{"id":156783,"date":"2019-12-12T12:52:28","date_gmt":"2019-12-12T12:52:28","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=156783"},"modified":"2019-12-16T12:53:19","modified_gmt":"2019-12-16T12:53:19","slug":"mensagem-do-papa-para-o-53-o-dia-mundial-da-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mensagem-do-papa-para-o-53-o-dia-mundial-da-paz\/","title":{"rendered":"Mensagem do Papa para o 53.\u00ba Dia Mundial da Paz"},"content":{"rendered":"<p><i>\u00abA Paz como caminho de esperan\u00e7a: di\u00e1logo, reconcilia\u00e7\u00e3o e convers\u00e3o ecol\u00f3gica\u00bb<\/i><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<h3><strong><em>1. A paz, caminho de esperan\u00e7a face aos obst\u00e1culos e \u00e0s prova\u00e7\u00f5es<\/em><\/strong><\/h3>\n<p>A paz \u00e9 um bem precioso, objeto da nossa esperan\u00e7a; por ela aspira toda a humanidade. P\u00f4r esperan\u00e7a na paz \u00e9 um comportamento humano que alberga uma tal tens\u00e3o existencial que o momento presente, \u00e0s vezes at\u00e9 fatigante, \u00abpode ser vivido e aceite, se levar a uma meta e se pudermos estar seguros dessa meta, se esta meta for t\u00e3o grande que justifique a fadiga do caminho\u00bb<sup>1<\/sup>. Assim, a esperan\u00e7a \u00e9 a virtude que nos coloca a caminho, que nos d\u00e1 asas para continuar, mesmo quando os obst\u00e1culos parecem intranspon\u00edveis.<\/p>\n<p>A nossa comunidade humana traz, na mem\u00f3ria e na carne, os sinais das guerras e dos conflitos que t\u00eam vindo a suceder-se, com crescente capacidade destruidora, afetando especialmente os mais pobres e os mais fr\u00e1geis. H\u00e1 na\u00e7\u00f5es inteiras que lutam para se libertarem das cadeias de explora\u00e7\u00e3o e corrup\u00e7\u00e3o que alimentam \u00f3dios e viol\u00eancias. A muitos homens e mulheres, crian\u00e7as e idosos, ainda hoje se nega a dignidade, a integridade f\u00edsica, a liberdade \u2013 incluindo a liberdade religiosa \u2013, a solidariedade comunit\u00e1ria, a esperan\u00e7a no futuro. In\u00fameras v\u00edtimas inocentes carregam sobre si o tormento da humilha\u00e7\u00e3o e da exclus\u00e3o, do luto e da injusti\u00e7a, se n\u00e3o mesmo os traumas resultantes da opress\u00e3o sistem\u00e1tica contra o seu povo e os seus entes queridos.<\/p>\n<p>As terr\u00edveis prova\u00e7\u00f5es dos conflitos civis e dos conflitos internacionais, agravadas muitas vezes por viol\u00eancias sem piedade, marcam prolongadamente o corpo e a alma da humanidade. Na realidade, toda a guerra se revela um fratric\u00eddio que destr\u00f3i o pr\u00f3prio projeto de fraternidade, inscrito na voca\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia humana.<\/p>\n<p>Sabemos que, muitas vezes, a guerra come\u00e7a pelo facto de n\u00e3o se suportar a diversidade do outro, o que fomenta o desejo de posse e a vontade de dom\u00ednio. Nasce, no cora\u00e7\u00e3o do homem, a partir do ego\u00edsmo e do orgulho, do \u00f3dio que leva a destruir, a dar uma imagem negativa do outro, a exclu\u00ed-lo. A guerra alimenta-se com a pervers\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es, com as ambi\u00e7\u00f5es hegem\u00f3nicas, com os abusos de poder, com o medo do outro e a diferen\u00e7a vista como obst\u00e1culo; e simultaneamente alimenta tudo isso.<\/p>\n<p>Como fiz notar durante a <a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/travels\/2019\/outside\/documents\/papa-francesco-thailandia-giappone-2019.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">recente viagem ao Jap\u00e3o<\/a>, \u00e9 paradoxal que \u00abo nosso mundo viva a dicotomia perversa de querer defender e garantir a estabilidade e a paz com base numa falsa seguran\u00e7a sustentada por uma mentalidade de medo e desconfian\u00e7a, que acaba por envenenar as rela\u00e7\u00f5es entre os povos e impedir a possibilidade de qualquer di\u00e1logo. A paz e a estabilidade internacional s\u00e3o incompat\u00edveis com qualquer tentativa de as construir sobre o medo de m\u00fatua destrui\u00e7\u00e3o ou sobre uma amea\u00e7a de aniquila\u00e7\u00e3o total. Elas s\u00f3 s\u00e3o poss\u00edveis a partir duma \u00e9tica global de solidariedade e de coopera\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o de um futuro modelado pela interdepend\u00eancia e pela corresponsabilidade em toda a fam\u00edlia humana, de hoje e de amanh\u00e3\u00bb<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<p>Todas as situa\u00e7\u00f5es de amea\u00e7a alimentam a desconfian\u00e7a e o fechamento. Desconfian\u00e7a e medo aumentam a fragilidade das rela\u00e7\u00f5es e o risco de viol\u00eancia, num c\u00edrculo vicioso que nunca poder\u00e1 levar a uma rela\u00e7\u00e3o de paz. Neste sentido, a pr\u00f3pria dissuas\u00e3o nuclear s\u00f3 pode criar uma seguran\u00e7a ilus\u00f3ria.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o podemos pretender manter a estabilidade no mundo atrav\u00e9s do medo da aniquila\u00e7\u00e3o, num equil\u00edbrio muito inst\u00e1vel, pendente sobre o abismo nuclear e fechado dentro dos muros da indiferen\u00e7a, onde se tomam decis\u00f5es s\u00f3cio-econ\u00f3micas que abrem caminho para os dramas do descarte do homem e da cria\u00e7\u00e3o, em vez de nos protegermos uns aos outros<sup>3<\/sup>. Ent\u00e3o como construir um caminho de paz e m\u00fatuo reconhecimento? Como romper a l\u00f3gica doentia da amea\u00e7a e do medo? Como quebrar a din\u00e2mica de desconfian\u00e7a atualmente prevalecente?<\/p>\n<p>Devemos procurar uma fraternidade real, baseada na origem comum de Deus e vivida no di\u00e1logo e na confian\u00e7a m\u00fatua. O desejo de paz est\u00e1 profundamente inscrito no cora\u00e7\u00e3o do homem e n\u00e3o devemos nos resignar com nada de menos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong><em>2. A paz, caminho de escuta baseado na mem\u00f3ria, solidariedade e fraternidade<\/em><\/strong><\/h3>\n<p>Os sobreviventes aos bombardeamentos at\u00f3micos de Hiroxima e Nagas\u00e1qui \u2013 denominados os <em>hibakusha<\/em> \u2013 contam-se entre aqueles que, hoje, mant\u00eam viva a chama da consci\u00eancia coletiva, testemunhando \u00e0s sucessivas gera\u00e7\u00f5es o horror daquilo que aconteceu em agosto de 1945 e os sofrimentos indescrit\u00edveis que se seguiram at\u00e9 aos dias de hoje. Assim, o seu testemunho aviva e preserva a mem\u00f3ria das v\u00edtimas, para que a consci\u00eancia humana se torne cada vez mais forte contra toda a vontade de dom\u00ednio e destrui\u00e7\u00e3o. \u00abN\u00e3o podemos permitir que as atuais e as novas gera\u00e7\u00f5es percam a mem\u00f3ria do que aconteceu, aquela mem\u00f3ria que \u00e9 garantia e est\u00edmulo para construir um futuro mais justo e fraterno\u00bb<sup>4<\/sup>.<\/p>\n<p>Como eles, h\u00e1 muitos, em todas as partes do mundo, que oferecem \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras o servi\u00e7o imprescind\u00edvel da mem\u00f3ria, que deve ser preservada, n\u00e3o apenas para evitar que voltem a cometer-se os mesmos erros ou se reproponham os esquemas ilus\u00f3rios do passado, mas tamb\u00e9m para que a mem\u00f3ria, fruto da experi\u00eancia, constitua a raiz e indique o caminho para as op\u00e7\u00f5es de paz presentes e futuras.<\/p>\n<p>Mais ainda, a mem\u00f3ria \u00e9 o horizonte da esperan\u00e7a: muitas vezes, na escurid\u00e3o das guerras e dos conflitos, a lembran\u00e7a, mesmo de um pequeno gesto de solidariedade recebida, pode inspirar op\u00e7\u00f5es corajosas e at\u00e9 heroicas, pode p\u00f4r em movimento novas energias e reacender nova esperan\u00e7a nos indiv\u00edduos e nas comunidades.<\/p>\n<p>Abrir e tra\u00e7ar um caminho de paz \u00e9 um desafio muito complexo, pois os interesses em jogo, nas rela\u00e7\u00f5es entre pessoas, comunidades e na\u00e7\u00f5es, s\u00e3o m\u00faltiplos e contradit\u00f3rios. \u00c9 preciso, antes de mais, fazer apelo \u00e0 consci\u00eancia moral e \u00e0 vontade pessoal e pol\u00edtica. Com efeito, a paz prov\u00e9m do mais fundo do cora\u00e7\u00e3o humano, e a vontade pol\u00edtica deve ser incessantemente revigorada para abrir novos processos que reconciliem e unam pessoas e comunidades.<\/p>\n<p>O mundo n\u00e3o precisa de palavras vazias, mas de testemunhas convictas, de artes\u00e3os da paz abertos ao di\u00e1logo sem exclus\u00f5es nem manipula\u00e7\u00f5es. De facto, s\u00f3 pode chegar-se verdadeiramente \u00e0 paz quando houver um convicto di\u00e1logo de homens e mulheres que busquem a verdade para l\u00e1 das ideologias e das diferentes opini\u00f5es. A paz \u00e9 \u00abum edif\u00edcio a construir continuamente\u00bb<sup>5<\/sup>, um caminho que percorremos juntos, procurando sempre o bem comum e comprometendo-nos a manter a palavra dada e a respeitar o direito. Com a escuta m\u00fatua podem crescer tamb\u00e9m o conhecimento e a estima do outro, at\u00e9 ao ponto de reconhecer no inimigo o rosto de um irm\u00e3o.<\/p>\n<p>Por conseguinte, o processo de paz \u00e9 um empenho que se prolonga no tempo. \u00c9 um trabalho paciente de busca da verdade e da justi\u00e7a, que honra a mem\u00f3ria das v\u00edtimas e abre, passo a passo, para uma esperan\u00e7a comum, mais forte que a vingan\u00e7a. Num Estado de direito, a democracia pode ser um paradigma significativo deste processo, se estiver baseada na justi\u00e7a e no compromisso de tutelar os direitos de cada um, especialmente se vulner\u00e1vel ou marginalizado, na busca cont\u00ednua da verdade<sup>6<\/sup>. Trata-se duma constru\u00e7\u00e3o social em elabora\u00e7\u00e3o permanente, para a qual cada um presta responsavelmente a pr\u00f3pria contribui\u00e7\u00e3o a todos os n\u00edveis da comunidade local, nacional e mundial.<\/p>\n<p>Como sublinhava o Papa S\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/paul-vi\/pt.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Paulo VI<\/a>, \u00aba dupla aspira\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e0 igualdade e \u00e0 participa\u00e7\u00e3o \u2013 procura promover um tipo de sociedade democr\u00e1tica. [&#8230;] Isto, de per si, j\u00e1 diz bem qual a import\u00e2ncia de uma educa\u00e7\u00e3o para a vida em sociedade, em que, para al\u00e9m da informa\u00e7\u00e3o sobre os direitos de cada um, seja recordado tamb\u00e9m o seu necess\u00e1rio correlativo: o reconhecimento dos deveres de cada um em rela\u00e7\u00e3o aos outros. O sentido e a pr\u00e1tica do dever s\u00e3o, por sua vez, condicionados pelo dom\u00ednio de si mesmo, pela aceita\u00e7\u00e3o das responsabilidades e das limita\u00e7\u00f5es impostas ao exerc\u00edcio da liberdade do indiv\u00edduo ou do grupo\u00bb<sup>7<\/sup>.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, a fractura entre os membros duma sociedade, o aumento das desigualdades sociais e a recusa de empregar os meios para um desenvolvimento humano integral colocam em perigo a prossecu\u00e7\u00e3o do bem comum. Mas o trabalho paciente, baseado na for\u00e7a da palavra e da verdade, pode despertar nas pessoas a capacidade de compaix\u00e3o e solidariedade criativa.<\/p>\n<p>Na nossa experi\u00eancia crist\u00e3, fazemos constantemente mem\u00f3ria de Cristo, que deu a sua vida pela nossa reconcilia\u00e7\u00e3o (cf. <em>Rm<\/em> 5,6-11). A Igreja participa plenamente na busca de uma ordem justa, continuando a servir o bem comum e a alimentar a esperan\u00e7a de paz, atrav\u00e9s da transmiss\u00e3o dos valores crist\u00e3os, do ensino moral e das obras sociais e de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong><em>3. A paz, caminho de reconcilia\u00e7\u00e3o na comunh\u00e3o fraterna<\/em><\/strong><\/h3>\n<p>A B\u00edblia, particularmente atrav\u00e9s da palavra dos profetas, atrai as consci\u00eancias e os povos \u00e0 alian\u00e7a de Deus com a humanidade. Trata-se de abandonar o desejo de dominar os outros e de aprender a olharmo-nos mutuamente como pessoas, como filhos de Deus, como irm\u00e3os. O outro nunca h\u00e1 de ser circunscrito \u00e0quilo que p\u00f4de ter dito ou feito, mas deve ser considerado pela promessa que traz em si mesmo. S\u00f3 escolhendo a senda do respeito \u00e9 que ser\u00e1 poss\u00edvel quebrar a espiral da vingan\u00e7a e empreender o caminho da esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Guia-nos o passo do Evangelho que reproduz o seguinte di\u00e1logo entre Pedro e Jesus: \u00ab\u201cSenhor, se o meu irm\u00e3o me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? At\u00e9 sete vezes?\u201d Jesus respondeu: \u201cN\u00e3o te digo at\u00e9 sete vezes, mas at\u00e9 setenta vezes sete\u201d\u00bb (<em>Mt<\/em> 18,21-22). Este caminho de reconcilia\u00e7\u00e3o convida-nos a encontrar no mais fundo do nosso cora\u00e7\u00e3o a for\u00e7a do perd\u00e3o e a capacidade de nos reconhecermos como irm\u00e3os e irm\u00e3s. Aprender a viver no perd\u00e3o aumenta a nossa capacidade de nos tornarmos mulheres e homens de paz.<\/p>\n<p>O que \u00e9 verdade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 paz na esfera social \u00e9 verdadeiro tamb\u00e9m no campo pol\u00edtico e econ\u00f3mico, pois a quest\u00e3o da paz permeia todas as dimens\u00f5es da vida comunit\u00e1ria: nunca haver\u00e1 paz verdadeira, se n\u00e3o formos capazes de construir um sistema econ\u00f3mico mais justo. Como escreveu <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/benedict-xvi\/pt.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bento XVI<\/a>, h\u00e1 dez anos, na Carta Enc\u00edclica <em>Caritas in veritate<\/em>: \u00abA vit\u00f3ria sobre o subdesenvolvimento exige que se atue n\u00e3o s\u00f3 na melhoria das transa\u00e7\u00f5es fundadas no interc\u00e2mbio, nem apenas nas transfer\u00eancias das estruturas assistenciais de natureza p\u00fablica, mas sobretudo sobre a progressiva abertura, em contexto mundial, para formas de atividade econ\u00f3mica caraterizadas por quotas de gratuidade e de comunh\u00e3o\u00bb (n.39).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong><em>4. A paz, caminho de convers\u00e3o ecol\u00f3gica<\/em><\/strong><\/h3>\n<p>\u00abSe \u00e0s vezes uma m\u00e1 compreens\u00e3o dos nossos princ\u00edpios nos levou a justificar o abuso da natureza, ou o dom\u00ednio desp\u00f3tico do ser humano sobre a cria\u00e7\u00e3o, ou as guerras, a injusti\u00e7a e a viol\u00eancia, n\u00f3s, crentes, podemos reconhecer que ent\u00e3o fomos infi\u00e9is ao tesouro de sabedoria que dev\u00edamos guardar\u00bb<sup>8<\/sup>.<\/p>\n<p>Vendo as consequ\u00eancias da nossa hostilidade contra os outros, da falta de respeito pela casa comum e da explora\u00e7\u00e3o abusiva dos recursos naturais \u2013 considerados como instrumentos \u00fateis apenas para o lucro de hoje, sem respeito pelas comunidades locais, pelo bem comum e pela natureza \u2013, precisamos de uma convers\u00e3o ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O S\u00ednodo recente sobre a Amaz\u00f3nia impele-nos a dirigir, de forma renovada, o apelo em prol duma rela\u00e7\u00e3o pac\u00edfica entre as comunidades e a terra, entre o presente e a mem\u00f3ria, entre as experi\u00eancias e as esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Este caminho de reconcilia\u00e7\u00e3o inclui tamb\u00e9m escuta e contempla\u00e7\u00e3o do mundo que nos foi dado por Deus, para fazermos dele a nossa casa comum. De facto, os recursos naturais, as numerosas formas de vida e a pr\u00f3pria Terra foram-nos confiados para ser \u00abcultivados e guardados\u00bb (cf. <em>Gn<\/em> 2,15) tamb\u00e9m para as gera\u00e7\u00f5es futuras, com a participa\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel e diligente de cada um. Al\u00e9m disso, temos necessidade de uma mudan\u00e7a nas convic\u00e7\u00f5es e na perspetiva, que nos abra mais ao encontro com o outro e \u00e0 recep\u00e7\u00e3o do dom da cria\u00e7\u00e3o, que reflete a beleza e a sabedoria do seu Art\u00edfice.<\/p>\n<p>De modo particular brotam daqui motiva\u00e7\u00f5es profundas e um novo modo de habitar a casa comum, de convivermos uns e outros com as nossas diversidades, de celebrarmos e respeitarmos a vida recebida e partilhada, de nos preocuparmos com condi\u00e7\u00f5es e modelos de sociedade que favore\u00e7am o desabrochar e a perman\u00eancia da vida no futuro, de desenvolvermos o bem comum de toda a fam\u00edlia humana.<\/p>\n<p>Por conseguinte, a convers\u00e3o ecol\u00f3gica a que apelamos leva-nos a uma nova perspetiva sobre a vida, considerando a generosidade do Criador que nos deu a Terra e nos chama \u00e0 jubilosa sobriedade da partilha. Esta convers\u00e3o deve ser entendida de maneira integral, como uma transforma\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es que mantemos com as nossas irm\u00e3s e irm\u00e3os, com os outros seres vivos, com a cria\u00e7\u00e3o na sua riqu\u00edssima variedade, com o Criador que \u00e9 origem de toda a vida. Para o crist\u00e3o, uma tal convers\u00e3o exige \u00abdeixar emergir, nas rela\u00e7\u00f5es com o mundo que o rodeia, todas as consequ\u00eancias do encontro com Jesus\u00bb<sup>9<\/sup>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong><em>5. Alcan\u00e7a-se tanto quanto se espera<\/em><\/strong> <sup>10<\/sup><\/h3>\n<p>O caminho da reconcilia\u00e7\u00e3o requer paci\u00eancia e confian\u00e7a. N\u00e3o se obt\u00e9m a paz se n\u00e3o a esperamos.<\/p>\n<p>Trata-se, antes de mais, de acreditar na possibilidade da paz, de crer que o outro tem a mesma necessidade de paz que n\u00f3s. Nisto, pode inspirar-nos o amor de Deus por cada um de n\u00f3s, amor libertador, ilimitado, gratuito, incans\u00e1vel.<\/p>\n<p>O medo \u00e9, frequentemente, fonte de conflito. Por isso, \u00e9 importante ir al\u00e9m dos nossos temores humanos, reconhecendo-nos filhos necessitados diante d\u2019Aquele que nos ama e espera por n\u00f3s, como o Pai do filho pr\u00f3digo (cf. <em>Lc<\/em> 15,11-24). A cultura do encontro entre irm\u00e3os e irm\u00e3s quebra a cultura da amea\u00e7a. Torna cada encontro uma possibilidade e um dom do amor generoso de Deus. Faz-nos de guia para ultrapassarmos os limites dos nossos horizontes estreitos, procurando sempre viver a fraternidade universal, como filhos do \u00fanico Pai celeste.<\/p>\n<p>Para os disc\u00edpulos de Cristo, este caminho \u00e9 apoiado tamb\u00e9m pelo sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o, concedido pelo Senhor para a remiss\u00e3o dos pecados dos batizados. Este sacramento da Igreja, que renova as pessoas e as comunidades, convida a manter o olhar fixo em Jesus, que reconciliou \u00abtodas as coisas, pacificando pelo sangue da sua cruz, tanto as que est\u00e3o na terra como as que est\u00e3o no c\u00e9u\u00bb (<em>Col<\/em> 1,20); e pede que ponhamos de parte toda a viol\u00eancia nos pensamentos, nas palavras e nas obras, quer para com o pr\u00f3ximo, quer para com a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A gra\u00e7a de Deus Pai oferece-se como amor sem condi\u00e7\u00f5es. Recebido o seu perd\u00e3o, em Cristo, podemos p\u00f4r-nos a caminho para ir oferec\u00ea-lo aos homens e mulheres do nosso tempo. Dia ap\u00f3s dia, o Esp\u00edrito Santo sugere-nos atitudes e palavras para nos tornarmos artes\u00e3os de justi\u00e7a e de paz.<\/p>\n<p>Que o Deus da paz nos aben\u00e7oe e venha em nossa ajuda.<\/p>\n<p>Que Maria, M\u00e3e do Pr\u00edncipe da paz e M\u00e3e de todos os povos da terra, nos acompanhe e apoie, passo a passo, no caminho da reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E que toda a pessoa que vem a este mundo possa conhecer uma exist\u00eancia de paz e desenvolver plenamente a promessa de amor e vida que traz em si.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Vaticano, 8 de dezembro de 2019<\/em><\/p>\n<p><strong>Francisco<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>_______________<\/p>\n<p><sup>1<\/sup> Bento XVI, Carta enc. <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/benedict-xvi\/pt\/encyclicals\/documents\/hf_ben-xvi_enc_20071130_spe-salvi.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Spe salvi<\/em><\/a>, 30 de novembro de 2007, 1.<br \/>\n<sup>2<\/sup> <a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2019\/november\/documents\/papa-francesco_20191124_messaggio-arminucleari-nagasaki.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Discurso sobre as armas nucleares<\/em><\/a>, Nagas\u00e1qui \u2013 Parque \u00abAtomic Bomb Hypocenter<em>\u00bb<\/em>, 24 de novembro de 2019.<br \/>\n<sup>3<\/sup> Cf. Francisco, <a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/homilies\/2013\/documents\/papa-francesco_20130708_omelia-lampedusa.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Homilia em Lampedusa<\/em><\/a>, 8 de julho de 2013.<br \/>\n<sup>4<\/sup> Francisco, <a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2019\/november\/documents\/papa-francesco_20191124_messaggio-incontropace-hiroshima.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Discurso sobre a Paz<\/em><\/a>, Hiroxima \u2013 Memorial da Paz, 24 de novembro de 2019.<br \/>\n<sup>5<\/sup> Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/archive\/hist_councils\/ii_vatican_council\/documents\/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Gaudium et spes<\/em><\/a>, 78.<br \/>\n<sup>6<\/sup> Cf. Bento XVI, <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/content\/benedict-xvi\/pt\/speeches\/2006\/january\/documents\/hf_ben-xvi_spe_20060127_acli.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Discurso aos dirigentes e membros das Associa\u00e7\u00f5es Crist\u00e3s dos Trabalhadores Italianos (ACLI)<\/em><\/a>, 27 de janeiro de 2006.<br \/>\n<sup>7<\/sup> Carta\u00a0ap. <em>Octogesima adveniens<\/em>, 14 de maio de 1971, 24.<br \/>\n<sup>8<\/sup> Francisco, Carta\u00a0enc. <a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/encyclicals\/documents\/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Laudato si?\u2019<\/em><\/a>, 24 de maio de 2015, <a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/encyclicals\/documents\/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html#200\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">200<\/a>.<br \/>\n<sup>9<\/sup> <a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/encyclicals\/documents\/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html#217\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><em>Ibid<\/em><\/a><em>.<\/em>, 217.<br \/>\n<sup>10<\/sup>Cf. S. Jo\u00e3o da Cruz, <em>Noite Escura<\/em>, II, 21, 8.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abA Paz como caminho de esperan\u00e7a: di\u00e1logo, reconcilia\u00e7\u00e3o e convers\u00e3o ecol\u00f3gica\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":156295,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[165],"class_list":["post-156783","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-dia-mundial-da-paz"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/156783","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=156783"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/156783\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/156295"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=156783"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=156783"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=156783"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}