7\u00e3o de verdade e de mentira. Muitos, na maneira de se situar na vida, vivem na mentira, porque tomam posi\u00e7\u00f5es e seguem caminhos que sabem ser contr\u00e1rios \u00e0 verdade; mas outros vivem na mentira, porque j\u00e1 a identificam com a sua pr\u00f3pria verdade. A busca da verdade \u00e9, em cada homem, uma express\u00e3o maior da intelig\u00eancia e da liberdade, porque a verdade consiste na descoberta da dignidade do homem, do sentido profundo do seu ser, como membro da fam\u00edlia humana, habitando a mesma casa comum, que \u00e9 o universo. E esta busca do sentido \u00e9 influenciada, de modo decisivo, pelo facto de acreditar em Deus ou de n\u00e3o acreditar. Para quem acredita em Deus, a verdade sobre o homem e sobre o universo s\u00f3 se pode encontrar na inten\u00e7\u00e3o criadora de Deus. N\u00e3o haver\u00e1 harmonia entre os homens e destes com o universo, se n\u00e3o procurarem perceber e acolher a verdade da cria\u00e7\u00e3o. Construir a paz \u00e9 obra da liberdade de homens que, ao construir a hist\u00f3ria, s\u00e3o guiados e atra\u00eddos por essa verdade profunda que todas as coisas encontram em Deus. O homem aceita n\u00e3o ser a \u00fanica fonte da verdade e assume-se como peregrino da verdade. \u00c9 neste sentido que a verdade lhe \u00e9 revelada pela Palavra eterna de Deus, que Ele pronuncia continuamente na hist\u00f3ria e que \u00e9 luz para toda a procura da verdade. Este dinamismo atinge a sua plenitude em Jesus Cristo, a Palavra eterna encarnada. Ele pr\u00f3prio declarou ser a verdade e a luz que ilumina todo o homem que vem a este mundo. \u201c\u00c9 Ele que manifesta a verdade total do homem e da hist\u00f3ria. Com a for\u00e7a da Sua gra\u00e7a \u00e9 poss\u00edvel estar na verdade e viver da verdade, porque s\u00f3 Ele \u00e9 totalmente sincero e fiel. Jesus \u00e9 a verdade que nos d\u00e1 a paz\u201d (Ibidem, n\u00ba 6). A f\u00e9 leva-nos a procurar a verdade na Sua fonte, a aceitar uma verdade absoluta, pela qual nos sentimos atra\u00eddos. \u00c9 a atitude de Maria, no Pres\u00e9pio de Bel\u00e9m: \u201cMaria fixava todas estas palavras e pensava nelas no \u00edntimo do cora\u00e7\u00e3o\u201d. E S\u00e3o Paulo diz-nos que \u00e9 o Esp\u00edrito Santo, enviado por Deus aos nossos cora\u00e7\u00f5es, que nos faz descobrir a mais profunda verdade do nosso pr\u00f3prio mist\u00e9rio, na nossa qualidade de filhos de Deus. A verdade que procuramos \u00e9 absoluta e transcendente, e Jesus Cristo \u00e9 a sua plenitude. Para quem n\u00e3o acredita em Deus, muda radicalmente o horizonte da busca da verdade. Fica prisioneira do horizonte do pr\u00f3prio homem, quando muito da hist\u00f3ria, absolutizada como fonte da verdade, onde as ideologias que a inspiram e conduzem, s\u00e3o as mesmas que a explicam e justificam. E bem depressa a valoriza\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia individual conduziu a uma vis\u00e3o totalmente subjectiva da verdade, onde cada um tem direito \u00e0 sua pr\u00f3pria verdade. Anulada qualquer refer\u00eancia a uma verdade objectiva e absoluta, que n\u00e3o se confunde com o homem, esbatem-se as fronteiras entre a verdade e a mentira. No concreto da vida das sociedades as consequ\u00eancias destas duas atitudes n\u00e3o s\u00e3o sempre linearmente claras. Nem todos os crentes se tornam peregrinos da verdade absoluta, caindo tamb\u00e9m, seja na mentira, seja na vis\u00e3o subjectiva da verdade; e muitos homens que buscam sinceramente a verdade, mesmo n\u00e3o sendo crentes, vencem generosamente os limites do individualismo e aproximam-se do limiar da verdade objectiva, porventura absoluta. E o ponto de converg\u00eancia destes dois caminhos de busca da verdade, \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o da dignidade do homem, do valor sagrado da vida, do respeito pelas diferen\u00e7as, valorizando tudo o que pode construir a harmonia da paz. A verdade fundamenta um quadro \u00e9tico de valores, irredut\u00edveis \u00e0 verdade individual, absolutamente indispens\u00e1veis para a constru\u00e7\u00e3o da paz. \u00c9 miss\u00e3o principal das religi\u00f5es e culturas em di\u00e1logo, apurarem esse \u201cuniversal humano\u201d de promo\u00e7\u00e3o da dignidade do homem, base indispens\u00e1vel para a paz. Ressalta a responsabilidade dos crentes, de modo particular os crist\u00e3os, para darem densidade hist\u00f3rica, na constru\u00e7\u00e3o da paz, \u00e0 verdade em que acreditam, porque a hist\u00f3ria mostra que dificilmente se chega \u00e0 \u201cverdade para a paz\u201d longe de Deus. Ou\u00e7amos, mais uma vez, a Mensagem do Santo Padre: \u201cDeus \u00e9 fonte inesgot\u00e1vel da esperan\u00e7a que d\u00e1 sentido \u00e0 vida pessoal e colectiva. Deus, e s\u00f3 Ele, torna eficaz qualquer obra de bem e de paz. A hist\u00f3ria demonstrou amplamente que, fazer guerra a Deus para extirp\u00e1-Lo do cora\u00e7\u00e3o dos homens, leva a humanidade, assustada e empobrecida, para decis\u00f5es que n\u00e3o t\u00eam futuro. Isto deve impelir os crentes em Cristo a fazerem-se testemunhas convictas de um Deus que \u00e9 inseparavelmente verdade e amor, colocando-se ao servi\u00e7o da paz numa ampla colabora\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica e com as outras religi\u00f5es e ainda com todos os homens de boa vontade\u201d (Ibidem, n\u00ba 11). A evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um contributo importante dos crist\u00e3os para a edifica\u00e7\u00e3o da paz.  3. Merece uma refer\u00eancia particular a ci\u00eancia como busca da verdade, pois a ci\u00eancia e a perspectiva que ela gera, chamada \u201cmentalidade cient\u00edfica\u201d, s\u00e3o componentes importantes de uma cultura para a paz. A ci\u00eancia busca a verdade profunda da cria\u00e7\u00e3o, das suas potencialidades e dinamismos. Est\u00e1 a\u00ed o fundamento da dignidade da ci\u00eancia, o ser uma busca da verdade, para bem do homem e de toda a fam\u00edlia humana. E \u00e9 por isso que entre a f\u00e9 e a ci\u00eancia, como caminhos diferentes de chegar \u00e0 verdade, n\u00e3o pode haver antagonismos intranspon\u00edveis ( Cf. Jo\u00e3o Paulo II, \u201cRedemptor Hominis\u201d). Isso exige que os valores \u00e9ticos, defensores da dignidade do homem, estejam presentes no pr\u00f3prio processo cient\u00edfico e, sobretudo, na sua aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica \u00e0 vida dos homens e das sociedades. \u00c9 nas decis\u00f5es pol\u00edticas, nas op\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas, nos modelos de desenvolvimento, que se chocam e se cruzam a verdade e a mentira. Nem todas as descobertas da ci\u00eancia, aplicadas sem o rigor \u00e9tico de defesa da dignidade da pessoa humana, s\u00e3o factores de paz. O momento presente da nossa sociedade portuguesa oferece-nos um exemplo preocupante: a prepara\u00e7\u00e3o de legisla\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s necess\u00e1ria, que regule as potencialidades que a ci\u00eancia oferece \u00e0 fecunda\u00e7\u00e3o assistida. A dignidade da procria\u00e7\u00e3o humana, ligada \u00e0 fam\u00edlia e ao amor, os direitos inalien\u00e1veis do nascituro, entre os quais sobressai o direito de ter uma fam\u00edlia, com um Pai e uma M\u00e3e, sobrep\u00f5e-se, do ponto de vista moral, ao entusiasmo de aplicar, ao sabor dos crit\u00e9rios individuais, todas as possibilidades que a ci\u00eancia abriu. Do mesmo modo que a dignidade do embri\u00e3o humano, cujos excedentes devem e podem ser evitados pelo pr\u00f3prio processo t\u00e9cnico-cient\u00edfico, n\u00e3o permite que seja alvo, enquanto vivo, de qualquer investiga\u00e7\u00e3o, por mais promissora que seja.  Que Maria, M\u00e3e de Jesus, infunda em todas as mulheres que procuram ser m\u00e3es, a humildade do mist\u00e9rio e os limites da pr\u00f3pria verdade.  Bas\u00edlica dos M\u00e1rtires, Lisboa, 1 de Janeiro de 2006 <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal-Patriarca no Dia Mundial da Paz<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,165,206,237],"class_list":["post-15686","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-dia-mundial-da-paz","tag-familia","tag-joao-paulo-ii"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15686","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15686"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15686\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15686"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15686"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15686"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}