{"id":15465,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/musica-no-coracao-e-nos-dedos\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"musica-no-coracao-e-nos-dedos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/musica-no-coracao-e-nos-dedos\/","title":{"rendered":"M\u00fasica no cora\u00e7\u00e3o\u2026 e nos dedos"},"content":{"rendered":"<p>Nesta \u00e9poca natal\u00edcia que vivemos, a decora\u00e7\u00e3o da \u00e1rvore de Natal, as ruas iluminadas, os presentes, as requintadas refei\u00e7\u00f5es\u2026 s\u00e3o express\u00f5es de festa que n\u00e3o faziam qualquer sentido, se n\u00e3o houvesse um fundo musical. Ora mais comercial, ora mais cl\u00e1ssico, \u00e9 assim que despertamos e vivemos com mais j\u00fabilo o Dezembro do nascimento de Jesus Cristo.  O jornal \u201cO Mensageiro\u201d foi falar com Jo\u00e3o Santos, leiriense que \u00e9 um valor da m\u00fasica sacra em Portugal. Embora seja licenciado em M\u00fasica Sacra pela Escola das Artes da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, os seus destinos profissionais no mundo da m\u00fasica devem-se ao in\u00edcio dos seus estudos no Semin\u00e1rio Diocesano de Leiria, em 1996.  Jo\u00e3o Santos confessa que, a um dado momento, come\u00e7ou a ficar \u201cdividido nas op\u00e7\u00f5es\u201d. A d\u00favida de seguir o sacerd\u00f3cio ou uma carreira musical come\u00e7ou a ser uma presen\u00e7a constante nos seus dias. Jo\u00e3o Santos assume mesmo que, \u201cse n\u00e3o viesse para o Semin\u00e1rio de Leiria, n\u00e3o estaria hoje ligado \u00e0 m\u00fasica\u201d.  Este facto \u00e9 decisivo para o seu futuro, at\u00e9 porque, antes de entrar no Semin\u00e1rio, nunca tinha sentido a inclina\u00e7\u00e3o para a express\u00e3o musical. Lembra a guitarra que o pai lhe ofereceu, quando tinha 6 anos, e de um tentativa de forma\u00e7\u00e3o musical no campo privado, mas sem sucesso.  Quando entrou no Semin\u00e1rio, iniciou aulas de piano. As coisas come\u00e7aram a desbloquear-se no seu interior e \u201ca m\u00fasica come\u00e7ou a ter um lugar mais destacado do que a pr\u00f3pria vida acad\u00e9mica\u201d. As disciplinas, as aulas come\u00e7aram a ser substitu\u00eddas pela sua paix\u00e3o musical, \u201cat\u00e9 chegar a altura em que senti a voca\u00e7\u00e3o de me profissionalizar em m\u00fasica sacra\u201d, recorda. Da\u00ed, a decis\u00e3o de abandonar a forma\u00e7\u00e3o para o sacerd\u00f3cio e dar novos rumos \u00e0 sua vida.  A especializa\u00e7\u00e3o em m\u00fasica sacra foi o primeiro alicerce. A licenciatura na Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa foi a concretiza\u00e7\u00e3o de um sonho, de um caminho eleito por Jo\u00e3o Santos. Este cimentar de aprendizagens foi \u201ca grande concretiza\u00e7\u00e3o e a materializa\u00e7\u00e3o efectiva de todas as bases musicais que tinha adquirido anteriormente\u201d. O aprofundar t\u00e9cnico da m\u00fasica e o conjunto de outras disciplinas, no \u00e2mbito est\u00e9tico e da psicologia, significou para ele \u201cum simbolismo e um aperfei\u00e7oamento de todas as t\u00e9cnicas musicais\u201d. Da\u00ed o seu constante evoluir na cria\u00e7\u00e3o, na produ\u00e7\u00e3o musical.   Desafio da composi\u00e7\u00e3o  Em 2004, o Ano Agostiniano, promovido pela Diocese de Leiria-F\u00e1tima, lan\u00e7ou-lhe um desafio arrojado: criar uma obra original para a efem\u00e9ride. O padre Armindo Janeiro, que lhe solicitou esta pe\u00e7a, pediu-lhe que \u201cmarcasse pela diferen\u00e7a\u201d. E assim aconteceu.  Respondendo a este convite, Jo\u00e3o Santos criou a Summa Augustiniana, obra que serviu igualmente para enriquecer o seu curr\u00edculo escolar. Ou seja, realizou uma obra para a Diocese e tamb\u00e9m para a disciplina de composi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que era um dos requisitos dos seus estudos. E para \u201cmarcar pela diferen\u00e7a\u201d, fez uma obra marcada pela inspira\u00e7\u00e3o em Arvo P\u00e4rt, um compositor estoniano que \u00e9 considerado um valor musical inquestion\u00e1vel e cuja \u201clinguagem a cidade de Leiria n\u00e3o conhecia\u201d, refere Jo\u00e3o Santos, adiantando que \u201cexiste uma car\u00eancia enorme de linguagens modernas na m\u00fasica\u201d.  Foi esta constata\u00e7\u00e3o que o levou a ousar criar uma pe\u00e7a com este cariz. Os coment\u00e1rios que ouviu, nos finais das audi\u00e7\u00f5es da Summa Augustiniana foram reveladores do acertado da sua decis\u00e3o. Esta obra de m\u00fasica sacra ficou, de facto, como um \u201chino\u201d da diocese de Leiria-F\u00e1tima. O ponto-chave da sua composi\u00e7\u00e3o \u00e9 um resumo (summa) das partes principais de livro \u201cConfiss\u00f5es\u201d, de Santo Agostinho, \u201cuma obra que tem um princ\u00edpio, meio e fim: reconhecimento de culpa, convers\u00e3o e a medita\u00e7\u00e3o. Estas tr\u00eas etapas s\u00e3o a ess\u00eancia, o percurso l\u00f3gico da Summa Augustiniana\u201d.  A partir da\u00ed, ganhou nova confian\u00e7a no seu trabalho. Para compor, Jo\u00e3o Santos requer uma inspira\u00e7\u00e3o perfeita. \u201cEmbora tenha muito trabalho como professor musical, nos momentos de composi\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial o sil\u00eancio e a noite; nesse per\u00edodo existe outra profundidade para que a obra nas\u00e7a com mais sentimento, com um resultado final mais consistente\u201d. Neste processo, o trilho das suas composi\u00e7\u00f5es passa, primeiro, pelas \u201cvariad\u00edssimas experi\u00eancias no teclado\u201d e s\u00f3 depois de v\u00e1rias conjuga\u00e7\u00f5es \u00e9 que se \u201cpassam as pautas para o papel\u201d.  A m\u00fasica sacra hoje  Falando, concretamente, da m\u00fasica lit\u00fargica na Igreja, Jo\u00e3o Santos considera que \u201cj\u00e1 se esteve mais longe de uma viragem, para qual s\u00f3 falta a concretiza\u00e7\u00e3o das vontades que come\u00e7am a manifestar-se\u201d. Acredita, por isso, que uma mudan\u00e7a dever\u00e1 acontecer nos pr\u00f3ximos tempos, apesar de reconhecer que \u201c\u00e9 complicado definir as hierarquias da Igreja e, por isso, ser dif\u00edcil tomarem-se as decis\u00f5es\u201d para as reformula\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias. \u201cO sistema religioso tem de estar desperto para estas mudan\u00e7as, pois s\u00e3o os Bispos e os Cardeais que d\u00e3o a \u00faltima e decisiva palavra para as mudan\u00e7as necess\u00e1rias no seio da Igreja\u201d, defende.  Quanto \u00e0 escassez de produ\u00e7\u00e3o de m\u00fasica sacra, Jo\u00e3o Santos considera que \u201cj\u00e1 estivemos pior\u201d.  Remonta \u00e0 \u00e9poca do Renascimento, do Barroco e de Carlos Seixas a produ\u00e7\u00e3o significativa deste g\u00e9nero musical em Portugal. \u201cA linguagem renascentista e pr\u00e9-barroca marcaram os momentos \u00e1ureos da m\u00fasica sacra no nosso pa\u00eds\u201d, afirma. A partir da\u00ed, tem havido sempre produ\u00e7\u00e3o de m\u00fasi-ca cl\u00e1ssica, mas \u201c\u00e9 s\u00f3 no final do s\u00e9culo XX e in\u00edcios do s\u00e9culo XXI que se est\u00e1 a despontar novamente para estas composi\u00e7\u00f5es\u201d.  M\u00fasica natal\u00edcia  Jo\u00e3o Santos reconhece que \u201ca quadra natal\u00edcia ganha mais vida e sentido com os sons\u201d, embora considere que \u201cpara a maioria das pessoas tudo se resume aos pro-dutos musicais comerciais\u201d. Mas tamb\u00e9m no \u00e2mbito da m\u00fasica reli-giosa os compositores manifestam sempre uma actividade especial, j\u00e1 que \u201ca liturgia \u00e9 um exemplo vivo, com um ambiente especial, nas obras musicais.  Jo\u00e3o Santos j\u00e1 fez tamb\u00e9m uma pe\u00e7a natal\u00edcia, \u201ccom envolv\u00eancias e tipo de escrita de ambi\u00eancia completamente diferente\u201d. O compositor acha que \u201cesta \u00e9poca do ano \u00e9 prop\u00edcia a que as cria\u00e7\u00f5es nas\u00e7am com outro esp\u00edrito e mais sentimento, aliado \u00e0 voca\u00e7\u00e3o cultural e a outras particularidades de cada compositor, j\u00e1 que cada pessoa v\u00ea o Natal de forma diferente\u201d.  As inspira\u00e7\u00f5es pessoais e o envolvimento com o mundo religioso s\u00e3o base essencial para a composi\u00e7\u00e3o da m\u00fasica sacra. Jo\u00e3o Santos lembra que \u201ca liga\u00e7\u00e3o a Deus e \u00e0 Igreja \u00e9 uma base important\u00edssima para a composi\u00e7\u00e3o musical lit\u00fargica\u201d, considerando \u201ca f\u00e9 e a vida religiosa como condi\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis para que uma obra de m\u00fasica sacra se enquadre nos momentos religiosos\u201d.   <i>Joaquim Santos<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta \u00e9poca natal\u00edcia que vivemos, a decora\u00e7\u00e3o da \u00e1rvore de Natal, as ruas iluminadas, os presentes, as requintadas refei\u00e7\u00f5es\u2026 s\u00e3o express\u00f5es de festa que n\u00e3o faziam qualquer sentido, se n\u00e3o houvesse um fundo musical. 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