{"id":15605,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-epopeia-da-palavra-criadora\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-epopeia-da-palavra-criadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-epopeia-da-palavra-criadora\/","title":{"rendered":"A epopeia da Palavra criadora"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal-Patriarca na Solenidade do Natal do Senhor <!--more--> 1. As leituras desta celebra\u00e7\u00e3o convidam-nos a n\u00e3o ficarmos prisioneiros, na medita\u00e7\u00e3o do nascimento de Jesus, dos pormenores dos acontecimentos de Bel\u00e9m, mas a alargarmos o horizonte da nossa compreens\u00e3o \u00e0 Palavra eterna de Deus e Sua manifesta\u00e7\u00e3o progressiva na Cria\u00e7\u00e3o e na Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o, e \u00e0 plenitude dessa manifesta\u00e7\u00e3o na encarna\u00e7\u00e3o do Verbo de Deus na pessoa de Jesus Cristo. A verdadeira novidade do Evangelho de S\u00e3o Jo\u00e3o \u00e9 a de identificar a plena manifesta\u00e7\u00e3o da ac\u00e7\u00e3o do Verbo eterno, na pessoa de Jesus, o Verbo feito carne. \u201cNo princ\u00edpio era o Verbo, o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus\u201d (Jo. 1,1). Este \u201clogos\u201d, na pena de S\u00e3o Jo\u00e3o, \u00e9 a aplica\u00e7\u00e3o a Jesus Cristo do mist\u00e9rio da Palavra (dabrar) e de toda a sua efic\u00e1cia divina, na cria\u00e7\u00e3o e na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, ambas reunidas no \u00e2mbito da ac\u00e7\u00e3o divina. H\u00e1 entre a cria\u00e7\u00e3o e a salva\u00e7\u00e3o um elo de continuidade do poder criador de Deus. O Verbo \u00e9 a for\u00e7a criadora de Deus. S\u00f3 em Jesus Cristo nos \u00e9 revelado que Ele \u00e9 uma Pessoa divina. \u00c9 por isso que a Sagrada Escritura afirma que \u201ctudo se fez, por meio d\u2019Ele e, sem Ele, nada se fez\u201d (Jo. 1,3). Este in\u00edcio do Evangelho de S\u00e3o Jo\u00e3o, em que narra a obra salv\u00edfica do Verbo encarnado, evoca o vers\u00edculo um do G\u00e9nesis, que afirma que \u201cno princ\u00edpio, Deus criou o c\u00e9u e a terra\u201d (Gen. 1,1). Trata-se da obra criadora do Verbo divino. Isto abre-nos para o mist\u00e9rio das criaturas, que existem e subsistem a partir desta for\u00e7a criadora de Deus, porque \u201cn\u2019Ele existe a vida e a vida \u00e9 a luz dos homens\u201d (Jo. 1,4). A rela\u00e7\u00e3o de cada homem, com Jesus Cristo, na f\u00e9, apenas explicita e aprofunda esta rela\u00e7\u00e3o vital, ao n\u00edvel do ser, com o Verbo criador de Deus. \u00c9 esta explicita\u00e7\u00e3o da f\u00e9 de algo que \u00e9 cong\u00e9nito no mais profundo do ser humano, que o mesmo S\u00e3o Jo\u00e3o explicita na sua primeira Carta: \u201cAnunciamo-vos a vida eterna que estava junto do Pai e nos apareceu: o que n\u00f3s vimos e ouvimos, n\u00f3s vo-lo anunciamos, para que estejais em comunh\u00e3o connosco e que a nossa comunh\u00e3o seja com o Pai e com o Seu Filho Jesus Cristo\u201d (1Jo. 1,2-3). O an\u00fancio de Jesus Cristo, a que chamamos evangeliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 tamb\u00e9m o an\u00fancio, a cada homem, do seu mist\u00e9rio mais profundo, a origem da sua vida. A f\u00e9 em Jesus Cristo \u00e9 sempre a luz que leva o homem a descobrir uma realidade que \u00e9 antes da f\u00e9. A rela\u00e7\u00e3o de cada um com o Verbo Criador n\u00e3o depende da sua vontade; existe, porque n\u00f3s existimos. \u00c9 este o sentido radical da express\u00e3o \u201cno princ\u00edpio\u201d. No in\u00edcio da nossa vida e em cada etapa do seu desenvolvimento, como a descoberta do amor e do sentido, o experimentar da alegria como antec\u00e2mara da felicidade, est\u00e1 sempre a Palavra criadora, que sendo fonte de vida, \u00e9 reveladora de sentido.  2. Compreende-se, assim, que a Teologia do Antigo Testamento atribua a esta for\u00e7a criadora de Deus, a Sua Palavra, toda a Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o. Esta Palavra eterna assume, no contexto da salva\u00e7\u00e3o, que aparece como \u201csegunda cria\u00e7\u00e3o\u201d, uma dupla dimens\u00e3o: a de for\u00e7a criadora, e a de Palavra reveladora, pois uma hist\u00f3ria de salva\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 vi\u00e1vel, com o conhecimento progressivo da intimidade de Deus e do Seu des\u00edgnio. Cada ac\u00e7\u00e3o de Deus em favor do Seu Povo \u00e9 sempre realizada por essa Palavra criadora e desvela o segredo do cora\u00e7\u00e3o de Deus, o Seu des\u00edgnio de amor, que j\u00e1 presidiu \u00e0 cria\u00e7\u00e3o e conduz a hist\u00f3ria. \u00c9 por isso que, na tradi\u00e7\u00e3o sapiencial, a Palavra criadora \u00e9 vista como \u201csabedoria personificada\u201d, porque a Sabedoria, ao mesmo tempo que cria e transforma, revela o sentido (cf. Prov. 8).  3. O dado novo que nos traz o nascimento de Jesus \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de que o \u201cVerbo fez-se carne e habitou entre n\u00f3s\u201d (Jo. 1,14). Essa \u00e9 a ousadia da f\u00e9 pascal: aplicar a um ser hist\u00f3rico concreto, Jesus morto e ressuscitado, tudo o que a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica afirmava da Palavra criadora e da Sabedoria divina. Imerso na nossa realidade humana, Ele continua a ser a Palavra criadora e reveladora. \u201cO Verbo era a luz verdadeira, que todo o homem ilumina, ao vir a este mundo\u201d. S\u00e3o Paulo, na Carta aos Colossenses, referindo-se a Jesus Cristo, diz dele o que o Antigo Testamento afirmou do Verbo eterno: \u201cEle \u00e9 a imagem do Deus invis\u00edvel, o Primog\u00e9nito de toda a criatura, porque n\u2019Ele foram criadas todas as coisas, nos c\u00e9us e na terra, as vis\u00edveis e as invis\u00edveis\u201d (Col. 1,15-16). Na primeira cria\u00e7\u00e3o, Deus foi completamente soberano. Nada na cria\u00e7\u00e3o se op\u00f4s ao Seu poder criador; antes, Ele p\u00f4de contemplar a beleza de tudo o que criou. Ao contr\u00e1rio, a for\u00e7a criadora da Palavra, a actuar na Hist\u00f3ria da Salva\u00e7\u00e3o, encontrou a resist\u00eancia da liberdade humana, ferida pelo pecado. \u201cO mundo, feito por meio d\u2019Ele, n\u00e3o O reconheceu. Veio para o que era Seu e os seus n\u00e3o O acolheram\u201d (Jo. 1,11). A paix\u00e3o e morte de Jesus n\u00e3o foi a primeira rejei\u00e7\u00e3o dos homens \u00e0 Palavra eterna, que criava e revelava. A sua ac\u00e7\u00e3o tornou-se dial\u00e9ctica e dram\u00e1tica, numa batalha que tem de ser vencida no cora\u00e7\u00e3o de cada homem que se deixou fazer pela Palavra, tornando-se filho de Deu. \u00c9 uma luta que s\u00f3 acabar\u00e1 quando todos os inimigos tiverem sido vencidos e todos se sujeitarem \u00e0 Senhoria de Jesus Cristo. Em Deus s\u00f3 o Seu Verbo podia encarnar, pois Ele est\u00e1 congenitamente ligado \u00e0 Cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o Lhe repugna exprimir-se num homem, porque no homem exprimiu, \u201cdesde o princ\u00edpio\u201d, a Sua for\u00e7a criadora.  4. Na encarna\u00e7\u00e3o tornou-se vis\u00edvel, para n\u00f3s, que o Verbo eterno \u00e9 uma Pessoa, e que a Sua for\u00e7a criadora e reveladora \u00e9 um mist\u00e9rio de comunh\u00e3o e de amor. Tudo em Jesus Cristo \u00e9 Palavra e n\u00e3o apenas as suas palavras, o que revela o sentido radical da Pastoral da Palavra, na Igreja. Cristo ressuscitado, pela ac\u00e7\u00e3o do Seu Esp\u00edrito, continua a ser, na Igreja, Palavra criadora e reveladora. Os sacramentos s\u00e3o a principal express\u00e3o do Verbo criador; o discurso \u00e9 uma das express\u00f5es da Palavra reveladora, desvelando o sentido da obra criadora e redentora do Verbo eterno de Deus. O cristianismo \u00e9 irredut\u00edvel a uma doutrina; ele tem a for\u00e7a e a surpresa da vida a acontecer, em cada crian\u00e7a que nasce, em cada homem que se converte, em cada cora\u00e7\u00e3o que aprende a amar. \u00c9 \u201cque o Verbo fez-se carne e habitou no meio de n\u00f3s. E n\u00f3s vimos a gl\u00f3ria d\u2019Ele, gl\u00f3ria que lhe vem do Pai, como a Filho \u00fanico, cheio de gra\u00e7a e de verdade\u201d (Jo. 1,14).  S\u00e9 Patriarcal, 25 de Dezembro de 2005, <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal-Patriarca na Solenidade do Natal do Senhor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[295,154,267,294],"class_list":["post-15605","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-biblia","tag-crianca","tag-natal","tag-sacramentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15605","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15605"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15605\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15605"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15605"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15605"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}