{"id":15603,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/construir-a-paz-3\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"construir-a-paz-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/construir-a-paz-3\/","title":{"rendered":"Construir a Paz"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do Papa na Missa da Noite de Natal <!--more--> \u00abO Senhor disse-Me: \u201cTu \u00e9s meu filho, Eu hoje Te gerei\u201d\u00bb. Com estas palavras do Salmo segundo, a Igreja d\u00e1 in\u00edcio \u00e0 Santa Missa da vig\u00edlia de Natal, na qual celebramos o nascimento do nosso Redentor Jesus Cristo no est\u00e1bulo de Bel\u00e9m. Outrora, este Salmo pertencia ao ritual da coroa\u00e7\u00e3o dos reis de Jud\u00e1. O povo de Israel, por causa da sua elei\u00e7\u00e3o, sentia-se de modo particular filho de Deus, adoptado por Deus. Uma vez que o rei era a personifica\u00e7\u00e3o daquele povo, a sua entroniza\u00e7\u00e3o era vivida como um acto solene de adop\u00e7\u00e3o por parte de Deus, no qual o rei ficava, de certo modo, envolvido no pr\u00f3prio mist\u00e9rio de Deus. Na noite de Bel\u00e9m, estas palavras, que de facto eram mais a express\u00e3o duma esperan\u00e7a que realidade presente, ganharam um sentido novo e inesperado. O Menino no pres\u00e9pio \u00e9 verdadeiramente o Filho de Deus. Deus n\u00e3o \u00e9 perene solid\u00e3o, mas um c\u00edrculo de amor no rec\u00edproco dar-se e um dar-se sem cessar. Ele \u00e9 Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo.  Mais ainda: em Jesus Cristo, o Filho de Deus, o pr\u00f3prio Deus Se fez homem. \u00c9 a Ele que o Pai diz: \u00abTu \u00e9s meu filho\u00bb. O hoje eterno de Deus desceu ao hoje ef\u00e9mero do mundo e arrasta o nosso hoje passageiro para o hoje perene de Deus. Deus \u00e9 t\u00e3o grande que Se pode fazer pequeno. Deus \u00e9 t\u00e3o poderoso que Se pode fazer inerme e vir ter connosco como menino indefeso, para que O possamos amar. Deus \u00e9 t\u00e3o bom que renuncia ao seu esplendor divino e desce ao est\u00e1bulo para que O possamos encontrar e, assim, a sua bondade chegue tamb\u00e9m a n\u00f3s, se nos comunique e continue a agir por nosso interm\u00e9dio. O Natal \u00e9 isto: \u00abTu \u00e9s meu Filho, Eu hoje Te gerei\u00bb. Deus tornou-Se um de n\u00f3s, para que n\u00f3s pud\u00e9ssemos viver com Ele, tornarmo-nos semelhantes a Ele. Como pr\u00f3prio sinal, escolheu o Menino no pres\u00e9pio: Deus \u00e9 assim. Deste modo, aprendemos a conhec\u00ea-Lo. E em todo o menino brilha algo da luz daquele hoje, da proximidade de Deus que devemos amar e \u00e0 qual nos devemos submeter \u2013 em todo o menino, mesmo na crian\u00e7a ainda n\u00e3o nascida.  Ou\u00e7amos uma segunda palavra da liturgia desta Noite santa, tomada agora do Livro do profeta Isa\u00edas: \u00abPara os que habitavam na terra da escurid\u00e3o, uma luz come\u00e7ou a brilhar\u00bb (9, 1). A palavra \u00abluz\u00bb permeia toda a liturgia desta Santa Missa. Aparece um novo aceno no texto da carta de S\u00e3o Paulo a Tito: \u00abManifestou-se a gra\u00e7a\u00bb (2, 11). A palavra \u00abmanifestou-se\u00bb diz, em l\u00edngua grega e neste contexto, a mesma coisa que o hebraico exprime com as palavras \u00abuma luz brilhou\u00bb: a \u00abmanifesta\u00e7\u00e3o\u00bb \u2013 a \u00abepifania\u00bb \u2013 \u00e9 a irrup\u00e7\u00e3o da luz divina no mundo cheio de escurid\u00e3o e de problemas insol\u00faveis. Por fim, o Evangelho narra-nos que apareceu a gl\u00f3ria de Deus aos pastores e \u00abcercou-os de luz\u00bb (Lc 2, 9). Onde aparece a gl\u00f3ria de Deus, a\u00ed irradia a luz pelo mundo. \u00abDeus \u00e9 luz e n\u2019Ele n\u00e3o h\u00e1 trevas\u00bb, diz-nos S\u00e3o Jo\u00e3o (1 Jo 1, 5). A luz \u00e9 fonte de vida.  Mas luz significa sobretudo conhecimento, significa verdade em contraposi\u00e7\u00e3o com a escurid\u00e3o da mentira e da ignor\u00e2ncia. Deste modo, a luz faz-nos viver, indica-nos a estrada. Al\u00e9m disso, enquanto gera calor, a luz significa tamb\u00e9m amor. Onde h\u00e1 amor, levanta-se uma luz no mundo; onde h\u00e1 \u00f3dio, o mundo permanece na escurid\u00e3o. \u00c9 verdade, no est\u00e1bulo de Bel\u00e9m, apareceu a grande luz que o mundo espera. Naquele Menino deitado na manjedoura, Deus mostra a sua gl\u00f3ria \u2013 a gl\u00f3ria do amor, em que Ele mesmo Se entrega em dom e Se despoja de toda a grandeza para nos conduzir pelo caminho do amor. A luz de Bel\u00e9m nunca mais se apagou. Ao longo de todos os s\u00e9culos, envolveu homens e mulheres, \u00abcercou-os de luz\u00bb. Onde despontou a f\u00e9 naquele Menino, a\u00ed desabrochou tamb\u00e9m a caridade \u2013 a bondade para com todos, a carinhosa aten\u00e7\u00e3o pelos d\u00e9beis e os doentes, a gra\u00e7a do perd\u00e3o. A partir de Bel\u00e9m, um rasto de luz, de amor, de verdade atravessa os s\u00e9culos. Se olharmos os Santos \u2013 desde Paulo e Agostinho at\u00e9 S\u00e3o Francisco e S\u00e3o Domingos, desde Francisco Xavier e Teresa de \u00c1vila at\u00e9 \u00e0 Irm\u00e3 Teresa de Calcut\u00e1 \u2013 vemos esta corrente de bondade, este caminho de luz que se inflama, sempre de novo, no mist\u00e9rio de Bel\u00e9m, naquele Deus que Se fez Menino. Contra a viol\u00eancia deste mundo, Deus op\u00f5e, naquele Menino, a sua bondade e chama-nos a seguir o Menino.  Juntamente com a \u00e1rvore de Natal, os nossos amigos austr\u00edacos trouxeram-nos tamb\u00e9m uma pequena chama que tinham aceso em Bel\u00e9m, para nos dizer: o verdadeiro mist\u00e9rio do Natal \u00e9 o esplendor interior que irradia deste Menino. Deixemos que se comunique a n\u00f3s esse esplendor interior, que acenda no nosso cora\u00e7\u00e3o a chama da bondade de Deus; todos n\u00f3s levemos, com o nosso amor, a luz ao mundo! N\u00e3o deixemos que esta chama luminosa se apague por causa das correntes frias do nosso tempo! Guardemo-la fielmente e demo-la aos outros! Nesta noite, em que voltamos o nosso olhar para Bel\u00e9m, queremos tamb\u00e9m rezar de modo especial pelo lugar do nascimento do nosso Redentor e pelos homens que l\u00e1 vivem e sofrem. Queremos rezar pela paz na Terra Santa: Olhai, Senhor, este \u00e2ngulo da terra que, como p\u00e1tria vossa, tanto amais! Fazei que resplande\u00e7a l\u00e1 a vossa luz! Fazei que l\u00e1 chegue a paz!   Com o termo \u00abpaz\u00bb, chegamos \u00e0 terceira palavra-mestra da liturgia desta Noite santa. Ao Menino que anuncia, Isa\u00edas chama-Lhe \u00abPr\u00edncipe da paz\u00bb. A prop\u00f3sito do seu reino, diz-se: \u00abA paz n\u00e3o ter\u00e1 fim\u00bb. No Evangelho, \u00e9 anunciado aos pastores: \u00abGl\u00f3ria a Deus nas alturas e paz na terra\u2026\u00bb. Outrora lia-se: \u00ab\u2026aos homens de boa vontade\u00bb; na nova tradu\u00e7\u00e3o, diz-se: \u00ab\u2026aos homens que Ele ama\u00bb. Que significa esta mudan\u00e7a? Deixou de ter valor a boa vontade? Ponhamos melhor a quest\u00e3o: Quais s\u00e3o os homens que Deus ama e porque \u00e9 que os ama? Porventura Deus \u00e9 parcial? Porventura ama apenas certas pessoas, deixando as outras entregues a si mesmas? O Evangelho responde a estas perguntas, mostrando-nos algumas pessoas concretas amadas por Deus. H\u00e1 pessoas individuais \u2013 Maria, Jos\u00e9, Isabel, Zacarias, Sime\u00e3o, Ana, etc. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m dois grupos de pessoas: os pastores e os s\u00e1bios do Oriente, os chamados reis magos. Nesta noite, detenhamo-nos nos pastores. Que esp\u00e9cie de homens s\u00e3o eles? No seu ambiente, os pastores eram desprezados; eram considerados pouco s\u00e9rios e, em tribunal, n\u00e3o eram admitidos como testemunhas. Mas, quem eram na realidade? Certamente n\u00e3o eram grandes santos, se por este termo entendemos pessoas de virtudes her\u00f3icas. Eram almas simples. O Evangelho evidencia uma caracter\u00edstica que mais tarde, nas palavras de Jesus, havia de ter um papel importante: eram pessoas vigilantes. Isto vale primariamente em sentido exterior: de noite vigiavam, perto das suas ovelhas. Mas vale tamb\u00e9m num sentido mais profundo: estavam dispon\u00edveis \u00e0 palavra de Deus. A sua vida n\u00e3o estava fechada em si mesma; o seu cora\u00e7\u00e3o estava aberto. De certo modo, no mais fundo de si mesmos, estavam \u00e0 espera d\u2019Ele. A sua vigil\u00e2ncia era disponibilidade \u2013 disponibilidade para ouvirem, disponibilidade para se porem caminho. Estavam \u00e0 espera da luz que lhes indicasse o caminho. E isto \u00e9 o que interessa a Deus. Ele ama a todos, porque todos s\u00e3o criaturas suas. Mas, algumas pessoas t\u00eam a sua alma fechada; o seu amor n\u00e3o encontra qualquer acesso a eles. Pensam que n\u00e3o t\u00eam necessidade de Deus; n\u00e3o O querem. Outros, que moralmente talvez sejam igualmente miser\u00e1veis e pecadores, pelo menos sofrem com isso. Estes esperam Deus. Sabem que t\u00eam necessidade da sua bondade, embora n\u00e3o tenham uma ideia precisa dela. No seu \u00edntimo, aberto \u00e0 expectativa, a luz de Deus pode entrar, e com ela a sua paz. Deus procura pessoas que levem e comuniquem a sua paz. Pe\u00e7amos-Lhe para fazer com que n\u00e3o encontre fechado o nosso cora\u00e7\u00e3o. Esforcemo-nos por nos tornarmos capazes de ser portadores activos da sua paz \u2013 precisamente no nosso tempo.  Al\u00e9m disso, a palavra paz assumiu entre os crist\u00e3os um significado de todo especial: tornou-se um nome para designar a Eucaristia. Nesta, est\u00e1 presente a paz de Cristo. Atrav\u00e9s de todos os lugares onde se celebra a Eucaristia, estende-se uma rede de paz sobre o mundo inteiro. As comunidades reunidas \u00e0 volta da Eucaristia constituem um reino da paz largo como o mundo. Quando celebramos a Eucaristia, encontramo-nos em Bel\u00e9m, na \u00abcasa do p\u00e3o\u00bb. Cristo d\u00e1-Se a n\u00f3s, e assim nos d\u00e1 a sua paz. D\u00e1-no-la para que levemos a luz da paz no nosso \u00edntimo e a comuniquemos aos outros; para que nos tornemos obreiros de paz e contribuamos assim para a paz no mundo. Por isso, suplicamos: Senhor, realizai a vossa promessa! Fazei que, onde houver disc\u00f3rdia, nas\u00e7a a paz! Fazei que desponte o amor, onde reinar o \u00f3dio! Fazei que surja a luz, onde dominarem as trevas! Fazei que nos tornemos portadores da vossa paz!  Amen<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do Papa na Missa da Noite de Natal<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[154,246,267,317],"class_list":["post-15603","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-crianca","tag-liturgia","tag-natal","tag-terra-santa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15603","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15603"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15603\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15603"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15603"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15603"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}