{"id":156258,"date":"2019-12-06T12:00:49","date_gmt":"2019-12-06T12:00:49","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=156258"},"modified":"2019-12-06T23:09:18","modified_gmt":"2019-12-06T23:09:18","slug":"a-salvacao-do-planeta-e-bandeira-das-religioes-isabel-varanda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-salvacao-do-planeta-e-bandeira-das-religioes-isabel-varanda\/","title":{"rendered":"\u00abA salva\u00e7\u00e3o do planeta \u00e9 bandeira das religi\u00f5es\u00bb \u2013 Isabel Varanda"},"content":{"rendered":"<p><em>Greta Thunberg \u00ab\u00e9 um s\u00edmbolo\u00bb que motiva a comunidade em geral e o Papa Francisco deveria escrever a \u00abLaudato si 2\u00bb, ap\u00f3s quatro anos do primeiro documento, porque \u00abh\u00e1 desenvolvimentos a tal velocidade que j\u00e1 justificariam uma outra enc\u00edclica\u00bb<\/em><\/p>\n<p><em><!--more-->Na entrevista semanal Ag\u00eancia ECCLESIA\/Renascen\u00e7a, Isabel Varanda, professora da Faculdade de Teologia da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, considera a ecologia um \u201cterrit\u00f3rio educativo de interven\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria\u201d, reafirma a \u201cemerg\u00eancia clim\u00e1tica\u201d diante da qual n\u00e3o bastam \u201cdiscursos pontuais\u201d ou manifesta\u00e7\u00f5es de \u201cang\u00fastia\u201d, mas a a\u00e7\u00e3o de todos. <\/em><\/p>\n<p><em>Declara\u00e7\u00f5es\u00a0no contexto da COP 25 e da investiga\u00e7\u00e3o desenvolvida pelo grupo \u201cReligi\u00e3o, Ecologia e Cidadania\u201d, do CITER &#8211; \u00a0Centro de Investiga\u00e7\u00e3o em Teologia e Ci\u00eancias da Religi\u00e3o da Faculdade,\u00a0que integra professores da UCP e de outras universidades de v\u00e1rios pontos do mundo, e tem em curso o projeto de investiga\u00e7\u00e3o \u201cAmar e cuidar a terra: crit\u00e9rios e processos de ecologia integral\u201d, que tem como objetivo a constitui\u00e7\u00e3o de um Observat\u00f3rio Permanente para as Quest\u00f5es Ecol\u00f3gicas.<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_156279\" aria-describedby=\"caption-attachment-156279\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-156279 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda1.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda1.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda1-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda1-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda1-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda1-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda1-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-156279\" class=\"wp-caption-text\">Foto Ag\u00eancia ECCLESIA\/LFS, Isabel Varanda<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Jos\u00e9 Pedro Fraz\u00e3o (Renascen\u00e7a) e Paulo Rocha (Ag\u00eancia ECCLESIA)<\/p>\n<p><em>Decorre em Madrid a Cimeira do Clima. Est\u00e1 a acompanhar a confer\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p>Claro que \u00e9 algo que est\u00e1 a acontecer e n\u00f3s temos o privil\u00e9gio, com a colabora\u00e7\u00e3o dos media, de ir acompanhando os trabalhos. \u00c9 obvio que, nesse contexto de uma cimeira, as tem\u00e1ticas s\u00e3o muito espec\u00edficas e h\u00e1 tamb\u00e9m uma preocupa\u00e7\u00e3o de dar um sinal ao mundo e a todas as na\u00e7\u00f5es de uma emerg\u00eancia clim\u00e1tica declarada. Contrapondo com um conceito que temos na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o, os TEIP (Territ\u00f3rios Educativos de Interven\u00e7\u00e3o Priorit\u00e1ria), tamb\u00e9m a quest\u00e3o ecol\u00f3gica se revela um territ\u00f3rio educativo de interven\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria. Nesse sentido, a COP 25 que se realiza em Madrid \u00e9 um sinal para o mundo. N\u00e3o sabemos quais ser\u00e3o as conclus\u00f5es, mas o objetivo est\u00e1 cumprido: um alerta e despertar emergente, e n\u00e3o progressivo, das consci\u00eancias para a grande quest\u00e3o ecol\u00f3gica que ensombra a vida do planeta e dos seres humanos.<\/p>\n<p>Entendo a COP 25 como mais um evento que se acrescenta a estes focos de preocupa\u00e7\u00e3o crescente que atravessam o planeta e progressivamente v\u00e3o chegando \u00e0 consci\u00eancia individual de cada um como um TEIP, um territ\u00f3rio educativo de interven\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria. E j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um territ\u00f3rio educativo, porque h\u00e1 algo que se perceciona como uma emerg\u00eancia clim\u00e1tica. E uma emerg\u00eancia remete-nos para o que o Papa Francisco exprimia em termos de uma revolu\u00e7\u00e3o cultural, na enc\u00edclica \u2018Laudato si\u2019. Uma revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que tem de acontecer no imediato, que marca o tempo e a realidade com uma certa radicalidade. E \u00e9 necess\u00e1rio que tomemos consci\u00eancia dessa emerg\u00eancia, com bastante sofrimento e preocupa\u00e7\u00e3o, porque os tempos que atravessamos s\u00e3o, de algum modo, traum\u00e1ticos!\u00a0 H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es traumatizantes de popula\u00e7\u00f5es e regi\u00f5es do nosso planeta em profundo sofrimento devido \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. E lembro uma express\u00e3o do Papa Francisco, em que diz: \u201cn\u00e3o vos quero poupar ao traumatismo do encontro com as dores do mundo\u201d. Acho esta frase extraordin\u00e1ria! De facto, alguns fil\u00f3sofos, como J\u00falia Kristeva, diz que \u201co cristianismo \u00e9 uma religi\u00e3o muito longe das cruzes do mundo\u201d. \u00c9 um paradoxo brutal: o cristianismo, que se funda na mist\u00e9rio cruz, est\u00e1 demasiado longe das cruzes do mundo. E o Papa Francisco diz: \u201cn\u00e3o vos quero poupar ao traumatismo do encontro\u201d. Depois, descreve as dores do mundo e diz, numa homilia: \u201cirm\u00e3os, a humanidade j\u00e1 n\u00e3o sabe chorar, mas chegou a hora do pranto\u201d. E ele mesmo diz: \u201cchorai comigo, irm\u00e3os\u201d.<\/p>\n<p>Este n\u00e3o \u00e9 um novo posicionamento numa quest\u00e3o antiga, que se repete. H\u00e1 uma emerg\u00eancia. H\u00e1 um modo novo, que a COP 25 tamb\u00e9m indicia: temos, hoje mesmo, de tomar em m\u00e3os esta problem\u00e1tica, porque amanh\u00e3 \u00e9, de facto, tarde!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E a Igreja tem agarrado essa emerg\u00eancia? Por vezes h\u00e1 uma discrep\u00e2ncia na forma como \u00e9 enfrentada essa emerg\u00eancia, que agora tem uma dimens\u00e3o global, com esta enc\u00edclica. Mas os crist\u00e3os est\u00e3o verdadeiramente mobilizados para essa emerg\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p>A quest\u00e3o evoca um discurso do Papa Paulo VI na ONU, no dia 4 de outubro de 1965, em que dizia o seguinte: \u201cEis chegada a hora em que se imp\u00f5e uma pausa, um momento de recolhimento, de reflex\u00e3o, quase de ora\u00e7\u00e3o: pensar de novo na nossa comum origem, na nossa hist\u00f3ria, no nosso destino comum\u201d.<\/p>\n<p>Claro que era um contexto diferente (sa\u00edamos de duas guerras mundiais), que mudou radicalmente. Mas a prem\u00eancia \u00e9 a de hoje: eis chegada a hora em que se imp\u00f5e uma pausa para pensarmos de novo a nossa origem comum, a nossa hist\u00f3ria e o nosso destino comum.<\/p>\n<p>A enc\u00edclica \u2018Laudato si\u2019 foi publicada em 2015 e, um ano depois, a Ag\u00eancia Ecclesia pediu-me um apontamento, que poder\u00e3o recuperar, em que se fazia uma leitura sobre um ano passado sobre a enc\u00edclica. Evocando a \u2018Laudato si\u2019, falava em \u201clouvor, mas sem convic\u00e7\u00e3o\u201d. E terei necessariamente de dizer que n\u00e3o sinto, at\u00e9 este momento, que tenhamos, ao n\u00edvel da comunidade portuguesa, da Igreja Cat\u00f3lica em Portugal e da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, percebido aquilo que se nos imp\u00f5e, neste momento. E precisamos de tra\u00e7ar estrat\u00e9gias objetivas bem definidas, de interce\u00e7\u00e3o com as diferentes \u00e1reas do saber, os diferentes movimentos que se v\u00e3o levantando ao n\u00edvel das comunidades, das inst\u00e2ncias educativas e da sociedade em geral. N\u00e3o chega assumir a quest\u00e3o em discursos pontuais, confer\u00eancias, breves alocu\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o certamente benfazejas, mas que n\u00e3o produzem o impacto da comunh\u00e3o, do concerto de esfor\u00e7os e da modernidade na abordagem da quest\u00e3o. Uma modernidade pertinente, atual, consciente, correndo inclusivamente\u00a0riscos, porque \u00e9 uma aventura para a qual todos fomos convocados, para dar o nosso contributo para salvar o mundo. E a palavra salva\u00e7\u00e3o faz parte do l\u00e9xico das religi\u00f5es em geral e de um modo concreto do cristianismo. Portanto, a salva\u00e7\u00e3o do planeta, a salva\u00e7\u00e3o da humanidade e a salva\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o \u00e9 bandeira das religi\u00f5es! E \u00e9 bandeira concretamente do cristianismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_156276\" aria-describedby=\"caption-attachment-156276\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-156276\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda4.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-156276\" class=\"wp-caption-text\">Foto Ag\u00eancia ECCLESIA\/LFS<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>N\u00e3o se percebeu, na comunidade eclesial, que o tempo \u00e9 de agir, como se repete na COP 25?<\/em><\/p>\n<p>Eu penso que sim&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas ainda n\u00e3o se agiu&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o se agiu. Desenvolve-se uma ang\u00fastia diante daquilo que nos \u00e9 chamado, no imediato, a intervir, nos campos em que somos chamados individualmente a intervir, sentindo-nos de algum modo com poucos recursos, n\u00e3o nos sentindo capacitados para tal, porque nos\u00a0isolados na nossa interven\u00e7\u00e3o, na nossa palavra local, que tem pouco alcance, que n\u00e3o \u00e9 ouvida ou n\u00e3o entra nos c\u00e2nones habituais da comunica\u00e7\u00e3o e deixa o cidad\u00e3o comum e o crente entregue a si mesmo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Voltemos \u00e0 \u2018Laudato si\u2019: que instrumento \u00e9 este? Convergem neste documento as agendas mundiais, as a\u00e7\u00f5es que \u00e9 necess\u00e1rio levar por diante, o segredo para enfrentar o problema da emerg\u00eancia clim\u00e1tica?<\/em><\/p>\n<p>Sim e n\u00e3o&#8230; Sim, porque reconhecemos que a enc\u00edclica \u2018Laudato si\u2019 \u00e9 um marco incontorn\u00e1vel, acompanhou e estava em sintonia completa com as agendas do planeta. Mas temos de ter presente que passaram quatro anos. E, nestes quatro anos, todos nos damos conta da velocidade tremenda que nos deixa com sentimentos de desprote\u00e7\u00e3o e de n\u00e3o prepara\u00e7\u00e3o para esta emerg\u00eancia clim\u00e1tica declarada, para a urg\u00eancia clim\u00e1tica que n\u00e3o se contempla com processos de mudan\u00e7a de mentalidade.<\/p>\n<p>A enc\u00edclica tem todo o valor, enquanto refer\u00eancia incontorn\u00e1vel que contribuiu para o despertar das consci\u00eancias mundiais e da sensibilidade dos cat\u00f3licos, embora tardiamente (mas isso est\u00e1 tudo dito e n\u00e3o precisamos de o voltar a dizer). Ousaria dizer que talvez o Papa Francisco esteja a pensar \u2013 e espero que esteja a pensar \u2013 numa segunda edi\u00e7\u00e3o da \u2018Laudato si\u2019, na \u2018Laudato si 2\u2019. Porque, em quatro anos, h\u00e1 desenvolvimentos a tal velocidade que j\u00e1 justificariam uma outra enc\u00edclica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas podemos olhar de outra forma: talvez a enc\u00edclica esteja por cumprir&#8230; A sua validade \u00e9 t\u00e3o grande que, mais do que fazer um segundo documento em cima do que ainda est\u00e1 por cumprir, talvez fosse mais interessante ir ao plano inicial, insistir no cumprimento de algumas mensagens. Porque a mensagem da enc\u00edclica \u00e9 abrangente, interdisciplinar. E isso introduz-me numa outra quest\u00e3o: tem a ver com a mobiliza\u00e7\u00e3o atual e o debate que temos nesta mat\u00e9ria. Tirando o Papa Francisco, a \u00fanica pessoa que associamos a esta causa \u00e9 uma crian\u00e7a, uma adolescente! E muitas vezes \u00e9 acusada de um discurso simplista em rela\u00e7\u00e3o a esta mat\u00e9ria, ao contr\u00e1rio da forma como foi recebida a enc\u00edclica, muito elogiada por todos os acad\u00e9micos e especialistas que est\u00e3o ligados a esta mat\u00e9ria, por ser bastante completa e muito bem baseada em todas as \u00e1reas, da f\u00edsica \u00e0 economia, passando naturalmente pela \u00e9tica. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel cumprir mais os alertas do Papa Francisco, que est\u00e3o na enc\u00edclica? Estou a pensar, por exemplo, na dimens\u00e3o econ\u00f3mica que est\u00e1 contida naquele documento&#8230;<\/em><\/p>\n<p>A nossa palavra \u00e9 sempre de sauda\u00e7\u00e3o do imenso contributo da enc\u00edclica, que continua a ter uma validade e uma pertin\u00eancia inegoci\u00e1vel no contexto atual. Mas h\u00e1 o processo de rece\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 a indiciar e muito bem.<\/p>\n<p>O processo de rece\u00e7\u00e3o da enc\u00edclica vai-nos acompanhar progressivamente e ocorre no tempo. Ao mesmo tempo, o magist\u00e9rio da Igreja, e concretamente o Papa Francisco, sente necessidade de insistir, de voltar \u00e0 problem\u00e1tica e trazer \u00e0 luz novamente a enc\u00edclica <em>\u2018<\/em>Laudato si<em>\u2019<\/em>, na sua abrang\u00eancia extraordin\u00e1ria a nas suas interce\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas e nos seus destinat\u00e1rios, porque se destina para o mundo todo (tanto \u00e9 que tivemos h\u00e1 pouco o s\u00ednodo pan-amaz\u00f3nico e temos constantemente mensagens para o Dia Mundial da Paz ou aos intelectuais, artistas ou \u00e0 Academia das Ci\u00eancias).<\/p>\n<p>Uma coisa \u00e9 a rece\u00e7\u00e3o da enc\u00edclica, outra a velocidade espantosa com que somos confrontados nas declara\u00e7\u00f5es que nos v\u00eam das diferentes \u00e1reas do saber e os contantes alertas da ONU para uma emerg\u00eancia. E a emerg\u00eancia \u00e9 hoje! E tamb\u00e9m o Papa diz isso mesmo na enc\u00edclica: \u00e9 hoje que temos de atuar. E depois tra\u00e7a um painel alargado para a compreens\u00e3o e a sistematiza\u00e7\u00e3o de um a\u00e7\u00e3o concreta, a partir de hoje e no futuro.<\/p>\n<p>Pelo caminho v\u00e3o surgindo e v\u00e3o-se levantando inesperadamente movimentos ou pessoas singulares. A Greta \u00e9 uma menina, uma adolescente, \u00e9 um s\u00edmbolo e \u00e9 mais do que aquilo que ela diz: \u00e9 toda a linguagem simb\u00f3lica que transparece e mobiliza. \u00a0O que se retira desta figura emblem\u00e1tica \u00e9 o que representa, mais do que aquilo que ela diz: a pessoa, sa\u00edda do meio de uma serra ou de um glaciar, pela sua postura, convic\u00e7\u00e3o e coragem motiva a comunidade em geral para uma a\u00e7\u00e3o que tem de ser fundamentada.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o estou ainda muito convencida de que tenhamos a perce\u00e7\u00e3o do <em>background,<\/em> do que est\u00e1 por tr\u00e1s. E a\u00ed as religi\u00f5es, juntamente com as outras ci\u00eancias, poderiam ter um papel fundamental em fornecer os pilares te\u00f3ricos que fundamentam o nosso agir. Caso contr\u00e1rio, podemos cair na defesa de um ambientalismos&#8230; Por vezes digo informalmente: temos partidos pol\u00edticos que cuidam das quest\u00f5es ambientais \u2013 que se preocupam, pelo menos -, temos movimentos c\u00edvicos que se preocupam com as problem\u00e1ticas ambientais, temos organismos internacionais tamb\u00e9m preocupados com o ambiente, as igrejas e as religi\u00f5es tamb\u00e9m preocupadas com o ambiente&#8230; E \u00e9 esse o nosso papel, certamente! Mas a minha quest\u00e3o vai mais longe: qual \u00e9 a especificidade do contributo das religi\u00f5es para esta problem\u00e1tica? E a\u00ed h\u00e1 um trabalho <em>ad intra<\/em> que carece de ser feito, ao n\u00edvel primeiro do di\u00e1logo inter-religioso e depois no seio de cada uma das religi\u00f5es, das religi\u00f5es monote\u00edstas, as grandes religi\u00f5es do mundo. E concretamente no seio do cristianismo: qual \u00e9 a palavra, a a\u00e7\u00e3o pertinente da religi\u00e3o nesta problem\u00e1tica que p\u00f5e em risco a vida e a sobrevida de todas as criaturas na terra?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_156278\" aria-describedby=\"caption-attachment-156278\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-156278\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda2-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda2-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda2-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda2-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda2-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda2-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda2-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/isabel_varanda2.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-156278\" class=\"wp-caption-text\">Foto Ag\u00eancia ECCLESIA\/LFS<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>E acredito \u00e9 nesse contributo que se situa o CITER, o Centro de Investiga\u00e7\u00e3o em Teologia e Ci\u00eancias da Religi\u00e3o, da Faculdade de Teologia da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa. E pedia-lhe que nos adiantasse a investiga\u00e7\u00e3o em curso, a que est\u00e1 perspetivada sobre este tema. Por aquilo que nos vamos apercebendo, em causa poder\u00e3o estar n\u00e3o s\u00f3 altera\u00e7\u00f5es comportamentais, mas sim o tal background de toda a problem\u00e1tica, olhando para uma nova era geol\u00f3gica. H\u00e1 uma perspetiva nova que \u00e9 necess\u00e1rio introduzir, percebendo de que forma o humano est\u00e1 a transformar a terra?<\/em><\/p>\n<p>O CITER \u00e9, como disse, um Centro de Investiga\u00e7\u00e3o em Teologia e Ci\u00eancias da Religi\u00e3o, da Faculdade de Teologia. Tem v\u00e1rias linhas de investiga\u00e7\u00e3o e, numa delas, est\u00e1 em curso um projeto de investiga\u00e7\u00e3o, depois de constitu\u00eddo um grupo de investiga\u00e7\u00e3o interdisciplinar, que apelidamos \u2018Grupo REC\u2019 (Religi\u00e3o, Ecologia e Cidadania), focalizando a sua investiga\u00e7\u00e3o na \u00e1rea das problem\u00e1ticas ecol\u00f3gicas. No seio deste grupo de investiga\u00e7\u00e3o, est\u00e1 em curso o projeto cujo tema \u00e9 \u201cAmar e cuidar a terra: crit\u00e9rios e processos de ecologia integral\u201d. H\u00e1 aqui uma provoca\u00e7\u00e3o nestes dois verbos: \u201camar e cuidar a terra\u201d. N\u00e3o \u00e9 habitual que pensemos a terra como algo a cuidar com amor. Amar o mundo \u00e9, de algum modo, uma descoberta para algumas religi\u00f5es. Sabemos que, ao longo dos s\u00e9culos, quase at\u00e9 ao Conc\u00edlio Vaticano II, o cristianismo viveu algum equ\u00edvoco ou ambiguidade entre, por um lado, o amor ao mundo e, por outro, a fuga do mundo. Dir\u00edamos, com alguns laivos gn\u00f3sticos: por um lado, o mundo \u00e9 bom, criatura de Deus, mas, por outro, o mundo tem uma negatividade. No Conc\u00edlio Vaticano II, na grande primavera para a Igreja, com a &#8216;Gaudium et Spes&#8217;, \u00e9 reconhecido o valor de todas as criaturas, n\u00e3o s\u00f3 da criatura humana, mas o valor das realidades terrestres. E creio que temos no Vaticano II o grande pilar para a sintonia da Igreja e dos crist\u00e3os como mundo, embora assim estiv\u00e9ssemos deste a encarna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Acerca da nova era que a geologia identifica, a era do antropoceno, num conceito forjado por Paul Crutzen no ano 2000, pretende significar o tempo contempor\u00e2neo formulado deste modo: as altera\u00e7\u00f5es antropog\u00e9nicas, que o ser humano provoca no planeta terra, j\u00e1 t\u00eam um car\u00e1cter de tal modo irrevers\u00edvel que provocam altera\u00e7\u00f5es irrevers\u00edveis no pr\u00f3prio planeta. Da\u00ed que h\u00e1 um consenso na geologia e nas ci\u00eancias ligadas \u00e0 biologia e \u00e0 geologia na identifica\u00e7\u00e3o de uma nova era geol\u00f3gica, chamada de antropoceno, embora haja ainda falta de consenso na identifica\u00e7\u00e3o da data em que entramos nessa nova era.<\/p>\n<p>H\u00e1 altera\u00e7\u00f5es objetivas, antropog\u00e9nicas, irrevers\u00edveis e isso \u00e9 o sinal de alerta grav\u00edssimo! E basta pensar que o dia 29 de julho \u00e9 o \u201cearth overshoot day\u201d, o dia a partir do qual estamos a comer a terra, literalmente. Porque desde esse dia a terra deixou de ter capacidade de repor o que n\u00f3s consumimos. E, portanto, estamos literalmente a comer a terra e a provocar altera\u00e7\u00f5es irrevers\u00edveis no planeta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Um dos pontos concretos do CITER tem a ver com um Observat\u00f3rio Permanente de Ecologia Integral. Em que ponto est\u00e1 e qual vai ser resultado palp\u00e1vel deste observat\u00f3rio?<\/em><\/p>\n<p>No descritivo do projeto \u201cAmar e cuidar a terra: crit\u00e9rios e processos de ecologia integral\u201d, o observat\u00f3rio aparece como um dos resultados que pretendemos obter. Na finaliza\u00e7\u00e3o do projeto visamos, como objetivo, a elabora\u00e7\u00e3o de um Observat\u00f3rio Permanente para as Quest\u00f5es Ecol\u00f3gicas. Neste momento est\u00e1 desenhado como objetivo, para a conclus\u00e3o do projeto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Greta Thunberg \u00ab\u00e9 um s\u00edmbolo\u00bb que motiva a comunidade em geral e o Papa Francisco deveria escrever a \u00abLaudato si 2\u00bb, ap\u00f3s quatro anos do primeiro documento, porque \u00abh\u00e1 desenvolvimentos a tal velocidade que j\u00e1 justificariam uma outra enc\u00edclica\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[630],"tags":[414,360],"class_list":["post-156258","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-ecologia","tag-teologia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/156258","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=156258"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/156258\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=156258"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=156258"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=156258"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}