{"id":156717,"date":"2019-12-12T09:38:21","date_gmt":"2019-12-12T09:38:21","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=156717"},"modified":"2019-12-12T11:01:46","modified_gmt":"2019-12-12T11:01:46","slug":"pai-americo-um-revolucionario-pacifico-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/pai-americo-um-revolucionario-pacifico-2\/","title":{"rendered":"Pai Am\u00e9rico: um revolucion\u00e1rio pac\u00edfico"},"content":{"rendered":"<p><em>Lu\u00eds Filipe Santos, Ag\u00eancia ECCLESIA<\/em><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/pai_americo_ps-1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-156715 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/pai_americo_ps-1-176x260.jpg\" alt=\"\" width=\"176\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/pai_americo_ps-1-176x260.jpg 176w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/pai_americo_ps-1.jpg 304w\" sizes=\"(max-width: 176px) 100vw, 176px\" \/><\/a>\u201c\u00c9 pelas obras da Caridade que os homens conhecem e se apercebem da exist\u00eancia de Deus. Caridade que n\u00e3o seja uma palavra v\u00e3, nem seja uma caricatura, muito menos uma pintura. Muito menos, ainda, a maneira como o mundo mentiroso costuma aplic\u00e1-la e apresent\u00e1-la\u201d \u2013 estas palavras foram proferidas em Lisboa (Tivoli) pelo Pe. Am\u00e9rico Monteiro de Aguiar, em junho de 1956, um m\u00eas antes da sua morte. 50 anos depois da sua \u00abpartida\u00bb (16 de julho de 1956) a sua mem\u00f3ria continua bem viva e os seus seguidores ainda recordam o amor que o Pai Am\u00e9rico tinha para com os mais desfavorecidos. Numa c\u00e9lebre peregrina\u00e7\u00e3o de 13 de maio, no Santu\u00e1rio de F\u00e1tima, disse aos milhares de peregrinos que ali acorreram que \u201ceu n\u00e3o sei viver mais nada, eu n\u00e3o sei dizer mais nada, eu n\u00e3o sei sentir mais nada, sen\u00e3o somente o pobre e este crucificado\u2026\u201d- (In: Ramos, Jos\u00e9 da Rocha; \u00abPadre Am\u00e9rico \u2013 M\u00edstico do nosso tempo\u00bb)<\/p>\n<p>Am\u00e9rico Monteiro de Aguiar nasceu em Galegos, concelho de Penafiel, a 23 de outubro de 1887. Ramiro Monteiro de Aguiar e Teresa Rodrigues Ferreira deram \u00e0 luz aquele menino que deveria chamar-se Adriano. S\u00f3 que, no dia do Baptismo, o seu padrinho \u201cexigiu que se chamasse Am\u00e9rico, em mem\u00f3ria do cardeal D. Am\u00e9rico, ao tempo prelado portucalense\u201d \u2013 (In: Ramos, Jos\u00e9 da Rocha). Segundo alguns bi\u00f3grafos, Am\u00e9rico quis bem cedo ingressar no Semin\u00e1rio do Porto, mas sofreu resist\u00eancias do seu Pai. Com doze anos entra para o Col\u00e9gio do Carmo, em Penafiel, onde a disciplina era austera. No ano seguinte muda-se para o Col\u00e9gio de Santa Quit\u00e9ria, em Felgueiras, mas a vontade de ir para o Semin\u00e1rio da cidade do Douro mant\u00eam-se mas o progenitor continua inabal\u00e1vel nas suas decis\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>De vendedor de ferros at\u00e9 \u00c1frica<\/strong><\/p>\n<p>Em 1902, o pequeno Am\u00e9rico vai \u00abvender ferros\u00bb &#8211; segundo a pitoresca linguagem da m\u00e3e \u2013 para uma casa da Rua Mouzinho de Albuquerque, da cidade invicta. Quatro anos mais tarde (novembro de 1906) parte para Mo\u00e7ambique onde tem o seu irm\u00e3o Jaime. Naquele pa\u00eds africano trabalhou intensamente e conhece um sacerdote franciscano, o Pe. Rafael Assun\u00e7\u00e3o, de quem se torna amigo e com o qual travar\u00e1, anos mais tarde, \u201clongos col\u00f3quios em Louren\u00e7o Marques, n\u00e3o j\u00e1 como padre, mas como bispo\u201d &#8211; (In: Ramos, Jos\u00e9 da Rocha). Este franciscano esteve nas miss\u00f5es daquela Ordem desde maio de 1898 mas em 1920 foi nomeado bispo titular de Augusta e prelado de Mo\u00e7ambique. Anos mais tarde (24 de novembro de 1956), D. Rafael escreveu no \u00abGaiato\u00bb que o \u201cgabinete das nossas conversas depois do jantar era a varanda da minha resid\u00eancia. Foi na intimidade destes col\u00f3quios que penetrei na alma do Am\u00e9rico e nos seus anseios\u201d.<\/p>\n<p>Dos verdes anos passados em terras de \u00c1frica \u201cmuito pouco sabemos porque o \u00abAfricanista\u00bb era dotado de um car\u00e1cter extremamente reservado, especialmente, no tocante ao seu passado\u201d (In: Ramos, Jos\u00e9 da Rocha). Em 1923, regressou insatisfeito a Portugal e chegou a pensar instalar-se no Funchal (Ilha da Madeira). Posteriormente, por motivos de neg\u00f3cios, parte para Londres (Inglaterra). A ideia do Semin\u00e1rio nunca lhe saiu da cabe\u00e7a e, passado algum tempo, toma a resolu\u00e7\u00e3o de se fazer frade mendicante e ingressou no convento franciscano de Vilari\u00f1o de la Ramallosa, Tuy, Espanha. A amizade consolidada com D. Rafael Assun\u00e7\u00e3o influenciou \u201cbastante o jovem Am\u00e9rico na caminhada espiritual\u201d (In: Ramos, Jos\u00e9 da Rocha). Esteve no noviciado dos franciscanos de outubro de 1923 ao ver\u00e3o de 1925. Algum tempo ap\u00f3s a tomada do h\u00e1bito dos seguidores de S. Francisco \u00e9 aconselhado a abandonar a Ordem. Regressa \u00e0 sua terra natal e, juntamente com o seu irm\u00e3o, Pe. Jos\u00e9, apresenta-se ao bispo do Porto, D. Ant\u00f3nio Barbosa Le\u00e3o, para requerer o ingresso no Semin\u00e1rio daquela cidade. O pastor da diocese respondeu negativamente. \u201c\u00c9 veleidade. N\u00e3o admito. Tenho tido desgostos e desenganos em casos semelhantes\u2026\u201d &#8211; (Rollo, Nunes; \u00abPadre Am\u00e9rico \u2013 o altru\u00edsta\u00bb).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Coimbra recebeu o pai dos pobres<\/strong><\/p>\n<p>Depois daquela desilus\u00e3o, dirige-se ao bispo de Coimbra, D. Manuel Lu\u00eds Coelho da Silva, que era natural da diocese do Porto (concelho de Penafiel). Am\u00e9rico Aguiar conheceu D. Manuel nos tempos em que trabalhava na \u00abvenda de ferros\u00bb naquela cidade e este era vig\u00e1rio geral da diocese. Foi o prelado de Coimbra que ordenou (28 de julho de 1929) este \u00absonhador\u00bb que uns anos mais tarde, aquando da morte de D. Manuel da Silva (1 de mar\u00e7o de 1936), escreveu no 1\u00ba volume \u00abP\u00e3o dos Pobres\u00bb: \u201cdeu-me as Ordens Sacras, fez-me sacerdote: o maior de todos os t\u00edtulos, para a maior de todas as gratid\u00f5es. Homem de uma s\u00f3 palavra (\u00abeu n\u00e3o sou franc\u00eas\u00bb), viveu, sofreu e morreu pela justi\u00e7a e pela verdade\u201d. A sua voca\u00e7\u00e3o sacerdotal desponta ainda na inf\u00e2ncia, mas, em virtude de v\u00e1rias circunst\u00e2ncias externas, n\u00e3o conseguir\u00e1 realizar o sonho sen\u00e3o depois dos 36 anos. Aos 38 anos de idade o filho de Ramiro e Teresa entra no Semin\u00e1rio de Coimbra onde, \u201ccom bastante dificuldade, far\u00e1 os estudos teol\u00f3gicos\u201d &#8211; (In: Ramos, Jos\u00e9 da Rocha).<\/p>\n<p>Naquele Semin\u00e1rio revela-se um talentoso jornalista e um perspicaz escritor. Mons. Nunes Pereira (falecido h\u00e1 cinco anos), ao evocar esses tempos, recordou numa confer\u00eancia proferida na Universidade de Coimbra, aquando das comemora\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio do seu nascimento, que no Semin\u00e1rio havia um jornal manuscrito chamado \u00abFolha de Oxford\u00bb. \u201cO senhor Am\u00e9rico come\u00e7ou a redigir uns artigos que nos deixaram admirados. A \u00abFolha de Oxford\u00bb deu lugar ao \u00abLume Novo\u00bb &#8211; em forma de revista \u2013 passou a ser lido no refeit\u00f3rio por sugest\u00e3o do Am\u00e9rico. Assinava os artigos como Frei Jun\u00edpero, talvez como recorda\u00e7\u00e3o do convento onde esteve antes de vir para Coimbra\u201d. Nas colunas do \u00abCorreio de Coimbra\u00bb a sua pena formativa d\u00e1 sabor \u00e0s palavras e mais tarde, no \u00abGaiato\u00bb, revela-se um talentoso escritor. Acusaram-no de iletrado mas ele respondeu graciosamente: \u201cperde a gente as regras da concord\u00e2ncia e escreve com liberdade de poeta. Dizem que o relator da \u00abSopa\u00bb d\u00e1 pontap\u00e9s na sintaxe. Que importa, se o faz com o cora\u00e7\u00e3o! Quem sabe, talvez seja precisamente por n\u00e3o ter arte que esta \u00abSopa\u00bb tem artes de tocar os cora\u00e7\u00f5es e quem na l\u00ea\u201d &#8211; (In: Aguiar, Am\u00e9rico Monteiro; \u00abP\u00e3o dos Pobres\u00bb, Volume I).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fica incomodado com a legi\u00e3o de esfomeados<\/strong><\/p>\n<p>Quando recebeu a ordena\u00e7\u00e3o, o bispo de Coimbra pensou, inicialmente, coloc\u00e1-lo numa par\u00f3quia, mas ao observar o seu cansa\u00e7o pelo esfor\u00e7o feito nos estudos teol\u00f3gicos resolveu optar por o nomear prefeito do Semin\u00e1rio e professor de portugu\u00eas. A insatisfa\u00e7\u00e3o interior mexia com o \u00abjovem\u00bb padre e, a 19 de mar\u00e7o de 1932, D. Manuel Lu\u00eds Coelho entrega-lhe a \u00abSopa dos Pobres\u00bb. A\u00ed descobre a verdadeira voca\u00e7\u00e3o: Recoveiro dos pobres. J\u00e1 antes, nos tempos de Vilari\u00f1o de la Ramallosa e no Semin\u00e1rio de Coimbra, colocava a caridade num patamar superior. Quando foi ordenado subdi\u00e1cono mostrou o seu despojamento e fez um voto de pobreza, publicado pela primeira vez no jornal \u00abCorreio de Coimbra\u00bb, a 2 de agosto de 1956: \u201c\u2026 declaro solenemente, humildemente, que nada desejo possuir, nem saber nem pregar, sen\u00e3o a verdadeira riqueza que o mundo ignora e que se chama alt\u00edssima Pobreza do meu Senhor Jesus Cristo\u2026\u201d.<\/p>\n<p>Depois de assumir a \u00abSopa dos Pobres\u00bb vive pobre e austeramente e reparte com os mais desfavorecidos o pouco que possui. Ele pr\u00f3prio escreveu no III volume do \u00abP\u00e3o dos Pobres\u00bb: \u201cSenhor, que eu seja sempre um padre pobre para cantar aos ricos a P\u00e1tria Celeste e pedir esmola para os pobres\u201d. Na terceira d\u00e9cada do s\u00e9culo passado o mundo ainda estremecia quando recordava a I Guerra Mundial e a fome ainda se fazia sentir neste pa\u00eds de rostos desfigurados e lares destro\u00e7ados. Nesta altura, as grandes cidades (especialmente Lisboa, Porto e Coimbra) receberam legi\u00f5es de esfomeados, vagabundos e doentes. A grande crise de 1929 colocou na mis\u00e9ria milhares de fam\u00edlias e muitos deixaram os filhos ao abandono. Perante este lament\u00e1vel caos, o Pe. Am\u00e9rico com a sua sensibilidade para os problemas sociais \u201ccurva-se perante as m\u00e3ozitas inocentes das crian\u00e7as sem fam\u00edlia e sem abrigo\u201d (In: Ramos, Jos\u00e9 da Rocha). No III volume do \u00abP\u00e3o dos Pobres\u00bb relata o contacto inicial com os mais desfavorecidos: \u201ccomecei por uma toca no Largo da Trindade onde habitava uma mulher prostitu\u00edda, com quatro filhos de outros tantos pais; a qual mulher falecia pouco depois \u00e0 minha beira\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Nascimento da Casa do Gaiato<\/strong><\/p>\n<p>Esta cena ficou-lhe sempre na mem\u00f3ria e come\u00e7a a sonhar com uma casa para crian\u00e7as abandonadas e procura solu\u00e7\u00e3o para estas mulheres que, sem p\u00e3o para matar a fome aos filhos, se entregam ao primeiro homem que aparece na esquina. Com esfor\u00e7o pretende resolver a degradante situa\u00e7\u00e3o dos desempregados e \u201cchamar a aten\u00e7\u00e3o das autoridades para o inimigo n\u00famero 1 das legi\u00f5es de esfomeados: a tuberculose\u201d (In: Ramos, Jos\u00e9 da Rocha). Este labor em prol dos mais necessitados leva-o a visitar os pobres nas casas deles e a cidade do Mondego \u201chabitua-se a ver passar todos os dias aquele padre, envolto na sua capa negra, que ia procurar os pobres nos antros onde viviam\u2026\u201d (Cardoso, A. Brito; in: \u00abFiguras da Igreja na diocese de Coimbra\u00bb). Os famintos e andrajosos n\u00e3o lhe sa\u00edam da cabe\u00e7a tal como as crian\u00e7as abandonadas e \u00f3rf\u00e3os. Em maio de 1935, um mi\u00fado da rua solicita-lhe que visitasse o seu pai que estava na cama e todos os seus familiares passavam fome. \u201cConduzido pelo mesmo, entra no casebre de um tip\u00f3grafo da Universidade de Coimbra, a contas com uma grave doen\u00e7a, ao qual se uniram mais tr\u00eas da fam\u00edlia junto do catre de seu pai. Momento importante e motivo de s\u00e9ria reflex\u00e3o\u201d (Barbosa, M. Dur\u00e3es; In: \u00abPadre Am\u00e9rico \u2013 Educa\u00e7\u00e3o e sentido da responsabilidade\u00bb).<\/p>\n<p>Este encontro foi um f\u00f3sforo que se tornou rapidamente num grande inc\u00eandio. As labaredas imensas atearam o seu cora\u00e7\u00e3o e aqui \u201cnascer\u00e1 propriamente a Obra da Rua\u201d (In: Ramos, Jos\u00e9 da Rocha). Um dia que deixou marcas e o transformou \u2013 como ele pr\u00f3prio afirmar\u00e1 tantas vezes \u2013 \u201cnum revolucion\u00e1rio pac\u00edfico\u201d (Aguiar, Am\u00e9rico Monteiro; in: \u00abObra da Rua\u00bb). Ele v\u00ea o que at\u00e9 ent\u00e3o ningu\u00e9m vira. Trilha caminhos jamais percorridos pelos contempor\u00e2neos. O encontro com o tip\u00f3grafo tuberculoso tornou-o num guerreiro que travou batalhas contra a mis\u00e9ria, a burocracia reinante, os velhos sistemas pedag\u00f3gicos e o tradicional orfanato que, \u201cem vez de preparar homens para a vida, mais n\u00e3o \u00e9, na maior parte dos casos, do que um antro de v\u00edcio e de vagabundagem\u201d (In: Ramos, Jos\u00e9 da Rocha). O grito de guerra lan\u00e7ado pelo Pe. Am\u00e9rico apelava ao amor. No jornal \u00abO Gaiato\u00bb n\u00e3o se cansou de bradar aos quatro ventos: \u201cn\u00e3o tenhas medo da chuva. N\u00e3o vais endoidecer por me ouvires \u2013 como sucede nos campos de batalha \u00e0 mocidade transida de horror \u2013 n\u00e3o vais. Vais antes chorar de compaix\u00e3o, que a guerra que eu fa\u00e7o \u00e9 de amor\u201d (Aguiar, Am\u00e9rico Monteiro; in: \u00abP\u00e3o dos Pobres\u00bb, vol. IV).<\/p>\n<p>E eis que, em 1940, o Padre da Rua estrutura a Casa do Gaiato. Chegou a hora dos abandonados e a 7 de janeiro desse ano abre, em Miranda do Corvo, a primeira Casa da Obra da Rua. Tr\u00eas anos depois (24 de abril de 1943) inicia as obras da Aldeia dos Rapazes, em Pa\u00e7o de Sousa (Penafiel). No \u00faltimo dia do m\u00eas seguinte chegam os primeiros rapazes. Na cidade do Porto encontrou tamb\u00e9m o espect\u00e1culo deprimente das legi\u00f5es de vadiozitos que povoam as ruas do velho burgo. Ao visitar o Barredo \u2013 uma das zonas mais degradadas da cidade que acolhe o Douro \u2013 o Pe. Am\u00e9rico mostra toda a bondade que lhe vai na alma: \u201cAi Porto, Porto, qu\u00e3o tarde te conheci!\u201d (In: \u00abObra da Rua\u00bb). Um trabalho que tem as suas ra\u00edzes centradas na Eucaristia visto que \u00e9 no sacr\u00e1rio que ele acende a candeia que o guiar\u00e1 pelos caminhos de Portugal e o iluminar\u00e1 \u201cnos escuros e frios becos dos Barredos\u201d &#8211; (in. Ramos, Jos\u00e9 da Rocha). Tal como ele afirmou\u00a0 no III Volume do \u00abP\u00e3o dos Pobres\u00bb o sacerdote \u201cn\u00e3o se ordena para si. E se o faz, entra pela janela\u201d. O \u00eaxito das suas obras adv\u00e9m precisamente da sua consci\u00eancia de Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Calv\u00e1rio foi o \u00abcanto do cisne\u00bb<\/strong><\/p>\n<p>Depois de Miranda do Corvo (1940) e Pa\u00e7o de Sousa (1943) fundar\u00e1 ainda a Casa do Gaiato do Tojal (1948) e a 1 de julho de 1955 a Casa do Gaiato de Set\u00fabal (um ano antes da sua morte). Mas o \u00abedif\u00edcio\u00bb ainda n\u00e3o estava completo: faltavam os Lares e o Calv\u00e1rio. O primeiro destina-se a uma melhor acomoda\u00e7\u00e3o dos rapazes que trabalham ou estudam e o segundo servir\u00e1 para abrigar doentes incur\u00e1veis. A 3 de fevereiro de 1945 nasceu, no Porto, o primeiro lar da Obra da Rua e posteriormente d\u00e1 \u00e0 luz o Lar de S. Jo\u00e3o da Madeira. Na cidade de Coimbra, em janeiro de 1941, funda tamb\u00e9m o Lar do ex-pupilo dos reformat\u00f3rios que em 1950 passa para os Servi\u00e7os Jurisdicionais de Menores do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>O Calv\u00e1rio foi a derradeira Obra. \u201cO canto do cisne. Dizem que o cisne, ao adivinhar a morte, entoa as mais belas melodias da sua vida. N\u00e3o \u00e9, pois de admirar que o Calv\u00e1rio seja a mais bela melodia do Pe. Am\u00e9rico\u201d (In: Ramos, Jos\u00e9 da Rocha). O Calv\u00e1rio \u00e9 uma obra de f\u00e9 no valor da pessoa humana. Em termos de economia &#8211; e s\u00e3o esses os termos dos quais hoje mais se ouve falar &#8211; um doente assim \u00e9 uma areia na engrenagem. \u201cO Padre Am\u00e9rico estava convencido do contr\u00e1rio e a exist\u00eancia deste hospital de incur\u00e1veis imp\u00f5em-se como um sinal\u201d (Trindade, Manuel Almeida; in: \u00abFiguras not\u00e1veis da Igreja de Coimbra\u00bb).<\/p>\n<p>Esta breve resenha biogr\u00e1fica ficaria incompleta se n\u00e3o se fizesse tamb\u00e9m refer\u00eancia ao Patrim\u00f3nio dos Pobres, uma cria\u00e7\u00e3o do Fundador da Obra da Rua. Com o lema \u201ccada freguesia cuide dos seus pobres\u201d, o Pe. Am\u00e9rico conseguiu emergir pequenas casas de granito que serviram muitas fam\u00edlias desamparadas. \u201cLembrou-se o Padre Am\u00e9rico de entregar \u00e0s par\u00f3quias o problema de Patrim\u00f3nio dos Pobres. E as par\u00f3quias, em grande n\u00famero, reagiram bem e de imediato. Dentro de pouco tempo eram milhares, espalhadas, aqui e al\u00e9m, por todo o pa\u00eds. Ao milagre dos p\u00e3es sucedia o milagre, n\u00e3o menos evang\u00e9lico, da multiplica\u00e7\u00e3o das casas para os desabrigados\u201d (Neves, Moreira das; in: \u00abO Padre Am\u00e9rico\u00bb). Esta ac\u00e7\u00e3o pastoral soube ir ao encontro e anseios da sociedade daquele tempo. \u201cPodemos mesmo afirmar que, tamb\u00e9m aqui, foi um grande precursor do II Conc\u00edlio do Vaticano\u201d (In: Ramos, Jos\u00e9 da Rocha). Soube libertar-se de uma espiritualidade centrada no devocionismo e escutar os \u00absinais dos tempos\u00bb que mais tarde o Papa Jo\u00e3o XXIII tanto falar\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A sua voca\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica nasceu do amor<\/strong><\/p>\n<p>Para fundar e manter estas obras, o Pe. Am\u00e9rico percorreu Portugal e o Mundo, pregando a caridade \u00abem obras e em verdade\u00bb. A sua palavra penetrava nas almas sedentas de justi\u00e7a. Denunciava publicamente, em igrejas e salas de espect\u00e1culos, as injusti\u00e7as sociais, o desperd\u00edcio do dinheiro, a desigualdade e indiferen\u00e7a de muitos, a escravid\u00e3o da mulher, a falta de assist\u00eancia aos doentes e a promiscuidade de muitas fam\u00edlias. Tal atitude &#8211; corajosa, franca e dura &#8211; encontrou terras f\u00e9rteis, mas tamb\u00e9m se \u201cdeparou com a suspeita e a m\u00e1 vontade de certas entidades oficiais. A n\u00edvel de Minist\u00e9rios, os Padres da Rua foram muitas vezes considerados como \u00abperigosos\u00bb, \u00absubversivos\u00bb e \u00abcomunistas\u00bb\u201d &#8211; (Freire, Jos\u00e9 Geraldes; in: \u00abResist\u00eancia Cat\u00f3lica ao Salazarismo-Marcelismo\u00bb).<\/p>\n<p>Neste conjunto, o Pe. Am\u00e9rico aparece como o privilegiado que incarna o sonho da comunidade. E torna-se polo de atrac\u00e7\u00e3o que magnetiza os esfor\u00e7os, canaliza os entusiasmos, d\u00e1 sentido \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es dessa comunidade. A Casa do Gaiato, obra de cariz social e simultaneamente com fun\u00e7\u00f5es educativas, n\u00e3o \u00e9 o resultado de uma metodologia cient\u00edfica elaborada, mas fruto do amor e da caridade. O fundador desta obra nunca estudou pedagogia ou Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o. A sua voca\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica nasceu do amor que nutria pelas crian\u00e7as de rua; enriqueceu-se no meio delas, exercitando as suas qualidades de rara sensibilidade pedag\u00f3gica e intui\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica. Apesar das suas origens emp\u00edricas e intuitivas, a experi\u00eancia da Casa do Gaiato, que \u201cestimula na liberdade o sentido de iniciativa e de responsabilidade, constitui uma das experi\u00eancias mais logradas do activismo educativo cat\u00f3lico\u201d (Barbosa, Manuel Dur\u00e3es; \u00abValor Educativo da Casa do Gaiato\u00bb, in: Revista \u00abLumen\u00bb). O sistema das diversas \u00abcasas-fam\u00edlia\u00bb, que foram a aldeia; o ambiente educativo de contacto com a natureza; o autogoverno familiar, bem como o esp\u00edrito de trabalho, \u201cenquadram-se perfeitamente no campo da educa\u00e7\u00e3o nova\u201d (In: Barbosa, Manuel Dur\u00e3es). Querendo resumir de alguma forma o seu m\u00e9todo educativo, o Pe. Am\u00e9rico f\u00ea-lo deste modo: \u201csimplicidade, fam\u00edlia, amor, respira\u00e7\u00e3o contra respira\u00e7\u00e3o, contacto com a vida, tudo junto com a forma\u00e7\u00e3o espiritual e nada mais. Os homens complicam os m\u00e9todos e quanto mais complicados, mais desvirtuados\u201d (Loureiro, Jo\u00e3o Evangelista; in: \u00abUm grande educador portugu\u00eas do s\u00e9culo XX\u00bb).<\/p>\n<p>Em 1956, aquando da ida aos A\u00e7ores, come\u00e7ou a falar insistentemente na morte que o rondava. Nos \u00faltimos dias do m\u00eas de junho, ao despedir-se, em Coimbra, do Pe. Eug\u00e9nio Martins, f\u00ea-lo com muita emo\u00e7\u00e3o e, j\u00e1 no carro, pediu-lhe que nunca deixasse de visitar a Casa do Gaiato. Poucos dias depois, 14- de julho, teve um acidente de carro. Depois de longas horas de sofrimento, faleceu a 16 de julho, no Hospital de Santo Ant\u00f3nio. No elogio f\u00fanebre, em Pa\u00e7o de Sousa, Eduardo de Albuquerque numa frase resumiu toda a vida do Pai Am\u00e9rico: \u201cOrava em sil\u00eancio \u2013 mais praticando do que falando!\u2026\u201d. Uma vida de marinheiro que levou o barco a bom porto porque \u201cquando se navega sem destino, nenhum vento \u00e9 favor\u00e1vel\u201d (S\u00e9neca &#8211; escritor romano).<\/p>\n<p>Passados dias da sua morte, o jornalista Ant\u00f3nio Ramos de Almeida escrevia no \u00abJornal de Not\u00edcias\u00bb um artigo que punha em relevo o acontecimento: \u201cA cidade do Porto est\u00e1 ainda em estado de choque emocional. Nem sei mesmo se em toda a sua hist\u00f3ria, o povo do Porto jamais chorou com tanta espontaneidade a morte de um homem&#8230;\u201d. Um homem diferente que se definiu assim: \u201ceu sou um revolucion\u00e1rio pac\u00edfico, um pobre que sangra, um pai que chora, um portugu\u00eas que ama\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Filipe Santos, Ag\u00eancia ECCLESIA<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":156725,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[344],"class_list":["post-156717","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-dossier","tag-padre-americo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/156717","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=156717"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/156717\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/156725"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=156717"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=156717"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=156717"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}