{"id":15535,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/na-verdade-a-paz-esperanca-e-compromisso\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"na-verdade-a-paz-esperanca-e-compromisso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/na-verdade-a-paz-esperanca-e-compromisso\/","title":{"rendered":"Na verdade, a paz \u2013 esperan\u00e7a e compromisso"},"content":{"rendered":"<p>Manuela Silva, Presidente da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz <!--more--> O Papa Bento XVI acaba de dar a conhecer a sua Mensagem para a celebra\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo Dia Mundial da Paz de 2006, dando assim continuidade \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o dos seus predecessores Paulo VI e Jo\u00e3o Paulo II. A mensagem \u00e9 apresentada com o t\u00edtulo sugestivo: \u201cNa Verdade, a Paz\u201d. A escolha do tema de reflex\u00e3o proposto assenta numa convic\u00e7\u00e3o profunda que o Papa exprime nestes termos: \u201csempre que o homem se deixa iluminar pelo esplendor da verdade, empreende quase naturalmente o caminho da paz\u201d . Desejar, procurar e praticar a verdade, na nossa vida pessoal como nas nossas rela\u00e7\u00f5es sociais ou nas m\u00faltiplas institui\u00e7\u00f5es c\u00edvicas e pol\u00edticas com que se tece a vida colectiva nas nossas sociedades, \u00e9, assim, um primeiro desafio incontorn\u00e1vel para quantos se dizem amantes da paz. E todos desejamos a paz, porque esse bem supremo est\u00e1 de algum modo inscrito no mais profundo do nosso ser; \u00e9 seu elemento constitutivo. Se derivas existem \u2013 e tragicamente as conhecemos \u2013 sentimo-lo como mal, como ruptura de humanidade. A aus\u00eancia de paz \u00e9 uma infelicidade. Mas, se todos desejamos a paz, s\u00e3o muitos os obst\u00e1culos que contra ela erguemos, todos os dias e a todos os n\u00edveis, no plano pessoal como colectivo, no interior das fam\u00edlias, nos meios de trabalho, na pol\u00edtica ou nas rela\u00e7\u00f5es internacionais. A paz \u00e9 dom de Deus, mas \u00e9 tamb\u00e9m constru\u00e7\u00e3o humana; por isso \u00e9 t\u00e3o importante que nos detenhamos a reflectir sobre os bloqueios da paz e sobre os caminhos que devemos percorrer para a tornar poss\u00edvel, aqui e agora. Olhando para o Mundo em que vivemos, temos raz\u00f5es de sobra para nos preocuparmos com os sinais de aus\u00eancia de paz. \u00c0 escala mundial, t\u00eam diminu\u00eddo os conflitos declarados entre os diferentes territ\u00f3rios, mas continuam a existir guerras que parecem eternizar-se, destruindo vidas humanas e consumindo recursos materiais que impedem o desenvolvimento das popula\u00e7\u00f5es que s\u00e3o v\u00edtimas desses conflitos. Como n\u00e3o lembrar a guerra no Iraque, que j\u00e1 dura h\u00e1 quase tr\u00eas anos e \u00e9 um tr\u00e1gico exemplo da falta de verdade na busca da paz? Declarada com base em falsas raz\u00f5es, j\u00e1 provocou mais de trinta mil v\u00edtimas e n\u00e3o se avista o seu termo. T\u00eam sido muitas as vozes que se ergueram para denunciar a falta de legitimidade deste conflito, mas essas vozes n\u00e3o foram ouvidas por quem detinha a for\u00e7a para fazer a guerra. Agora, come\u00e7am os seus respons\u00e1veis a reconhecer as faltas contra a verdade que esteve na g\u00e9nese do conflito, mas continua a ser manifesto o d\u00e9fice de verdade na busca das solu\u00e7\u00f5es para p\u00f4r termo a este sangrento conflito.  Este \u00e9, apenas, um exemplo, entre outros, de conflitos b\u00e9licos. Lembremos os povos do Afeganist\u00e3o, da Palestina e Israel, dos Balc\u00e3s e tantos outros. Para al\u00e9m das v\u00edtimas humanas que lhes est\u00e3o associadas, n\u00e3o podemos ignorar que as despesas militares nos \u00faltimos anos t\u00eam aumentado dramaticamente, com as suas previs\u00edveis consequ\u00eancias em termos de menos recursos dispon\u00edveis para a educa\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade, ou a ajuda ao desenvolvimento dos pa\u00edses emergentes. Para al\u00e9m desta face mais vis\u00edvel dos conflitos armados, as sociedades contempor\u00e2neas conhecem, hoje, uma nova manifesta\u00e7\u00e3o de conflito \u2013 o terrorismo, que, desde 2001, vem assumindo propor\u00e7\u00f5es preocupantes. N\u00e3o \u00e0 maneira convencional, mas de guerra se trata, com a agravante de n\u00e3o ter lugar certo, nem alvo preciso. O terrorismo faz as suas v\u00edtimas entre as popula\u00e7\u00f5es civis e com crit\u00e9rios err\u00e1ticos quanto ao lugar, dia e hora. \u00c9 uma mentira insidiosa que perpassa por entre as malhas da conviv\u00eancia democr\u00e1tica e, por isso, reveste particular perigosidade. Traduz desprezo pela vida humana (simultaneamente, dos actores dos actos terroristas e das suas v\u00edtimas) e induz os governos \u00e0 adop\u00e7\u00e3o de medidas de seguran\u00e7a e preven\u00e7\u00e3o que facilmente poder\u00e3o levar \u00e0 colis\u00e3o com direitos de cidadania e p\u00f4r em risco padr\u00f5es de liberdade j\u00e1 alcan\u00e7ados. Uma terceira amea\u00e7a \u00e0 paz mundial vem do armamento nuclear com que pretendem dotar-se alguns pa\u00edses e \u00e0 recusa de controlo supra-mundial deste tipo de armamento. Tamb\u00e9m deste ponto de vista, \u00e9 com sobressalto que entraremos em 2006. A este prop\u00f3sito, o Papa coloca-se do lado de in\u00fameras pessoas de boa vontade para afirmar que a perspectiva de contar com as armas nucleares \u00e9 \u201cfalaz. Numa guerra nuclear, n\u00e3o haveria realmente vencedores, mas apenas v\u00edtimas al\u00e9m de funesta, totalmente\u201d. E vai mais longe, dizendo: \u201cA verdade da paz requer que todos &#8211; tanto os governos que de forma expl\u00edcita ou t\u00e1cita possuem armas nucleares, como os que pretendem consegui-las \u2013 invertam conjuntamente a marcha mediante op\u00e7\u00f5es claras e decididas, orientando-se para um progressivo e concordado desarmamento nuclear.\u201d A paz n\u00e3o se constr\u00f3i apenas com a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s guerras e \u00e0 sua parafern\u00e1lia. Desde sempre, a doutrina social da Igreja vem insistindo que a paz se constr\u00f3i com base na justi\u00e7a, na liberdade, e no amor, para al\u00e9m da verdade, que \u00e9 o tema espec\u00edfico desta Mensagem de 2006.  A globaliza\u00e7\u00e3o desregulada da economia a que estamos a assistir, a par da concentra\u00e7\u00e3o de poder econ\u00f3mico e pol\u00edtico, est\u00e1 na origem de novas formas de explora\u00e7\u00e3o do trabalho humano, de pobreza e exclus\u00e3o social, dando lugar a um compreens\u00edvel e expect\u00e1vel avolumar de tens\u00f5es e de anomia social, que assumem particular relev\u00e2ncia em vastas regi\u00f5es do Mundo, sem esquecer as zonas perif\u00e9ricas das grandes cidades da Europa ou dos Estados Unidos.  No primeiro caso, a injusti\u00e7a toma o rosto da fome, da morte prematura, da falta de condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de habitabilidade, e demais nomes da grande pobreza; no segundo caso, sobressai a situa\u00e7\u00e3o de desemprego e precariedade no trabalho, a falta de horizonte de futuro para as gera\u00e7\u00f5es mais jovens, o enfraquecimento dos la\u00e7os de solidariedade, a desmotiva\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o na vida c\u00edvica a par do enfraquecimento do sentido de perten\u00e7a colectiva, situa\u00e7\u00f5es que, nos casos dos pa\u00edses ricos, n\u00e3o encontram justifica\u00e7\u00e3o na car\u00eancia de bens materiais mas na falta de equidade com que aqueles s\u00e3o repartidos. H\u00e1 que olhar com a devida aten\u00e7\u00e3o para estas situa\u00e7\u00f5es, pois, al\u00e9m do sofrimento que acarretam para as pessoas que as vivem, constituem uma bomba rel\u00f3gio pronta a eclodir quando menos se esperar, como tivemos exemplo nos recentes acontecimentos em Fran\u00e7a e, em menor escala, em outras cidades do centro da Europa. Portugal n\u00e3o \u00e9 excep\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m estes problemas nos tocam directa e indirectamente. Neste tempo lit\u00fargico, em que contemplamos o nascimento de Jesus, o Pr\u00edncipe da paz, deixemo-nos interpelar pela Igreja que, pela voz do seu Pastor, nos lembra que: \u201ca paz, para ser aut\u00eantica e duradoura, deve ser constru\u00edda sobre a rocha da verdade de Deus e da verdade do homem. S\u00f3 esta verdade pode sensibilizar os \u00e2nimos para a justi\u00e7a, abri-los ao amor e \u00e0 solidariedade, encorajar a todos a trabalharem por uma humanidade livre e solid\u00e1ria. Sim, apenas sobre a verdade de Deus e do homem assentam os alicerces de uma paz aut\u00eantica.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuela Silva, Presidente da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120,165,191,193,203,206,237,314],"class_list":["post-15535","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi","tag-dia-mundial-da-paz","tag-economia","tag-educacao","tag-europa","tag-familia","tag-joao-paulo-ii","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15535","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15535"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15535\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15535"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15535"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15535"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}